Os Natais de Fernando Pessoa

A ceia de Natal em Portugal chama- se “consoada”, de “consolar”. O prato principal, normalmente, é o bacalhau com ovos e couves regado com muito azeite de oliva. De sobremesa, o bolo rei e as rabanadas.

Apesar dessa data ser feliz para muita gente por causa das reuniões familiares, dos comes e bebes, além da troca de presentes, outros tantos consideram a data triste.

Deixo alguns poemas de Fernando Pessoa sobre o Natal. Curiosa a visão nostálgica e pessimista do autor sobre esta data. Definitivamente, não parecia ser a preferida de Pessoa, veja:

Natal na Província

Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

Chove. É dia de Natal

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal.
E o frio que ainda é pior.
E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.
Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.
Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Natal

O sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro de minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Natal

Nasce um deus. Outros morrem.
A Verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.
Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.

Espero que o seu Natal seja bem mais feliz do que foram para a voz poética do poema (que pode ser o alter ego de Fernando).

O fim de ano do Falando em Literatura…

Claro que eu tinha que vir desejar um feliz Natal a todos que passaram pelo Falando em Literatura neste ano de 2017!

boneco1

Desejo, amigo e amiga, grandes esperanças para 2018 e muita tranquilidade, já que Paris não acaba nunca. Muitas viagens no ano que entra, mas não passe a camisa do marido, deixe que ele mesmo faça isso, isso é coisa de 1984, ou de antes, ninguém deve ser mais a escrava Isaura. E não tenha medo de cem anos de solidão, isto é só para quem é oco por dentro, não é o nosso caso, claro. Mas, quem sofrer de solidão, sempre é hora de ir em busca do tempo perdido. Claro que todo mundo deseja e merece um mundo feliz. Comigo na distância, eu sei, é um pouco difícil, fazer o quê?! Ficar perto do coração selvagem nem sempre é fácil, mas o amor é deste mundo e do outro, sempre prevalece. Também desejo que o nosso país se torne a república dos sonhos, já que o Brasil, país de futuro, vai tomar o rumo correto (vamos, sem demora!). Essa terra, apesar dos problemas, é feita por gente forte, de fé e trabalhadora, uma gente feliz com lágrimas. Lágrimas essas, só de alegria (assim deve ser!).

E não esqueçam: olhai os lírios do campo, respirem, olhem e cuidem da natureza, de vocês mesmos, façam das suas casas, a casa da paixão, do amor, das boas energias…vamos deixar em 2017 o que não serve e entrar 2018 novinhos em folha. É a última semana para fazer essa limpeza emocional (e da casa).

Em 2018, mais e melhor! Boas festas!

Ps: Semana que vem eu volto para contar sobre os vinte livros que selecionei para resenhar no ano que vem. 😉

 

Falando em Literatura…férias!

Devido à intensa atividade pessoal/profissional no ano de 2016 dessa blogueira que vos fala, não foram postadas todas as resenhas que eu pretendia para esse ano. Li muito, mas de forma desordenada, fragmentada, há vários rascunhos que pretendo terminar depois das férias. De todas as formas, você pode ler aqui as que foram postadas. Há também as resenhas de Rômulo Pessanha, colaborador.

O blog dobrou a quantidade de visualizações, ultrapassamos 1 milhão de visitantes. Comentários muito bacanas, sugestões e algum que outro hater. Sim, até em blog literário eles aparecem. Eu? Dou risada. Aos bons, a grande maioria, obrigada pela leitura e companhia.

Comecei um projeto em Madri, que levou o mesmo nome do blog, foram oito oficinas literárias patrocinadas pelo Ministério de Relações Exteriores do Brasil, parte do programa de incentivo da língua e cultura brasileira no exterior. Foi extremamente gratificante!

Algumas pessoas pediram pra atualizar as músicas (que ficam na barra lateral de todos os posts). Coisa que pretendo fazer em breve.

Encerro por aqui as atividades do blog, mas nas redes sociais ainda vou aparecer até o final do ano. Se você não me acompanha, vai lá no Instagram, no Twitter, no Facebook ou no Snapchat: falandoemlitera, sempre tem novidades!

A literatura faz parte de mim. As duas coisas que mais me motivam na vida: a literatura e o amor.  Por essas coisas infinitas, eu perco os temores e enfrento qualquer coisa. Que assim seja.

Então…nos vemos no ano que vem?

Felizes festas, feliz 2017!

Então é Natal!

O ano de 2015 não foi o meu melhor ano de leituras, nem em quantidade, nem em qualidade. O meu propósito para 2016 é terminar a leitura de “Dom Quixote”, sem isso não vou pegar outros livros. E bato o pé: Cervantes ou nada!

Esse é o final de ano mais atarefado, acho, de toda a minha vida. Talvez sejam os dias mais tranquilos para a maioria (a não ser para muitas mães que fazem comida para um batalhão), mas para mim está sendo o contrário. Nem podia, mas tive que vir aqui desejar boas festas aos amigos (até os inimigos), colaboradores (obrigada Gerson, Elton e Rômulo!) e leitores do Falando em Literatura, que é o meu xodó, minha alegria, meu tesouro. Por nada eu deixo esse blog, tem uma coleção de beleza aqui, que pode não ter valor financeiro, mas me enche de alegria, aqui me sinto em casa.

Eu volto em 2016 cheia de projetos, como o Falando em Literatura TV (quem não se inscreveu, se inscreve lá no Youtube, só posso escolher o link quando tiver 100 inscritos, fora que assim você não perde o primeiro mico- quer dizer- vídeo. Falta terminar de editar, está quase, quase pronto. Dá um medinho, aqui estou menos exposta, mas ainda assim vou tentar entrar em contato com um público diferente e tentar trazer mais alguns para o lado da luz, ou seja, a Literatura.

Obrigada pela companhia nesse ano que está quase no fim. Em 2016 já entramos no 8º ano desse blog literário, uma verdadeira façanha dentro desse mundo virtual tão fugaz. Em parte, “a culpa” é de vocês, que estimulam e me fazem companhia.

Um feliz Natal! Um 2016 maravilhoso!

Vinte dicas de livros para o Natal, “whish list”.

Quer presentear (ou receber) livros de Natal e não sabe qual escolher? Então segue uma lista de livros com edições incríveis, especiais, para agradar todos os gostos. Todos eles você pode comprar online:

Da Livraria Cultura (Brasil) selecionei esses boxes e edições especiais:

1. Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, em forma de novela gráfica. O texto original foi preservado.

