Resenha: “O que não me sai da lembrança”, de Antonio Miranda

Esta obra viajou do Brasil até Madri com uma curiosidade: meu tio é personagem neste livro de crônicas do baiano Antonio Miranda Fernandes (Baixa Grande, 21/11/1946). Antonio é multifacetado: ator, músico, redator, produtor de TV, publicitário e também foi bancário e soldado (serviu o Exército sendo militante de esquerda!). Tem uma companheira chamada Rosa, pai de quatro filhos e avô de três netos.

Antonio Miranda

A arte é bem feita, nota- se que houve uma preocupação estética. O livro é de memórias dos anos 60, 70 e 80, algo também contemporâneo, como a crônica “Quem vai à Roma ver o Papa passa por Veneza”, onde ele e sua Rosa pegaram um trem errado na Itália. Há cinquenta e uma histórias curtas e, como diz o subtítulo, ” Muitas verdades e algumas mentiras em desordem cronológica”. A mentira deve ter sido por conta do rato que botava gato pra correr na pensão da tia de Glauber Rocha. O resto deve ser tudo verdade.

Miranda cresceu em Feira de Santana, a mesma cidade onde vivi durante mais de 20 anos. O autor cita lugares, pessoas e ruas familiares, inclusive a que foi a minha última morada na cidade, a rua Castro Alves. Nos anos 60 nesta rua, um sujeito muito alegre que trabalhava numa casa de família, o Brás, foi preso por usar na rua a expressão com um jeitinho baiano de ser, “fudeno”. A repressão militar, que esperamos, nunca mais aconteça.

As recordações sobre a ditadura é o que mais me chamou atenção nesta obra. É essencial o testemunho de gente que viveu as consequências da ditadura e também para que se desmistifique a imagem negativa dos “comunistas” trabalhada com tanto êxito pela repressão e que vigora no imaginário popular até hoje. O Exército tinha o poder de fazer toda a propaganda negativa contra quem lutava pela democracia, pela justiça, pelo bem- estar de todos e a favor da liberdade.

Foi assim: em 1968, com o AL- 5 massacrando os brasileiros, os movimentos populares se manifestavam ocupando as ruas. (p.24)

O “Ato Institucional Número Cinco”, o AI-5, citado recentemente pelo filho do presidente da República do Brasil, o deputado Eduardo Bolsonaro, como “solução” caso a esquerda radicalize. O presidente o desautorizou e disse que o filho “está sonhando”. O AI- 5 derrubou a Constituição e criou dezessete preceitos duríssimos, onde o Exército começou a caçar, torturar e a matar sumariamente quem fosse contra o regime: jornalistas, artistas, políticos, estudantes, homens, mulheres e crianças, famílias, gente como eu e você. Inclusive o meu tio Normando Leão, que foi preso e torturado em Feira de Santana. Trabalhava na prefeitura de Feira de Santana, que foi tomada pelos militares na gestão de Francisco Pinto. Estudante e trabalhador! Mas, antes da prefeitura, o meu tio trabalhou na livraria “Lápis de Ouro” no centro de Feira de Santana, junto com o autor desta obra, seu primeiro emprego (p. 60-61):

Não vou colocar a crônica inteira por motivos óbvios, mas o final é inusitado.

Este vídeo sobre o AI- 5 é muito esclarecedor:

O fantasma da ditadura volta a rondar.

Miranda, jovem e militante de esquerda contra o Regime, participava de manifestações como em Salvador, no Largo de São Bento. A massa humana formava um escudo contra as balas:

“E de massinha em massinha, íamos todos escapando da polícia, sem deixar as palavras se perderem, mirando nosso público- alvo e escapando do tiro ao alvo dos homens que se diziam da Lei.” (p.25)

A crônica “Ocupação da Escola Teatro” conta como os atores, incluído Miranda e Margarida Ribeiro ( o teatro de Feira leva seu nome, está faltando um site), tiveram que fugir em Salvador por causa do AI- 5.

A solução no mundo civilizado é a palavra, a Constituição e o entendimento, os acordos entre diferentes. Não há outro caminho.

No entanto, as crônicas não falam só da repressão militar. Há memórias de amigos como Jaguar , Capinam ( eu também cortaria do poema “em dois”) e Millôr, do seu trabalho na Bahiatursa (Turismo), no IRDEB (Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia), sobre os bastidores da TVE e sobre quando trabalhou no Departamento de Cultura da prefeitura de Salvador e conheceu Zezé Mota e Marco Nanini. Também foi Secretário de Turismo e Cultura em Feira de Santana. E sobre a sua ida para Berkeley e do seu “fino” inglês, tudo com muito humor.

Brigitte Bardot, no auge da fama e com uma namorado brasileiro, instalou- se em Búzios e aderiu ao golpe militar. O que tinha de bonita, tinha (e tem) de pérfida. A fascista tem agora 85 anos e não se emendou, continua uma víbora. Declarou- se contra um movimento feminista, é racista e xenófoba, leia aqui (em espanhol). Ela é citada na página 38 e na música emblemática “Alegria, alegria”, de Caetano Veloso, adoro este vídeo:

Miranda conta que Caetano foi o primeiro cantor de trio- elétrico (1972), tirou a faixa de Moraes Moreira (1975). “(…) Caetano subiu ao Trio Tapajós e cantou “Chuva, suor e cerveja” (p.63)

Obrigada, Miranda, pelo livro corajoso (e bem humorado) em um momento necessário, onde há ameaças à nossa democracia! E grata pela simpática dedicatória, “tio”… e grata ao meu tio Normando pelo envio. Que livros assim inspirem outros a revelarem as verdades sobre um dos períodos mais tristes da história brasileira que não… não dá pra esquecer.

Miranda, Antonio Fernandes. O que não me sai do pensamento- Muitas verdades e algumas mentiras em desordem cronológica. Editora P55, Salvador, 2019. Páginas: 96

Resenha: Literati, de Barry McCrea

“Literati” lembra “Illuminati”, a sociedade secreta do século XVII, a qual Goethe e outros “iluminados” fizeram parte. Foi a única dedução que fiz sobre o livro a priori, pois não sabia absolutamente nada sobre o autor e a obra, só tinha o título e a sinopse: “Parecia um inocente jogo literário e acabou tornando- se um intrigante e perigoso vício”.

“Ressuscitamos o cemitério do pensamento humano de todos os tempos” (p.82)

O autor, Barry McCrea (1974) é irlandês de Dublin, com uma formação acadêmica sólida na área de Letras. Doutor em Literatura Comparada pela Princeton e professor de literatura na Yale.

