Resenha: Admirável mundo novo, de Aldous Huxley

“Admirável mundo novo” foi publicado em 1932 e começa com um longo prefácio escrito em 1946, onde o autor tenta justificar suas falhas artísticas. Pensou em reescrever, corrigir, mas acreditou que perderia a essência da obra. Contudo, não deixou de sentir uma espécie de remorso artístico, deve ter recebido críticas ruins na época. E vai levar outra aqui. Agora entendo o porquê desse livro ser tão popular: é um tremendo besteirol! Literatura besta mesmo. Huxley deveria ter reescrito.

Sempre prefiro ler o prólogo no final, não gosto quando o autor tenta explicar, justificar, prevenir o leitor do que virá. Acho uma perda de tempo falar no início sobre personagens e fatos ainda desconhecidos. Para mim, um posfácio faz mais sentido. Mas, de todas as formas, é interessante ler o pensamento do autor sobre a sua própria obra. No entanto, leia depois de terminar.

Meu espírito já estava amarrando para ler este livro. “Surpreenda- me!”, pensei. Não surpreendeu, meu faro me dizia que devia ser ruim. Acertei. Quando li logo na terceira página do primeiro capítulo “ovo bokanovskiano” pensei em desistir, mas segui, mesmo ferindo o meu bom gosto literário.

A história começa num laboratório de manipulação genética, onde produzem óvulos de homens e mulheres para que sejam padronizados, o “Processo Bokanovsky”, o verbo é “bookvskizar”. Ai, Pai, esse livro não é sério:

-Noventa e seis gêmeos idênticos fazendo funcionar noventa e seis máquinas idênticas.

Eu costumo colocar a página nas minhas referências, mas o PDF lido não vinha numerado, uma falha grande da editora “Escrytos”.

Detectando que era não é um livro sério, nem sequer bem escrito, tentei me divertir com o que imaginou um homem de 38 anos, no princípio do século XX.

Nesse período da pós- guerra mundial, época da publicação, o acesso aos livros e às notícias não devia ser muito fácil. Mas deviam saber o que os nazistas faziam com os prisioneiros, eles já barbarizavam desde a I grande guerra. O desgraçado do médico Josef Menguele, por exemplo, o que fugiu para o Brasil, viveu e morreu no litoral de São Paulo, fazia experimentos terríveis com os prisioneiros no campo de concentração na II Guerra, o monstro usava gêmeos para provas genéticas muito cruéis. Quem sabe pode ter surgido desses casos, de algum precedente, a semente desse livro…ou nada a ver, quem sabe?

Sinceramente, não considero mérito nenhum Huxley ter criado esse mundo com clones humanos. Creio que a humanidade imagina esse tipo de coisa desde o princípio da Idade Moderna.

Este livro é ruim em 1937 ou 2018. É uma obra supervalorizada. Também é certo que não é o tipo de literatura que gosto, um livro muito desgostoso pra mim, que preguiça de livro! Vai ver é manjar para você. Não me leve a sério, é só a minha opinião.

Falando em opinião, essa será a base das resenhas em 2018. Já não vou escrever posts didáticos desmembrando a obra, descrevendo personagens e tudo mais, não vou fazer análise textual, porque não vou mais mastigar pelos demais, ler por quem não lê e vem aqui só para copiar resenhas para a escola. Quero influenciar (ou não) leituras e não dar leituras prontas. Acredite: tenho motivos sólidos.

Não recomendo esse livro, mas se você quiser ler só para contrariar, então lá vai…

A edição que comecei em espanhol (foto) foi substituída por uma portuguesa, um ebook, que você pode comprar aqui na melhor livraria online de Portugal, Wook.  O e- book é bem acessível, custa €3,99 (cerca de 16 reais).

26195921_1184382081664147_626662719178770417_nHuxley, Aldous. Un mundo feliz, Random House Mondadori, Barcelona, 2009. Páginas: 255

Análise da obra “Vidas secas”, de Graciliano Ramos

Por Rômulo Pessanha

O fim

Quando pensamos no tempo, nem lembramos que tudo no mundo parece ter uma tendência ao círculo. A circunferência nos recorda os aspectos cíclicos da vida presente em tudo e de como tudo se renova e se torna ainda assim, diferente. Lembra frase de pensador famoso, aquele que dizia que quem mergulha os pés num rio nunca poderá mergulhá-los novamente nesse mesmo rio. Assim é a vida, nada se perde e tudo se aproveita como diria Lavoisier. A vida é um círculo e a única mudança é seguir em frente sob alguma perspectiva nova que ilumine novos caminhos para um ponto de fuga ou de tangência para uma nova vida, pois se a figura da vida é plana cabe a nós pensar nossa felicidade e a felicidade é sonhar sempre de forma diferente.

Me refiro aqui nesse texto ao capítulo inicial de Vidas Secas, de Graciliano Ramos denominado “Mudança”. O que quero dizer quando dou o título deste texto de “O fim”? Quero dizer com isso que tanto o primeiro, quanto o último capítulo são tal e qual. Em “Fuga”, o último capítulo, pode ser observado os mesmos elementos, retornando, e se fechando novamente em esperança, nada de desfechos mirabolantes, mas uma espécie de calmaria. Voltando ao primeiro capítulo, Mudança, também pode ser traduzida em ponto de fuga, porquanto numa circunferência toda força centrípeta tracionada e acumulada gera, posso talvez assim dizer, um ponto de fuga em que o objeto acaba saindo pela tangente e o objeto no caso é a família que observamos nessa obra de Graciliano como objeto de fuga para uma sempre tentativa de vida melhor, um sonho, em vários atos, mas o caminho como já disse não é reto, é dado em curvas que não se fecham num ponto específico, porém posso dizer que pode convergir para um ponto central, no caso, não falarei aqui desse ponto central. Acredito poder ser dito que Vidas Secas segue uma estrutura em espiral.