SINOPSE
O principal romance da literatura brasileira do século XX ganha adaptação inédita em graphic novel, preservando o texto de Guimarães Rosa, considerado um dos maiores escritores nacionais. Riobaldo recebe um visitante em sua fazenda para quem conta sua história. As memórias do narrador vão de sua infância até as reviravoltas do destino que o levaram a se tornar um jagunço. Envolve-se com Zé Bebelo, que pretendia pacificar o sertão, e em guerras entre os bandos de Hermógenes e Joca Ramiro. Riobaldo atravessa a vastidão do sertão ao lado de Diadorim, participando de disputas por riqueza e vingança. A graphic novel respeita a complexidade de Grande Sertão – Veredas. Com roteiro do diretor de cinema Eloar Guazzeli, a obra transpõe cenas de batalhas surpreendentes para os quadrinhos, dando um ritmo cinematográfico. O ilustrador Rodrigo Rosa não se limita a retratar as paisagens do sertão, mas explora os seus contrastes, a natureza se torna um elemento narrativo, que compõe o clima do romance gráfico. A adaptação convida os fãs do romance a redescobri-lo e apresenta aos novos leitores a grandeza dessa obra. Outro destaque da edição é o projeto gráfico, concebido para uma tiragem limitada. O livro é protegido por uma luva de acetato vermelho e fora dela, um trecho do livro se revela na capa. Além disso, o volume tem a lombada solta, e artesanal, de forma que a ilustração da capa possa ser vista por inteiro e expondo detalhes como a lombada e a costura dos cadernos.Alice no País das Maravilhas, edição comemorativa dos 15o anos (2 volumes).

42749000

Link para o livro aqui.

2. Alice no País das Maravilhas:

SINOPSE
Era uma vez uma garotinha que dormitava ao lado da irmã quando de repente viu passar um coelho branco de ar apressado, que tirou um relógio do colete, exclamou “Vou chegar muito atrasado!” e assim deu início às extraordinárias Aventuras de Alice no País das Maravilhas. Publicado há exatos 150 anos, o clássico de Lewis Carroll não perdeu nada de seu poder de encantar e intrigar as crianças e os adultos dispostos a acompanhar a jovem heroína, seja nesse País das Maravilhas em que parecem abolidas as regras, fronteiras e proporções, seja no enigmático mundo que se descortina no segundo volume, Através do espelho e o que Alice encontrou lá. Para celebrar o primeiro século e meio de Alice, a Editora 34 e a Coleção Fábula relançam a tradução integral do poeta Sebastião Uchoa Leite, com diversos poemas traduzidos por Augusto de Campos e com as 92 ilustrações originais de John Tenniel.42893816_9_G     Link para o livro, clique aqui.  

3. Trilogia Star Wars:

SINOPSE
As histórias clássicas de Luke Skywalker, Han Solo, Princesa Leia, Mestre Yoda e Darth Vader vão ganhar as páginas luxuosas de ‘Star Wars – A Trilogia’. Este livro reúne os romances inspirados nos três primeiros filmes do universo fantástico criado por George Lucas – Uma Nova Esperança, O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi.

star

Link para os livros, clique aqui.

4. A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, edição comemorativa dos 50 anos.

SINOPSE
Romance original, desprovido das características próprias do gênero, ‘A paixão segundo G.H.’ conta, através de um enredo banal, o pensar e o sentir de G.H., a protagonista-narradora que despede a empregada doméstica e decide fazer uma limpeza geral no quarto de serviço, que ela supõe imundo e repleto de inutilidades. Após recuperar-se da frustração de ter encontrado um quarto limpo e arrumado, G.H. depara-se com uma barata na porta do armário. Depois do susto, ela esmaga o inseto e decide provar seu interior branco, processando-se, então, uma revelação. G.H. sai de sua rotina civilizada e lança-se para fora do humano, reconstruindo-se a partir desse episódio. A protagonista vê sua condição de dona de casa e mãe como uma selvagem. Clarice escreve – ‘Provação significa que a vida está me provando. Mas provação significa também que estou provando. E provar pode ser transformar numa sede cada vez mais insaciável.’

42744492

Link para o livro, clique aqui.

5. Obras completas de José Saramago (dois volumes):

Os dois volumes incluem: 1º, Coleção de livros do autor José Saramago. Inclui os títulos ‘Memorial do convento’, ‘Levantado do chão’, ‘Manual de pintura e caligrafia’, ‘O ano de 1993’ e ‘As pequenas memórias’; 2º,  Inclui os títulos ‘Ensaio sobre a cegueira’, ‘Ensaio sobre a lucidez’, ‘Que farei com este livro?’, ‘In nomine dei’ e ‘Don Giovanni’.

42746390

Link para o primeiro volume.

Link para o segundo volume.

6. Histórias da Literatura Ocidental, de Otto Maria Carpeaux, 10 livros (alguém poderia me dar essa coleção de presente!) 🙂