Barry MacCrea

Dá para conhecer bastante da cultura irlandesa nesta obra. Referências e influências claras de James Joyce, o autor de Ulisses é citado várias vezes. A forma como fala de Dublin, seus bairros, ruas e pubs, lembra muito seu conterrâneo mais ilustre (mais nos primeiros capítulos). Inclusive o livro serve como guia turístico, os lugares existem mesmo, como o pub Hogan´s na Georges Street, a discoteca/bar Ri- Ra (em 2016 parece que fundiu- se com outra discoteca “The Globe”), o O’Neill’s na Suffolk Street e o Gonzaga College, por exemplo, que é um colégio religioso para meninos.

Um dos pubs irlandeses citados na obra

McCrea cita Sandycove, onde fica a casa do protagonista em Dublin. Neste bairro está a Torre Martello, que na verdade é uma espécie de farol ao pé do mar e que funciona como hotel. Neste ambiente começa “Ulisses”. Mas, sobre este livro, eu volto com a minha nova visão e retratação em outro momento. Eu fiz uma resenha muito negativa há anos e estou relendo e revisando. Sim, eu mudo de opinião, o leitor é camaleônico, uma mesma obra pode ser muitas, tal como o humano, senão seríamos muros (há quem seja).

O protagonista, Niall Lenihan, estudante de Letras e escritor, tal como o autor da obra (deve ser o seu alter ego) era apaixonado pelo colega do Ensino Médio e forçou situações para estar perto do rapaz até tornar- se o seu melhor amigo. Depois para foi para a universidade, mora numa residência estudantil, conhece outra estudante, Fionnuala (primeira vez que vi este nome) e começa a frequentar pubs noturnos, principalmente o gay “George”. Essa parte achei bastante entediante, pareceu- me narrativa adolescente.

A questão dos sotaques me chamou bastante a atenção. O narrador- personagem sabe de que lugar e classe social é o dublinense de acordo com o seu sotaque. O falar pode ser motivo de discriminação, de rótulos, acontece muito em todo o mundo. O autor brinca com o sotaque de uma garçonete espanhola, que forçou o típico sotaque da região. Nota- se que o autor é da área de Letras.

No primeiro capítulo, o protagonista vai de bebedeira em bebedeira até o final do segundo capítulo, onde acontece a revelação do jogo literário, no dia seguinte de uma festa, enquanto o grupo de universitários recuperava- se da noitada:

O jogo literário

A ideia é bacana: o jogo literário “(…) é uma forma de adivinhação conhecida há milênios…os babilônios, os árabes, os hebreus, os egípcios, todos a utilizaram.”

Trata- se de pensar (ou dizer) uma pergunta e abrir um livro aleatoriamente. A resposta estará no parágrafo lido. Uma espécie de oráculo, uma forma de comunicação mística e também com a sincronicidade da vida. Fatos aparentemente aleatórios, mas que na verdade não são. Tudo que acontece tem uma causa, tudo está interligado. Tem gente que faz isto com a Bíblia.

Até aí é legal, só que o “clube de leitura” vai muito além disto, é organizado, parece uma seita. Os que estão num nível inferior não podem conhecer quem está no topo e há muito secretismo e proibições.

Vou lançar no Instagram a tag #jogododestino. Quem topa brincar? Participe lá no @falandoemliteratura! Irei fazer uma demonstração nos stories (amanhã, sábado). Será que vai dar certo? Vamos conseguir respostas para as perguntas?

Mas, cuidado: é só uma brincadeira, não leve a sério como levaram os personagens desta história. Nosso cérebro e emoções são complexos e capazes de fazer milhares de associações. A leitura estimula a criatividade e não vá realmente acreditar ou modificar algo importante, tomar decisões por causa deste jogo, porque é isto: é só um jogo.

Segundo eles, o jogo “destinos” traz à tona o que há de mais misterioso na vida, a comunicação com o mundo do além, abre um portal para receber sinais de outros mundos que não podemos ver. Um portal de comunicação com o além. John e Sarah fazem parte do jogo e Niall os segue, insiste, até ser aceito e começam uma sessão de “destinos” no apartamento de John.

Dessa vez o jogo literário consiste em cada um ler um trecho de três livros diferentes e depois fazer a leitura simultânea sem parar. A experiência fez Niall perder a consciência. As vozes viraram uma espécie de mantra frenético, o jogo provocou um efeito similar ao consumo de um narcótico.

Niall passa o livro todo correndo atrás de Pedro Virgomare, uma figura que aparece no início, lhe fala uma frase enigmática, que o manteve intrigado todo o tempo. Essa parte é bem aborrecida. Niall vê Pedro de longe, corre atrás pelas ruas de Dublin, mas o cara sempre desaparece.

Achei o personagem principal volúvel, egoísta, não me cativou. Sua vida resume- se em bebedeira, sexo ocasional e descartar pessoas que lhe ajudam. É um sujeito altamente influenciável e meio esquizofrênico. Desprezou e magoou sua amiga Fionnuala, quando esta indaga se ele está usando drogas, mas está na verdade intoxicado pelos sincronismos das leituras em grupo, cria uma espécie de paranoia. Não só Niall, mas também John e Sarah perdem tudo por causa desse jogo literário obsessivo. Niall também não dá muita importância à sua família, a Chris, um cara legal que ele tem um affair e vive dando bolo, seu amigo de colégio e por assim vai. Parece que as pessoas egoístas e irresponsáveis têm sorte, sempre acham quem as ajude quando precisam, mas são ingratos por natureza, reiteram no erro.

No início, achei o jogo interessante, mas depois a história enveredou por um caminho que não gostei. O autor profanou a arte da leitura, como se ler pudesse transformar- se em algo extremamente daninho. Mas, pensando bem…apesar da desagradável sensação, pode mesmo: leia sem parar, não durma, não cuide das coisas cotidianas, da família, estudo, emprego, amores, busque significados “tortos” em tudo o que ler, acredite neles e faça o que mandam. Ou seja, desvirtue o objeto, o livro, transforme- o em outra coisa… pronto, o monstro foi criado. Inclusive eles destruíam livros, colavam partes de livros diferentes formando outro, tipo um livro Frankenstein.

Esta é uma obra esquisita. Nunca terminei uma leitura com uma sensação tão grande de desconforto. O afã de conhecimento transformado em loucura, obsessão. E isso pode acontecer com qualquer coisa, qualquer ideia fixa, irracional, que o sujeito tome como verdadeira. Que desastre quando se dá uma utilidade que não é da própria natureza do objeto.

Este livro foi ruim como um vício: você sabe que está fazendo mal, mas não consegue deixar de ler. Tal como o protagonista, o estudante de Letras de 19 anos, que pensou entrar num clube literário e caiu numa armadilha. Eu só desejava que acabasse.

