Resenha: “O Buda dos subúrbios”, de Hanif Kureishi

Um dos melhores livros lidos este ano: “O Buda dos subúrbios”, obra clássica contemporânea do inglês Hanif Kureishi. Eu já li outros dois livros do autor “A última palavra” e “Intimidade”, sugiro que você coloque este autor na sua lista de leituras, ele é MUITO bom!

Eu tive a oportunidade de estar pessoalmente com Hanif numa visita sua à Madri no Dia Mundial do Livro, em 2015.

Hanif Kureishi em Madri, 2015. Foto: Fernanda Sampaio

Kureishi é de ascendência paquistanesa e o “Buda dos subúrbios” parece misturar- se com sua própria vida: uma família anglo- paquistanesa que vive num subúrbio de Londres. Os filhos nasceram em Londres, o pai é do Paquistão e a mãe é inglesa. O filho mais velho é o narrador e personagem principal. O jovem é britânico, mas é visto por muitos nativos como imigrante, “o moreninho”, inclusive no dentista, a secretária comenta com o dentista se ele saberia inglês. Para os brancos, a norma é eles. Esta obra foi escrita em 1990, mas está ambientada nos anos 70.

O racismo na Europa continua vivo, vivíssimo, e isto reflete- se na literatura. A imigração nunca foi o principal problema da Europa, mas os fascistas enfatizam isto, pois é próprio da sua natureza racista e xenófoba. O problema da Europa é a corrupção e as barreiras ao pluralismo.

De tempos em tempos, ressurge a ultra- direita, como o Bolsonaro no Brasil e o partido Vox na Espanha (que ficou em terceiro lugar na última eleição presidencial, em 10/11/2019) ou ainda a Marine Le Pein, na França dando voz a uma horda cruel e daninha movida pelo ódio.

Hanif colocou seu personagem em várias situações de racismo, como quando foi visitar uma moça e seu pai o expulsou por sua cor, cena chocante, mas que para Karin faz parte do seu cotidiano (em espanhol):

Karim foi visitar uma menina que conheceu na casa de Eva e seu pai o expulsou, porque não gosta de “negros”.

Há muitas cenas racistas vividas pelos personagens de etnia indiana, mas não só: o autor abordou também o machismo da cultura, o casamento arranjado e a violência contra a mulher.

A história acontece nos anos 70 e conta a vida como ela é, sem nenhum tabu e ou dramatismo. O narrador- personagem, o filho do “Buda”, Karim Amir, tira sarro de tudo, acha a melhor política. Ele é jovem e está na fase de descobrimentos, sexo com homens e mulheres, drogas (má decisão em qualquer época), roupas extravagantes e rock and roll.

Rir com um livro é fantástico e eu dei gargalhadas várias vezes, um grande feito do autor, fazer rir é a coisa mais difícil.

O pai paquistanês, Harry (adotou um nome inglês, seu nome indiano é Haroon) é um personagem muito curioso. Um sujeito que tira proveito da sua ingenuidade ( o que é uma contradição, nem tão inocente), tem uma amante com um só seio (teve câncer), é funcionário público e infeliz com seu trabalho, não lhe interessa o dinheiro, busca a paz interior. É muçulmano, mas não pratica e se apaixona pela filosofia do budismo. Vive lendo livros, meditando, fazendo yoga e começa a ensinar suas práticas em sessões na casa de Eva. O filho Karim os vê transando no jardim e o pai o vê masturbando- se com o filho de Eva, Charles. Ambos guardam o segredo, os dois com o “telhado de vidro”. Este livro revela as entranhas, o esqueleto das famílias aparentemente “normais”. Em muitos casos, o que se vê é o ditado pela moral religiosa, mas o que acontece na realidade é bem diferente.

O budismo ensinou a Harry deixar- se levar. Ele não reprime desejos e vontades, faz o que mandam os seus sentimentos. Segue o fluxo natural, o que o seu corpo pede. Caramba, que corajosas são as pessoas assim, não é? São livres, mas liberdade custa e não é pra todo mundo. Harry não é livre. Ele é apaixonado por Eva, mas não deixa a esposa e filhos. Prefere sofrer, que provocar sofrimento nos demais, mas o sacrifício não vai durar muito.

Meu exemplar autografado

A mãe de Karim é muito infeliz. A típica dona- de- casa e trabalhadora esgotada (trabalha numa sapataria para pagar a escola do filho mais novo) a ponto de explodir. Ela sacrifica- se pela família, mas não tem nenhum reconhecimento, enquanto o marido é cuca- fresca e sai pelo bairro “alegrando” as vizinhas, mas não consegue fazer feliz a esposa. A inglesa também sente- se discriminada entre a comunidade indiana-paquistanesa. Ela sabe que o marido a trai, mas prefere engolir o orgulho para manter a sua família junta.

O tempo todo eu torci para que ela abandonasse a família ingrata e que caísse no mundo em busca de sua felicidade. Ainda que não a encontrasse, seria melhor do que a vida leva. Veja como entrei na história, até quis interferir na vida da personagem. Isto porque não entramos no pensamento da mulher, só vivenciamos o sofrimento dele. Não sei de que lado ficaria, faltou a versão dela.

