O ganhador do Nobel de Literatura 2016 é Bob Dylan!!

O cantor e compositor americano Bob Dylan (1941) é o ganhador do Nobel de Literatura 2016, o maior prêmio literário do mundo. Além do prestígio, do reconhecimento mundial e propaganda internacional (que ele nem precisa), o vencedor normalmente leva mais de 1 milhão de euros (que ele também não precisa). Na minha opinião ganhou a zebra. Se gostei? Não. Preferiria alguém que se dedica só à literatura.

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Tudo bem, é um músico excelente (a voz nem tanto), mas já não tem o Grammy pra isto?! Bem, vamos lá, então vamos cantar: clica aqui e ouça 10 canções do Nobel.

Creio que ninguém votou em Bob na nossa enquete, então os prêmios ficarão para um próximo sorteio (em breve).

Quem vai ganhar o prêmio Nobel de Literatura 2016? Vote na enquete!

Esse ano houve um atraso, por questões de calendário, para o anúncio do ganhador do prêmio Nobel de Literatura 2016. O vencedor será anunciado no dia 13 de outubro.

Você vai poder acompanhar, ao vivo, pelo canal do Youtube da academia sueca. Esse ano estaremos muito atentos, pois uma das indicadas é a brasileira Lygia Fagundes Telles. Vamos torcer! Caso a escritora vença, será a primeira vez do Brasil a ganhar esse prêmio. Nunca um brasileiro ganhou um Nobel, em nenhuma categoria. Será a literatura que vai  “nos salvar”?

Hoje anunciaram o Nobel da Paz: ganhou o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos. O presidente mediou com as Farcs, uma guerrilha de cunho comunista, ilegal no país, que impôs as suas ideias à base de força, com sangue, extorsões e dor, por 50 anos.

Você pode conferir aqui todos os ganhadores do Nobel de Literatura. No ano passado, a vencedora foi a ucraniana Svetlana Alexievich.

Os concorrentes de Lygia são muitos e bons. Abaixo, selecionei 33 possíveis ganhadores, vote no seu favorito, vamos ver quem acerta! Em quem você aposta? Vote até quinta- feira da próxima semana e deixe nos comentários o nome do seu preferidoQuem acertar vai concorrer a um box recheado de prêmios literários muito legais, participe! E claro, se o vencedor não estiver nessa lista, ninguém ganha.

Votou?! Agora é só aguardar o dia 13 de outubro.

“No café da juventude perdida”, Patrick Modiano

(…) Às vezes te oprime o coração quando pensa nas coisas que podiam ter sido e que não foram, ainda digo agora inclusive, que a casa continua vazia esperando- nos. (Ronald, p. 128)

Prepare uns sapatos confortáveis porque você vai caminhar muito pelas ruas de Paris! Livro com encanto, tom nostálgico, de memórias, mistério, de um amor inesquecível passe o tempo que passe, aconteça que acontecer. A cafeteria “Le Condé”, em Paris, é o ponto- de- encontro de jovens e de gente madura com espírito boêmio. O que um filósofo sentimental chamava de ‘juventude perdida’ (p.14). Anos 60, a época do surrealismo francês em uma das suas faces mais aloucadas, a patafísica de Alfred Jarry, Boris Vian, Eugène Ionesco e Julio Cortázar. Ainda não foi editado no Brasil.

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 Patrick Modiano (Boulogne-Billancourt, 30/06/1945) na bela biblioteca da sua casa. (Foto: France Today). Modiano ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 2014.

Os personagens são Louki, Zacharias, Tarzan, Jean- Michel, Fred, Ali Cherif, Annet, Seu Carlos, Mireille, Adamov e o doutor Vala. A dona da cafeteria é a dona Chadly. Um dos narradores- personagem encontra- se com Chadly às margens do Sena, quando a cafeteria já havia fechado há muitos anos, em seu lugar havia uma loja de bolsas. A senhora temia pelo futuro daquela turma sem futuro . “Que será que foi deles?” Eles não estavam preocupados com o futuro, viviam só o presente, queriam descobrir quem eram.