A paisagem vermelha e o céu azul, as rachaduras do solo seco lembram toda a fisionomia do personagem Fabiano, ruivo, olhos azuis ou também até mesmo lembra a sinhá Vitória ou a ela se refere enquanto terra atrativa ou não quando a voz narrativa a descreve ora magra ou a mostra nos pensamentos de Fabiano quando diz que ele estaria querendo que a sinhá ficasse com as nádegas carnudas, seios firmes tal qual a própria natureza parece estar vez outra ao longo da obra, ora é seca, ora é de uma fertilidade avassaladora e perigosa a vida, pois quando a água é demais a cheia se faz presente, natureza selvagem é um perigo para a sobrevivência. Também as aves, os urubus, voando em círculos igualmente como a água, cercando tudo em redor lembra que o perigo os cerca por todos os lados.

Um narrador, como uma lâmpada acesa apresenta cada um dos personagens, seus pensamentos e sonhos, devaneios e medos. Como se fosse um refletor num teatro iluminando a face de cada personagem mostrando o que cada um pensa. A narrativa apresenta a paisagem ora cheia de luz do dia, ora com algumas estrelas apenas, quando está de noite.

A morte é comida, na forma de uma ave, ser que nem voa e, sabemos, nem fala, um papagaio foi papado. A morte, no negro das asas do urubu, a morte sob as cabeças dos integrantes dessa família é o que resta depois do verde da cor das penas do papagaio, o verde que significaria a esperança, o verde de uma paisagem convidativa ao descanso, passa a representar o desespero e a urgência por abrigo e sobrevivência. Enfim, o fim é sempre um novo começo para busca por novas soluções para o sustento da família.

Os pés são importantes também e se assemelham ao próprio solo que pisam: rachados, feridos, com vermelhidão de machucado que dói até mesmo pela simples descrição, assim também são os pés de Fabiano identificado com a terra em que caminha, a dor está no andar no solo que pisa e também a dor está nas feridas dos seus pés e também a dor do cansaço por verificar toda sua família sobrevivendo àquela situação narrada. Baleia se alimenta dos pés do papagaio e isso também é a terra, Baleia se alimenta da terra que não pode chegar ao céu por intermédio da evaporação da água e, o que não voa, pelo menos deve servir como alimento nem que seja simples poça d’água como o conjunto familiar peregrino nos faz imaginar como sendo pequenas gotas de vida caminhando numa chapa seca cheia de rachaduras.

O “menino mais velho” e o “menino mais novo” são assim chamados, talvez para demarcar a passagem do tempo. Os filhos de Fabiano são preservados em sua identidade, porém até Baleia possui nome, mas nome de bicho, animal de mares que talvez o céu anilado possui somente a cor. Talvez Fabiano desejasse que a vida fosse um arrebol eterno, róseo, temperatura agradável e paisagem amena e que todo o azul do céu fosse o da água correndo como ele no solo, sob a terra divertindo e refrescando a vida de seus filhos, sua mulher, toda sua família.

Os Nomes também são importantes: o que significa Fabiano, sinhá Vitória? Pesquisei rapidamente num site na internet o nome Fabiano. Significa “dotado de sorte e prosperidade”, mas provém do latim, da palavra fava, e então pensei: o que é fava? Pelo o que diz a rede virtual significa algo como sementes comestíveis. Continuando, Sinhá era a forma como os escravos tratavam suas patroas ou senhoras, geralmente sinhá, mas aqui Vitória é chamada sinhá, dá certo tom de apelido carinhoso quase como algo da fala popular, mas também pode ser indício de decadência social. O significado do nome Vitória é vencedora, pessoa que triunfa sobre um inimigo e talvez tenha derivado da forma Victor, do latim que significa vencedor. Quanto a palavra Baleia, vem do grego phállaina e também do latim ballaena. Não encontrei o significado da palavra phállaina. Ballaena não pesquisei por achar óbvio, mas verifiquei e pelo pouco que vi significa baleia mesmo, um dos maiores animais existentes atualmente. Enfim, se isto tudo sobre esses nomes não esclarece nada sobre o estudo de Vidas Secas, pelo menos fica como fonte de informação.


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Cada um possui o seu momento de iluminação. E, se Baleia não aparece na última parte da obra é somente porque ela agora conseguiu evaporar-se e seguir caminho para o céu com aura de um ser tão humano quanto um urubu pode ser. Baleia parecia gente, os urubus também. Cada um com um aspecto da dualidade humana: Baleia nos remete ao companheirismo, fidelidade, amizade, ingenuidade, simplicidade, enquanto os urubus são carniceiros apenas para sua sobrevivência. Essa família é um exemplo do que pode significar sobreviver diante das questões da vida. Nem sempre sobreviver é viver, mas lutar nutrindo forças com a vontade que os sonhos nos proporcionam e fazem que seres humanos como os apresentados na obra de Graciliano se tornem sobre humanos, com uma força tirada de sua própria natureza que é a natureza de continuar sonhando mesmo quando tudo em derredor diz não. O fim não se acaba nem com o nosso fim, pois com o nosso fim, mudamos, fugimos para outro lugar onde a luta continua sendo a realidade nesse momento, o próprio sonho que se pensava, mas também o sonho que se vive e se e se habita, desejo que em nós habita é o nosso futuro lar, novo mundo.

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Ramos, Graciliano. Vidas secas, Record, 89ª edição, Rio de Janeiro, 2003. 176 páginas

Resenha: “Sagarana”, de João Guimarães Rosa

Esse livro é essencial na biblioteca de todo bom leitor. É simplesmente um LIVRAÇO! Uma celebração à literatura, essa arte maior, que podia ser apreciada por muitos, mas poucos ainda entram para esse mundo mágico. Por isso o Falando em Literatura existe: para puxar a sua orelha. Que tal começar?! Larga aí esse vídeo- game, o celular, sai do Facebook, do Instagram, Snapchat, Twitter, deixa esses best- sellers bobos e pega um livro de verdade! Quando o professor da escola pedir, você já vai ter lido e não vai precisa usar o Mr. Google para fazer um trabalhinho superficial. As resenhas servem como guias, mas você precisa ter a sua própria opinião sobre as obras. #atitudeinteligente

E para os maiorzinhos que estejam procurando uma excelente leitura: anotem esse.