Há uma outra parte bem interessante, que é a descrição da geografia da cidade e suas características e também da cultura pop dos anos 70. Vi que a minha cultura musical não é tão boa como pensava: conheci com este livro bandas e cantores como Wild Man Fisher, Captain Beefheart, Traffic, The Faces, Emerson e Soft Machine, por exemplo. Coloca algum som desses de fundo, que te teletransportará direto aos anos 70.

A tradição dos pubs é muito forte no Reino Unido (e na República da Irlanda). Karim cita um que funciona até hoje, o The Chatterton Arms. Se você olhar o Facebook do bar, verá um vídeo com dois caras rapando a cabeça a zero. E também poderão ler uma qualificação negativa de uma moça que disse ter sido maltratada e expulsa do pub com seu grupo de amigos, um deles gay, o que só corrobora com a história do livro, de que, ainda hoje, o subúrbio de Browley em Londres é uma lugar perigoso.

Eu demorei mais do que o esperado em terminar este livro, porque interrompi a leitura muitas vezes. Ficava curiosa e ia conferir as referências. A cultura geral que a leitura nos traz e a maravilha da Internet que nos permite visitar virtualmente tudo que lemos. Ser escritor hoje em dia exige muito mais cuidado e rigor, já que tudo pode ser checado.

A família e suas relações são o centro da narrativa. E família é coisa que dói:

“(…) os psicólogos londrinos aconselhavam que a pessoa vivesse a vida à sua maneira, apesar da família, se não quisesse ficar louca.”(p.85)

O autor aborda vários assuntos universais e preocupantes através do seu personagem Karim: a homofobia, a pederastia e o bullying. Um professor de Karim o chamava de “marica”, mas o sentava em suas pernas e lhe fazia cócegas. Karim voltava da escola cuspido e sujo das coisas que lhe jogavam, fora os insultos racistas. O livro tem uma parte cômica, mas também outra muito triste. O narrador- personagem conta que um professor de artesanato teve um ataque cardíaco, porque um aluno neo- fascista colocou o genital de outro aluno num torno e começou a girar a manivela. Pesado. E que os fascistas lhe obrigavam a cantar hinos, urinavam nos seus sapatos e que um deles lhe marcou o braço com um ferro em brasa, como se faz com gado. Ele agradecia quando conseguia chegar em casa sem nenhuma ferida grave. Inglaterra, década de 70. A ficção imita a realidade, acredite.

Esta obra não é aborrecida em nenhum momento. É muito cinematográfica, é fácil imaginar os cenários e pessoas. Inclusive foi feita uma série na BBC com esta obra. Adivinha quem fez a trilha sonora? O grande David Bowie. O artista também é citado na obra (p.92), ele estudou na mesma escola de Karim, quando ainda chamava- se “David Jones”. Havia uma foto coletiva num corredor da escola e os alunos que sonhavam em ser estrelas de rock se ajoelhavam diante da foto e rezavam.

Veja aqui um trecho da série que passou na BBC2 em 1993:

The Buddha of Suburbia

E aqui a música The Buddha of Suburbia com o inesquecível David Bowie, com várias cenas da série:

Há também muitas referências literárias. Karim adorava chá e andar de bicicleta, que usava como meio de transporte. Passou de bike em frente à casa do escritor londrinense H.G. Wells (1866-1946), que nasceu na Bromley High Street (p. 87), autor de obras como “A máquina do tempo”, “A Ilha do Dr. Moreau” e a “A guerra dos mundos”, por exemplo. Londres é uma cidade fascinante, em todos os lugares encontramos casas de gente artistas incríveis. Talvez seja a minha cidade favorita de todas que conheci até hoje, isso com a visão de turista, para morar é outra história, e menos idílica.

Na página 88, há uma referência aos brasileiros: “A gente do nosso bairro era fanática por compras. Comprar era para eles o que é cantar e dançar samba para os brasileiros.” Pois é, realmente…o brasileiro anda sambando mais do que nunca.

Do amor não há como fugir, adiar, porque isso gera muito sofrimento aos apaixonados. O amor é urgente e torna gigantes os implicados, conseguem saltar qualquer barreira. E assim foi com Harry e Eva. Ambos casados e romperam com seus respectivos para ficarem juntos. Karim foi morar com eles e Helen levou o filho mais novo.

Quase todos os personagens gostam de livros. A literatura está incorporada na vida deles. Quem dera fosse assim também na vida de todo mundo na realidade (como é na minha). Gostaria que fosse corriqueiro, por exemplo, em uma reunião de amigos, alguém que tirasse um livro da bolsa e começasse a ler para todos um verso ou trecho incrível de alguma obra que está lendo no momento, sem que ninguém achasse estranho ou aborrecido. Charlie, o filho de Eva, faz isto. Tira um livro de poemas e começa a ler nos momentos mais inusitados.