A história gira em torno de Louki, que vai sendo construída aos poucos, o livro é cheio de sutilezas, converte em grande o que parece ser normal, cotidiano, descreve o que pensamos e sentimos em centelhas de segundos, aquelas percepções, insights, sensação de déjà vu, “eu já vi isso antes”…esse livro me fez sorrir…isso é boa literatura!

O cenário parisiense, toda a cartografia da cidade vai sendo desenhada: os encontros na Avenue de la Grande- Armée, o rio Sena, o bairro Porte- de- Maillot, os metrôs, Neuilly (uma cidade metropolitana de Paris), enfim, nesse livro temos um mapa da cidade das luzes.

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Pimm’s é um licor que serve como base para coquetéis criado em 1823 pelo escocês James Pimm. Louki e a amiga Jeannette tomam um “Pimm’s champagne” no bar “Le Canter” (Jeannette é uma das donas), na rua de La Rochefoucauld.

Tem gente que faz coisas que parecem insignificantes ou inúteis, veja o que fazia Bowing: ele escrevia num caderno todos os nomes das pessoas de frequentavam a cafeteria, simplesmente para que existissem. Quando a gente coloca nome em alguém, ela deixa de ser uma a mais na multidão. Isso te parece inútil?! Ele queria acabar com o anonimato da grande cidade.

(…) Bowing estava desejando salvar do esquecimento as borboletas que dão voltas durante breves instantes ao redor de uma lâmpada.(Caisley, p.16)

Mas também tem uma coisa: um nome sem significado e sem história é só um nome marcado à tinta num papel. O doutor Vala comentou com Bowing que achava engraçado esse experimento dele “de patafísica”, mas o narrador corrige: “Ele confundia tudo: patafísica, o letrismo, a escritura automática, as metagrafías e todos os experimentos que realizavam os frequentadores mais literatos do Le Condé (…)”. (p.22)

Ninguém da turma do Le Condé sabe o nome verdadeiro de Louki. Ela mora perto do cemitério de Montparnasse.

Caminhava com essa sensação de leveza que, às vezes, sentimos em sonhos. Já não temos medo à nada, todos os perigos são irrisórios. Se as coisas ficam feias de verdade, basta despertar- se. Somos invencíveis. Caminhava, impaciente por chegar ao final, ali aonde não havia mais que  céu azul e um vazio. (Louki, p.84)

O narrador 1 mora no boulevard Saint- Michel, nº 85, em um quarto alugado, é aluno da Escola Superior de Minas na Sorbonne, ele mantém segredo aos colegas da cafeteria, tanto sobre o lugar onde mora quanto sobre o lugar que estuda, não parece muito convencido da sua escolha profissional.

“Vivemos à mercê de certos silêncios. Sabemos muito uns de outros. Assim que fazemos por encontrar- nos.” (Ronald, p.29)

Um outro narrador, que chamarei de 2,  (pensamos que é um narrador, só no final do livro que descobrimos que são dois) tem uma obsessão por descobrir quem é Louki. E foi conseguindo: o nome, “Jacqueline Choureau”, de solteira “Delanque”. Foi casada com Jean- Pierre Choureau, a quem Louki havia abandonado há dois meses. Ela, 22, o ex- marido, 36. A mãe trabalha no Moulin Rouge. O romance vai sendo construído aos pedaços, o tempo vai e volta, presente- passado. Também vamos descobrir quem é o narrador, mas não vou revelar, vou deixar para vocês descobrirem também. Só o nome: Caisley. Nessa obra nada é por acaso, tudo vai sendo amarrado, costurado com uma precisão matemática! Seu primeiro nome só vamos descobrir na última página.