SINOPSE
Depois da publicação de História da Literatura Ocidental em quatro volumes, a Leya lança agora a produção de Otto Maria Carpeaux em uma caixa que contém sua mais famosa obra em dez volumes menores, no formato bolso. Da literatura grega à contemporânea (Carpeaux constrói sua narrativa até a década de 1970), o autor tece suas críticas em um estilo completamente único. Seu tão aclamado eruditismo nos leva ao conhecimento dos mais importantes autores da literatura ocidental. Conteúdo da obra por volume; História da Literatura Ocidental, volume 1 – Dos gregos e romanos ao primeiro século do cristianismo; (dimensão 17x12x0,02; peso 0,15 gramas páginas 160) História da Literatura Ocidental, volume 2 – A fundação da Europa, o universalismo cristão, a literatura dos castelos e das aldeias, o Trecento (Dante, Petrarca, Boccaccio), o realismo e o misticismo medievais; (dimensão 17x12x0,02; peso 0,200 gramas; páginas 250) História da Literatura Ocidental, volume 3 – Os humanistas italianos e a literatura renascentista europeia, os humanistas cristãos e a reforma; (dimensão 17x12x0,04; peso 0,200 gramas; páginas 304) História da Literatura Ocidental, volume 4 – Poesia e teatro da contrarreforma, pastorais, epopeias e romance picaresco, o barroco protestante, a literatura oposicionista; (dimensão 17x12x0,05; peso 0,200 gramas; páginas 576) História da Literatura Ocidental, volume 5 – As origens neobarrocas, o arcadismo, o classicismo racionalista, o pré-romantismo, os enciclopedistas, o último classicismo; (dimensão 17x12x0,06; peso 0,300 gramas; páginas 560) História da Literatura Ocidental, volume 6 – Das origens do romantismo ao fim do movimento – o evasionismo, o byronismo, os radicais e utopistas; (dimensão 17x12x0,06; peso 0,300 gramas; páginas 496) História da Literatura Ocidental, volume 7 – O romance burguês, darwinismo e fatalismo, o romance psicológico, o século XIX; (dimensão 17x12x0,07; peso 0,350 gramas; páginas 528) História da Literatura Ocidental, volume 8 – O simbolismo, o fim do século XIX, a época do equilíbrio europeu (1900 a 1914). Nietzsche, Oscar Wilde, Mallarmé, Rimbaud e outros; (dimensão 17x12x0,07; peso 0,350 gramas; páginas 528) História da Literatura Ocidental, volume 9 – As vanguardas europeias, as revoltas modernistas, a I Guerra Mundial. Freud, Joyce, Proust, O’Neill, Franz Kafka, entre outros; (dimensão 17x12x0,04; peso 0,200 gramas; páginas 288) História da Literatura Ocidental, volume 10 – A literatura contemporânea, o existencialismo, a II Guerra Mundial e suas consequências. Saint-Exupéry, George Orwell, Camus, Calvino, Gabriel García Márquez, Cortázar, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa e outros autores; (dimensão 17x12x0,04; peso 0,200 gramas; páginas 336)

42691645_2_G

Link para a caixa (não se esqueçam de mim!) 🙂

Da Livraria Saraiva, Brasil, selecionei esses livros:

7.  O mochileiro das galáxias (5 livros). Esse é para a galera geek- nerd e afins:

É uma série que surgiu na década de 70, do escritor e comediante inglês Douglas Adams. Ele era roteirista de Monty Phython e acabou virando uma obra de culto. (Quem quiser e dar de presente também aceito!). 🙂

imagem.aspx

Link para a coleção.

8. Poesias completas de Mário de Andrade. (Esse também pode me enviar numa boa!):

Descrição
Em 1943, no plano de suas Obras Completas, que Mário de Andrade polígrafo (1893-1945) arma para a Livraria Martins Editora, Poesias completas deveria ampliar o conteúdo de Poesias, seleta que, em 1941, revisita os títulos publicados no modernismo da década de 1920 – Pauliceia desvairada (1922), Losango cáqui (1926), Clã do jabuti (1927) –, e em 1930, Remate de males, trazendo também os inéditos “A costela do Grã Cão” e “Livro azul”. Poesias completas abrangeria a integralidade dos livros até 1930, os inéditos divulgados em 1941 e novos inéditos como O carro da Miséria. Apenas em 1955, dez anos após a morte do autor, a obra se concretiza. A presente edição de Poesias completas busca restituir, nos textos apurados mediante o confronto com edições em vida e manuscritos, o projeto original de Mário de Andrade para esse livro. Anotada e acrescida de documentos, contribui vivamente para a história da literatura no Brasil.

imagem.aspx

Link para a coleção.

Da Livraria Submarino, Brasil, selecionei esses livros:

9. Box Jane Austen Bilíngue – Português/Inglês:

Jane Austen foi uma das maiores escritoras de romances do mundo. Considerada uma das responsáveis pela grande aceitação do gênero entre as mulheres, suas obras sempre lidam o lado feminino da burguesia inglesa de seu tempo.

A obra desta aclamada escritora tem sido constantemente adaptada para o teatro, cinema e televisão; nos meios acadêmicos, tem gerado abundantes e fecundos estudos de sua dimensão estética, sociológica e histórica; em vários países, inclusive o Brasil, são-lhe dedicados ativos e entusiasmados fã-clubes; e, na web, há um número assombroso de paginas que remetem a Jane Austen.

Este Box Jane Austen conta com grandes clássicos da escritora, obras que também entraram para o cânone dos melhores livros em literatura inglesa. Todos os livros são em edição bilíngue, e você pode acompanhar o original em inglês e aprofundar ainda mais seus conhecimentos sobre língua e literatura inglesa.

7444861GG

Link para o box.

10. Box Clássicos Zahar Edições Bolso de Luxo, que Brilham no Escuro II. Lindos!

119804751_1GG

Link para os livros.

11. Coleção O Tempo e o vento (7 Livros), quero!

Os sete volumes da trilogia O tempo e o vento agora reunidos numa caixa. São 150 anos de história do Brasil protagonizados por personagens inesquecíveis, como a forte Ana Terra e o valente capitão Rodrigo Cambará. As disputas familiares, as brigas pelo poder e as guerras civis são narradas por Erico Verissimo nesta que é uma das mais célebres sagas da literatura brasileira.
Todos os volumes trazem ilustrações de Paulo von Poser e uma cronologia que relaciona fatos históricos a acontecimentos ficcionais da trilogia e a dados biográficos de Erico Verissimo.

A caixa contém:
– O Continente: Vols. 1 e 2
– O Retrato: Vols. 1 e 2
– O Arquipélago: Vols. 1, 2 e 3

7045193_1GG

Link para a coleção.

Da Estante Virtual (Brasil), eu selecionei toda a obra de Autran Dourado, um dos autores que vou resenhar em 2016:

opera-dos-mortos-pelo-cc3adrculo-do-livro

Link para os livros.

Da Bertrand Livreiros (Portugal), eu selecionei:

12. Pack Peanuts de Charles M. Schulz (Eu amo a turma do Snoopy!)

Uma das mais famosas tiras cómicas da história aclamadas pelo público leitor de todo o mundo. As personagens de Charles M. Schulz – Charlie Brown, Snoopy, Lucy, Linus, Schroeder e muitos outros – tornaram-se ícones mundiais. Em 1999, um júri americano de peritos em comics afirmou os Peanuts como as segundas melhores tiras cómicas do século XX. Em 2002, um estudo identificou os Peanuts como um cartoon reconhecido por 94% do total do público leitor americano, sendo apenas suplantados pelo rato Mickey. Os Peanuts nasceram em 1950 e foram publicados em cerca de 2600 jornais e em 21 línguas diferentes. No volume 5 editam-se-se as tiras publicadas em 1959 e 1960 e no volume 6 editam-se-se as tiras publicadas em 1961 e 1962.

eanu

Link para o pack.