O doutor João Guimarães Rosa (Cordisburgo, Minas Gerais, 27/06/1908 – Río de Janeiro, 19/11/1967) foi um dos grandes, um escritor sui generis, único, difícil de aparecer outro similar. Atordoou e atordoa ainda com a sua genial literatura, dá “coisa” por dentro (será Síndrome de Stendhal?). A escritura de Rosa contem elementos raros na literatura: originalidade, criatividade e inovação, desses, quem sabe, o primeiro seja o mais difícil.

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João Guimarães Rosa era estiloso, sempre com essa gravata borboleta

No âmbito familiar, Rosa foi casado duas vezes, a primeira com Lygia (de apenas 16 anos), tiveram duas filhas, Vilma e Agnes. Vilma, a mais velha,  diz que era muito carinhoso, brincalhão e atencioso com as filhas.

Também foi casado com uma mulher incrível, Aracy Rosa, que conheceu quando foi vice-cônsul em Hamburgo (Alemanha) entre 1938-1942. Ambos ajudaram alguns judeus a escaparem da morte certa. Aracy é considerada uma heroína contra o antissemitismo.

Para entender um pouco como é a escritura de Guimarães Rosa: ele era um cara super culto, diplomata, médico, um poliglota, erudito, aprendeu muitos idiomas sozinho, um autodidata. Ele misturou essa erudição, seu conhecimento amplo de vários idiomas, usou isso tudo misturado com o português oral, reproduziu o falar do sertanejo, arquitetou enredos fantásticos e foi assim que produziu a magia. O que Rosa conseguiu foi espetacular, o colocou no patamar dos clássicos, dos imortais.

Existe um dicionário do léxico de Rosa, de Nilce Sant’Anna Martins, para ajudar a entender muitos vocábulos da obra, mas notei que o conhecimento de outros idiomas ajuda na compreensão do texto, por exemplo, “volva” ( do verbo “volver”, “voltar”, p.16), que consta no nosso dicionário, mas pouco usado no Brasil,  é muito utilizado em espanhol; portanto, um outro idioma ajuda na compreensão da nossa própria língua materna. Estudem idiomas, o nosso em primeiro lugar.

Segundo Vilma Rosa nessa entrevista, seu pai nunca havia estado no sertão quando escreveu seus primeiros livros. Quem o ajudava com dicas era o pai do autor. Ou seja, ele reproduziu o sertão mineiro sem nunca ter estado. A imaginação é a solução. Eu não acho que para escrever seja necessário viajar (viajar enriquece muito, mas para a literatura, seu instrumento é a imaginação e a memória, a criatividade e a capacidade de criação). Ainda segundo Vilma, os personagens dessa obra existiram realmente, são antepassados de personalidades da cidade de Itaguara, cidade natal do seu avô que era caçador, coronel, dono de uma venda, vereador e juiz de paz, ou seja, alguém muito importante na época. Rosa teve uma boa fonte de inspiração.

A escritura de Rosa tem o poder de mostrar o desconhecimento que temos sobre o nosso próprio idioma, o leque de opções é imenso, mas a opção, normalmente, é caminho batido. Abrir o dicionário é coisa de sábios. 

“Sagarana” é a junção de duas palavras, um neologismo, “saga”, que é uma palavra envolta em misticismo, pertence à mitologia escandinava, pode ser bruxa ou feiticeira, também o traje do guerreiro, e que usamos normalmente para designar narrativas lendárias ; e  “rana”, que no livro “O léxico de Guimarães Rosa”, de Nilce Martins, diz que é de origem tupi, mas a origem é mais antiga, vem do Latim, “ragire”, uma onomatopeia, não só referente ao coaxar das rãs, mas de outros animais como frangos e tigres (tem onça , sapo- bezerro e sapo em Sagarana, no primeiro conto que abre o livro), também é o nome de uma planta rasteira que cobre lugares pantanosos (veja aqui). O nome do livro e o seu significado dão o tom, condensam bem a essência dessa obra.

O seu único romance é uma obra- prima “O grande sertão: veredas” (leia resenha), mas os contos, não ficam atrás não, Rosa era um contista de primeira grandeza. “Sagarana” (1946) foi a sua primeira obra publicada quando tinha 38 anos, consta de nove contos.

“Sagarana” foi escrito antes do ano de 1938, nesse, ele participou de um concurso de contos, Guima usou o pseudônimo de “Viator” e o livro “Contos”, ficou em segundo lugar. Luis Jardim ficou em primeiro com “Maria Perigosa”, foi um escritor de muita relevância, mas já não é muito citado. Anotado na minha lista.

Vamos pincelar os contos, cada um deles dá uma tese de doutorado, são muitos os aspectos interessantes:

1. O burrinho pedrês

Lendo esse conto de umas 60 páginas, dá vontade de incorporar algumas expressões do “rosês”: “Manhã noiteira” (p.13), não é lindo isso? Aquelas manhãs que custam a clarear. Literatura- arte é isso:  trabalhar a linguagem e tornar o comum muito mais bonito, interessante.

Rosa deu voz, sentimento, coração a um burrinho chamado “Sete-de-ouros”, de estimação,  já está muito velho e quase cego, mas foi convocado para “tocar boiada”, motivo de chacota entre as mulheres da casa. O burrinho é o narrador em alguns momentos. Como ver os homens da perspectiva de um animal?