Não recomendo, nem deixo de recomendar. É um livro estranho, que me assustou um pouco, é chocante e labiríntico, provocou- me agonia ver o protagonista entrando num círculo de auto- destruição. A impressão que fiquei é que deve ter algo de auto- biográfico, possivelmente o autor viveu algo das situações narradas. Ou não…só ele sabe. Eu não consegui adivinhar o final, que foi sem graça , por sinal…

Ah, como citei, este livro é um ótimo guia de Dublin, talvez o que mais tenha gostado. Inclusive deixo aqui o link da RTE de Dublin para quem está estudando inglês, você pode ouvir e ver rádio, TV, notícias de Dublin ao vivo. Inclusive tem um artigo em “lifestyle” que diz que 50% da nossa felicidade é genética, 10% e 40% atividades que nós escolhemos. Temos 50% de chance de vencer o determinismo genético.

Abaixo a edição espanhola lida, da editora Destino:

Foto: Fernanda Sampaio

Próxima resenha: “O buda dos subúrbios”, de Hanif Kureishi, que começarei a ler hoje. Quero zerar a pilha de livros autografados, um desafio que coloquei para mim mesma. E você, o que está lendo?

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Qual o futuro da nossa mente?

O cérebro é ainda o grande desconhecido da Ciência, que busca entendê- lo, melhorá- lo e fortalecê- lo. O livro do nipo- americano Michio Kaku, em uma linguagem bastante acessível, com muitas referências literárias e histórias interessantes, repassa as descobertas científicas na obra “O futuro da nossa mente” (minha edição é uma espanhola no final do post). Ele percorre a história das descobertas científicas no campo neurológico com exemplos variados e curiosos.

Os apaixonados e os loucos têm os cérebros em ebulição…

O lunático, o amante e o poeta

vivem todos dominados pela sua imaginação.

(William Shakespeare, “O sonho de uma noite de verão”)

A obra é dividida em três partes: “A mente e a consciência”, “A mente sobre e matéria” e “Consciências alteradas”:

O que é a consciência? A consciência pode ser vista por um físico? Sim, pode, apesar de parecer algo místico, coisa “da alma” ou a própria “alma”. A consciência é feita de matéria, é consequência da sua “anatomia e fisiologia, e de nada mais”. Isto dito por Carl Sagan. Falando nele, anote este nome, foi uma personalidade e cientista interessantíssimo.

Sabe uma expressão popular utilizada principalmente no Nordeste? “Tá broca (ou “broco”) ?!, quando a pessoa quer falar algo e esquece? Pois, os nordestinos não estão enganados com a expressão. Existe um problema cerebral que acontece perto da orelha esquerda, que foi descoberto pelo doutor francês Pierre Paul Broca, a “afasia de Broca” (p.36), que afeta a fala, daí a sábia expressão popular.

O doutor Wilder Penfield descobriu as conexões elétricas entre o cérebro e corpo. Começou a operar pessoas com epilepsia para ajudá- las a livrarem- se das esgotadoras convulsões que podiam ser fatais. Quando o caso era muito grave, ele abria o crâneo e deixava o cérebro descoberto. A cirurgia era sem anestesia geral, só uma local, porque não havia sensores de dor. A pessoa permanecia consciente e ele podia ir descobrindo quais áreas do cérebro conectavam com o corpo. Inclusive, algumas áreas estimulavam memórias esquecidas. Estas descobertas foram uma revolução entre a comunidade científica em 1951. O doutor criou o mapa do córtex motor, que mostra as áreas do cérebro que controlam as diferentes partes do corpo (p.39):

O primeiro encefalograma foi utilizado em 1929. Depois vieram os escâneres de tomografia e o TES: o escâner eletromagnético transcraneal. Também há uma forma de ver o cérebro transparente, a optogenética.

O autor faz uma analogia do cérebro como se fosse uma grande empresa com muita burocracia, autoridades, com enorme fluxo de informação canalizado em diferentes escritórios, mas a informação importante vai para o CEO e é “ele”, que toma as decisões finais. Mas ele não tem consciência das informações que chegam nos outros departamentos. Complicado, não? Parece que o cérebro é um órgão com vários órgãos nele mesmo. E é isso mesmo. As imagens de escâner do cérebro mostram que o órgão não é uma unidade.

Kaku fala das emoções e da razão. As primeiras são imediatas, é como se acendesse uma luz vermelha e acontecessem num nível mais superficial. A razão acontece mais lenta e num nível mais profundo. “Temos pouco controle consciente sobre as emoções” (p.61). Por isso, não diga a alguém que está nervoso para ficar calmo, porque provavelmente vai acontecer o contrário e muito menos peça a um apaixonado que o deixe de estar, porque é impossível.

Sentimento é diferente de emoção. O cientista cita a autora Rita Carter (“O novo mapa do cérebro”):

As emoções não são em absoluto sentimentos, senão um conjunto de mecanismos de sobrevivência arraigados no corpo que desenvolvemos para manter- nos longe de perigos e para nos impulsionar a fazer coisas que podem ser benéficas.

O medo exagerado paralisa. Quando isto acontecer, respira fundo e tenta raciocinar: “O que está me provocando pânico pode me machucar realmente?”.

O cérebro produz energia equivalente a uma lâmpada de baixa intensidade. Tem a temperatura certa para não queimar os tecidos. Os cientistas podem descrever vários desses processos, mas não podem explicar como acontecem.

Quase tudo que a gente vê na realidade é uma imagem distorcida, irreal. O cérebro corrige imprecisões. Incrível, não?! O mundo seria muito pior se não fosse o cérebro em modo Photoshop.

Com a força do cérebro é possível mover objetos, é a telecinésia. E não é ficção científica.

Um cientista, em 1960 na Espanha, controlou um touro bravo, desembestado, apertando só um botão. O bicho freou, travou, na sua frente. José Rodriguez Salgado havia implantado uns elétrodos no cérebro do animal e conseguiu mudar a sua hierarquia cerebral modificando seus movimentos. Este cientista passou dos limites: começou a usar animais como marionetes vivas.

O autor conta diversas histórias interessantíssimas sobre o controle mental na CIA, com uso de drogas, na Guerra Fria…

Na Idade Média, as pessoas esquizofrênicas eram consideradas possuídas pelo demônio. Imagina o que faziam com elas…pobres doentes que ouviam vozes e tinham pensamentos desorganizados. O autor ainda fala das obsessões, do TOC, das alucinações, transtorno bipolar e das doenças mentais de uma forma geral. E o papel da genética em alguns casos.

