Resenha: “O seminarista”, de Bernardo Guimarães #RevisitandoOsClássicos #1

“Crescent illae, et vos crescentis, amores”
(“As árvores hão de crescer, e com elas haveis de crescer vós, meus amores” – Virgílio citado na p. 88)

Aqui começa uma série: Revisitando os Clássicos Brasileiros. O que significa?

São livros que eu já li há muito tempo e tenho vontade de reler. O tempo, a experiência leitora, transformam e mudam as nossas percepções. Aconteceu dessa forma com “O seminarista”, de Bernardo Guimarães: (re)li um novo livro. E essa constatação óbvia, mas interessante, me fez criar esse post, o primeiro de uma série, espero.

Para quem nunca leu, ou leu poucos clássicos da literatura brasileira, vamos começar?!

A primeira obra escolhida: “O Seminarista” (1872), de Bernardo Guimarães.

Brevíssima Biografia do Autor
O mineiro Bernardo Guimarães nasceu e morreu em Ouro Preto (1825- 1884). Juiz e escritor de prosa e verso, foi membro da Academia Brasileira de Letras. Inclusive você pode ler a biografia completa do autor no site da ABL. Casou- se com Maria Teresa e teve oito filhos. Era tio do poeta Alphonsus de Guimarães, que foi noivo de sua filha Constança, falecida aos dezessete anos por causa de uma tuberculose.


O livro é uma narração, e pela extensão, é uma novela. As novelas são mais curtas que os romances, esses, dentro do cânone literário, devem ter mais de 300 páginas; portanto, vou chamar pelo nome correto, embora no Brasil, o chamem de “romance”, normalmente. Dentro da narração, novela e romance são gêneros literários diferentes. E em outros idiomas/países, como na Espanha, não os diferenciam só pela extensão, mas também pelo teor: nesse país, o romance ganha ares fantásticos. O termo mais comum  é “novela”, ao contrário do Brasil.

Essa novela está dividida em vinte e quatro capítulos.

O enredo

O enredo é a história em si, do que trata o livro, a trama, a ação. Em “O Seminarista”, a história não é original, mas funciona: o amor impossível. Um seminarista apaixonado pela amiga de infância, um amor inesperado, já que Margarida era como sua irmã. E isso traz um monte de complicações para a vida de ambos.


Os pais de Eugênio acham que o filho tem vocação para a vida eclesiástica, porque brincava de ser padre na infância. Na época, a vida religiosa era algo que dava muito status e respeito.

Então, lá se foi Eugênio para o Seminário de Congonhas do Campo, aos 13 anos, com o coração partido. Uma mudança radical na sua vida.

Eugênio,  entre tarefa e tarefa, pensava em Margarida. Uma espécie de melancolia o acompanhava o tempo todo. Ele não conseguia concentrar- se nos estudos. Custou- se acostumar- se e assim passaram- se doze anos. O menino cresceu dentro do seminário. E Margarida continuou no seu coração.

Com dezesseis anos, começou a ter problemas, pois o padre regente descobriu alguns poemas de amor de Eugênio destinados a uma tal “Margarida”. O padre, que era também seu professor, gostou da veia poética do rapaz e levou os escritos ao diretor, que ficou indignado e assombrado. Chamou Eugênio e foi bastante duro com ele. A partir disso, toda vez que Eugênio sonhava com Margarida, sentia pânico, rezava, fazia jejum e pagava penitência, como se o amor fosse um castigo, uma doença. Doente ficou o menino, emagreceu muito, ficou com uma aparência “às bordas da sepultura”. (p.66)

Essa parte do livro é triste e forte…choca. Tudo com a instrução e aval do padre. O fanatismo religioso é um mal terrível (na realidade também!)!

Depois de quatro anos sem ver a sua família, nem Margarida, voltou para casa. Imagina o reencontro dos dois….a descrição do autor desse momento é mágico! Um turbilhão de emoções em questão de segundos. Quem já se apaixonou sabe como é difícil explicar. A literatura explicando sentimentos universais desde sempre…

Estava como que espantado, com os olhos fitos em Margarida, querendo falar, e não achando nada que dizer. As grandes emoções lançam uma nuvem no espírito e paralisam a língua. (p.82)

Como esquecer um grande amor? Já que quanto mais se tenta esquecer, mais se lembra? Não tente, porque vai perder a batalha, mantenha- se distraído, só isso…

As puras e santas afeições da alma, longe de a desviarem do caminho do céu, são asas com que mais depressa se eleva ao trono de Deus. (p.38)

Espaço e Tempo

A história começa na “província” de Minas Gerais (terra do autor). Na época em que foi escrita a novela, o Brasil ainda era uma colônia de Portugal,  um país monárquico. Veja a descrição do lugar, já no primeiro parágrafo, junto com o tempo (“há quarenta anos”).