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O restaurante “Au chien qui fume” (“O cachorro que fuma”), na rua Cherche- midi, Montparnasse, citado pelo narrador 1, (p.33), ele entrou para tomar um conhaque, nervoso com a possibilidade de encontrar Louki. Ficção e realidade. O restaurante realmente existe (foto acima), como muitos lugares citados no livro, que nos leva pela mão num passeio gostoso por Paris. Vous vous promenez? Paris é uma cidade dividida por 20 distritos (arrondissements), que começa no ponto mais central e vai circulando a cidade em forma de aspiral.

Na metade do livro mais ou menos (p. 59) vai ficar ainda mais interessante, porque agora entra Louki com própria voz para explicar a sua história e como ela vê os frequentadores do Le Condé, a mesma coisa que fez Caisley.

Louki sofria ataques de pânico, Modiano conseguiu explicar esse problema incômodo e o que passa na cabeça da pessoa com um ataque de ansiedade. A metáfora de fios desunidos é perfeita! É isso, é como se a pessoa estivesse desconectada do mundo e de si mesma, o mal-estar toma conta de tudo:

“De repente, sentia uma sensação de vazio pela rua. A primeira vez foi diante do bar que havia ao lado do Cyrano. Passava muita gente, mas isso não me tranquilizava. Cairia redonda e essa gente continuaria seu caminho sem fazer- me caso. Caída de tensão. Corte de corrente. Tinha que esforçar- me para voltar a unir os fios.” (Louki, p. 78)

Ela tinha “agorafobia”, não podia sair dos limites do seu bairro. Sentia que não podia ultrapassar a fronteira. Traumas do seu passado. O medo de viver às vezes é tão grande que o cérebro procura um meio de desconectar. Ela estava só, sua mãe morreu há quatro anos e ela cresceu sem o pai. Não tem família.  Frequenta as sessões de Guy de Vere (nome de um personagem do poema “Lenore” de Edgar Allan Poe), uma espécie de guru espiritual. Jacqueline o conheceu na Livraria Vega, que realmente existe e é uma editora de livros esotéricos, espiritualistas.

Desse livro eu senti falta de uma descrição física mais detalhada de Louki, Caisley e Ronald. Não consegui visualizá- los. Gosto de Andersen, Proust ou Dostoiévski, por exemplo, que desenham os personagens, fazem um retrato- falado dos personagens.

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Essa é a “Place de la République”, onde nossos dois “flâneurs” Louki e Ronald passeiam. A famosa estátua que simboliza “Liberdade, fraternidade e igualdade”. Essa noite dormiram no mesmo quarto de hotel.

Encontram- se Louki e Ronald. O narrador cita um fenômeno interessante que acontece com a maioria de nós,  o “Eterno Retorno”, uma teoria filosófica de Nietzsche que tem a ver com o tempo e a repetição periódica de acontecimentos, a inevitável alternância de coisas boas e ruins:

Ainda hoje acontece algumas vezes: ouço, pela noite, uma voz que, pela rua, chama o meu nome. Uma voz rouca. Arrasta um pouco as sílabas e a reconheço rápido: a voz de Louki. Dou a volta e não há ninguém. (…) Tudo volta a começar, igual que era antes. Os mesmos dias, as mesmas noites, os mesmos lugares, os mesmos encontros. ‘O Eterno Retorno’. (Ronald, p. 95)

Já teve essa sensação alguma vez?

É uma única história contada sob várias perspectivas. Uma delas é como Ronald vê a relação entre Louki e Jeannette Gaul. Assim que percebemos que tudo, todas as histórias têm mais de um ponto de vista, tudo é relativo. As histórias condicionadas pelo tempo, o vivido e o lembrado, podem ser diferentes.

Quando de verdade amamos uma pessoa, temos que aceitar a parte de mistério que existe nela…Porque é por isso que a amamos, verdade (…)? (Ronald, p. 118)

Essa história é sobre Paris e sobre um relacionamento que acaba, mas que o amor nunca termina. Não é um romance romântico, é tudo muito sutil, conta sem contar, um verdadeiro quebra- cabeças. O final…melhor não contar. Surpreendente.