Kaku comenta sobre a inteligência artificial: computadores, robôs…veja como as emoções são mais impostantes do que a maioria pensa, pois elas nos ajudam a tomar decisões, a fazer juizos de valores, as emoções são imprescindíveis, segundo o cientista:

Os pesquisadores de inteligência artificial começaram a perceber que as emoções podem ser a chave para a consciência. (p.301)

Há um capítulo dedicado à “mente extraterrestre” e sobre o pensamento dos animais. Os animais pensam?

Kaku, Micho, El futuro de nuestra mente. Debate, 2014.

Terminei esta obra fascinada. Só dei pinceladas, porque é uma obra extensa, consta de 479 páginas, uma melhor que a outra.

Às vezes procuramos respostas no exterior, mas está tudo aqui dentro, no nosso cérebro, que é uma obra- prima incompreendida, sem dúvida. Mas eles, os cientistas, e nós, empiricamente, vamos tentando. Recomendadíssimo!

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“Conhecer- se a si mesmo é o princípio da sabedoria.” (Sócrates)

Resenha: “Tartufo”, de Molière

Você sabe o motivo da cor amarela ser considerada de má sorte para os atores? Continue lendo para descobrir!

Literatura clássica francesa. Livros seculares como “Tartufo”, do parisino Molière, emocionam- me muito! Uma obra assim você não pode deixar de colocar na sua lista de leituras. Ela representa com perfeição arquétipos sociais, como a hipocrisia, por exemplo. Uma obra aclamada há quase 350 anos, viva e atual.

Molière nasceu Jean- Baptiste Poquelin e foi batizado em 15 de janeiro de 1622, portanto, há 396 anos, um velhinho quase quatrocentão. Não se sabe a data exata do seu nascimento. Era filho de tecelãos, uma família burguesa, que servia a casa real francesa. O autor tinha três formações universitárias: Humanidades, Filosofia e Direito, profissão que exercia, mas não gostava. Abandonou o Direito para dedicar- se ao teatro, sua paixão. Renunciou também o trabalho de tecelão da monarquia que herdaria do seu pai, isso foi em 1643. A família era boêmia, frequentava teatros, inclusive a irmã de Moliére, Magdalene, era atriz famosa. Para ela, usava- se uma expressão “femme d´esprit”, uma mulher inteligente e culta. O sentido original dessa expressão mudou um pouco com o tempo e agregaram ao seu significado a malícia e o humor.

A biografia de Molière, considerado o “pai da comédia francesa”, é muito interessante, mas só vou dar uma pincelada, porque é extensa, recomendo que leiam na íntegra. Nessa edição espanhola (foto), o prólogo é bem interessante, conta toda a cronologia do autor. Ele montou uma companhia de teatro com alguns sócios, foi nessa época que adotou o nome artístico de “Molière”. A companhia foi um fracasso, endividaram- se, não puderam pagar e Molière foi preso.  Depois de solto, saiu de Paris, começou a apresentar- se com a companhia pelo interior da França e deu certo. O dramaturgo tinha muitos inimigos, principalmente atores, desafetos que foi ganhando pela vida. A realeza censurou as suas obras também. Molière teve um filho, Louis, que morreu na infância e teve uma filha, “Esprit Madeleine”, que adulta chamava- se “Madame de Montalant” e um outro menino chamado Pierre. Se eu não contei errado, Moliére encenou vinte e três peças. Ele escrevia e atuava também.

Segundo este prólogo biográfico e crítico, Moliére era um homem sério, calado, triste, feio, baixo, de sobrancelhas e traços grosseiros, e parece que estava acima do peso. Creio que foi uma descrição injusta, o homem não me parece tão pouco agraciado assim, achei até simpático, que você acha?

Doente, perdeu bastante peso e ficou miudinho. Vivia sempre vermelho por causa dos ataques de tosse, tinha tuberculose. Já perto de falecer, também morreram a sua irmã Madeleine e um outro filho, isso prejudicou a sua saúde, dizem. Ele levava suas dores para o palco, sua última obra: “O doente imaginário”. Agora vem a história da cor amarela:

Molière teve uma convulsão em cima do palco, na última cena e vestia amarelo. As pessoas acharam que ele tinha morrido, o que só veio acontecer horas mais tarde na sua casa. E ainda por cima escreveu este epitáfio para o personagem: “Aqui jaz o rei dos atores. Agora se faz de morto e na verdade, o faz muito bem”. Virou lenda. Os sacerdotes recusaram- se a dar- lhe extrema- unção por causa da obra “Tartufo”, principalmente. A Igreja detestava Molière, ele os delatava nas suas obras.

A assinatura de Molière

Então, vamos descobrir o motivo dessa obra ser tão polêmica. “Tartufo” tinha sido censurada durante muito tempo, mas foi autorizada a ser representada pela primeira vez em 5 de fevereiro de 1669 e foi um sucesso absoluto. São doze personagens e a história acontece na casa de Orgón, em Paris:

E Dorine endossa e revela a hipocrisia que acontece no meio social que frequentam (p.101):

– Não será Daphné e o maridinho dela que falam mal de nós? Aqueles cuja conduta mais se presta ao ridículo são sempre os que se metem a falar mal dos outros. Estão sempre prontos a observar o mais leve indício de simpatia para com alguém, espalham a notícia com o maior açodamento, desvirtuando as coisas a seu talante e apresentando-as como querem que sejam vistas. Julgam poder justificar as próprias ações neste mundo, dando às dos outros o colorido que lhes convêm, e procuram inocentar as próprias intrigas com a ilusória esperança de parecerem íntegros; ou então fazer recair alhures algumas migalhas esparsas dessa reprovação pública, que os sobrecarrega em demasia.

Senhora Pernelle, mãe de Orgon
Orgon,marido de Elmire
Elmere, mulher de Orgon
Damis, filho de Orgon
Mariane, filha de Orgon e apaixonada de Valère
Valère, apaixonado de Mariane
Cléante, cunhado de Orgon
Tartufo, falso devoto
Dorine, dama de companhia de Mariane
O senhor Loyal, sargento
Flipote, criada da senhora Pernelle

A senhora Pernelle é uma matriarca déspota, que critica com crueldade toda a sua família. Todos estão alvoroçados, porque receberá a visita de Tartufo, que a mãe idolatra e sua família detesta. A madame reprova várias condutas, até o fato de receberem visitas e a vizinhança comentar, reclamar do barulho e do entra e sai e Cléante rebate (p.101):

(…) – Não há como garantir-se contra calúnia. Não nos preocupemos com os mexericos tolos; esforcemo-nos por viver em completa inocência, dando aos faladores plana liberdade.

Quando algo incomoda demais em alguém, é espelho. A pessoa vê no outro o que tem em si em abundância e o reflexo provoca mal- estar. Disso ao ódio é um pulo. Por isso a Igreja e a Realeza incomodaram- se tanto com Molière? Claro!