A uma légua, pouco mais ou menos, da antiga vila de Tamanduá, na província de Minas Gerais, e a pouca distância da estrada que vai para a vizinha vila da Formiga, via- se, há de haver quarenta anos, uma pequena e pobre casa, mas alva, risonha e nova. Uma porta e duas janelinhas formavam toda a sua frente. (p.2)

A descrição da casa de Margarida e sua mãe Umbelinda é perfeita, ela parece sorrir, toda feliz e faceira! Bernardo Guimarães era um excelente narrador, mestre na descrição. A construção das paisagens e pessoas é muito visual, retratos perfeitos. É uma delícia ler e entrar nos cenários criados pelo autor,  são bem fidedignos. Esse é um dos elementos que transformam a literatura em uma grande forma de expressão artísticas, social, antropológica…

A magia das palavras. A prosa de Bernardo também é poética.

Genial essa metáfora (analogia), veja: “Eram quase ave- marias.” (p. 6). Gostei!

Personagens

Eugênio é o protagonista, personagem principal, o futuro seminarista, menino no início da história (12- 13 anos). Filho do capitão Francisco Antunes. Tem dois irmãos mais velhos que não aparecem na história, casaram e foram embora. Foi criado junto com Margarida, que é como sua irmã.

O rapaz era alvo, de cabelos castanhos, de olhar meigo e plácido e em sua fisionomia como em todo o seu ser transluziam indícios de uma índole pacata, doce e branda. (p.3)

Na página 73

Margarida, filha de Umbelina, órfã de pai, mora numa casinha emprestada nas terras do padrinho, Capitão Antunes, pai de Eugênio.

A menina era morena; de olhos grandes, negros e cheios de vivacidade; de olhos grandes, negros e cheios de vivacidade, de corpo esbelto e flexível como o pendão da imbaúba. (p.3)

Na página 73, há nova descrição de Margarida já moça.

Umbelina,  mãe de Margarida, mora nas terras do Capitão Antunes junto com a filha Margarida e uma escrava. E viúva e comadre dos donos da fazenda.

Era uma matrona gorda e corada, de rosto sempre afável e prazenteiro (…) (p.11)

Capitão Francisco Antunes, pai de Eugênio e padrinho de Margarida, fazendeiro honesto, tinha poucos escravos e muitos agregados na fazenda, dos quais não cobrava nada.

Senhora Antunes, esposa de Francisco Antunes, mãe de Eugênio e madrinha de Margarida. Não é tão legal, trata mal a escrava Josefa. É bastante supersticiosa. Apegou- se à Margarida desde bebê, ensinou-lhe a costurar.

Luciano Gaspar de Oliveira Faria e Andrade,  invejoso do tamanho do seu nome. Atrapalhou a vida dos apaixonados. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. É só a arte imitando a vida.

A linguagem

Uma coisa que achei inverossímil (longe da realidade) foram os diálogos. O povo da roça, nem mesmo os patrões, podiam falar com a correção gramatical exposta pelo autor. Havia outras línguas de contato, muitos imigrantes, indígenas, escravos, uma grande maioria de analfabetos, um português tão correto me pareceu impossível.

A obra carece de uma mais linguagem coloquial, o que concordaria mais com a história. Curioso, porque costuma- se dizer o contrário desse escritor, que o tom de suas obras é coloquial. Vai ver “O Seminarista” é a exceção.

O narrador fala como um português. Se a gente der por certo que era a forma usada em 1832, época que o autor retrata, nota- se como em 185 anos, o português do Brasil transformou- se e distanciou- se muito do idioma luso.

Curiosidades

Bernardo Guimarães cita Aleijadinho (1738- 1814), de uma forma nada agradável, uma crítica destrutiva e maldosa, na boca do seu narrador (p. 30) :

É sabido que estas estátuas são obra de um escultor maneta ou aleijado da mão direita, o qual, para trabalhar, era mister que lhe atassem ao punho os instrumentos.