13. Pack Grandes Thrillers, para quem gosta de suspense.

A um preço imbatível, a editor reúne três obras em que os leitores irão ser arrebatados pela intriga, acção, suspense e enredos apaixonantes. O Codex Maia de Douglas Preston, um thriller arqueológico fascinante com um clímax de cortar a respiração, O Falsificador de Da Vinci de Thomas Swan, um mistério verdadeiramente emocionante sobre o mercado internacional de arte, e O Prestígio de Christopher Priest, uma história sobre segredos obsessivos e uma rivalidade levada ao extremo por dois mágicos do século passado. Três thrillers soberbos com histórias inesquecíveis, agora disponíveis num pack a que o leitor não ficará indiferente.

image

Link para o pack.

Da Livraria Wook (Portugal), gostei dessa edição:

14. Edição comemorativa do quarto centenário da publicação de “Os Lusíadas”:

Obra editada no IV centenário da publicação da obra. Desenhos originais de Gouvêa Portuense, prefaciada pelo Professor Doutor Manuel Lopes de Almeida Obra encadernada. Ilustrada ao longo das suas 1102 estâncias com cerca de 1500 Iluminuras, impressas a 9 cores.
As dez aberturas do Poema foram pintadas, numa alusão ao canto.
Texto fac-similado, em homenagem à primeira edição.

oos

Link para o livro.

Da Livraria La Central (Espanha), escolhi esses livros:

15. “Mi planta de naranja lima”, de José Mauro de Vasconcelos. O nosso Zezé em espanhol.

De mayor Zezé quiere ser poeta y llevar corbata de lazo, pero de momento es un niño brasileño de cinco años que se abre a la vida. En su casa es un trasto que va de travesura en travesura y no recibe más que reprimendas y tundas; en el colegio es un ángel con el corazón de oro y una imaginación desbordante que tiene encandilado a su maestra. Pero para un niño como él, inteligente y sensible, crecer en una familia pobre no siempre es fácil; cuando está triste, Zezé se refugia en su amigo Minguinho, un arbolito de naranja lima, con quien comparte todos sus secretos, y en el Portugués, dueño del coche más bonito del barrio. Publicada por primera vez en 1968, Mi planta de naranja lima es la emocionante historia de un niño al que la vida hará adulto precozmente. En esta novela, José Mauro de Vasconcelos recreó sus recuerdos de infancia en el barrio carioca de Bangú con un lirismo y una ternura que cautivaron a los lectores desde su aparición y que la han convertido en uno de los libros más leídos de la literatura brasileña contemporánea.

sA_MiPlantaDeNaranjaLima_Vasconcelos

Link para o livro.

Da Livraria Pasajes (Espanha), recomendo estes:

16. O livro do desassossego, de Fernando Pessoa.

O «Livro do Desassossego é um dos maiores feitos literários do século XX. Obra-prima póstuma, retrato da cidade de Lisboa e do seu retratista, compõe-se de centenas de fragmentos, oscilando entre diário íntimo, prosa poética e narrativa, num conjunto fundamental para compreender o lugar de Fernando Pessoa na criação da consciência do mundo moderno.
Jerónimo Pizarro, reconhecido estudioso pessoano, regressa às fontes dos textos que Fernando Pessoa pretendia incorporar no «Livro do Desassossego e redefine o cânone da sua autoria. Com uma nova organização e aperfeiçoando a decifração de quase todos os fragmentos, este livro reúne os atributos para se tornar a edição de referência.

_visd_0001JPG06W0K

Link para o livro.

17. A chinela turca, contos fantásticos de Machado de Assis.

Os contos fantásticos de Machado de Assis, bem pautados pelo estilo francês, concentram o teor mágico e insólito das suas narrativas no elemento onírico. É por meio do sonho, loucura, delírios ou alucinações que os protagonistas se defrontam com aparições fantasmagóricas, aventuras inacreditáveis, ameaças de morte, encontros com cientistas insanos e viagens astrais. Geralmente o enredo tem início em ambientes verosímeis, que em nada remetem ao surreal. E dessa forma Machado conduziu muito bem os seus textos deste teor. Vivendo num mundo crível, monótono e enraizado no quotidiano, os protagonistas são repentinamente lançados em ambientes mágicos, maravilhosos, e que fogem das leis normais da compreensão humana, como em A Chinela Turca, conto que dá título a este livro.

_visd_0001JPG08BCB

Link para o livro.

Da Fnac Brasil, escolhi esses:

18. Os melhores contos brasileiros de todos os tempos, seleção de Flávio Moreira da Costa.

Espero que a seleção corresponda ao título. Sempre é bom ter uma coletânea de bons textos.

218-522775-0-5-os-melhores-contos-brasileiros-de-todos-os-tempos

Link para o livro.

19. Miguel Angelo – Obra completa. Para o pessoal que aprecia Arte:

Resenha
Before reaching the tender age of thirty, Michelangelo Buonarroti (1475-1564) had already sculpted David and Pièta, two of the most famous sculptures in the entire history of art. Like fellow Florentine Leonardo da Vinci, Michelangelo was a shining star of the Renaissance and a genius of consummate virtuosity. His achievements as a sculptor, painter, draughtsman, and architect are unique—no artist before or after him has ever produced such a vast, multi-faceted, and wide-ranging oeuvre. Only a handful of other painters and sculptors have attained a comparable social status and enjoyed a similar artistic freedom. This is demonstrated not only by the frescoes of the Sistine Chapel but also by Michelangelo’s monumental sculptures and his unconventional architectural designs, whose forms went far beyond the accepted vocabulary of his day. Such was his talent that Michelangelo was considered a demigod by his contemporaries and was the subject of two biographies during his lifetime. Adoration of this remarkable man’s work has only increased on the intervening centuries. Following the success of our XL title Leonardo da Vinci, TASCHEN brings you this massive tome that explores Michelangelo’s life and work in more depth and detail than ever before. The first part concentrates on the life of Michelangelo via an extensive and copiously illustrated biographical essay; the main body of the book presents his work in four parts providing a complete analytical inventory of Michelangelo’s paintings, sculptures, buildings and drawings. Grorgeous, full page reproductions and enlarged details bring readers up close to the works. This sumptuous tome also takes account, to a previously unseen extent, of Michelangelo’s more personal traits and circumstances, such as his solitary nature, his thirst for money and commissions, his miserliness, his immense wealth, and his skill as a property investor. In addition, the book tackles the controversial issue of the attribution of Michelangelo drawings, an area in which decisions continue to be steered by the interests of the art market and the major collections. This is the definitive volume about Michelangelo for generations to come.