O machismo e a inversão de valores também foram assuntos tocados por Moliére. Na cena IV (p.105), acontece um diálogo entre Dorine e Orgón sobre Tartufo e a mulher de Orgón, Elmere, que estava passando muito mal com uma enxaqueca, não dormiu a noite toda, não conseguiu comer e estava sangrando muito. Tartufo, o hóspede deles, jantou um banquete, bebeu vinho, dormiu tranquilamente, e ainda por cima, ELE era o “pobre homem”! O “pobre homem” saiu de manhã para rezar e fortalecer sua alma de bom cristão.

Orgon e Cléante têm falas imensas. Fiquei pensando na memória de elefante que têm que ter os atores que representam esses personagens. Adoraria ver esta obra encenada. Cléante tem uma fala brilhante sobre o verdadeiro e o falso. Claro que a carapuça deve ter caído em muita gente naquela época, e hoje ainda, obviamente. A falsidade. Como saber se uma pessoa está sendo sincera ou simplesmente o seu discurso é manipulado para conseguir certos objetivos? Você consegue perceber?

Tartufo aparece na cena VII declarando- se para a esposa de Orgon, Elmere. E ela surpresa, “tão bom cristão”. Enquanto isso, Orgon estava querendo obrigar a filha a casar- se com Tartufo por dinheiro. E Tartufo culpa a mulher pelo seu desejo de cobiçar a mulher alheia (a partir daqui usei o PDF em português para facilitar as citas):

– Ah! Mas nem por ser devoto eu não sou menos homem; e quando se chega a ver seus celestes atrativos, o coração torna-se escravo e não raciocina mais. Sei que essas palavras parecem estranhas partindo de mim, mas, senhora, apesar de tudo, não sou um anjo; e se condena a confissão que acabo de lhe fazer, deve culpar seus encantos.

Iria ficar tudo em segredo, mas Damis ouviu tudo escondido e depois chega o marido também e o armou- se o barraco. Mas, pensa que Tartufo foi banido da família pela ousadia de assediar a mulher do dono da casa que estava hospedado?! O marido solucionou o problema obrigando Tartufo a casar- se com sua filha. Você acha que Orgon trocaria a posição social de Tartufo por honra e dignidade?!

A história tem reveses. Quem parece que vai ganhar, perde e vice- versa. Um texto bem contruido, amarradíssimo e surpreendente! Muito gostoso de ser lido, recomendadíssimo!

Molière. Tartufo. Catedra. Letras Universales, Madrid, 2010. Páginas: 179

Se quiser ler um PDF em espanhol (grátis!), clica aqui.

Se preferir ler em português, é só clicar aqui (grátis!).

Se quiser ler em inglês, clica aqui.

Boa leitura!

Um livro que pode mudar a sua visão do mundo

Somos mais pessimistas do que deveríamos ser? Tudo indica que sim, segundo este livro com um título extenso: Factfulness: dez razões pelas quais estamos enganados sobre o mundo. E porquê as coisas estão melhores do que você pensa”.

Por que estou falando sobre este tipo de livro, um best- seller, inusual aqui? Porque quem o indicou foi um dos homens mais bem sucedidos do mundo e um filantropo excepcional: Bill Gates. A frase, “este livro pode mudar a vida das pessoas”, é dele. Bill deu esta obra de presente a todos os formandos americanos no ano de 2018!

Barack Obama também o recomenda. Foi o livro mais lido de 2018 nos Estados Unidos:

*the #1 Sunday Times bestseller * instant New York Times bestseller * an Observer‘best brainy book of the decade’ * #1 Wall Street Journal bestseller * Irish Timesbestseller * Audio bestseller * Guardian bestseller * 

—Longlisted for the 2018 Financial Times/McKinsey Business Book of the Year—

Este não é um livro de ficção, os dados econômicos são reais e foi escrito por especialistas da mais alta reputação e confiabilidade.

O autor principal (são três da mesma família), Hans Rosling, era um famoso médico sueco, entusiasta das tecnologias, do desenvolvimento, e que dava palestras no TED. Você pode vê-las aqui.

Hans Hosling nos ensina como ser menos ignorantes no mundo

O doutor criou um método inovador de estatísticas chamado Trendalyzer.

Hans faleceu no ano passado (68 anos), por causa de um câncer de pâncreas, infelizmente, um dos mais agressivos.

Vou deixar a sinopse da obra (traduzida do espanhol), leia com atenção:

Qual a porcentagem da população global que vive na pobreza? Quantas meninas acabam a educação básica nos países pobres? Qual é atualmente a esperança de vida no mundo? A maioria das pessoas respondem incorrectamente estas perguntas e a outras similares. Por que isso acontece? Este livro explica o porquê de sermos mais pessimistas do que em realidade deveríamos ser dada a situação real de nosso mundo.

Hans Rosling, uma eminência da análise e divulgação de tendência globais , afirma que temos dez instintos que distorcem a nossa visão. Por isso nossa tendência a dividir o mundo em dois campos (nós contra eles) da maneira em que consumimos a informação dos meios (baseada na exploração do medo), passando pelo modo em que percebemos o progresso (acreditando que as coisas sempre pioram). Nosso problema é que não somos conscientes do que não sabemos, e inclusive quando estamos informados nos deixamos levar por vieses inconscientes e previsíveis.

Porque, apesar de todas as suas imperfeições, a realidade econômica e social do mundo é muito melhor do que pensamos, no entanto, não significa que não existam motivos para preocupar- se e nem questões que requeiram uma melhora urgente. Existem múltiples problemas por resolver, mas os dados nos indicam que o mundo está cada vez melhor.

Opinião: a cultura do medo é usada por governos, junto com a pouca vontade de resolver problemas (inclusive os pioram intencionalmente) para assim dominar a população. A imprensa, especialista em manipulação ideológica a serviço de interesses do poder, é conivente e principal instrumento. As redes sociais com filtros direcionados, pescam vítimas facilmente (remito- me às recentes eleições brasileiras). O medo é bem democrático, atinge todas as camadas sociais, indistintamente.

“Factfulness” só tem um problema: não foi publicado em português. Ele está em pré- venda na Espanha, sairá no dia 27 de novembro e está esgotado nos Estados Unidos, já há uma pré- venda na Amazon para abril de 2019. Mas sem problema: há o e-book em inglês disponível em várias lojas, deixo aqui o link da Amazon. Está em inglês, obviamente.

Conselho: aprenda idiomas! Espanhol e inglês são básicos para tudo hoje em dia.