Por isso sem dúvida a execução artística está muito longe da perfeição. Não é preciso ser profissional para reconhecer nelas a incorreção do desenho, a pouca harmonia e falta de proporção de certas formas. Cabeças mal contornadas, proporções mal guardadas, corpos por demais espessos e curtos e outros muitos defeitos capitais e de detalhes estão revelando que esses profetas são filhos de um cinzel tosco e ignorante…

Eugênio vai justamente para o seminário em Congonhas, no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, onde estão as obras sacras de Aleijadinho, consideradas as suas obras- primas.

Recalcado o Guimarães, não?! O escritor e o escultor nasceram na mesma cidade de Ouro Preto.

E veja também como é feio chamar alguém de “Aleijadinho”. Uma das funções da literatura é essa também, de nos trazer o passado para melhorar no futuro. Hoje em dia é inaceitável chamar alguém por um problema físico. O artista perdeu a sua identidade, quem sabe o nome de Aleijadinho? Eu sei agora, porque fui pesquisar: Antônio Francisco Lisboa (valeu Wiki!).

Um salve para o Antônio, que mesmo com sua deficiência física, provavelmente escravo ou filho de escravos (sabe- se muito pouco sobre a sua biografia e mesmo assim, ela é incerta), no interior do Brasil colonial, deixou uma obra reconhecida mundialmente. Deixo aqui o compromisso: estudar a obra de Antônio.

Depois de ler o trecho sobre o Aleijadinho (me custa escrever, já não é hora de chamá- lo pelo nome, acho um desrespeito!), já tomei uma bronca de Bernardo, que passei a caçar tudo de negativo na obra dele, sou dessas. Na adolescência minhas leituras eram mais ingênuas, eu deixava passar muitos detalhes. Mas a sorte dele, é que realmente escreve bem.

Além disso, a gente sabe que a voz da narrativa não é o autor, mas foi ele que colocou esse pensamento na boca do narrador e a gente dá aquela gongada de todas as formas. Abaixo, trecho:

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O autor mostrou usos e costumes da roça, um tipo de dança chamada “quatragem”, os mutirões e as festas.

E voltando à história de amor…Eugênio foi proibido pela mãe de ir à casa de Margarida quando este lhe confessou a sua falta de vocação para o sacerdócio. Isso não impediu que os apaixonados trocassem promessas e juras, fortaleceram- se mais ainda.

A linda Margarida é muito cortejada, apareceu um terceiro para atrapalhar, Luciano, invejoso e maldoso, notou o que havia entre Eugênio e Margarida. Tratou de atrapalhar. Entre os pais de Eugênio e o tal Luciano, o desejo do casalzinho de ficar junto foi ficando cada vez mais difícil. Eugênio adoeceu. Eugênio prometeu à Margarida que jamais seria padre, jurou que voltaria.

Os pais podem destruir a vida dos filhos se não aceitarem como são . Os pais têm uma tendência a querer moldar os filhos baixo seus próprios desejos, moral, necessidades e costumes, como se fossem um ser único. Pais e filhos, muitas vezes, estão nas antípodas. Aconteceu com Eugênio e acontece na vida real. A ditadura maternal e paternal pode matar de muitas formas. Margarida e Umbelina foram expulsas da fazenda. Umbelina faleceu.

Grande é o poder do tempo. O próprio braço da dor, quando não consegue esmagar a sua vítima, por fim de contas esmorece fatigado, e o seu estilete, por mais buído que seja, acaba de embotar- se” (p.161)

Eugênio passou por um vale de sombras, de terror, para poder seguir em frente. Há várias alegorias religiosas ilustrando esse deserto que ele teve que cruzar para tentar destruir um sentimento muito forte, que não pode existir, a sua via crucis, e para piorar, chegou a notícia: Margarida casou- se. (SPOILER: mentira, nunca casou- se e também estava doente, mas eugênio nunca soube).

Anos mais tarde, Eugênio volta, já padre, para a Vila do Tamanduá. Via a casa de Umbelina e Margarida em ruínas. As suas pernas tremeram. Sentimentos como esses nunca morrem. Alguém chamou o padre para dar uma extrema- unção. Fácil adivinhar, não?