5-6029-0-5-miguel-angelo-obra-completa

Link para o livro.

E o último da livraria Iberlibro (Espanha):

20. El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha ilustrado por Dalí. Esse custa 8.900 euros!

Edição limitada com 993 exemplares ilustrados por Salvador Dalí.

214198

Link para o livro mais caro da lista.


 

Gostou da lista? Espero que ela te sirva de inspiração.

Um feliz Natal a todos!

Coloque na sua lista de presentes livros de bons autores nacionais e dê às pessoas que você ama. Presentear literatura é uma forma de amor.

navidad-60-1024x768-329Última semana do ano, mil leituras ao mesmo tempo e nenhuma resenha pronta. Vamos ver se pelo menos uma consigo terminar até o fim do ano.

Que o Natal sirva para reunir a família, para perdoar, para renascer e repensar, para renovar esperanças, para sonhar mais e melhor, para agradecer e também aceitar o que não conseguimos entender ou modificar. Dia 25 faz aniversário uma “pessoa” que mudou a história da humanidade para todo o sempre, para quem acredita ou não. Que a história desse ser especial nos sirva de espelho para mudar a nossa própria história para melhor.

Feliz Natal!

Feliz Aniversário, de Clarice Lispector

Nesse Natal, desejo a todos os leitores que me acompanharam nesse ano, muita leitura, além de saúde, paz, prosperidade e amor verdadeiro! Que as relações familiares sejam, efetivamente, de amor e interesse mútuo, não só por convenções sociais, como nesse texto da Clarice:

árbol-de-navidad-realizado-con-libros

Feliz Aniversário

A família foi pouco a pouco chegando. Os que vieram de Olaria estavam muito bem vestidos porque a visita significava ao mesmo tempo um passeio a Copacabana. A nora de Olaria apareceu de azul-marinho, com enfeite de paetês e um drapeado disfarçando a barriga sem cinta. O marido não veio por razões óbvias: não queria ver os irmãos. Mas mandara sua mulher para que nem todos os laços fossem cortados — e esta vinha com o seu melhor vestido para mostrar que não precisava de nenhum deles, acompanhada dos três filhos: duas meninas já de peito nascendo, infantilizadas em babados cor-de-rosa e anáguas engomadas, e o menino acovardado pelo terno novo e pela gravata.

Tendo Zilda — a filha com quem a aniversariante morava — disposto cadeiras unidas ao longo das paredes, como numa festa em que se vai dançar, a nora de Olaria, depois de cumprimentar com cara fechada aos de casa, aboletou-se numa das cadeiras e emudeceu, a boca em bico, mantendo sua posição de ultrajada. “Vim para não deixar de vir”, dissera ela a Zilda, e em seguida sentara-se ofendida. As duas mocinhas de cor-de-rosa e o menino, amarelos e de cabelo penteado, não sabiam bem que atitude tomar e ficaram de pé ao lado da mãe, impressionados com seu vestido azul-marinho e com os paetês.

Depois veio a nora de Ipanema com dois netos e a babá. O marido viria depois. E como Zilda — a única mulher entre os seis irmãos homens e a única que, estava decidido já havia anos, tinha espaço e tempo para alojar a aniversariante — e como Zilda estava na cozinha a ultimar com a empregada os croquetes e sanduíches, ficaram: a nora de Olaria empertigada com seus filhos de coração inquieto ao lado; a nora de Ipanema na fila oposta das cadeiras fingindo ocupar-se com o bebê para não encarar a concunhada de Olaria; a babá ociosa e uniformizada, com a boca aberta.

E à cabeceira da mesa grande a aniversariante que fazia hoje oitenta e nove anos.

Zilda, a dona da casa, arrumara a mesa cedo, enchera-a de guardanapos de papel colorido e copos de papelão alusivos à data, espalhara balões sungados pelo teto em alguns dos quais estava escrito “Happy Birthday!”, em outros “Feliz Aniversário!”  No centro havia disposto o enorme bolo açucarado. Para adiantar o expediente, enfeitara a mesa logo depois do almoço, encostara as cadeiras à parede, mandara os meninos brincar no vizinho para não desarrumar a mesa.

E, para adiantar o expediente, vestira a aniversariante logo depois do almoço. Pusera-lhe desde então a presilha em torno do pescoço e o broche, borrifara-lhe um pouco de água-de-colônia para disfarçar aquele seu cheiro de guardado — sentara-a à mesa. E desde as duas horas a aniversariante estava sentada à cabeceira da longa mesa vazia, tesa na sala silenciosa.

De vez em quando consciente dos guardanapos coloridos. Olhando curiosa um ou outro balão estremecer aos carros que passavam. E de vez em quando aquela angústia muda: quando acompanhava, fascinada e impotente, o vôo da mosca em torno do bolo.

Até que às quatro horas entrara a nora de Olaria e depois a de Ipanema.

Quando a nora de Ipanema pensou que não suportaria nem um segundo mais a situação de estar sentada defronte da concunhada de Olaria — que cheia das ofensas passadas não via um motivo para desfitar desafiadora a nora de Ipanema — entraram enfim José e a família. E mal eles se beijavam, a sala começou a ficar cheia de gente que ruidosa se cumprimentava como se todos tivessem esperado embaixo o momento de, em afobação de atraso, subir os três lances de escada, falando, arrastando crianças surpreendidas, enchendo a sala — e inaugurando a festa.

Os músculos do rosto da aniversariante não a interpretavam mais, de modo que ninguém podia saber se ela estava alegre. Estava era posta á cabeceira. Tratava-se de uma velha grande, magra, imponente e morena. Parecia oca.