Eu já comprei o meu na Amazon e vou contando sobre ele nos stories do Instagram: @falandoemliteratura. Aproveita pra me seguir, nos vemos por lá. Se você ler este livro me avisa, quero saber o que achou, se ele realmente pode mudar a nossa visão sobre o mundo. Conhecimento é poder e, tudo indica, o que sabemos é muito pouco.

Veja a resenha em vídeo que Bill Gates fez sobre esta obra:

 

Resenha: “A cidade Sitiada”, de Clarice Lispector

Perder- se também é caminho (p.138)

Na minha conversa diária com os escritores através de suas vivas literaturas, é onde encontro respostas para as minhas diversas inquietações. Há mais diálogo produtivo e interessante com os mortos, do que com os vivos.

Estado de sítio, segundo a Constituição do Brasil:

Art. 137 – O Presidente da República pode, ouvidos o Conselho da República e o Conselho de Defesa Nacional, solicitar ao Congresso Nacional autorização para decretar o estado de sítio nos casos de:

I – comoção grave de repercussão nacional ou ocorrência de fatos que comprovem a ineficácia de medida tomada durante o estado de defesa;

II – declaração de estado de guerra ou resposta à agressão armada estrangeira.

Parágrafo único. O Presidente da República, ao solicitar autorização para decretar o estado de sítio ou sua prorrogação, relatará os motivos determinantes do pedido, devendo o Congresso Nacional decidir por maioria absoluta.


O terceiro romance de Clarice Lispector, “A cidade sitiada” (1949),  “é considerado por muitos o melhor romance de Clarice”, segundo o editor. É uma obra fascinante!

Este é bem diferente dos romances “A paixão segundo G.H.” ou “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres” (meus preferidos), que são uma imersão profunda na alma dos personagens, são romances psicológicos, um espaço atemporal, muito característicos da autora. Em “A cidade sitiada”,  a temática é político- social vista pelo lado do proletariado, primeiro, e depois visto pelo lado emergente.

Na minha procura por dados históricos deste período, constatei que existe muita literatura escrita pelos filhotes da ditadura, muita obra maquiada, desconfie de todas, prestem atenção em quem as escreve.

A autora usou uma técnica interessante que, a priori, pensei que iria aborrecer esta leitora: a descrição. É como se ela tivesse uma fotografia ou um quadro na sua frente.

A  voz narrativa não julga muito os personagens, é objetiva, mas com o desenrolar da história vamos conhecendo o interior da personagem principal, Lucrécia Neves. E existe, na própria obra, até uma justificação para o livro ter sido escrito assim, a precisão:

História que poderia ser vista de modos tão diversos que a melhor maneira de não errar seria a de apenas enumerar os passos da moça e vê- la agindo assim como se apenas se diria: cidade. (p.72)

O título resume a essência da obra, “A cidade sitiada”. O estado de sítio acontece em ditaduras e guerras, uma medida excepcional, onde as forças armadas estão a postos para reprimir a democracia, como aconteceu no Brasil em várias ocasiões, o militarismo no Brasil sempre fracassou e sucumbiu o país num caos social, político e financeiro, além da democracia. A população das periferias vive esse estado muito cotidianamente e quebrar essa barreira é para muito poucos.

O prólogo do livro situa a história em 1920, época do Tenentismo, do golpe militar seguido da Era Getúlio Vargas (1930-1945). Sempre foram os comunistas, “os vermelhos” temidos pelos fascistas, que iam para a linha de frente lutar pela classe trabalhadora, pelos direitos trabalhistas e pela liberdade. O brasileiro é um ingrato.

Esse ditador, o Getúlio (que deveria ter seu nome retirado de instituições, escolas e afins, a apologia à fascistas fez muito mal ao Brasil) comungava com os nazistas / fascistas europeus Mussolini e Hitler. O seu lema, “o perigo vermelho”, incitava o ódio aos comunistas/socialistas, havia censura, repressão e violência. O sujeito acalmou as massas instituindo um salário mínimo (miserável, que contentou os empresários) e a jornada de trabalho de oito horas por dia. “Tudo pelo progresso”. Ele queria a modernidade que o pobre não tinha acesso, com mão -de -obra baratíssima.

Assim é o momento histórico da escritura do livro, o pós- ditadura de Vargas, a obra retrata o estado de sítio que viveu o Brasil em dois momentos antes da publicação deste livro, em 1930 e 1935; em 35, durou um ano inteiro. A obra, visto do lado da periferia transpira militarismo, uma atmosfera tensa, de medo:

Seu modo de ver era tosco, rouco, recortado: os soldados! (p.35)

Passara o perigo. Era noite. (p.41)

-A pancada súbita do casco! (p.51)

Lá estava a cidade. (…)
Se ao menos a moça estivesse fora de seus muros.
Mas näo havia como sitiá- la. Lucrécia Neves estava dentro da
cidade. (p.52)

O romance é ambientado no subúrbio carioca de São Geraldo, um lugar bem precário, sujo, insalubre, cheio de animais peçonhentos e esgoto.  A protagonista é Lucrécia Neves, uma jovem que sonha melhorar de vida, casar e sair desse buraco.

Ana é a mãe de Lucrécia. A página abaixo diz coisas importantes, Lucrécia pode ser comunista. Observe, “mais uma vez ela voltara ferida”. Ou ela volta arrebentada depois de recusar o beijo do militar Felipe, que, humilhado, se vingou?  “Os cabelos escondiam metade da cara ferida”:

Só como curiosidade: preste atenção no primeiro parágrafo da imagem acima, que fala de “cravos boiando nos esgotos”.  Nessa época, o meio de transporte era o cavalo, também usado pelo Exército. Cravo sinônimo de prego e não de flor. Os ferreiros batiam na ferradura primeiro, antes de martelar o casco para assustar menos o cavalo. Esse é o sentido literal, e tem uma expressão figurada, um provérbio português: “Uma no cravo, outra na ferradura”, que significa fazer algo bom e em seguida algo ruim, similar ao “morde e assopra”:

Será Lucrécia uma espiã ou só observadora consciente da vida?

Espiando. Porque alguma coisa não existiria senão sob intensa atenção. (p.74)

Lucrécia vivia numa casa lúgubre e sua mãe quase não saía. A moça fazia uma espécie de vigilia, assustava- se com o bater dos cascos dos cavalos dos militares. Andava sempre sobressaltada. Numa noite, chegou um homem para entregar “carvão”. É como se o tempo todo ela temesse que os militares viessem prendê- la. Tudo é escrito em forma de códigos e enigmas:

Os cavalos de Napoleão estremeciam impacientes. Napoleão sobre o cavalo de Napoleão estava parado de perfil. Olhava para a frente no escuro. Atrás a tropa em silêncio.

