Resenha: “Os vestígios do dia”, do Nobel Kazuo Ishiguro

Kazuo Ishiguro (Nagasaki, 08/11/1954), japonês, mas oficialmente é britânico, já que o Japão não admite dupla cidadania. Foi morar com os pais na Inglaterra quanto tinha cinco anos. É doutor em Escrita Criativa e ganhou o Nobel de Literatura nesse ano, uma escolha muito mais unânime que o anterior Bob Dylan. Ishiguro estreou como escritor em 1982 com o livro “Pálida luz nas colinas”. É casado com  Lorna MacDougall.

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Os principais temas das suas obras são: o tempo, a memória e a esperança; e também, a amizade e o amor. Assuntos que me parecem fascinantes. Em sua obra também há algo de literatura fantástica.

O objeto dessa resenha é o livro “Os vestígios do dia” (“The remains of the day”, 1989), que virou filme protagonizado por Emma Thompson e Anthony Hopkins. Há traduções com nomes diferentes:  “Os restos do dia” e “Despojos do dia” (2009). O filme foi indicado ao Oscar e o livro ganhou o Man Book Prize, o prêmio mais importante da língua inglesa. Esse livro é considerado a obra- prima de Ishiguro.

Outro livro dele que foi para a telona: “Nunca me abandones” (2010), com a participação de uma atriz que adoro, Keira Knightley, está na Netflix, inclusive. Mas esse fica para uma outra resenha. 

Vamos à obra.

A história acontece na Inglaterra durante o mês de julho de 1956, há um prólogo explicando. A história acontece em seis dias. Stevens é o narrador- personagem, ele é mordomo há trinta e cinco anos na mansão  “Darlington Hall“. O antigo dono, Lord Darligton, faleceu e a mansão foi vendida ao “mister Farraday“, um estadunidense. Ele viaja para a sua terra por cinco semanas e sugere ao mordomo que faça uma viagem para conhecer a Inglaterra, seu país, durante alguns dias. Stevens conhecia sua terra através de um livro de sete volumes chamado “As maravilhas da Inglaterra”, de Jane Symons, da década de trinta. O protagonista cita a autora muitas vezes.

Na mansão chegaram a trabalhar vinte e oito criados; agora, apenas quatro: Stevens, as novatas Rosemary e Agnes, além de mistress Clements, essa, trabalhadora antiga. O mordomo é perfeccionista e serviçal, mas sente- se esgotado.

Depois de receber uma carta de uma ex- trabalhadora da mansão, miss Keaton, o mordomo aceita a proposta do patrão. Pretende ir de carro (do patrão e gasolina paga por ele) até o oeste do país, e no caminho, deseja encontrar com a mulher para ver se ela aceita voltar a trabalhar na mansão. Stevens começa a planejar a viagem.

O jeito muito “british” do mordomo, polido, formal, perfeccionista contrastando com o do patrão americano, brincalhão, irônico e informal ficam bem marcados na narrativa.

No primeiro capítulo: “Primeiro dia pela noite- Salisbury”, a mansão fica sozinha pela primeira vez em séculos. Todos os empregados saíram de férias, além do patrão, que foi para os Estados Unidos.

Stevens começa a ver o mundo, pela primeira vez, sem ser a trabalho. Hospeda- se numa pensão em Salisbury. O mordomo vê uma paisagem deslumbrante e faz uma declaração de amor ao país:

(…) o caráter único da beleza desta terra é consequência de uma falta evidente de grandes contrastes e de espetacularidade, no entanto se destaca, ao contrário, por sua serenidade e comedimento, como se o país tivesse uma íntima e profunda consciência de sua grandeza e sua beleza, e não necessitasse exibí- la.” (p.37)

O homem tenta ser o melhor na sua profissão. Stevens discorre longamente sobre “o que é ser um bom mordomo?” Em Londres, era (ou é?) um assunto muito importante, tanto, que havia até clubes privados e sociedades para mordomos, como a Hayes Society, dos anos vinte. Só entravam os de alta classe. Essa história de chamar de “gentleman” a um homem com modos refinados vem muito disso, desses clubes sociais ingleses, que exigiam bons modos e um refinamento muito superiores à maioria dos mortais. Uma conduta impecável. O seu pai também foi mordomo e demonstrou o nível de exigência pessoal que a profissão impõe, passo a relatar no trecho abaixo:

O filho mais velho do mordomo, Leonard, faleceu na guerra da África do Sul de uma maneira nada honrosa. Seu batalhão atacou civis, foi uma ação irresponsável comandada por um general incompetente, muitas mortes poderiam ter sido evitadas, inclusive a do seu filho. O pai de Stevens teve que atender esse general por quatro dias na casa onde trabalhava por causa de uma festa, servindo o homem que odiava como se fosse qualquer outro convidado, mas era o responsável pela morte de seu filho. O general deixou uma gorjeta importante ao mordomo e ele a doou à uma instituição de caridade.

O pai do protagonista, Stevens ( igual do filho) aparece como uma figura que desperta compaixão, pena e até um pouco de tristeza. A velhice que, se tivermos sorte aparece como algo limitante fisicamente, mas forte, que enfrenta sem medo as adversidades. Stevens pai é assim. Ele levou uma queda e desmaiou enquanto carregava uma bandeja. A partir disso, o patrão e outros empregados começaram a achar que ele não era mais válido, apesar de ter servido a mansão durante 54 anos. Os erros, tudo indica, são mais importantes que os acertos, mesmo que infinitamente menores que as benfeitorias. Stevens não se desesperou, mostrou- se absolutamente digno quando o próprio filho lhe comunicou que ele passaria a executar tarefas mais simples.

Uma coisa que me chamou muito a atenção é a escravidão branca. A negra, cruel e perversa, já conhecemos bem, mas a branca é pouco falada. Se essa obra tiver alguma verossimilhança com a realidade, que acho que tem, esses empregados domésticos ingleses eram praticamente escravos. Viviam em quartos minúsculos, uma pobreza franciscana, um nível de exigência altíssimo, horas infinitas de trabalho e a remuneração ínfima. Uma espécie de escravidão sim.

Stevens é testemunha de várias reuniões na mansão, que começaram em março de 1923, entre homens poderosos de vários países europeus. Eles tentavam chegar a um acordo de conciliação com a Alemanha no período pós- guerra.

Numa dessas reuniões, Stevens pai passou mal e teve que ser levado ao seu quarto. O filho continuou servindo os senhores, enquanto seu pai desfalecia. O filho só pode ver o pai dois dias depois estando na mesma casa. O pai quis saber se o serviço estava saindo perfeito, e depois, aconteceu esse breve diálogo, íntimo, em tom de despedida: (p.106)

— Espero ter sido um bom pai.
Sorri e lhe disse:
— Estou muito contente que se sinta melhor.
— Me sinto orgulhoso de você. É um bom filho. Desejaria ter sido um bom padre, ainda que temo que não tenha sido.
— Agora tenho muito trabalho, mas amanhã pela manhã falaremos de novo.

Horas mais tarde, Stevens foi avisado que seu pai estava muito mal. Mas, “a obrigação em primeiro lugar”. O seu pai estava morrendo enquanto ele, com um sorriso, servia o jantar. É ou não é uma escravidão?! Além disso, os filhos nunca acham que os pais irão morrer.

A atitude do filho, a aparente frieza, também é uma forma de auto- engano, de fuga, de querer barrar o inevitável, como se ignorar o fato do seu pai estar morrendo, impedisse que ele se fosse para sempre. Stevens filho, não era frio, inclusive teve que enxugar o rosto com um lenço durante o trabalho. De fato, seu pai faleceu quatro minutos depois dessa última cena (p. 114).

Stevens não tem coragem de subir para fechar os olhos do pai. Dá a desculpa de que o pai gostaria que ele continuasse a trabalhar. Fiquei com um nós na garganta. Pude sentir a dor e a desorientação de Stevens.

A dor e a morte ficam nos bastidores. Stevens desceu com uma garrafa de vinho do Porto para os senhores que estão na sala de fumar. Tudo contado com muita sutileza, um trabalho fino de escritura.

Monsieur Dupont exige do mordomo umas vendas para a dor dos seus pés, enquanto a sua própria dor não era sabida por ninguém.