— Oitenta e nove anos, sim senhor! disse José, filho mais velho agora que Jonga tinha morrido. — Oitenta e nove anos, sim senhora! disse esfregando as mãos em admiração pública e como sinal imperceptível para todos.

Todos se interromperam atentos e olharam a aniversariante de um modo mais oficial. Alguns abanaram a cabeça em admiração como a um recorde. Cada ano vencido pela aniversariante era uma vaga etapa da família toda. Sim senhor! disseram alguns sorrindo timidamente.

— Oitenta e nove anos!, ecoou Manoel que era sócio de José. É um brotinho!, disse espirituoso e nervoso, e todos riram, menos sua esposa.

A velha não se manifestava.

Alguns não lhe haviam trazido presente nenhum. Outros trouxeram saboneteira, uma combinação de jérsei, um broche de fantasia, um vasinho de cactos — nada, nada que a dona da casa pudesse aproveitar para si mesma ou para seus filhos, nada que a própria aniversariante pudesse realmente aproveitar constituindo assim uma economia: a dona da casa guardava os presentes, amarga, irônica.

— Oitenta e nove anos! repetiu Manoel aflito, olhando para a esposa.

A velha não se manifestava.

Então, como se todos tivessem tido a prova final de que não adiantava se esforçarem, com um levantar de ombros de quem estivesse junto de uma surda, continuaram a fazer a festa sozinhos, comendo os primeiros sanduíches de presunto mais como prova de animação que por apetite, brincando de que todos estavam morrendo de fome. O ponche foi servido, Zilda suava, nenhuma cunhada ajudou propriamente, a gordura quente dos croquetes dava um cheiro de piquenique; e de costas para a aniversariante, que não podia comer frituras, eles riam inquietos. E Cordélia? Cordélia, a nora mais moça, sentada, sorrindo.

— Não senhor! respondeu José com falsa severidade, hoje não se fala em negócios!

— Está certo, está certo! recuou Manoel depressa, olhando rapidamente para sua mulher que de longe estendia um ouvido atento.

— Nada de negócios, gritou José, hoje é o dia da mãe!

Na cabeceira da mesa já suja, os copos maculados, só o bolo inteiro — ela era a mãe. A aniversariante piscou os olhos.

E quando a mesa estava imunda, as mães enervadas com o barulho que os filhos faziam, enquanto as avós se recostavam complacentes nas cadeiras, então fecharam a inútil luz do corredor para acender a vela do bolo, uma vela grande com um papelzinho colado onde estava escrito “89”. Mas ninguém elogiou a idéia de Zilda, e ela se perguntou angustiada se eles não estariam pensando que fora por economia de velas — ninguém se lembrando de que ninguém havia contribuído com uma caixa de fósforos sequer para a comida da festa que ela, Zilda, servia como uma escrava, os pés exaustos e o coração revoltado. Então acenderam a vela. E então José, o líder, cantou com muita força, entusiasmando com um olhar autoritário os mais hesitantes ou surpreendidos, “vamos! todos de uma vez!” — e todos de repente começaram a cantar alto como soldados. Despertada pelas vozes, Cordélia olhou esbaforida. Como não haviam combinado, uns cantaram em português e outros em inglês. Tentaram então corrigir: e os que haviam cantado em inglês passaram a português, e os que haviam cantado em português passaram a cantar bem baixo em inglês.

Enquanto cantavam, a aniversariante, à luz da vela acesa, meditava como junto de uma lareira.

Escolheram o bisneto menor que, debruçado no colo da mãe encorajadora, apagou a chama com um único sopro cheio de saliva! Por um instante bateram palmas à potência inesperada do menino que, espantado e exultante, olhava para todos encantado. A dona da casa esperava com o dedo pronto no comutador do corredor – e acendeu a lâmpada.

— Viva mamãe!

— Viva vovó!

— Viva D. Anita, disse a vizinha que tinha aparecido.

—  Happy birthday! gritaram os netos, do Colégio Bennett.

Bateram ainda algumas palmas ralas.

A aniversariante olhava o bolo apagado, grande e seco.

— Parta o bolo, vovó! disse a mãe dos quatro filhos, é ela quem deve partir! assegurou incerta a todos, com ar íntimo e intrigante. E, como todos aprovassem satisfeitos e curiosos, ela se tornou de repente impetuosa: — parta o bolo, vovó!

E de súbito a velha pegou na faca. E sem hesitação , como se hesitando um momento ela toda caísse para a frente, deu a primeira talhada com punho de assassina.

— Que força, segredou a nora de Ipanema, e não se sabia se estava escandalizada ou agradavelmente surpreendida. Estava um pouco horrorizada.

— Há um ano atrás ela ainda era capaz de subir essas escadas com mais fôlego do que eu, disse Zilda amarga.

Dada a primeira talhada, como se a primeira pá de terra tivesse sido lançada, todos se aproximaram de prato na mão, insinuando-se em fingidas acotoveladas de animação, cada um para a sua pazinha.

Em breve as fatias eram distribuídas pelos pratinhos, num silêncio cheio de rebuliço. As crianças pequenas, com a boca escondida pela mesa e os olhos ao nível desta, acompanhavam a distribuição com muda intensidade. As passas rolavam do bolo entre farelos secos. As crianças angustiadas viam se desperdiçarem as passas, acompanhavam atentas a queda.

E quando foram ver, não é que a aniversariante já estava devorando o seu último bocado?

E por assim dizer a festa estava terminada. Cordélia olhava ausente para todos, sorria.

— Já lhe disse: hoje não se fala em negócios! respondeu José radiante.

— Está certo, está certo! recolheu-se Manoel conciliador sem olhar a esposa que não o desfitava. Está certo, tentou Manoel sorrir e uma contração passou-lhe rápido pelos músculos da cara.

— Hoje é dia da mãe! disse José.