Mas não amanhecia. Eles esperavam a noite toda. (p.64)

Não é uma leitura fácil. A impressão que fica é que Clarice escreveu para não ser entendida, mas sentida. É necessário muito conhecimento prévio para entender este livro, o que é um desafio delicioso. Este livro não se trata de uma “moça pobre que quer casar”, isto é secundário. Ele trata sobre fascimo no Brasil que destruía as pessoas dos subúrbios. Elas viviam massacradas e sem esperança.

Clarice não era do proletariado, ela era esposa de um cônsul, morou em vários países, mas era amiga de comunistas. Será que Clarice falou de si mesma? Será que sofreu este dilema?

Também Lucrécia Neves se esforçava para se exteriorizar, sem saber se devia se dirigir à esquerda ou à direita. De súbito acordou.

A moça paquerou Perseu Maria, apaixonado por ela, mas pobre e o Tenente Felipe, o que lhe proporcionava segurança para andar nas ruas e o que poderia ser um marido que lhe tiraria do seu bairro imundo, mas ele não queria casar. Felipe a humilhou devido à sua condição social pela recusa de seu beijo, só quis se “aproveitar” da moça. Depois ela apareceu com a cara quebrada.

Lucrécia acabou cedendo ao mais fácil: casou com Mateus, um advogado muito mais velho que ela. Cansou da luta, entregou- se. Foi morar na capital, mas não se acostumou, quis voltar para S. Geraldo, que se transfigurava dia a dia. Os cavalos foram dando lugar às máquinas e bondes, restaurantes e cinemas. O passado começou a ser demolido sem nenhum critério ou piedade, “tudo pelo progresso”.

Lucrécia acostumou- se com a vida de classe média alta. É rica. O dinheiro dá a falsa impressão de que as pessoas podem ser tudo o que quiserem. Lucrécia agora tem empregada e as manda embora por qualquer pretexto, até por “um queijo desaparecido” (p.110).

Ela, que não casou por amor, o encontrou pelo caminho. O doutor Lucas  inesperadamente apareceu para quebrar o esquema da sua vida “perfeita”.

Mateus faleceu e a viúva alegre não demorou muito em se animar e pensar em um segundo marido. O pensamento arraigado, machista e  muito brasileiro, de que as mulheres só podem ser felizes com um homem ao lado.

Clarice tomou partido publicamente. A foto abaixo é de 1968, em uma manifestação contra os militares, ao lado do pintor Carlos Scliar e o arquiteto Oscar Niemeyer (foto: Editora Rocco):

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Havia muitas obras no bairro de S. Gonçalo. Os militares prometiam progresso. Os fios, edifícios, usinas, avenidas começavam a aparecer da noite para o dia diante dos olhos incrédulos dos moradores, que nem luz tinham em casa. Trabalhadores que construíam o “progresso” com as próprias mãos, mas que não tinham acesso a ele.

Alguma coincidência com a realidade? Os militares melhoraram a vida de quem mesmo?

img_3867Lispector, Clarice. A cidade sitiada, Relógio D’água, Lisboa, 2009. Páginas: 147 páginas


Há que se respeitar mais os escritores. Principalmente os grandes. Você pode fazer isso, lendo- os, o que serve como antídoto contra a burrice. Os clássicos têm uma situação complicada. Como estäo sacramentados, contraditoriamente, são menos lidos. É como se tudo já tivesse sido dito sobre eles. Não. A opinião do outro não sacramenta nada (mesmo que seja especialista), é só uma opinião e muitas vezes nem é certa. Li prólogos e resumos absurdos sobre este livro. Gente que passou muito longe da essência dessa obra “uma jovem cansada do subúrbio e que queria casar”, dizer isso é muito simplista, a obra é muito mais profunda e retrata vários motivos do Brasil ser como é, tão desigual.

Leia, sinta, comprove você mesmo, investigue, pense, duvide de tudo que te contarem. Abra caminhos novos.

Amigos e amigas, amanhã será um dia muito importante na história brasileira. É incrível que nesses últimos dias eu tenha tentado convencer pessoas a não votar num fascista. É surreal! Pelo menos quem lê e sabe interpretar textos e o passado, não deveria ter caído nessa.

Deixo aqui um link “Resistir é preciso”, um documentário sobre pessoas torturadas no golpe de 64. Um deles é meu tio. Sabe qual foi o “crime” dele? Ser presidente de uma associação de estudantes. Ele foi preso e torturado no porão de um quartel que hoje funciona como o “Palácio do Menor”, na cidade de Feira de Santana.

O nosso voto sempre tem que ser pela democracia e pela liberdade de expressão, o contrário disso é a barbárie. Temos que evoluir e não regredir!

Uma resenha e algo mais: “O mal- estar global”, de Noam Chomsky

Já ouviu falar do “efeito borboleta”? Esse efeito faz parte da “teoria do caos” do metereologista e filósofo americano Edward Lorenz. O mundo está ligado em todos os seus aspectos, é como se tivesse um fio elétrico invisível interligando tudo. Lorenz diz que, por exemplo, se uma borboleta bater as asas no Brasil, isso pode provocar um tufão no Japão. Ler Chomsky nos aproxima dessa teoria mostrando que somos responsáveis pelo mal- estar no mundo atual.

O americano Noam Chomsky (Filadélfia, 1928) é o “pai da linguística moderna”, também é filósofo e ativista de esquerda. Esta obra, El malestar global, conversaciones con David Barsamian sobre las crecientes amenazas a la democracia, recém editada na Espanha, reúne doze entrevistas de Chomsky com suas preocupações da atualidade: o aquecimento global, o armamento nuclear, o ascenso do terrorismo islâmico, os conflitos no Oriente Médio, o mal- estar social provocado pelas políticas econômicas, a desigualdade social e Donald Trump. Também conta sobre a sua infância em Nova York e  a relevância de uma livraria de livros usados para a sua formação. David Barsamian é o radialista americano de origem armênia que o entrevistou.

A intenção de Chomsky com essas entrevistas é chamar a nossa atenção, pois precisamos fazer uma mudança radical no nosso modo de vida, na forma como nos relacionamos com o outro e mudar os nossos hábitos de consumo. Nós criamos problemas que não estamos conseguindo solucionar. Falo no plural, já que, em maior ou menor grau, todos nós temos a culpa.

Na entrevista número nove (p.127),  com o título de “À uma sociedade melhor” (Cambridge, Massachussets, 11/03/2016), Chomsky fala da América do Sul, da Venezuela e do seu fracasso, uma mistura de corrupção e incompetência, e especificamente do Brasil, foco desta resenha. No próximo domingo o Brasil terá, possivelmente, a sua eleição mais complicada, já que, tudo indica (salvo aconteça alguma surpresa), a maioria dos eleitores preferem um candidato com ideias fascistas e totalmente imorais. E por que eles preferem isso?