São as almas sujas da Terra, as que destruíram esse amor, por vaidade, inveja, maldade pura; são as que mentem, enganam, manipulam para possuir o que jamais terão. Assim como na vida. Nem com tanta gente contra, família e religião, nada conseguiu impedir o encontro- ainda que breve.

Gostei muito do final. Eugênio, de certa forma, conseguiu cumprir a sua promessa, além de dar, mesmo sem querer, uma boa lição nos energúmenos dos seus pais.


“O Seminarista” é uma obra muito intensa, bem escrita, emocionante, que desperta vários sentimentos: de ternura, beleza, raiva, pena, indignação. E a obra não te custará absolutamente nada. Ele está no banco de clássicos gratuitos do governo do Brasil, o Domínio Público. Não foi o deles que eu li, pois eu já tinha um no tablet, que baixei por 0,99 cêntimos (de euro), foi esse:

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Guimarães, Bernardo. O seminarista. PDF (no iBook, sem editora). Páginas: 237- Preço: 0,99€

Disponível gratuitamente no site Domínio Público, do governo do Brasil.

 

 

Análise da obra “Vidas secas”, de Graciliano Ramos

Por Rômulo Pessanha

O fim

Quando pensamos no tempo, nem lembramos que tudo no mundo parece ter uma tendência ao círculo. A circunferência nos recorda os aspectos cíclicos da vida presente em tudo e de como tudo se renova e se torna ainda assim, diferente. Lembra frase de pensador famoso, aquele que dizia que quem mergulha os pés num rio nunca poderá mergulhá-los novamente nesse mesmo rio. Assim é a vida, nada se perde e tudo se aproveita como diria Lavoisier. A vida é um círculo e a única mudança é seguir em frente sob alguma perspectiva nova que ilumine novos caminhos para um ponto de fuga ou de tangência para uma nova vida, pois se a figura da vida é plana cabe a nós pensar nossa felicidade e a felicidade é sonhar sempre de forma diferente.

Me refiro aqui nesse texto ao capítulo inicial de Vidas Secas, de Graciliano Ramos denominado “Mudança”. O que quero dizer quando dou o título deste texto de “O fim”? Quero dizer com isso que tanto o primeiro, quanto o último capítulo são tal e qual. Em “Fuga”, o último capítulo, pode ser observado os mesmos elementos, retornando, e se fechando novamente em esperança, nada de desfechos mirabolantes, mas uma espécie de calmaria. Voltando ao primeiro capítulo, Mudança, também pode ser traduzida em ponto de fuga, porquanto numa circunferência toda força centrípeta tracionada e acumulada gera, posso talvez assim dizer, um ponto de fuga em que o objeto acaba saindo pela tangente e o objeto no caso é a família que observamos nessa obra de Graciliano como objeto de fuga para uma sempre tentativa de vida melhor, um sonho, em vários atos, mas o caminho como já disse não é reto, é dado em curvas que não se fecham num ponto específico, porém posso dizer que pode convergir para um ponto central, no caso, não falarei aqui desse ponto central. Acredito poder ser dito que Vidas Secas segue uma estrutura em espiral.

A paisagem vermelha e o céu azul, as rachaduras do solo seco lembram toda a fisionomia do personagem Fabiano, ruivo, olhos azuis ou também até mesmo lembra a sinhá Vitória ou a ela se refere enquanto terra atrativa ou não quando a voz narrativa a descreve ora magra ou a mostra nos pensamentos de Fabiano quando diz que ele estaria querendo que a sinhá ficasse com as nádegas carnudas, seios firmes tal qual a própria natureza parece estar vez outra ao longo da obra, ora é seca, ora é de uma fertilidade avassaladora e perigosa a vida, pois quando a água é demais a cheia se faz presente, natureza selvagem é um perigo para a sobrevivência. Também as aves, os urubus, voando em círculos igualmente como a água, cercando tudo em redor lembra que o perigo os cerca por todos os lados.

Um narrador, como uma lâmpada acesa apresenta cada um dos personagens, seus pensamentos e sonhos, devaneios e medos. Como se fosse um refletor num teatro iluminando a face de cada personagem mostrando o que cada um pensa. A narrativa apresenta a paisagem ora cheia de luz do dia, ora com algumas estrelas apenas, quando está de noite.