Stevens recorda esse dia como um grande triunfo. Não deixou a sua dor pessoal atrapalhar seu serviço como mordomo. A “dignidade” que é exigida aos mordomos de alto nível.

No segundo dia da viagem, o Ford do patrão quebra e Stevens para em uma mansão e pede auxílio. É ajudado pelo empregado do casarão, que faz todas as funções na casa, que é de um coronel. A mansão está em desuso, o dono quer vendê- la. No Ford só falta água no radiador. Ele acaba conhecendo o lugar e pessoas que não falam muito bem do seu antigo patrão, lorde Darlington. Stevens o defende em nome dessa “dignidade” de mordomo que foi aprendida ao longo de trinta e cinco anos de serviço.

No terceiro dia de viagem, ele se hospeda em uma pousada chamada Coach and Horses, em Taunton, Somerset. Nós viajamos também com o protagonista. Esta pousada realmente existe, veja aqui.

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Pousada “Coach and Horses Inn”, citada no capítulo “Terceiro dia pela manhã”, p. 137

O dono da pousada chama Bob e ronca demais, segundo os frequentadores do bar. O mordomo tenta ser engraçado, igual faz com o patrão americano, que sempre espera que Stevens devolva com humor suas colocações. E diz que não tem importância que o homem ronque e o compara com um galo. Depois arrepende- se pensando que pode ter ofendido as pessoas, já que ninguém achou graça. E o mordomo reflete sobre como pode ser perigoso usar o humor.

O passeio pelo condado de Somerset é entremeado por lembranças da sua vida em Darlington Hall. E a ansiedade de rever miss Kenton vai aumentando. Agora só faltam quarenta e oito horas.

O quinto capítulo acontece no “Terceiro dia pela tarde”, em Moscombe, perto de Tavistock, Devon. (p.153)

Ele começa falando dos judeus e conta sobre um episódio desagradável, quando o patrão, Lorde Darlington, mandou despedir criados judeus, porque podiam ofender alguns convidados e comprometer a segurança, influenciado por mistress Carolyn Barnet. Havia duas moças judias que trabalhavam há seis anos na mansão. Para Stevens, o que falava o patrão era lei. Para miss Kenton não. Ela despediu as moças a contragosto e muito ofendida. A relação ficou difícil com o mordomo durante semanas, inclusive ela ameaçou abandonar a casa.

Tempos depois o patrão, arrependido e sem a influência de mistress Barnet, mandou localizar as moças de volta, Ruth e Sarah. Enquanto isso, tiveram que substitui- las por outras duas. Uma delas, Lisa, era muito bonita e o mordomo se opôs, sob a insistência de miss Kenton. Ela coloca em evidência que o mordomo não gosta de contratar mulheres bonitas para que ele mesmo não caia em tentação. O homem rebate o pensamento de todas as formas. Depois de um tempo, Lisa vai embora e fica comprovado que o mordomo tinha razão sobre a falta de competência da moça. Stevens renunciou totalmente a sua vida pessoal e amorosa para servir a outros.

A viagem continua e Stevens recorda sempre episódios vividos com miss Kenton. Claro que até aqui já estou convencida do seu amor por essa mulher, mas como ele é muito reservado e na obra inteira vai revelar esse fato. Ele fazer essa viagem só para vê- la, já é um grande indício. O que não é dito é muito importante nessa narrativa.

Há várias situações, com pretextos profissionais, que Stevens tenta se aproximar de miss Kenton. Há alguns arrependimentos. Ele imagina como teria sido se tivesse feito diferente. Mas agora ele está tentando ao menos. Está a um dia de encontrar Miss Kenton.

O último capítulo é “Sexto dia pela tarde- Weymouth” é de apertar o coração. Tempo, maldito tempo…

Stevens chega a essa cidade no litoral, já cansado de dirigir, depois de termos acompanhado todas as suas lembranças e sentimentos em relação à várias coisas e, principalmente, à senhorita Kenton. Claro que já estava esperando um encontro romântico, mas seria óbvio demais.

Ele conta como foi o encontro com miss Kenton dois dias depois. Ela chegou no hotel que ele estava hospedado de surpresa, o Rose Garden, em Little Compton. Esse não achei exatamente com o mesmo nome e nem no mesmo lugar.