(…) Se não abordarmos as raízes do problema, surgirá algo pior que as mesmas causas. (p.115)

Corrupção e incompetência são problemas comuns em toda a América Latina de um modo geral. Veja como o autor compara o Brasil com os Estados Unidos. O primeiro estancou no subdesenvolvimento e o segundo é um dos mais ricos do mundo (p.129):

Trata- se de uma região muito rica, com países que deveriam ser prósperos e desenvolvidos. Faz um século considerava- se o Brasil “o colosso do sul”, em analogia com o colosso do norte.

Chomsky diz que o Brasil näo desenvolveu- se por causa de uma principal razão interna (p.129):

É comum tratar- se de países dominados por pequenas elites europeizadas, maioritariamente brancas, muito poderosas e vinculadas economicamente e culturalmente ao Ocidente. Ditas elites não assumem a responsabilide de seus próprios países, o que conduz a uma opressão e uma pobreza assustadoras. Aconteceram tentativas de romper esta pauta, mas foram esmagados.

E continua (p. 129/130):

No entanto, durante os últimos quinze anos vários países- Brasil, Venezuela, Bolívia, Equador, Uruguai e Argentina, tentaram abordar o estes problemas em que se denominou “guinada à esquerda” (em espanhol, “marea rosa”), com resultados diferentes. Quando se alcança algo de poder, acontece uma enorme tentação de colocar  a mão na caixa e viver como as elites, algo que minou a esquerda várias vezes. A Venezuela é um exemplo que serve de paradigma. O Brasil, outro. O Partido do Trabalhadores teve uma excelente oportunidade de mudar não só o Brasil, como toda a América Latina. Conseguiu algumas coisas, mas perdeu outras.

No período do Lula (p. 130):

(…) o Brasil, em muitos aspectos, era um dos países mais respeitados do mundo. O próprio Lula era muito respeitado, também por mim, tenho que dizer. Creio que é um líder mundial muito honroso. Sorpreenderam- me as acusações de corrupção e desconfio um pouco delas. Desconheço até que ponto é um golpe de Estado da direita e até que ponto se trata de algo real. As acusações que se fizeram públicas não são muito convincentes. De modo que esperaremos para ver o que acontece. Não creio que por agora tenham esclarecido os fatos. Mas é certo que a corrupção era muito grave.

Tal como Chomsky, eu creio que a prisão de Lula foi bastante duvidosa. E já minha opinião: foi orquestada para tirá- lo dessas eleições, pois seria um claro vencedor. Se o Brasil fosse um país sério, Lula, possivelmente, estaria livre. Nunca vi a “Justiça” brasileira trabalhar tão rápido, alguém já?

Ninguém compactua com a corrupção do PT, somos conscientes que muitos membros do partido erraram. Mas, foram punidos, inclusive alguns até mais da conta.

Pense bem em quem você vai dar carta branca governar o nosso país, no domingo (21/10), eleição de segundo turno no Brasil. As duas opções são:

  • Fernando Haddad, um professor universitário socialista, advogado, já foi Ministro da Educação, prefeito de São Paulo e tem experiência suficiente para assumir a administraçäo do Brasil. Casado há trinta anos, ficha limpa, respeita todas as pessoas e quer proteger a parte mais frágil da sociedade. Com um excelente plano de governo (já determinado e que podemos cobrar depois), com foco na Educação e Trabalho, e ainda a extinçäo da pobreza, também com a isenção de impostos para quem ganha até cinco salários mínimos. Progressista e com uma vice  jovem e gente finíssima, Manuela D’ávila. Teve o seu curto tempo de campanha infestado de fake news,  notícias falsas comprovadas e proibidas pelo TSE. Quer manter as empresas e o funcionalismo público. É contra a legalização de porte de armas e quer delegar mais tarefas à Polícia Federal, pretende coordenar todas as polícias para combater as redes criminosas em todo o Brasil (como funciona na Europa), #Haddad13 ou…
  • …um ex- militar expulso do Exército por “indisciplina” (algo mais que isso), parlamentar há 29 anos, deputado irrelevante em uma das cidades mais violentas do Brasil, o Rio de Janeiro, mas nunca fez nada. Prega a “moral e bons costumes”, mas faz justamente o contrário. Escondeu patrimônio, trocou a esposa de quarenta por duas de vinte, as conheceu no seu ambiente de trabalho (uma delas fugiu para o exterior ameaçada, segundo declararam amigos da mesma na Europa). Pretende vender o Brasil ( por isso o mercado financeiro aquece quando ele sobe nas pesquisas, os especuladores doidos para comprar nosso patrimônio público a preço de banana). Quer liberar armas para a população, inclusive para crianças, disse que os filhos começaram a atirar com cinco anos. Foge de debates, justificando problemas de saúde, mas faz lives diárias na internet, por horas, sem nenhum problema. O seu “plano de governo” é inexistente, obscuro e indefinido. O pouco que sabemos, como dar aulas virtuais para crianças, ao invés de irem para escola, é, no mínimo, patético. Sem esquecer dos ataques fascistas às minorias, da incitação à violência e ainda o seu vice, que é um sujeito para lá de inadequado e incompetente como o próprio. Segundo este artigo (com documentos), o candidato da ultradireita (assim denominado por toda a comunidade internacional) planejou um ataque terrorista em 1986, na cidade do Rio de Janeiro, quando era capitäo do Exército:

Também planejou ações terroristas. Iria explodir bombas em quartéis do Exército e outros locais do Rio de Janeiro, como na principal adutora de água da capital fluminense, para demonstrar insatisfação sobre índice de reajuste salarial do Exército.

Surpreendementemente, foi absolvido. O motivo da ameaça terrorista foi pelos baixos salários do Exército. Parece que virou herói entre os seus. Esse, sujeito que idolatra torturadores.

Ah, e um mentiroso, disse que não gastava dinheiro com sua campanha, mas foi financiado por empresas, que desembolsaram DOZE milhões de reais para mandar mensagens falsas no WhatsApp: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/empresarios-bancam-campanha-contra-o-pt-pelo-whatsapp.shtml

Para mim parece bastante fácil a escolha, mas como o Brasil passa por uma profunda crise de valores, então os prognósticos são péssimos, fato que anda me provocando um profundo mal- estar.

Chomsky, Noan. Malestar global- conversaciones con David Barsamian sobre las crecientes amenazas a la democracia. Ensayo Sexto Piso, Madrid, 2018. Tradutora Magdalena Palmer. Páginas: 199