A obra tem duas partes, a primeira acontece nos subúrbios (finaliza na página 158) e a segunda em Londres. Eva, Harry e Karim mudam para West Kensington atrás de uma vida mais emocionante e menos racista. Nos anos 70, West Kensington era eminentemente um bairro de imigrantes (assim ainda é assim, aliás, Londres inteira).

A segunda parte foca mais na carreira de ator de Karim, os bastidores e sua relação com Eleanor, uma moça com problemas psicológicos, pois havia perdido o namorado, também ator, por causa de um suicídio. O rapaz era das Antilhas, muito bonito e talentoso, “na realidade melhor do que muitos”, mas as portas não se abriam por causa da sua cor, ele só conseguia papéis de figuração:

“A polícia o levava cada dois por três e lhe submetia a interrogatórios tormentosos. Os táxis nunca paravam pra ele. Lhes diziam que não havia mesas vazias nos restaurantes.” (p.259)

Há também promiscuidade. A cena mais forte acontece na casa do dono da companhia de teatro onde trabalha karim e Eleanor. Pyke e Marlene, casal de meia idade, de certa forma impõem ao jovem casal sexo a quatro. Karim leu nas entrelinhas, que se não o fizesse poderia correr o risco de perder o seu papel na companhia. Mas também não foi problema, o casalzinho é bastante liberal. Parece que nos anos 70, antes da descoberta do vírus HIV, muita gente era….paz, amor e sexo livre era o lema dos hippies.

Citado na obra, na página 163, Gandhi morou num quarto neste bairro, na 20 Barons Court Road. E o vocalista da melhor banda do mundo, Freddie Mercury, também morou em West Kensington num apartamento na 100 Holland Road, W14, além do poeta Nobel de Literatura, W. B. Yeats. Ele morou com a família em Edith Villas.

Edifício em West Kensington, onde morou Freddie Mercury quando era casado com Mary Austin

Eva era a que tinha dinheiro. Ela comprou uma casa de três quartos de uma polaca, parecida com esta (foto acima) que Freddie morou. Nos últimos quinze anos, a casa tinha sido alugada para estudantes e estava bastante estragada. Um pardieiro para Harry. No subúrbio a casa deles era muito melhor. West Kensington fica ao lado do caríssimo Kensington, bairro que Freddie Mercury mudou depois de rico para uma casa chamada Garden Lodge. Depois da sua morte, a casa ficou para sua ex- esposa e amiga, Mary Austin. Voltando para a ficção, Eva reformou a casa, que virou um palacete e teve até festa de inauguração.

Karim, que viajava à deriva, conseguiu encontrar um caminho, o teatro. Só que seu primeiro papel foi de Mowgli, o menino lobo. No ocidente é comum a falta de papéis importantes para atores orientais e africanos, que não sejam algo muito específico, o que não é aceitável numa sociedade multirracial. O papel de Mowgli lhe foi dado por seu aspecto indiano e lhe pediram que falasse com o sotaque deste país, sendo que ele é inglês e nunca havia estado na Índia.

E a questão da desigualdade, da luta de classes, da opressão trabalhadora engole seus ideais para trabalhar, porque quem os emprega são os que têm o poder. Esses que herdam facilidades, que rodam em círculos de gente influente e que têm a facilidade e acesso a lugares que o filho do pobre não pisa, onde tudo lhe é favorável, mas ainda por cima acreditam ter algum mérito. Não têm.

É maravilhoso quando se termina a leitura de um livro com pena. Ele tem mil referências que me fizeram consultar bastantes coisas, muito rico culturalmente, além de questionar assuntos que nos preocupam como: o racismo….

(…) Trata de proteger- te do teu destino, de ser mestiço na Inglaterra. Para ti deve ser difícil de aceitar…não pertencer à nenhum lugar. E também o racismo. (p.182)

…e ainda, as drogas, o machismo na forma de opressão e violência contra as mulheres, a liberdade pessoal contra a moral religiosa, a repressão e violência contra os homossexuais, a falta de perspectivas da juventude e a relação entre pais e filhos. Depois de muito tempo sem se falarem, karim viu seus pais conversarem na estreia da sua peça:

A primeira coisa que me ocorreu ao ver- los é o pequeninos e tímidos que pareciam papai e mamãe, o muito frágil e envelhecidos que estavam e o pouco natural que parecia a distância que os separavam. Você passa a vida toda pensando em seus pais como monstros opressores e protetores que tudo podem e, de repente, um dia volta e lhes pega desprevenidos e o resultado é que não são mais que pessoas frágeis e apreensivas que tratam de sair adiante o melhor que podem. (p. 293/294)

E a questão da identidade: Karim reflete no enterro de Anwar, pai de Jamila, que morreu de um enfarto ao ver o marido da filha, Changez, em plena transa com uma prostituta japonesa. Jamila e Changez viviam separados, Jamila só fingiu o casamento imposto pelo seu pai, que mantinha o costume da Índia dos casamentos arranjados. Pode haver um conflito interior muito grande quando culturas se misturam e brigam entre si, veja:

Agora, ao olhar a todos aqueles seres desconhecidos- os indianos-, me dei conta de que em certo modo eram minha gente, ainda que tivesse passado a vida tratando de negar e ignorar. Me sentia envergonhado e vazio ao mesmo tempo, como se me faltasse metade do meu corpo, como se estivesse conspirando com meus inimigos, esses brancos que queriam que os índios fossem como eles. (p. 273)

Os orientais e africanos, principalmente, podem sofrer um choque cultural grande ao vir para o Ocidente. Aos ocidentais pode ser um símbolo de opressão machista o lenço muçulmano, por exemplo, mas muitas não sentem assim. O respeito é o fundamento de tudo. Não sou a favor de proibir o lenço como cogita- se em alguns países europeus, como na França. As pessoas não têm que deixar de ser quem são para agradar o Ocidente. Será que não é possível uma convivência pacífica e enriquecedora? Tenho certeza que sim. Cristãos, judeus, islamistas, ateus, budistas, hinduístas, espíritas podem e devem conviver em harmonia e com a possibilidade de uns aprenderem com os outros. Eu creio nisto, a Babel é aqui.

(…) para alcançar a verdadeira liberdade, havia que livrar- se primeiro de todas as amargurar e ressentimentos. Como seria isto possível se todos os dias se geravam novas amarguras e ressentimentos? (p. 292)

Esta é uma obra valente que mostra o outro lado de uma Inglaterra que, para muitos ingleses, não interessa mostrar. Bravo, Kureishi, pela coragem! Desconstrói a ideia de uma Inglaterra acolhedora, multicultural e integradora. E ainda há muito a ser feito.

Os novos europeus, às quais eu me incluo, às vezes não temos histórias bonitas que contar. Eu sou branca, mas já sofri ataques xenófobos em Lisboa, Barcelona e Madri, já me mandaram de volta ao Brasil algumas vezes. E já vi outros sofrerem. A Europa não é o paraíso idealizado por muitos brasileiros. A forma de combater a xenofobia e o racismo? Não se calar, combater, brigar. Não se pode aceitar e normalizar o inaceitável. A Europa é nossa também. O purismo de raças de Hitler deveria ter morrido com ele, com Salazar, Franco e Mussolini. Deveria, mas sobrevive ainda no ano de 2019. Veja este ataque racista num ônibus de Madri neste mês a uma mulher de etnia latina. Tristemente, constatei que aconteceu na linha do bairro que morei durante 10 anos. Muita coisa acontece, mas não há um vídeo para provar. Tal como no Brasil, os fascistas estão perdendo a vergonha de mostrar- se. Polícia neles! O energúmeno xingou a moça, a mandou “para o seu país”, ela respondeu que “aqui é o meu país”, e o sujeito começou a começou a esmurrá- la. Ela que desceu do ônibus. Quando acontece qualquer conflito, como uma disputa por um banco no ônibus, a primeira coisa que atacam é em relação à nossa origem.

O fascismo vive no coração de muitas pessoas, a semente do mal não para de brotar.

O final do livro foi o que menos eu gostei. Pareceu final de novela da Globo, onde no último dia tudo se resolve e acaba em festa, em final feliz. Mais ou menos isto. Embora a última frase tenha sido excelente.

Entrou para os meus favoritos. Recomendadíssimo! A edição lida e um pedaço a minha biblioteca:

Kureishi, Hanif, El buda de los subúrbios, Anagrama, Barcelona, 1994. Páginas: 336

E disse o sábio Buda do Subúrbio:

– Creio que a felicidade só é possível se nos deixarmos guiar pelos nossos sentimentos, nossa intuição e nossos desejos verdadeiros. Se a pessoa age empurrada pelo sentido de dever, a obrigação, o sentimento de culpa e o desejo de contentar os demais, só consegue a infelicidade. (p.102)

Buscar a felicidade antes que seja tarde. A vida tem algum sentido, se não?

“A expulsão do diferente”, do filósofo Byung- Chul Han

O filósofo sul-coreano Byung- Chul Han (Seul, 1959), foi um grato descobrimento. O autor fala sobre problemas dos nossos dias e eu acabei fazendo uma reflexão sobre alguns deles. Ele começa dizendo em “La expulsión de lo distinto” (“A expulsão do diferente”), que “o corpo social” está doente.

A padronização de condutas e comportamentos está orquestrada para eliminar os diferentes, porque o diferente não convém ao sistema. A proliferação do igual está provocando patologias, porque a essência humana é heterogênea.