O reencontro. Ela, envelhecida, com um olhar triste, só que mais calma, resignada. Continua casada, é ainda a senhora Been. Ficou separada apenas cinco dias, foi quando escreveu a carta a Stevens contando como se sentia desgraçada e enchendo o homem de esperanças. Tem uma filha e já vai ser avó.

Ela ainda se sente desgraçada, mas tem que fazer o que tem que fazer, como ele que precisou servir aos senhores enquanto o seu pai estava morrendo. A vida é assim, somos o resultado das nossas escolhas. A obrigação supera os sentimentos pessoais:

“(…) ‘Que fiz com a minha vida?’, e penso que teria preferido seguir outro caminho, que talvez tivesse me dado uma vida melhor. Por exemplo, penso que a vida teria sido melhor com o senhor, mister Stevens. (…) Depois de tudo, não se pode retroceder o tempo. Não podemos sempre estar pensando no que poderia ter sido.” (p. 247)

“A senhora tem toda razão, mistress Benn. Já é tarde demais para retroceder o tempo. Além do mais, não viveria tranquilo se por culpa destas ideias a senhora e seu marido fossem desgraçados. Como muito bem observou, todos devemos agradecer pelo que de verdade temos. (p. 247)

É uma história muito realista, que acontece com muita gente…o tempo e sua inexorável crueldade.

Esse é um livro com trechos brilhantes, e que no seu conjunto, consegue retratar bem um período e uma camada específica da sociedade inglesa, além de suas paisagens. A narrativa é limpa e clara, trabalhada cirurgicamente, nada falta, nada sobra. É uma obra também de silêncios que contam muito. Capta alguns sentimentos universais, principalmente o estrago do tempo e o  sacrifício pessoal absoluto em nome da honra e da dignidade.

O título da obra é um resumo perfeito da história. Depois de tudo, só ficaram vestígios, restos do que foram, do que queriam, do que um dia sonharam.


O meu exemplar de referência é uma edição espanhola (vocês já estão cansados de saber que eu moro na Espanha, não é?!), que ao pé da letra fica “Os restos do dia”. A tradução de Ángel Luis Hernández Francés, muito boa. Vocês podem encontrar essa edição brasileira aqui: “Os vestígios do dia”, da Companhia das Letras, ou aqui. 

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Ishiguro, Kazuo. “Los restos del día”, Anagrama, 9ª edição, Barcelona, 2017. Páginas: 255 #falandoemliteratura @falandoemliteratura

Mario Vargas Llosa anuncia nome do seu novo livro

No último dia 25 de abril, o prêmio Nobel de Literatura, o peruano Mario Vargas llosa, foi entrevistado pelo diretor do El País, Antonio Caño, na FIE2015 (“Foro Internacional del Español “) e anunciou o nome do seu novo livro (ainda sendo escrito): “Cinco esquinas”.

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“O jornalismo e a linguagem” foi o tema da entrevista, nela Llosa revelou que o seu primeiro trabalho, ainda muito jovem (com 15 anos) foi como jornalista. Ele pensava que podia ser o seu ganha- pão e continua sendo, já que nunca deixou de trabalhar para jornais. O escritor sempre conciliou a escritura de colunas, o fazer literário e também sua carreira como professor de espanhol. Llosa tem uma coluna no El País, escreve crônicas sobre temas variados da atualidade. Houve um debate sobre linguagem literária X linguagem jornalística. A clareza e a objetividade que o texto jornalístico exige impedem a boa qualidade do texto?

“Em certas épocas, a literatura e o jornalismo se confundiam”. (Mario Vargas Llosa)

Perguntado se a linguagem jornalística na Espanha é muito vulgar por se aproximar à linguagem do povo, Llosa afirmou que sim: “Não há palavras que não possam ser utilizadas em um jornal”.

Vargas Llosa acha que é impossível censurar e controlar a informação nas redes sociais, e que a hierarquia já não pode ser estabelecida, tanto em relação aos meios, quanto à qualidade da notícia. Ele acha a liberdade extraordinária, mas que também é perigosa, pois pode inventar e falsificar informações. Ele mesmo já foi vítima de textos atribuídos a ele e completamente falsos.

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Mario Vargas Llosa

Antonio Caño dá um conselho aos jornalistas: que não escrevam como os políticos, que escrevam para serem compreendidos. Os políticos falam, mas não dizem nada. Foi então que Llosa lembrou de alguns políticos como Margaret Thatcher, que fazia discursos bem articulados, com uma linguagem cuidada e fundamentada em boas ideias.

cañoAntonio Caño, diretor do El País (jornal espanhol)

Mario Vargas Llosa lembrou de uma manchete de primeira página em um “jornal de prestígio brasileiro” (38:14), que escreveu o seguinte, depois que Hitler não respondeu a uma declaração de guerra que o Brasil fez ao ditador alemão: “O bárbaro teutônico mostrou- se cauteloso”. Citou isso para demonstrar que houve uma época em que o jornalismo usava uma linguagem elegante, sem xingamentos e nem baixo- calão. Fora o conteúdo da manchete com um pé na comicidade.

Ambos concordam que a informação hoje em dia é extremamente vigiada e divulgada, acham impossível a manipulação, controle, ocultação da notícia por parte dos governos, pois tudo é extremamente vigiado e divulgado. E isso é uma grande vitória da liberdade.

Llosa comenta sobre a democratização da informação e da cultura, “dessa extraordinária revolução tecnológica”, que hoje chega a todas as esferas sociais, mas que também traz o problema da superficialidade, da cultura deformada, cheia de clichês, pois falta espírito crítico e aprofundamento nas questões.

Vargas Llosa defende o livro, a leitura de livros, porque a imagem não produz o mesmo efeito positivo que a palavra escrita. O livro é uma forma de entretenimento mais duradouro, que forma cidadãos melhores.

Uma casa com livros possibilita muito mais a formação de crianças leitoras que uma casa sem livros.

(Mario Vargas Llosa)

Veja a entrevista completa (em espanhol):

Resenha: “Alabardas”, o último livro de José Saramago

Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas está aqui na mão, acabou de sair do forno pela Porto Editora, o último romance inacabado do escritor português José Saramago (Azinhaga, 16/11/1922 – Lanzarote, 18/06/2010). Esse livro entrou nas livrarias de Portugal hoje, mas eu já o tinha há dois dias, e eis aqui a resenha no Falando em Literatura em primeira mão! Para quem ainda não sabe, Saramago foi o único escritor em Língua Portuguesa ganhador de um prêmio Nobel de Literatura (1998).

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O simpático José Saramago nos deixou saudades e uma riqueza literária ímpar.

Alabardas (2014) consta de 30 páginas de um romance que Saramago tinha começado antes de falecer e foram encontradas no seu computador. Essas páginas viraram 77 em formato livro ( três capítulos), mais três páginas de notas que o autor escreveu entre 15 de agosto de 2009 a 22 de fevereiro de 2010, são nove anotações muito espaçadas. E ainda os textos de Fernando Gómez Aguilera ( professor e escritor espanhol,1962) e Roberto Saviano ( escritor italiano, 1979) elevando a obra a 135 páginas. Esses textos são recordações e memórias, um repasso pela obra do escritor, os vi como homenagens. Vamos ver o que Saramago nos deixou como seus últimos escritos.

Narrado em terceira pessoa, o personagem principal do livro é “artur paz de semedo”, escrito em minúsculas- aliás, todos os nomes próprios estão escritos em letras minúsculas. Talvez para reforçar o caráter comum do homem ou para igualá- lo aos animais. Quem sabe?

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O estilo é o mesmo que marca a obra do escritor: os diálogos sem sinais de pontuação, encaixados no texto. O personagem “artur paz de semedo”, leva o sobrenome “paz” no centro, bem o contrário do que cultua tanto na vida profissional, quanto na pessoal. O homem trabalha na faturação de uma fábrica de armas há quase vinte anos, chamada “produções belona s.a.”. Belona é a “deusa romana da guerra” (p.11). Ele está separado da mulher, que é pacifista convicta e não aguentou a profissão do marido. Até mudou o seu nome “berta”, que faz “alusão direta ao canhão ferroviário alemão” (p.13) e passou chamar-se “felícia”. O sonho de semedo é ser promovido à chefe da seção das armas pesadas.

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Essa é uma alabarda medieval

Saramago coloca na história vários conhecimentos históricos sobre armamento e cinema bélico, fala sobre os diversos tipo de armas que “semedo” é apaixonado, o sujeito passa mal de emoção quando a fábrica produz novas armas pesadas e tanques de guerra. Ama filmes bélicos, assiste a todas as estreias no cinema e tem uma coleção de filmes em casa. Apesar de delirar pelas armas de fogo, jamais deu um tiro na sua vida. Não era muito de leitura, mas decidiu ler “l’espoir, de andré malraux”, que trata da guerra civil espanhola e por causa de uma frase que leu no livro “Dez simples palavras” (p.21) revolucionou todo o seu mundo interior. A leitura pode sacudir a alma, não é?

O sentir humano é uma espécie de caleidoscópio instável… (p. 23)

O personagem “artur paz de semedo” citado sempre assim com o nome completo, leu no livro de Malraux que trabalhadores haviam sabotado as armas para que não funcionassem e foram fuzilados. E ele como funcionário de uma fábrica de armas sentiu- se confuso com isso e telefonou à ex- mulher para contar. Ela sugere que “artur” investigue se a fábrica em que trabalha forneceu armas para os fascistas na época da guerra civil espanhola.

Alguns desenhos do escritor alemão Günter Grass (Danzig, 16/10/1927, também prêmio Nobel de Literatura- 1999) que ilustram o livro:

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Depois de uma interrupção causada pelo lançamento de Caim e suas tempestuosas consequências, regressei a Belona S.A. Corrigi os três primeiros capítulos (é incrível como o que parecia bem o deixou de ser) e aqui deixo a promessa de trabalhar no novo livro com maior assiduidade. Sairá ao público no ano que vem se a vida não me falta.   ( Saramago, 24-10-2009)

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A faceta de desenhista do escritor Günter Grass. Artur paz semedo entrando nos arquivos da fábrica de armas.

A ideia do livro José explica em uma nota, ele fala como seria o futuro romance (p. 79):

Afinal, talvez ainda vá escrever outro livro. Uma velha preocupação minha (porquê nunca houve uma greve numa fábrica de armamento) deu pé a uma ideia complementar que, precisamente, permitirá o tratamento ficcional do tema. Não o esperava, mas aconteceu, aqui sentado, dando voltas à cabeça ou dando- me ela voltas a mim. O livro, se chegar a ser escrito, chamar- se – á ‘Belona’, que é o nome da deusa romana de guerra. O gancho para arrancar a história já o tenho e dele falei muitas vezes: aquela bomba que não chegou a explodir na guerra civil de Espanha, como André Makraux conta em ‘L’Espoir’

As notas são fantásticas, Saramago nos conta sobre a arquitetura do romance. Ele já tinha até pensado na frase final do livro. “Vai à merda!” (p. 81)

No dia 2 de fevereiro de 2010, decidiu mudar o nome do futuro romance de Belona para Alabardas. É de Gil Vicente, da tragicomédia ‘Exortação da Guerra’. Explicou Saramago no dia 26-12-2009.

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No segundo capítulo, o personagem solta um provérbio popular português que a sua avó lhe dizia: “por bem fazer, mal haver” (p.31). Às vezes a gente faz o bem e recebe o mal em troca, por que será? Levo comigo. Boa lição para refletir. Outra coisa que ficou implícita no texto é a questão da moralidade de quem fabrica armas…ou mortes.

Uma coisa que percebi hoje. O humor de Antônio Torres é muito parecido com o de José Saramago. Leiam um e outro e comparem. Lendo José lembrei de Antônio.

Muito bom o sentido literal e literário dessa frase:

A prudência manda que no passado só se deva tocar com pinças, e mesmo assim desinfectadas para evitar contágios. (p. 62)

Profundamente emocionada terminei a leitura desse livro, que podia ser um dos melhores de José Saramago, aliás, podia ser não… é! Mesmo sem terminar. O jeito é desfrutar da obra que ele nos deixou, inclusive esses três capítulos de Alabarda e não lamentar pelo que não pode ser, além do mais, essa obra faz viajar e imaginar qual teria sido o final dessa história. A última frase do último capítulo é muito significativa, mas não vou revelar o fim da grande história. Grande Saramago.

Toda gente gosta de ser bem tratada, senhor administrador, uma boa palavra faz milagres (p.76)

10646973_334647120046793_6171048666485428821_nSaramago, José. Alabardas, Porto Editora, Portugal, 2014. 135 páginas

Um conto de Alice Munro

Vamos começar a descobrir porquê é que ela ganhou o Nobel de Literatura. Alice Munro, 82 anos, costuma ambientar os seus textos em pequenas cidades, como esse “O amor de uma boa mulher” (título também do livro). Ela é uma excelente narradora, vai desenhando os objetos, o texto é muito descritivo, o que me deu a impressão de ter estado naquele lugar, sem nunca ter estado. A mágica da literatura e dos bons escritores que nos fazem viajar sem sair do lugar!

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Nas últimas duas décadas, um museu em Walley tem se dedicado a preservar fotografias, batedeiras de manteiga, arreios de cavalo, uma velha cadeira de dentista, um descascador de maçãs pouco prático e outras curiosidades, como aqueles pequenos e bonitos isoladores de porcelana que costumavam ser usados nos postes telegráficos.

Há também uma caixa vermelha onde estão impressas as letras d. m. willens, optometrista, com uma nota ao lado que diz: “Esta caixa de instrumentos de optometria, embora não muito antiga, tem considerável importância local por haver pertencido ao sr. D. M. Willens, que se afogou no rio Peregrine em 1951. A caixa escapou do desastre e foi presumivelmente descoberta pelo doador anônimo que a ofereceu para fazer parte de nossa coleção”.

O oftalmoscópio faz lembrar um boneco de neve. Isto é, a parte de cima — a que se prende ao cabo oco. Um grande disco, com outro menor no topo. No disco grande, um buraco pelo qual se olha enquanto as lentes são mudadas. O cabo é pesado porque ainda contém as baterias. Caso elas fossem retiradas e se encaixasse a vareta também disponível, com um disco em cada extremidade, seria possível ligar o aparelho a uma tomada elétrica. Mas talvez tenha sido necessário usá-lo em lugares onde não havia eletricidade.

O retinoscópio dá a impressão de ser mais complicado. Abaixo da banda curva de metal que o mantém fixo na testa do optometrista, existe algo semelhante à cabeça de um duende, com um rosto em forma de bolacha e um gorro pontudo de metal. Essa peça faz um ângulo de quarenta e cinco graus com uma haste fina no alto da qual se situa um pequeno foco de luz. A face achatada é feita de vidro, servindo como um espelho de fundo escuro.

O aparelho é todo pintado de preto, mas, nos lugares em que foi maior o contato com a mão do optometrista, a tinta desapareceu e se podem ver partes do metal prateado.

Clique para ler o conto completo.

(Conto e foto “chupados” da Veja Meus livros de 10/10/2013)

Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura 2011: Tomas Tranströmer

Esperei ansiosamente o anúncio do ganhador do Nobel de Literatura 2011,  hoje ao meio- dia (07:00- hora brasileira), pois Ferreira Gullar estava no páreo, mas com poucas possibilidades, porque o favorito era o cantor americano Bob Dylan. Num clima de tristeza escrevo esse post,  dia cinza,  dia em que faleceu Steve Jobs, o revolucionário que criou a Apple ( sou fã de carteirinha). Bem que podia ter sido Gullar pra quebrar o jejum brasileiro e dar uma animada, mas foi o poeta Tomas Tranströmer o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura 2011 e Dylan também ficou a ver navios.

Eu já falei sobre Gullar aqui no blog, sobre um livro de contos, “Cidades inventadas”, que nem gostei tanto, o forte dele mesmo é a poesia. Também falei sobre o poema mítico “Poema sujo”, um dos mais conhecidos de Ferreira Gullar; e ainda sobre o belo poema- homenagem que Gullar escreveu no dia da morte da sua amiga Clarice Lispector.

Tomas Tranströmer é um psicólogo e poeta sueco, que anda mal de saúde aos 80 anos, ele sofreu um AVC em 1990 e ficou com sequelas, não pode falar e ficou com o lado direito do corpo paralisado, mas ele fala através da sua poesia.

Acho que vamos ter que esperar (muito) o nosso Nobel de Literatura.