Major Saulo (o dono da boiada), Sinoca, Zé Grande, Tote, João Manico, Francolim, Benevides, Sebastião dos Lados, Leofredo, Raymundão, Juca Bananeira, Cata-Brasa, Silvino, Badu (Balduíno), Sebastião, que toca o berrante e evoca cantigas sertanejas, iniciando a marcha para trazer a boiada, 460 bois. João Manico vai montado em Sete-de-Ouros, o burrinho. No final do conto, montado por Badu. Ninguém queria montar o burrinho, dava vergonha, ele só era a opção quando não havia escolha.

Os vaqueiros vão contando seus “causos”: “Eu estou quase não creditando mais, Raymundão…”(p.37)

E essa sabedoria mística do homem do sertão (Rosa também acreditava): “(…) A lua não é boa…Ano acabando em seis…” (p.37).

Esse conto narra o difícil trabalho dos boiadeiros que cruzam o gado por rios, sol, chuva, frio, lama, condições adversas, profissão tão sacrificada e pouco reconhecida, ainda muito presente no sertão brasileiro.

–Escuta uma pergunta séria, meu compadre João Manico: você acha que burro é burro?(p.40)

E o touro bravo, assassino, o Calundu, amansado com simpatia e morto por um espírito ruim. E o pretinho chorão com sua cantiga bonita que emocionou os peões , “Aquilo parecia: que a vaqueirada toda virando mulher” (p.64). O menino, parece, lançou um feitiço que botou o gado todo a perder, “Causos” da roça contados com muita graça, apesar de serem trágicos.

O burrinho, que vive de teimoso, entre a “morrência” (essa não está no dicionário formal e nem no de Guimarães Rosa) e a vontade de querer viver, emociona. Sete-de- Ouros no tarot é representada por um jardineiro que está parado observando as suas plantas. Misticamente, significa uma análise do passado e seus resultado no futuro, o que vivemos é o resultado das nossas escolhas.  Esse naipe pode significar doçura, inocência, purificação. O lado negativo é a lentidão, a inatividade, a falência. Como em Guimarães Rosa nada é por acaso, esse nome também não é.

2. Traços biográficos de Lalino Salathiel ou A volta do marido pródigo:

Esse conto também começa com um burrinho. O cenário é rural,  trabalhadores extraem amianto de uma jazida nas terras de “Seo” Remígio. Constroem uma estrada. Brasileiros e espanhóis, negros e brancos, “seo” Marra (“Marrinha”) é o chefe. Os trabalhadores: Pintão, Laio, Lalino (Eulálio de Souza Satãthiel, Laio), Correia, Generoso, Tercino, Sidu, Waldemar, o espanhol Ramiro. Comem em marmitas e as esquentam em um foguinho improvisado. “Lalino trouxe apenas um pão-com-linguiça.”(p.82)

Laio é um sonhador. Ele quer montar uma peça de teatro na roça. “Ou então, seo Marra, os homens mesmo podem fantasiar de mulher…Fica até bom…” (p.86)

E o sonhador Laio também quer comprar umas terrinhas e conta tudo o que vai plantar nelas.Quem sonha e luta, pode realizar, independente do ambiente em que se encontre. O sonho modifica tudo. Quem tem a cabeça povoada de bons propósitos, contagia:

–Mulatinho levado! Entendo um assim, por ser divertido. E não é adulador, mais sei que não é covarde. Agrada a gente, porque é alegre e quer ver todo-o-mundo alegre, perto de si. Isso, que remoça. Isso é reger o viver. (p.87)

O capítulo encerra como se fosse tudo tivesse sido uma peça de teatro, isso dá uma remexida, uma reviravolta em tudo o que havia pensado antes. Um parágrafo de duas linhas quebrou o esquema todo, fantástico!

É um conto cheio de referências raciais, de cor. Hoje, quem sabe, Rosa não teria a mesma liberdade de escrever esse conto na era do politicamente correto. Ou sim? Não sei. Os tempos andam estranhos, há gente radical com poder que mistura ficção com realidade, e devia cuidar é da vida (real) para que a literatura não reflita realidades ruins.

Voltando ao conto, eu dei umas boas risadas com esse.

3. Sarapalha

“Sarapalha” é um lugar perto do cenário desse conto.

A história começa em “Tapera do Arraial”, uma povoado no Pará que está abandonado por causa de uma epidemia de malária. O povo debandou com medo da doença que dava uma “tremedeira que não desmontava” (p.127). Mosquito tinhoso, são as fêmeas as portadoras da doença.

Esse conto é uma aula de botânica, da flora e da fauna paraense. Que beleza. A descrição da paisagem é uma aula prática do que deve ser uma excelente descrição. Prestem atenção, meninos e meninas.

Perto de Sarapalha tem uma fazenda com alguns habitantes remanescentes: “uma negra” e “dois homens”, dois velhos, que não são velhos. A preta que passa um bom tempo sem nome e os primos Argemiro e Ribeiro. A empregada é “Ceição”. Os dois estão com malária, o médico deu um ano de vida. Eles vão vivendo entre as lembranças, a esperançada cura e a resignação da morte anunciada. E o sonho, o amor:

(…) Se ela chegasse, até a febre sumia… (p.136).

Ela o abandonou por outro, com ele já doente. Ele era obrigado a matar os dois, mas com a doença não poderia mesmo ficar com ela, então a deixou partir ilesa.

É um dos melhores contos escritos em língua portuguesa! É também uma história de desamor e de um amor impossível.

4. Duelo

Turíbio Todo, nascido em Borrachudo e seleiro de profissão. Um sujeito ruim, “mas no início dessa história ele estava com a razão”. (p.151)

Turíbio foi pescar, voltou antes do tempo e encontrou a sua mulher fisgada, dona Silivana (“a com belos olhos grandes, de cabra tonta”), por um cabo do Exército, Cassiano Gomes de 28 anos. Foi embora em silêncio para matutar uma vingança. Só que a vingança saiu mal executada. Xiiii….esse era o tempo em que vingança era feita com sangue.