A doença social é gerada por um excesso de informação e um excesso de permissividade, curiosamente.  Mas não é o que vem de fora o nosso principal algoz. Segundo o autor, não é a proibição ou a repressão o motivo da depressão nos tempos atuais: a pressão não vem do outro, vem do interior. Ou seja, o pior inimigo do sujeito é ele próprio:

A depressão como pressão interna desenvolve traços autoagressivos. O sujeito que, sentindo- se obrigado a mostrar rendimento, torna- se depressivo em certa maneira e se mói a pauladas ou se asfixia a si mesmo. (p.10)

Vou mostrar algo mais prático: existe uma expressão em inglês para o fato de assistir séries sem parar, “binge watching”. É o consumo de vídeos e filmes sem limite temporal. Há pessoas que assistem uma série inteira em um fim de semana. É como se a pessoa entrasse “em coma”, segundo o filósofo. A pessoa fica indefesa.  Isso é o “excesso do igual”. Todo mundo faz, parece legal, então você faz também.

Outro exemplo que o autor dá: as viagens. A maioria das pessoas viaja só para subir fotos nas redes sociais e para contabilizar países visitados. É como se viajasse sem viajar, porque a maioria não adquire nenhum conhecimento.

E ele fala das redes sociais, que é o meio mais anti- social que existe. Engraçado que eu comentei recentemente exatamente este fato com três amigas. O autor diz que “os meios sociais representam um grau nulo do social”.

No Brasil, poucos se expõem no Facebook, por exemplo, por medo de serem julgadas, por medo de que algo dito seja usado contra elas, por medo de serem prejudicadas profissionalmente, por medo de discussões…resumindo: por medo. Por medo de serem quem são e desagradar. “O que eu ganho com isso?!”, ainda que percam a si mesmos, porque agradar o outro é mais importante. É um padrão comportamental nas redes e na vida. Há algo de superstição também, pode “dar azar” ou atrair inveja, olho gordo, essas coisas. Negar o diferente é essencial. Fazer parte da corrente e encaixar é o que importa, ainda que o pé seja 38 e o sapato um 35.

As pessoas se reprimem e ficam doentes. A expressão é uma das funções básicas e primárias do ser humano. Ser humano baú fica pesado e sufocado. O que o outro pensa importa tanto assim? Claro. A aprovação alheia, a popularidade, o sentir- se querido, a imagem projetada, ainda que irreal (e surreal muitas vezes) é o que motiva as pessoas à padronização. Essas pessoas negam o diferente, e a essência disto é a dor (leia na página 12).

Vivemos na era da contradição. Com tanta informação e redes sociais, mas estamos cada vez mais mudos e sozinhos. Falar virou tabu. O silêncio está sobrevalorizado.

A qualidade da informação que nos é fornecida também é questionada pelo autor. Não há causa e efeito, “é assim e pronto”. As pessoas estão saturadas, nem se dão o trabalho de averiguar a causa e efeito das coisas, por isso é tão fácil eleger um presidente inepto através de redes sociais, porque os algoritmos estão feitos para encontrar pessoas que pensam igual, com os mesmos interesses, uma espécie de auto- doutrinação, já que só chega até a pessoa “notícias” que lhes são afins, como se fossem verdades únicas e incontestáveis. Os macro- dados correlacionam tudo e fazem supérfluo o pensamento.

Eu amo a Filosofia, porque é o ramo que melhor nos explica.

O pensamento tem acesso ao completamente diferente. Pode interromper o igual (p.13).

Por isso, pense, por favor. Não seja só leitor de manchetes. Abra os links, leia a notícia, preste atenção no autor, para quem ele trabalha e na intencionalidade do texto. Observe o outro e o porquê dele pensar como pensa. Se forem pensamentos destrutivos a si mesmo e aos demais, só a palavra pode salvar. A omissão vem destruindo e matando. Nós podemos romper essa cadeia de pensamento vicioso, circular, destrutivo, de que o outro é inimigo. Não é. Essa semente do mal foi plantada e vem sendo cultivada para dividir. O outro é projeção do que você tem dentro.

O autor cita Heiddeger, o filósofo alemão, que diria hoje sobre esse barulho todo das redes sociais, que “nos converte em surdos diante da verdade e para o seu silencioso poder violento (p.14). Surdos e mudos, digo eu.

Ele fala do hiperconsumo, da hipercomunicação, da hipervisibilidade, da hiperprodução do corpo como objeto funcional e culpa o neoliberalismo, as pessoas têm que render, são só números para este sistema econômico feito para hiperfaturar.

Esse universo neoliberal, que pode ser um pesadelo, foi retratado no filme “Anomalisa”, dica do autor. O neoliberalismo padroniza, nos quer transformar a todos em iguais. O protagonista, Michael Stone, dá palestras de motivação empresarial com muito sucesso, escreveu um livro, mas deprime- se, deixa de ver sentido em tudo. Ele ouve vozes iguais e rostos iguais. Não consegue distinguir adultos de crianças. É como se fosse uma sociedade de clones. Ele viaja para uma palestra e encontra uma mulher diferente, Lisa. Ele é a única que tem a voz diferente, considera- se feia, está acima do peso e tem uma cicatriz no rosto. Está fora dos padrões. Ele apaixona- se por ela. É a única diferente. Esse filme é interessantíssimo. Em japonês, “anomalisa” significa a “deusa do céu”. Ela, que parecia “anormal”, foi a salvação do palestrante, que antes era um fantoche controlado à distância.