Na cabeceira da mesa, a toalha manchada de coca-cola, o bolo desabado, ela era a mãe. A aniversariante piscou. Eles se mexiam agitados, rindo, a sua família. E ela era a mãe de todos. E se de repente não se ergueu, como um morto se levanta devagar e obriga mudez e terror aos vivos, a aniversariante ficou mais dura na cadeira, e mais alta. Ela era a mãe de todos. E como a presilha a sufocasse, ela era a mãe de todos e, impotente à cadeira, desprezava-os. E olhava-os piscando. Todos aqueles seus filhos e netos e bisnetos que não passavam de carne de seu joelho, pensou de repente como se cuspisse. Rodrigo, o neto de sete anos, era o único a ser a carne de seu coração, Rodrigo, com aquela carinha dura, viril e despenteada. Cadê Rodrigo? Rodrigo com olhar sonolento e intumescido naquela cabecinha ardente, confusa. Aquele seria um homem. Mas, piscando, ela olhava os outros, a aniversariante. Oh o desprezo pela vida que falhava. Como?! como tendo sido tão forte pudera dar á luz aqueles seres opacos, com braços moles e rostos ansiosos? Ela, a forte, que casara em hora e tempo devidos com um bom homem a quem, obediente e independente, ela respeitara; a quem respeitara e que lhe fizera filhos e lhe pagara os partos e lhe honrara os resguardos. O tronco fora bom. Mas dera aqueles azedos e infelizes frutos, sem capacidade sequer para uma boa alegria. Como pudera ela dar à luz aqueles seres risonhos, fracos, sem austeridade? O rancor roncava no seu peito vazio. Uns comunistas, era o que eram; uns comunistas. Olhou-os com sua cólera de velha. Pareciam ratos se acotovelando, a sua família. Incoercível, virou a cabeça e com força insuspeita cuspiu no chão.

— Mamãe! gritou mortificada a dona da casa. Que é isso, mamãe! gritou ela passada de vergonha, e não queria sequer olhar os outros, sabia que os desgraçados se entreolhavam vitoriosos como se coubesse a ela dar educação à velha, e não faltaria muito para dizerem que ela já não dava mais banho na mãe, jamais compreenderiam o sacrifício que ela fazia. — Mamãe, que é isso! — disse baixo, angustiada. — A senhora nunca fez isso! — acrescentou alto para que todos ouvissem, queria se agregar ao espanto dos outros, quando o galo cantar pela terceira vez renegarás tua mãe. Mas seu enorme vexame suavizou-se quando ela percebeu que eles abanavam a cabeça como se estivessem de acordo que a velha não passava agora de uma criança.

— Ultimamente ela deu pra cuspir, terminou então confessando contrita para todos.

Todos olharam a aniversariante, compungidos, respeitosos, em silêncio.

Pareciam ratos se acotovelando, a sua família. Os meninos, embora crescidos — provavelmente já além dos cinqüenta anos, que sei eu! — os meninos ainda conservavam os traços bonitinhos. Mas que mulheres haviam escolhido! E que mulheres os netos — ainda mais fracos e mais azedos — haviam escolhido. Todas vaidosas e de pernas finas, com aqueles colares falsificados de mulher que na hora não agüenta a mão, aquelas mulherezinhas que casavam mal os filhos, que não sabiam pôr uma criada em seu lugar, e todas elas com as orelhas cheias de brincos — nenhum, nenhum de ouro! A raiva a sufocava.

— Me dá um copo de vinho! disse.

O silêncio se fez de súbito, cada um com o copo imobilizado na mão.

— Vovozinha, não vai lhe fazer mal? insinuou cautelosa a neta roliça e baixinha.

— Que vovozinha que nada! explodiu amarga a aniversariante. — Que o diabo vos carregue, corja de maricas, cornos e vagabundas! me dá um copo de vinho, Dorothy! — ordenou.

Dorothy não sabia o que fazer, olhou para todos em pedido cômico de socorro. Mas, como máscaras isentas e inapeláveis, de súbito nenhum rosto se manifestava. A festa interrompida, os sanduíches mordidos na mão, algum pedaço que estava na boca a sobrar seco, inchando tão fora de hora a bochecha. Todos tinham ficado cegos, surdos e mudos, com croquetes na mão. E olhavam impassíveis.

Desamparada, divertida, Dorothy deu o vinho: astuciosamente apenas dois dedos no copo. Inexpressivos, preparados, todos esperaram pela tempestade.

Mas não só a aniversariante não explodiu com a miséria de vinho que Dorothy lhe dera como não mexeu no copo. Seu olhar estava fixo, silencioso. Como se nada tivesse acontecido.

Todos se entreolharam polidos, sorrindo cegamente, abstratos como se um cachorro tivesse feito pipi na sala. Com estoicismo, recomeçaram as vozes e risadas. A nora de Olaria, que tivera o seu primeiro momento uníssono com os outros quando a tragédia vitoriosamente parecia prestes a se desencadear, teve que retornar sozinha à sua severidade, sem ao menos o apoio dos três filhos que agora se misturavam traidoramente com os outros. De sua cadeira reclusa, ela analisava crítica aqueles vestidos sem nenhum modelo, sem um drapeado, a mania que tinham de usar vestido preto com colar de pérolas, o que não era moda coisa nenhuma, não passava era de economia. Examinando distante os sanduíches que quase não tinham levado manteiga. Ela não se servira de nada, de nada! Só comera uma coisa de cada, para experimentar.

E por assim dizer, de novo a festa estava terminada. As pessoas ficaram sentadas benevolentes. Algumas com a atenção voltada para dentro de si, à espera de alguma coisa a dizer. Outras vazias e expectantes, com um sorriso amável, o estômago cheio daquelas porcarias que não alimentavam mas tiravam a fome. As crianças, já incontroláveis, gritavam cheias de vigor. Umas já estavam de cara imunda; as outras, menores, já molhadas; a tarde cala rapidamente. E Cordélia, Cordélia olhava ausente, com um sorriso estonteado, suportando sozinha o seu segredo. Que é que ela tem? alguém perguntou com uma curiosidade negligente, indicando-a de longe com a cabeça, mas também não responderam. Acenderam o resto das luzes para precipitar a tranqüilidade da noite, as crianças começavam a brigar. Mas as luzes eram mais pálidas que a tensão pálida da tarde. E o crepúsculo de Copacabana, sem ceder, no entanto se alargava cada vez mais e penetrava pelas janelas como um peso.

— Tenho que ir, disse perturbada uma das noras levantando-se e sacudindo os farelos da saia. Vários se ergueram sorrindo.

A aniversariante recebeu um beijo cauteloso de cada um como se sua pele tão infamiliar fosse uma armadilha. E, impassível, piscando, recebeu aquelas palavras propositadamente atropeladas que lhe diziam tentando dar um final arranco de efusão ao que não era mais senão passado: a noite já viera quase totalmente. A luz da sala parecia então mais amarela e mais rica, as pessoas envelhecidas. As crianças já estavam histéricas.

— Será que ela pensa que o bolo substitui o jantar, indagava-se a velha nas suas profundezas.

Mas ninguém poderia adivinhar o que ela pensava. E para aqueles que junto da porta ainda a olharam uma vez, a aniversariante era apenas o que parecia ser: sentada à cabeceira da mesa imunda, com a mão fechada sobre a toalha como encerrando um cetro, e com aquela mudez que era a sua última palavra. Com um punho fechado sobre a mesa, nunca mais ela seria apenas o que ela pensasse. Sua aparência afinal a ultrapassara e, superando-a, se agigantava serena. Cordélia olhou-a espantada. O punho mudo e severo sobre a mesa dizia para a infeliz nora que sem remédio amava talvez pela última vez: É preciso que se saiba. É preciso que se saiba. Que a vida é curta. Que a vida é curta.

Porém nenhuma vez mais repetiu. Porque a verdade era um relance. Cordélia olhou-a estarrecida. E, para nunca mais, nenhuma vez repetiu — enquanto Rodrigo, o neto da aniversariante, puxava a mão daquela mãe culpada, perplexa e desesperada que mais uma vez olhou para trás implorando à velhice ainda um sinal de que uma mulher deve, num ímpeto dilacerante, enfim agarrar a sua derradeira chance e viver. Mais uma vez Cordélia quis olhar.

Mas a esse novo olhar — a aniversariante era uma velha à cabeceira da mesa.

Passara o relance. E arrastada pela mão paciente e insistente de Rodrigo a nora seguiu-o espantada.

— Nem todos têm o privilégio e o orgulho de se reunirem em torno da mãe, pigarreou José lembrando-se de que Jonga é quem fazia os discursos.

— Da mãe, vírgula! riu baixo a sobrinha, e a prima mais lenta riu sem achar graça.

— Nós temos, disse Manoel acabrunhado sem mais olhar para a esposa. Nós temos esse grande privilégio disse distraído enxugando a palma úmida das mãos.

Mas não era nada disso, apenas o mal-estar da despedida, nunca se sabendo ao certo o que dizer, José esperando de si mesmo com perseverança e confiança a próxima frase do discurso. Que não vinha. Que não vinha. Que não vinha. Os outros aguardavam. Como Jonga fazia falta nessas horas — José enxugou a testa com o, lenço — como Jonga fazia falta nessas horas! Também fora o único a quem a velha sempre aprovara e respeitara, e isso dera a Jonga tanta segurança. E quando ele morrera, a velha nunca mais falara nele, pondo um muro entre sua morte e os outros. Esquecera-o talvez. Mas não esquecera aquele mesmo olhar firme e direto com que desde sempre olhara os outros filhos, fazendo-os sempre desviar os olhos. Amor de mãe era duro de suportar: José enxugou a testa, heróico, risonho.

E de repente veio a frase:

— Até o ano que vem! disse José subitamente com malícia, encontrando, assim, sem mais nem menos, a frase certa: uma indireta feliz! Até o ano que vem, hein?, repetiu com receio de não ser compreendido.

Olhou-a, orgulhoso da artimanha da velha que espertamente sempre vivia mais um ano.

— No ano que vem nos veremos diante do bolo aceso! esclareceu melhor o filho Manoel, aperfeiçoando o espírito do sócio. Até o ano que vem, mamãe! e diante do bolo aceso! disse ele bem explicado, perto de seu ouvido, enquanto olhava obsequiador para José. E a velha de súbito cacarejou um riso frouxo, compreendendo a alusão.

Então ela abriu a boca e disse:

— Pois é.

Estimulado pela coisa ter dado tão inesperadamente certo, José gritou-lhe emocionado, grato, com os olhos úmidos:

— No ano que vem nos veremos, mamãe!

— Não sou surda! disse a aniversariante rude, acarinhada.

Os filhos se olharam rindo, vexados, felizes. A coisa tinha dado certo.

As crianças foram saindo alegres, com o apetite estragado. A nora de Olaria deu um cascudo de vingança no filho alegre demais e já sem gravata. As escadas eram difíceis, escuras, incrível insistir em morar num prediozinho que seria fatalmente demolido mais dia menos dia, e na ação de despejo Zilda ainda ia dar trabalho e querer empurrar a velha para as noras — pisado o último degrau, com alívio os convidados se encontraram na tranqüilidade fresca da rua. Era noite, sim. Com o seu primeiro arrepio.

Adeus, até outro dia, precisamos nos ver. Apareçam, disseram rapidamente. Alguns conseguiram olhar nos olhos dos outros com uma cordialidade sem receio. Alguns abotoavam os casacos das crianças, olhando o céu à procura de um sinal do tempo. Todos sentindo obscuramente que na despedida se poderia talvez, agora sem perigo de compromisso, ser bom e dizer aquela palavra a mais — que palavra? eles não sabiam propriamente, e olhavam-se sorrindo, mudos. Era um instante que pedia para ser vivo. Mas que era morto. Começaram a se separar, andando meio de costas, sem saber como se desligar dos parentes sem brusquidão.

— Até o ano que vem! repetiu José a indireta feliz, acenando a mão com vigor efusivo, os cabelos ralos e brancos esvoaçavam. Ele estava era gordo, pensaram, precisava tomar cuidado com o coração. Até o ano que vem! gritou José eloqüente e grande, e sua altura parecia desmoronável. Mas as pessoas já afastadas não sabiam se deviam rir alto para ele ouvir ou se bastaria sorrir mesmo no escuro. Além de alguns pensarem que felizmente havia mais do que uma brincadeira na indireta e que só no próximo ano seriam obrigados a se encontrar diante do bolo aceso; enquanto que outros, já mais no escuro da rua, pensavam se a velha resistiria mais um ano ao nervoso e à impaciência de Zilda, mas eles sinceramente nada podiam fazer a respeito: “Pelo menos noventa anos”, pensou melancólica a nora de Ipanema. “Para completar uma data bonita”, pensou sonhadora.

Enquanto isso, lá em cima, sobre escadas e contingências, estava a aniversariante sentada à cabeceira da mesa, erecta, definitiva, maior do que ela mesma. Será que hoje não vai ter jantar, meditava ela. A morte era o seu mistério.


(
Do livroLaços de Família“)