A morte é comida, na forma de uma ave, ser que nem voa e, sabemos, nem fala, um papagaio foi papado. A morte, no negro das asas do urubu, a morte sob as cabeças dos integrantes dessa família é o que resta depois do verde da cor das penas do papagaio, o verde que significaria a esperança, o verde de uma paisagem convidativa ao descanso, passa a representar o desespero e a urgência por abrigo e sobrevivência. Enfim, o fim é sempre um novo começo para busca por novas soluções para o sustento da família.

Os pés são importantes também e se assemelham ao próprio solo que pisam: rachados, feridos, com vermelhidão de machucado que dói até mesmo pela simples descrição, assim também são os pés de Fabiano identificado com a terra em que caminha, a dor está no andar no solo que pisa e também a dor está nas feridas dos seus pés e também a dor do cansaço por verificar toda sua família sobrevivendo àquela situação narrada. Baleia se alimenta dos pés do papagaio e isso também é a terra, Baleia se alimenta da terra que não pode chegar ao céu por intermédio da evaporação da água e, o que não voa, pelo menos deve servir como alimento nem que seja simples poça d’água como o conjunto familiar peregrino nos faz imaginar como sendo pequenas gotas de vida caminhando numa chapa seca cheia de rachaduras.

O “menino mais velho” e o “menino mais novo” são assim chamados, talvez para demarcar a passagem do tempo. Os filhos de Fabiano são preservados em sua identidade, porém até Baleia possui nome, mas nome de bicho, animal de mares que talvez o céu anilado possui somente a cor. Talvez Fabiano desejasse que a vida fosse um arrebol eterno, róseo, temperatura agradável e paisagem amena e que todo o azul do céu fosse o da água correndo como ele no solo, sob a terra divertindo e refrescando a vida de seus filhos, sua mulher, toda sua família.

Os Nomes também são importantes: o que significa Fabiano, sinhá Vitória? Pesquisei rapidamente num site na internet o nome Fabiano. Significa “dotado de sorte e prosperidade”, mas provém do latim, da palavra fava, e então pensei: o que é fava? Pelo o que diz a rede virtual significa algo como sementes comestíveis. Continuando, Sinhá era a forma como os escravos tratavam suas patroas ou senhoras, geralmente sinhá, mas aqui Vitória é chamada sinhá, dá certo tom de apelido carinhoso quase como algo da fala popular, mas também pode ser indício de decadência social. O significado do nome Vitória é vencedora, pessoa que triunfa sobre um inimigo e talvez tenha derivado da forma Victor, do latim que significa vencedor. Quanto a palavra Baleia, vem do grego phállaina e também do latim ballaena. Não encontrei o significado da palavra phállaina. Ballaena não pesquisei por achar óbvio, mas verifiquei e pelo pouco que vi significa baleia mesmo, um dos maiores animais existentes atualmente. Enfim, se isto tudo sobre esses nomes não esclarece nada sobre o estudo de Vidas Secas, pelo menos fica como fonte de informação.


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Cada um possui o seu momento de iluminação. E, se Baleia não aparece na última parte da obra é somente porque ela agora conseguiu evaporar-se e seguir caminho para o céu com aura de um ser tão humano quanto um urubu pode ser. Baleia parecia gente, os urubus também. Cada um com um aspecto da dualidade humana: Baleia nos remete ao companheirismo, fidelidade, amizade, ingenuidade, simplicidade, enquanto os urubus são carniceiros apenas para sua sobrevivência. Essa família é um exemplo do que pode significar sobreviver diante das questões da vida. Nem sempre sobreviver é viver, mas lutar nutrindo forças com a vontade que os sonhos nos proporcionam e fazem que seres humanos como os apresentados na obra de Graciliano se tornem sobre humanos, com uma força tirada de sua própria natureza que é a natureza de continuar sonhando mesmo quando tudo em derredor diz não. O fim não se acaba nem com o nosso fim, pois com o nosso fim, mudamos, fugimos para outro lugar onde a luta continua sendo a realidade nesse momento, o próprio sonho que se pensava, mas também o sonho que se vive e se e se habita, desejo que em nós habita é o nosso futuro lar, novo mundo.

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Ramos, Graciliano. Vidas secas, Record, 89ª edição, Rio de Janeiro, 2003. 176 páginas