Creio que se não formos nós mesmos, seja na vida diária ou nas redes sociais, não somos nada. Quando deixamos de pensar e de nos expressar por medo do que pensem sobre nós e para atender os esquemas pré- determinados, que beneficiam só aos próprios, estamos mortos e enterrados em vida. Perfeito para o poder: uma legião de zumbis.

O filósofo aponta coisas interessantíssimas sobre as consequências negativas que o neoliberalismo provoca nas pessoas. Esse sistema incita a que as pessoas sejam autênticas e criativas. A princípio isso parece muito bom, não é? E deveria ser, mas o que fazem com isso é que é ruim. Nos “ensinam” que devemos ser criativos, inovadores, empreendedores, sermos livres dos esquemas e criarmos a nós mesmos.

Você estudou, virou adulto, e só pensa em si, no seu umbigo, questionando- se e vigiando- se o tempo todo, tornou- se um narcisista, nunca foi programado para pensar na coletividade. Isso é que o neoliberalismo no Brasil fez com gerações e gerações: obrigou que cada brasileiro fosse produtor de si mesmo. Isso gerou uma pressão interior tremenda e as patologias psicológicas que meio Brasil sente. “Eu sou mercadoria, sou autêntico, preparado, e se ninguém me compra? Não valho nada!”.

Entendeu?

Para entender mais, porque tem MUITO mais, leia esta brilhante obra. O autor correlaciona padrões sociais super- destrutivos dissimulados no tecido social e que explicam comportamentos suicidas, depressivos e terroristas.

Não se engane: nada é por acaso. Tudo, absolutamente tudo na vida, é causa e efeito.

 

 

Esta foi a edição lida

Quem faz a “bookesfera”? Entrevista: Francine Ramos (Livro & Café)

Os bloggers ou blogueiros de livros são uma categoria especial no mundo dos blogs. Além de entretenimento e informação, influenciam e formam novos leitores. E não pode ter influência mais interessante e proveitosa que esta.

Apesar de outras redes sociais terem bombado nos últimos anos tirando um pouco o protagonismo dos blogs, eles permanecem e permanecerão como a rede mais longeva da Internet. Para muita gente, eles já não são só um hobby, geram lucros e contatos profissionais importantes. Ser blogueiro pode ser uma profissão interessante e rentável, que te dá liberdade geográfica para trabalhar de qualquer lugar do mundo. Mas aviso: não é fácil. Gerar conteúdo para blogs literários exige responsabilidade, pesquisa, conhecimento e muita leitura.

Para tecer uma ponte entre blogueiros, tentar delimitar um pouco essa trama infinita de blogs literários e conhecer um pouco os seus idealizadores, inauguro uma série de entrevistas. Quem está por trás desses blogs tão trabalhosos e que exigem tanto esforço pessoal?

A primeira entrevistada é Francine Ramos (Sorocaba, São Paulo,  25/08/1982), criadora do blog “Livro & Café”, que acompanho desde o início (2011) e cresceu bastante.

A Fran tem formação acadêmica, é professora e pós- graduada em Literatura Inglesa. Seu blog tem muita informação e resenhas sobre a obra da inglesa Virgínia Woolf, autora paixão da blogueira.

Francine tem um canal no YouTube, veja o vídeo “Você é um leitor comum ou um leitor crítico”? 

Segue a entrevista!

eu-livroecafe-400x298
Francine Ramos, do blog Livro & Café

  1. Fran, quando começou a sua paixão pela literatura? Você lembra do primeiro livro que leu?

Eu não lembro exatamente o primeiro livro, mas tenho várias lembranças de minha infância: quando meu pai contava histórias para mim; da coleção de livro de contos clássicos que vinha com o disco de vinil junto, para ouvir a história; lembro também que eu ganhei de uma tia o livro “Heidi” e eu achava muito difícil, mas, de uma certa forma, isso me instigou, porque eu ficava curiosa e queria adivinhar a história a partir das ilustrações na obra. E lembro que, na escola, eu li o livro “O cachorrinho Samba na fazenda”. Eu li o livro e não entendi porque o cachorro não dançou samba na fazenda. Demorou um certo tempo para eu perceber que o nome dele era Samba. Hahaha

  1. Como e quando surgiu o “Livro & Café”?

O Livro & Café surgiu em 2011. Na época eu morava em Salvador (BA) e tinha um blog que chamava “A Contadora”, espaço que comecei a escrever sobre os livros que eu lia. Percebi que eu gostava realmente de escrever sobre isso, então tive a ideia de mudar o nome do blog, vincular o site a algo mais focado em literatura mesmo. Lembro que passei dias procurando por um nome, fiz uma lista enorme, até que, numa manhã, tomando café, surgiu o nome.