O caçador virou o caçado. Só que o caçado, Turíbio, inventou uma estratégia para matar sem matar. Deu certo? Pensa que vou contar é? Leia!

5. Minha gente

José Malvino chega de trem a um arraial para empreender, a cavalo, o resto da viagem até a fazenda do tio Emílio do Nascimento. Ia passando Santana, inspetor escolar, que percorre povoados a trabalho. Decidiram ir juntos para Tucanos, 4 horas de viagem. Santana é viciado em xadrez e leva consigo um tabuleiro e muita literatura sobre o jogo. Os dois, um montado em um cavalo e o outro em um burro, vão jogando xadrez pelo caminho.

O tom e o léxico desse conto é totalmente diferente dos anteriores. É mais erudito, o narrador é Malvino, que é um “capiau” letrado, e Santana, seu interlocutor, fala “corretamente”. A paisagem é rural, mas os homens são sertanejos escolarizados, estudaram, Santana mais que o outro. Malvino sabe dos perigos do mato, do que pode ou não pode fazer ou comer, mas aprendeu o jeito da cidade.

O aprendizado do “capiau” vem da observação da natureza ou de casa, dos pais e mais velhos. Disse o pescador Bento:

– Ai, que mundo triste é este, que a gente está mesmo nele só p’ra mor de errar!…E quando a gente quer concertar*, ainda erra mais…” (p.205, “concertar” com “c” mesmo).

Esse é o conto mais enigmático. Não dá pra prever nada do que vai acontecer. A vida mansa dá uma reviravolta e um acontecimiento inusitado abala a paz da fazenda, mas a história segue ainda cheia de elementos inesperados.

O amor sempre andando e desandando tudo. Esse texto, nas últimas páginas, principalmente, tem um lirismo romântico, trechos de prosa poética, doces.  A vida e o amor, vistos como um jogo de xadrez.

6. São Marcos

É um dos contos que mais gosto, ri muito e li em voz alta. Tente sempre fazer isso, a literatura quando ganha voz acontece uma aura mágica. Começa engraçado, depois fica sério.

O narrador- personagem dessa história é o José (“Zé”) e é uma das mais engraçadas. Fala das superstições do povo da roça, Zé acredita, mas diz não acreditar. Existe uma série de palavras proibidas, porque atraem maus sortilégios e lugares também proibidos, passar depois da meia- noite nem pensar!

Você tem que ler esse conto, o livro todo na verdade, com calma, se pular um trecho faz falta, tudo é essencial.

E se você ficasse cego no meio do mato, sozinho, e não pudesse esquivar- se dos perigos? A causa e a solução? Só lendo! Fantástico!

7. Corpo fechado

Esse conto começa com um fato trágico, mas contado de forma tão engraçada que não dá pra evitar a gargalhada. Rosa era muito brincalhão e divertido (segundo Vilma Rosa) e isso está sim refletido na sua obra. Ele tinha bom humor, um sujeito divertido.

Pra você aí, o sujeito que coça a cabeça… é piolho ou sinal de indecisão? Morro com o Guima! hahaha

Manuel Fulô foi contando sobre os valentões, os que bebiam cachaça, aprontavam, matavam e que morreram de forma trágica, todos castigados, lá no povoado de Laginha, onde mora. Lugar “monótono” (como?!), olha essa sinestesia que engraçada:

–Mas, gente, que é que vocês fazem de noite?

–De noite, a gente lava os pés, come leite e dorme. (p.271)

Mané Fulô também gostava de cachaça, de mulheres, de conversa fiada e de não trabalhar. O narrador- personagem, a voz que trava os diálogos com Fulô é o doutor do povoado. Mané Fulô, dona da égua Beija- Flor ou Beija- Fulô, vivia de aparências, “tira onda” montado na sua mula e diz que é filho do maior comerciante do local. Um trambiqueiro. Trabalhou para os ciganos, que eram mais trambiqueiros que ele, depois quis se vingar. Algumas partes hilárias, ele contratou dois homens e foi até o dentista deles, modificando seus dentes para que se parecessem ciganos, para enganá- los vendendo cavalos ruins. E enganou. Ninguém queria mais fazer negócio com Fulô, pois ele “enganava até cigano”.

Targino, o valentão local, se engraçou com a das Dor, a moça que Fulô estava de casamento marcado. Fulô amarelou, mas usou uma estratégia para vencer o adversário poderoso. Magia!

8. Conversa de bois

Manuel Timborna, das Porteirinhas, afirma que os bichos falam com os humanos. E ele toca a contar “um caso que se deu”. Quem frequenta ou frequentou alguma roça no interior do Brasil, sabe: as rodas de “causos” são bem comuns.

Para os bois, o bicho é o homem:

– O homem é um bicho esmochado, que não devia de haver. Não convém espiar muito para o homem. É o único vulto que faz ficar zonzo, de se olhar muito. é comprido demais, para cima, e cabe todo de uma vez, dentro dos olhos da gente. (p.312)

Eu nunca ouvi um boi falar, mas que eles falam, falam.

9. A hora e a vez de Augusto Matraga

O tom desse conto é um pouco mais sério, com passagens emotivas.

Matraga não é Matraga, não é nada. Matagra é Esteves. Augusto Esteves, filho do Coronel Afonso de Esteves, das Pindaíbas e do Saco-da-Embira. Ou Nhô Augusto (…) (p.335)

Casado com dona Dionóra, pai de Mimita de 10 anos. Um homem poderoso, com muitos capangas, anda entre as fazendas e com outras mulheres, não dá atenção à esposa e filha. A esposa teme o marido.