E aí, vai colocar na sua lista? Essa é a edição espanhola lida:

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Modiano, Patrick. En el café de la juventud perdida, Anagrama, Barcelona, 6ª edição, 2014.

Preço: R$ 92,14, Saraiva (Brasil).

Preço: EUR 14, 90, Casa del Libro (Espanha), dependendo do frete, compensa.

Páginas: 131

Mario Vargas Llosa, 78 anos

Hoje, o escritor e político peruano, Mario Vargas Llosa completa 78 anos. O escritor ganhou muitos prêmios literários, entre eles o Nobel de Literatura em 2010. Filho de pais de classe média, casou-se aos 19 anos, fez doutorado na Complutense de Madrid em Filosofia e Letras, morou em vários países da Europa e também nos Estados Unidos. Divorciou- se e casou de novo com sua prima Patrícia Llosa, o casal tem três filhos. Sua obra em prosa é libertária e humanista, influenciada por Jean- Paul Sartre, composta por romances, ensaios e teatro.

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Em sua casa em Lima (2014, reportagem “El País”)

A opinião de LLosa sobre a crítica superficial que existe hoje em dia, para anotar e absorver:

“A crítica literária tem agora mais responsabilidades em um mundo com excesso de informação e excesso de livros. E é responsável pela marginalidade em que vive ao ter perdido o protagonismo que tinha e deveria recuperar. Não temos críticos de grande responsabilidade nem em outras áreas. Parecem limitar-se a resenhas, quase como publicidade, a banalizaram e se esqueceram da função de apresentar os elementos para que as pessoas apreciem o bom e o menos bom de cada livro, e algo muito importante é que devem ter claro o lugar que essa obra ocupa em seu contexto, e contar isso aos leitores. Especialmente nestes tempos em que a Internet tende a dar o mesmo valor a tudo…” (El País)

Felicidades, mestre Llosa! Vida longa!

Retrô 2009 e lá vem 2010!

Com os micro- blogs (Twitter, Facebook) o meu blog ficou mais abandonado do que nunca. Comecei e deixei nos rascunhos diversos posts. Mas para não deixar o blog sem um post- despedida de 2009 (que podia ter sido melhor) vamos a algumas reflexões:

* A Internet está diminuindo muito o hábito de ler (livros), porque ler exige silêncio, tempo e dedicação. A Net é mais rápida e fácil. E todo mundo vai pelo caminho mais fácil. Muita gente compra livros que servem só de enfeites na estante.

* Os e- books ainda não substituíram os livros de papel, mas acho que isso vai acontecer nos próximos anos, onde o papel vai ser só recordação e saudosismo para os amantes da literatura. Os e- books são muito mais ecológicos e precisamos disso.

* O Nobel de literatura esse ano foi para uma mulher.  Mas ainda somos a minoria a ter destaque nas Ciências Humanas e Letras (embora seja uma área com maioria feminina). Ainda não existe uma igualdade social e nem em divisão de tarefas efetiva entre homens e mulheres. Nós temos menos tempo para a dedicação ao trabalho científico- literário, tempo esse que tem que ser compartilhado com o cuidado dos filhos e a casa. E isso serve como fator de exclusão. Solução: mais creches do governo nas universidades, concursos com vagas 50% pra homens, 50% pras mulheres.

* Esse ano a vitória vai para os livros de vampiros. O público- leitor jovem aprovou e aderiu.

* Os meus louros literários  vão para o poeta Manoel de Barros, o maior poeta brasileiro da atualidade.

“Não tenho bens de acontecimentos.

O que não sei fazer desconto nas palavras.

Entesouro frases. Por exemplo:

– Imagens são palavras que nos faltaram.

– Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.

– Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.”

FELIZ 2010!!!