  1. Você encara o “Livro & Café” como um trabalho ou um passatempo? Ele gera benefícios?

Ele é um trabalho sim, mas eu tento evitar para mim mesma essa classificação para não se tornar algo obrigatório, pois sempre quero fazer pelo prazer. É claro que exige organização e muito tempo, mas quando estou cuidando do site, me sinto muito bem. É pelo site que comecei a fazer a mediação do Clube de Leitura do SESC, porque o SESC viu o meu trabalho pela internet, com a página no Facebook, principalmente. Outros benefícios são as comissões da Amazon e Google AdSense.

  1. Você fundou uma espécie de clube de leitura em Sorocaba, sua cidade natal. Conta sobre ele, quando e onde acontece?

Então, o SESC aqui de Sorocaba, viu meu trabalho nas redes sociais e me convidou para uma conversa, rapidamente nos entendemos e começamos a fazer o clube de leitura. Ele acontece todo mês, no SESC Sorocaba.

  1. Eu te conheci por causa de sua paixão por Virgínia Woolf, seu blog é uma referência sobre a autora. Conta sobre esse amor e qual o seu livro preferido da autora.

A Virginia Woolf é o motivo para eu ter me tornado uma leitora, porque, antes, eu gostava de ler, mas eu ficava apenas “paquerando” os livros. A partir de uma frase que li dela – em um livro que não lembro o nome, mas era da área de sociologia – eu fiquei curiosa para saber quem era aquela mulher. Então, comecei a pesquisar e ler os livros da autora. Fui me apaixonando cada vez mais. De repente, na mesma época em que eu decidi mudar de profissão (eu era Contadora de uma empresa de médio porte), aproveitei para mergulhar em outros livros e estudar Letras.

  1. Eu conheci o “Livro & Café” no comecinho, o blog cresceu muito, a que você atribui esse sucesso? Que dicas você pode dar para novos bloggers literários?

Organização e paixão. Acho que essas duas palavras podem mover muita coisa. E também tempo! Tudo o que publico no site é fruto de pesquisa e muita leitura. Gosto também de saber o que os outros blogs/sites estão publicando e, principalmente, quais escritores estão em destaque, sejam contemporâneos ou clássicos. Outra dica valiosa é conhecer um pouco sobre web designer, HTML, programação, SEO, WordPress etc, pois isso facilita muito a vida.

  1. Além de você, quem está por trás do “Livro & Café”, quantos na sua equipe?

Hoje a equipe conta comigo mesma! rs Sou eu que organizo tudo, mas eu tenho bons amigos que me ajudam com posts, ideias e também na divulgação. São pessoas que conheci também pelo site que, por gostarem da proposta do site, mandam textos para publicação. Eles ficam muito à vontade para contribuir quando é possível, pois são pessoas que possuem outros trabalhos, estudos e profissões.

  1. Recomenda um livro aos leitores do “Falando em Literatura…”, um que eles não podem deixar de ler de jeito nenhum.

Ao Farol, de Virginia Woolf. É um dos livros mais bonitos que li na vida. Eu poderia recomendar outros da autora, mas acredito que Ao Farol combina com o público do “Falando em literatura…”. O livro possui um enredo simples – a história de uma família que decide fazer um passeio até um farol – porém, as relações familiares caminham para algo muito difícil, de uma profundidade psicológica incrível.

  1. Até onde você deseja ou pretende chegar com o “Livro & Café? Algum projeto?

Eu gostaria que o Livro & Café se tornasse uma revista literária. Estou trabalhando para isso, mas faço tudo no meu tempo, no tempo possível, pois, além do Livro & Café, sou professora de Língua Portuguesa uma escola bilíngue aqui em Sorocaba.

  1. Qual sua relação com os autores? Eles são acessíveis, levam a sério o blog?

Não me relaciono muito com os escritores, não. Percebo que eles se mantem um pouco distante deste mundo, não sei se por desconhecimento ou preconceito. Por mais que seja pouco, percebo que a crítica literária em um jornal conta muito mais que as resenhas escritas em site ou divulgadas em vídeos no You Tube, por exemplo. Eu gostaria também de manter uma relação com os jovens autores, que sempre procuram o site, porém, eu prezo muito pela qualidade dos livros que leio (lembrando que o meu conceito de qualidade tem a ver também com o meu gosto pessoal, é algo muito subjetivo), então, os jovens autores que me procuram, escrevem sobre temas que eu não considero interessante. E os livros que eu gosto, os autores são distantes. Que dilema!

  1. Você gera um benefício social falando sobre obras importantes da literatura nacional e estrangeira, mas, o que a literatura faz por você?

Eu acredito que se eu não tivesse seguido o caminho dos livros, eu seria uma pessoa muito diferente do que sou hoje. E eu gosto de ser quem eu sou. Sem os livros, eu não conseguiria me colocar no lugar do outro, tampouco me emocionar com as pequenas coisas da vida. A literatura, por fim, parece ser isso: uma investigação sobre o que é a vida, seus prazeres e dores.


Quer conhecer mais o conteúdo de Francine Ramos? Clica no Livro & Café.

Instagram: @fran_livroecafé

Um milhão de visitas!

Hoje é sábado, mas tive que vir aqui agradecer: o Falando em Literatura ultrapassou a marca de mais de um milhão de visitas! Um número tão significativo merece comemoração!