Levaram duas mulheres para serem leiloadas para a igreja. Como?! hahaha…sim. Augusto ficou com a capenga e foi assim que tratou a pobrezinha:

(…) Você tem perna de manuel- fonseca, uma fina e outra seca! E está que é só osso, peixe cozido sem tempero…Capim p’ra mim, com uma assombração dessas!… Vá- se embora, frango- d’água! Some daqui! (p. 339)

Disse o tio de Dionóra:

–Sorte nunca é de um só, é de dois, é de todos…Sorte nasce cada manhã, e já está velha ao meio- dia… (p.341)

Ovídio Moura levou embora as duas pra viver com ele e mandou Quim Recadeiro avisar Augusto, que está endividado, prestes à falência e os capangas correram, não quiseram “justiçar” o patrão, foram todos com Major Consilva. Antes de matar Ovídio e Dionóra, ele tem que matar primeiro o Major e os capangas. Mas foi executado pelos mesmos- isto é- foi o que pensaram. Pensa que vou contar o resto? Não! 🙂

-Reze e trabalhe, fazendo de conta que esta vida é um dia de capina com sol quente, que às vezes custa muito a passar, mas sempre passa. E você ainda pode ter muito pedaço bom de alegria…Cada um tem sua hora e a sua vez: você há de ter a sua. (p.350)

Esse é um conto que trata de honra, da redenção pelo arrependimento e pela fé.

11402998_619363471499347_2017071032095490125_nRosa, J. Guimarães, Sagarana, Nova Fronteira, 28ª edição. Rio de Janeiro, 1984. 380 páginas

Na verdade, eu já tinha lido essa obra na época de estudante universitária. Quando você pega um livro que leu há muito tempo e relê, você é outra pessoa e o livro também, é como se fosse a primeira vez. Livros como esse são fontes inesgotáveis, sempre há algo novo.

Esse livro exige esforço. E isso é bom. Pela minha experiência, ler livros ruins, “fáceis”, não é melhor do que não ler nada. Literatura ruim não proporciona benefícios, nem mesmo os cognitivos, pois não desafiam o cérebro. Você vai desperdiçar dinheiro e tempo, que é a coisa mais preciosa que temos na nossa vida. Repense suas escolhas! E não venham me dizer o contrário, “que ler qualquer coisa é melhor que não ler nada”, já tem gente demais defendendo isso. A nossa praia aqui do Falando em Literatura é outra. Nossa defesa é em prol da literatura- arte.

Eu não sei, só sei que Guima deve estar feliz, aonde estiver, sentindo as vibrações que provoca a sua literatura nas pessoas. Fazer sorrir, fazer gargalhar em literatura é muito difícil. Passei dias divertidos  e emocionantes lendo esses contos.

“Sagarana” está sempre em movimento, as pessoas sempre de passagem nas suas paisagens sacramentadas, incorruptíveis, perenes. Uma metáfora para a própria vida. O homem, só de passagem, vira história.

Resenha: “Pelo fundo da agulha” de Antônio Torres

Pelo fundo da agulha (1ª edição em 2006, 4ª edição em 2014) é o terceiro livro da trilogia junto com Essa Terra e O cachorro e o lobo. A saga de Totonhim continua, o nordestino que foi embora para São Paulo aos 20 anos. Antes de ir embora ele viu o suicídio do irmão Nelo na terra natal de ambos. Foi um dos motivos que o fez ir embora. A mãe enlouqueceu e foi internada num hospício em Alagoinhas; o pai em Feira de Santana, cada um para um lado. Totonhim rumo a São Paulo.

– O juízo da gente é assim como aquela linha fininha, que as costureiras enfiam no fundo da agulha. Quando se rompe, fica difícil de fazer remendo. (p.99)

O protagonista de Pelo fundo da agulha é casado, trabalha no Banco do Brasil e é pai de Rodrigo e Marcelinho, ele conta histórias aos filhos antes de dormir, viaja à Paris “em suaves prestações”, foi assaltado em Barbesse. Visita o túmulo de Oscar Wilde e vira flâneur pelas ruas onde pisava Charles Baudelaire. Conversa com o taxista filho de imigrantes armênios, francês, mas considerado cidadão de segunda categoria. Nosso viajante fala francês, portanto. Faz “turismo fúnebre”, interessa- lhe os epitáfios, visita o túmulo de Balzac no Père- Lachaise. E na despedida, o taxista lamenta por seus pais não terem imigrado ao Brasil, aonde os filhos de armênios tornam- se cidadãos de êxito. E agora vem a genialidade narrativa do autor, que arremata com essa frase que condensa todo um sentimento universal e inerente na maioria dos seres humanos: – Aonde quer que você for, vai encontrar alguém com um lugar de sonhos. (p. 30)

Totonhim viaja. A menininha moradora no extremo norte do país estuda na Guiana Francesa para aprender francês e um dia ir morar em Paris.

O desejo era o seu passaporte, ele pensaria. Não, não teria coragem de cortar- lhe as asas, com advertências inúteis: “Assim como os rios, as mais sedutoras cidades do mundo têm suas margens. Você pode estar destinada a cair na pior delas.” (p. 33)

(…) Corre menina, corre. O mundo ficou tão pequeno quanto o fundo de uma agulha. Grande é o teu sonho de criança. (p. 34)

Na página 88 existe uma descrição perfeita do motivo que fazia (e ainda faz) muitos brasileiros do interior escaparem para as grandes cidades do Brasil ou do exterior. Não vou contar, leia. 🙂

A linguagem é contemporânea e o tempo não é lineal, a narrativa acontece em épocas diferentes e em lugares diferentes.  Totonhim jovem empreendendo sua grande aventura na cidade grande e maduro, já na época das memórias. O narrador é onisciente seletivo, vê tudo, sabe de tudo, sabe o que sente o personagem, opina. Essa obra é menos descritiva que as duas primeiras da trilogia, o mundo psicológico é mais intenso, há mais divagações sobre temas variados, como pequenas histórias dentro da história. Viagens, leituras, cinema, música. O tempo vai e volta, o protagonista agora é viúvo e está só. Os filhos crescidos estão pelo mundo. O narrador joga magistralmente com a forma trágica da morte da esposa do protagonista, baleada aos 50 anos pelas costas quando fugia de um assalto. “Mais parece uma colagem de alguma matéria de jornal” (p.62) e o narrador revela o pensamento mentiroso do protagonista que aumentou a idade da mulher e revela, que na verdade, está separado, a mulher não está morta. Criativa essa forma de narrar! O narrador refere- se a “Totonhim” (de Antão, não Antônio como eu pensava) como “senhor”. Filho de Antão.

O tema da terceira idade é tocado sem panos- quentes. É ruim envelhecer pelo lado biológico, a perda de vitalidade e cabelos, as marcas do tempo, as constantes idas ao médico, os exames. A aposentadoria que mata. O taxista da Praça da Sé com 70 anos. Aposentado há 25 anos, o táxi o livrou de uma depressão. – Aposentadoria mata, meu chefe. (p. 62)

E a narrativa volta ao Junco, cidadezinha na Bahia onde Nelo, o primogênito, se enforcou. A mãe enlouqueceu, mas recuperou a sanidade e passa a linha pelo fundo da agulha sem óculos. Totonhim a reencontrou com 75 anos (em O cachorro e o lobo), mas e agora? Os pais estariam vivos?

A viagem de ônibus pau-de-arara da Bahia à cidade de São Paulo é dura, interminável, cheia de incomodidades e dormências, mas também cheia de esperanças e saudades. O espanto da chegada, o formigueiro humano que é a estação de ônibus em São Paulo. A solidão. Todos estão sozinhos. Essa parte emotiva da narrativa rumo ao desconhecido começa na página 91. Eu já fiz essa viagem algumas vezes na minha infância e revivi tudo com a narrativa do mestre Antônio. É assim mesmo, tudo verdade.

Lembra quando “antigamente” existia o vendedor de enciclopédias que ia de porta em porta? E as portas se abriam, sem medo?! Sim, essa profissão existiu no Brasil e foi a primeira (e efêmera) profissão de Totonhim em São Paulo. A narrativa da chegada quebra o estereótipo de uma cidade de São Paulo fria e impessoal.

Já leu “Paulicéia desvairada”, de Mário de Andrade? Um dos autores que Totonhim anotou mentalmente quando passou na biblioteca pública municipal Mário de Andrade. Quer ler grátis? Clica aqui.

Há o preconceito no sudeste contra o nordestino? O Brasil é um país racista ( sempre e ainda)? Basta ler os jornais ou acompanhar as redes sociais que você vai encontrar a resposta, embora os casos rotineiros não saiam nas notícias, são dolorosos igualmente. Esse tipo de obra deve servir como reflexão, auto- análise. O preconceito surge por causa do desconhecimento. De todas as formas,  Totonhim teve uma melhor sorte que Nelo.

A trilogia fecha com chave- de- ouro, “Pelo fundo da agulha” termina  a colcha de retalhos, o quebra- cabeça. Nesse livro são citados quatro suicídios, é um tema recorrente na trilogia. As sagas e dores familiares, essas, as que mais açoitam (na ficção ou na vida).

– Não se mate pelo que acha que deixou de fazer por sua mãe, seu pai, seus irmãos, mulher, filhos, o país, tudo. E, principalmente, por você mesmo. Ou pelo menos que deixaram de lhe fazer. Nem por isso o mundo acabou. Abrace- se sem rancor. Depois, durma. E quando despertar, cante. Por ainda estar vivo. (p.218)

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A minha admiração e homenagem a todos os nordestinos e nortistas que tiveram a coragem de sair das suas cidades/povoados para tentar uma “vida melhor”, normalmente em condições adversas e sem dinheiro. A minha raiz materna, migrante, baiana, nordestina, em especial.

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Abaixo a obra autografada de um dos maiores (senão o maior!) romancista brasileiro da atualidade: Antônio Torres, membro da Academia Brasileira de Letras, membro da Academia Baiana de Letras, premiado e reconhecido no Brasil e no exterior, além de ser uma pessoa gentil e atenciosa com seus leitores.

1925134_479942558795858_1072622277_nAntônio Torres passeando em Curitiba (março, 2014- Facebook do escritor)

A obra:1459657_390445414444358_858928499870928319_n Anoitecia. Lá se fora a Ladeira Grande. Adeus, Junco. Junco: assim se divulgava o nome daquele lugar, que o ônibus ia deixando para trás. Cada vez mais. (p.109)1975018_390445474444352_2332868841897949283_n

(…) e assim adormece, com o coração mais leve, se sentirá um camelo capaz de passar pelo fundo de uma agulha. (p.218)10888948_390445454444354_2860213318269584587_nTorres, Antônio. Pelo fundo da agulha, Record, São Paulo, 2014. 220 páginas

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O site oficial do escritor, aqui.

O perfil pessoal no Facebook, aqui.

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Veja o perfil de Antônio Torres na Academia Brasileira de Letras.

Você pode comprar toda a obra de Antônio Torres em papel ou e-book nas melhores livrarias do Brasil, clica aqui

Está quase no fim do ano, mas espero voltar aqui ainda com mais uma resenha. Até a próxima!

PDF grátis da obra “Tempo e narração”, de Paul Ricoeur

A obra “Tempo e narração” do filósofo e antropólogo francês Paul Ricoeur (falecido em 2005) está esgotada na Espanha (e no Brasil?); por sorte, achei o PDF grátis (em espanhol). Corra e faça o download antes que desapareça! Obra importantíssima para o pessoal de Letras, pois trata da teoria da narrativa.

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Paul Ricoeur, além de fantástico, era bem- humorado com seus óculos de lentes móveis.

A obra consta de três volumes, o crédito vai para o blog Tempo espiral (abra o link e clique nas capas dos livros para baixar).

Enjoy it!

Resenha: Meninos, eu conto, de Antônio Torres

“Meninos, eu conto” está “classificado” como literatura infanto- juvenil, mas é adequado para todas as idades. E atenção, professores: altamente recomendado para ler na escola!

Antônio Torres (Sátiro Dias, antigo Junco, Bahia, 13-09-1940)  é um mestre do romance, mas aventurou- se também pelo conto e saiu com essas três histórias: Segundo Nego de Roseno, Por um Pé de Feijão e O Dia de São Nunca. É como se fosse um livro de memórias sobre a infância do escritor, daquelas coisas que marcam quando somos crianças, mas que podem ser as histórias de qualquer um, principalmente os que moraram nas cidades pequenas. Então, conta Antônio…

Segundo Nego de Roseno

Essa é a história de um menino que mora no Junco, quando ainda era um povoado e que trabalha na roça junto ao pai. As missas esporádicas eram a única diversão, no tempo em que ainda não havia chegado o progresso, nem os carros, quer dizer, só havia a fubica do Nego de Roseno, um carrinho desses da Ford fabricado nas décadas de 30 e 40:

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Esse era um tempo em que se sabia o valor real das coisas.

Por um pé de feijão

Aqui outra vez o menino, alter- ego de Antônio Torres nos contando a vida simples do Junco. E de como a alegria pode virar tragédia em um segundo, e que por sua vez, transformar- se em resignação e luta.

O dia de São Nunca

A chegada de três forasteiros mudam a rotina de um menino doente e sozinho. Órfão do pai alcoólatra, a mãe trabalha na roça e é rezadeira. Quem nasceu/morou na Bahia, com certeza ainda hoje, ouve ladainhas assim, com suas diferentes versões (alô, Tia Nio, saudades!) :

Com dois te botaram
com três eu te tiro
com pernas de grilo
que vem do retiro.
É de metetéia
é de manenanha
que esse menino fique bom
de hoje pra manhã. (p- 46-47)

 

Esse conto mostra personagens que debocham da crença alheia, da inocência, a soberba que torna o humano tão feio. Gente que rouba de quem não tem o que ser roubado. A falta de qualquer escrúpulo.

Terminei o livro com um suspiro profundo. Belo!

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Torres, Antônio. Meninos , eu conto. Record, Rio de Janeiro, 2011.  67 páginas. ePud

 

 

Como analisar um texto literário

Há uma variedade enorme de blogs literários: alguns são profissionais, escritos por professores da área de Letras; outros dedicam- se às resenhas com cara de sinopse e sorteio de livros; há blogs de gente muito jovem e com muita energia para ler “trocentos” livros por mês; outros, resenham o que não leram (muito engenhosos!); e ainda há muitos blogs escritos por gente apaixonada por livros, que fazem um trabalho lindo. Todos os citados são louváveis, já que fomentam de alguma forma a leitura. As resenhas em blogs são podem ser prolixas, porque ninguém lê (infelizmente), então as análises têm que ser macroscópicas, uma pincelada no essencial, um pouco da biografia, bibliografia, o texto em si e alguma curiosidade; no entanto, ser sucinto não significa ser descuidado e um mero reprodutor do que já existe. Crie seu próprio conteúdo, cuidado com a ortografia, muito cuidado com as fontes, certifique- se de que as informações são corretas e dê o crédito a quem você copiou. Não há nada errado em copiar, só não pode tomar como seu um texto que não é. Deixo aqui alguns parâmetros teóricos que podem ajudá- lo na hora de repassar para o blog o que você leu. Essa base teórica é do professor e escritor Massaud Moisés (A análise literária, Cultrix, SP, pg. 37), com esse pequeno roteiro tenho certeza que suas resenhas ficarão mais que satisfatórias:

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Essa imagem começou a rolar na internet, a fonte é um blog em árabe.

Primeiro. Escolhida a obra ou fragmento dela, procede- se à sua leitura integral, leitura de contato, descontraída, lúdica, que deve fornecer a uma “impressão” ou “ideia” geral do texto, imprescindível para as fases posteriores da tarefa analítica;

Segundo. Releitura da análise (que pode e deve ser repetida tantas vezes quantas o texto o requerer), com o lápis na mão, assinalando no texto as passagens que mais chamam a atenção ou que envolvem problemas de entendimento;

Terceiro. Consulta do dicionário lexicográfico (e de termos literários), a fim de resolver as dúvidas quanto á denotação das palavras e expressões;

Quarto. Releitura tendo em mira compreender o índice conotativo das palavras e expressões;

Quinto. Apontar as constantes ou recorrências do texto, sobretudo no que toca à conotação;

Sexto. Interpretar tais contantes ou recorrências, que constituem a camada externa das forças- motrizes, com base nos elementos do próprio texto e nas informações que o analista já possui;

Sétimo. Consultar as fontes secundárias caso o texto reclame: história literária, história da cultura, biografia do autor, bibliografia acerca e do autor, seu contexto sócio- econômico- cultural (a Política, a Sociologia, a Psicologia, etc.);

Oitavo. Organizar em ordem hierárquica de importância as constantes ou recorrências, segundo critério estatístico e qualitativo, ou seja, segundo a quantidade de constantes e sua qualidade emocional, sentimental e conceptual;

Nono. Interpretá- las e buscar depreender as ilações que comportam, à luz dos dados selecionados, tendo em vista as forças- motrizes, isto é, a cosmovisão do escritor;

Décimo. Conclusão do trabalho e sua redação final. Como a análise, via de regra, não caminha sozinha, a redação final do trabalho analítico pressupões levá- lo a uma das zonas com as quais se limita, vale dizer, a crítica e a historiografia literária.

Espero que seja útil!