Gratidão a quem me acompanha desde o princípio, aquele que comenta, republica, curte e compartilha os posts, são vocês que alimentam a minha vontade de seguir, além do próprio amor à literatura.

Algumas novidades virão com o um milhão de visitas: o formulário abaixo para contato direto comigo. Ele serve para contatos profissionais, dúvidas, reclamações e tudo o que você quiser me contar de forma privada.

Também  haverá  jogos de perguntas e respostas, entre outras atividades, para fomentar uma maior interatividade. Todas elas com prêmios! E falando nisso, fique com a antena ligada, porque a partir da próxima segunda- feira, irei lançar um desafio que vai valer livros.

multidao

Um abraço e um bom fim de semana!

 

 

É nosso aniversário: oito anos falando sobre boa literatura!

Quem me avisou hoje foi o WordPress:

wordpress

Nesse mundo virtual tão volátil, onde tudo dura pouco, orgulho- me em celebrar 8 anos no ar! E sem apelação, sem best- sellers, sem mentiras, aqui realmente os livros são lidos, não lemos apenas sinopses ou Wikipédia. Infelizmente, nem todo mundo leva a literatura a sério nesse meio virtual, tanto em blogs, no YouTube e nas redes sociais, muitos estão apenas para conquistar seguidores e faturar com isso. Contudo, até isso eu vejo positivamente. Melhor falar de livros, mesmo que superficialmente, sem propriedade nenhuma, do que de outras coisas ruins, não?

Fico feliz sim, quando um post tem muitas visualizações, comentários, curtidas, compartilhamentos, mas a opinião alheia não é o que me motiva. No fundo, eu faço por mim mesma. Esse é o meu diário de leituras, a minha memória. Eu amo os livros, a literatura. Além disso, é a minha profissão. Eu tenho que viver no mundo das Letras para ser feliz. É um estilo de vida, independe de números, dinheiro, muito menos fama. É só amor. Amor não se explica.

Eu vou “comemorar” dividindo minha última leitura poética, que me rompeu por dentro, Drummond me faz chorar de beleza.

Essa semana achei umas coisas bacanas em um sebo ao lado da minha casa. Um dos livros é uma coletânea de Carlos Drummond de Andrade com seus mais lindos poemas. É uma edição argentina de 1978, bilingue espanhol- português. Chama assim “Amar- amargo y otros poemas”, com o “Soneto da esperança perdida” (belíssimo, primeiro verso “Perdi o bonde e a esperança”), “Mãos dadas” ( Adoro: “Não serei poeta de um mundo caduco”), “O lutador” (“Lutar com palavras/É a luta mais vã”), enfim, a mais bela coletânea que achei até agora.

Vou deixar aqui um fragmento de “Nosso tempo”, que é do livro “A rosa do povo” de 1945, mas que poderia ter sido escrito hoje para a atual situação política do Brasil, cai como uma luva:

I

Este é tempo de partido
Tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha- se em pó numa rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve- se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor do meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimo, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar- me
a cidade dos homens completos

Calo- me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!

Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam sentido, apenas querem explodir.

IV
É tempo de meio silêncio
de boca gelada e murmúrio,

palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.

É tempo de cortinas pardas,
de céu neutro, política
na maçã, no santo, no gozo,
amor e desamor, cólera
branda, gim com água tônica,
olhos pintados,
dentes de vidro,
grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.

No beco,
apenas um muro,
sobre ele e a polícia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos.

Agradeço a todos vocês que nos acompanham há tantos anos e também aos novos leitores/blogueiros que estão conhecendo o Falando agora. Fico feliz em conhecer tanta gente na mesma onda.

Muita coisa aconteceu nesses anos todos, nem dá pra contar tudo. Mas o saldo é muito positivo. E continuamos…

Um abraço a todos!

Fernanda Sampaio

Antônio Torres no “Afiando a Língua”, de Tony Bellotto

O escritor Antônio Torres (Bahia, 1940) foi entrevistado por Tony Belloto (São Paulo, 1960, grande titã!) junto com  o cantor e compositor Jards Macalé (Rio de Janeiro, 1943). O mestre Torres nos conta suas histórias, suas andanças pelo mundo, seus “causos” (que adoramos!) e Macalé na viola, inspira- se também na literatura para criar suas letras, como em “Let’s play that”, que faz referência ao “Poema de Sete Faces”, de Carlos Drummond de Andrade. Literatura e música, tem coisa melhor?!

Só uma errata: o Tony disse que “o primeiro livro publicado, de sucesso” de Antônio Torres foi “Essa Terra” (1976), não foi primeiro. O primeiro livro publicado da carreira do escritor (e de sucesso!) foi “Um cão uivando para a lua” (1972).

an

at

tony

o

aaaa

O Canal Futura subiu esse vídeo ao Youtube no dia 2 de março de 2015, mas coloca “2014” no título, quando o programa deve ter ido ao ar, suponho: Veja o vídeo: