Resenha: “O Buda dos subúrbios”, de Hanif Kureishi

Um dos melhores livros lidos este ano: “O Buda dos subúrbios”, obra clássica contemporânea do inglês Hanif Kureishi. Eu já li outros dois livros do autor “A última palavra” e “Intimidade”, sugiro que você coloque este autor na sua lista de leituras, ele é MUITO bom!

Eu tive a oportunidade de estar pessoalmente com Hanif numa visita sua à Madri no Dia Mundial do Livro, em 2015.

Hanif Kureishi em Madri, 2015. Foto: Fernanda Sampaio

Kureishi é de ascendência paquistanesa e o “Buda dos subúrbios” parece misturar- se com sua própria vida: uma família anglo- paquistanesa que vive num subúrbio de Londres. Os filhos nasceram em Londres, o pai é do Paquistão e a mãe é inglesa. O filho mais velho é o narrador e personagem principal. O jovem é britânico, mas é visto por muitos nativos como imigrante, “o moreninho”, inclusive no dentista, a secretária comenta com o dentista se ele saberia inglês. Para os brancos, a norma é eles. Esta obra foi escrita em 1990, mas está ambientada nos anos 70.

O racismo na Europa continua vivo, vivíssimo, e isto reflete- se na literatura. A imigração nunca foi o principal problema da Europa, mas os fascistas enfatizam isto, pois é próprio da sua natureza racista e xenófoba. O problema da Europa é a corrupção e as barreiras ao pluralismo.

De tempos em tempos, ressurge a ultra- direita, como o Bolsonaro no Brasil e o partido Vox na Espanha (que ficou em terceiro lugar na última eleição presidencial, em 10/11/2019) ou ainda a Marine Le Pein, na França dando voz a uma horda cruel e daninha movida pelo ódio.

Hanif colocou seu personagem em várias situações de racismo, como quando foi visitar uma moça e seu pai o expulsou por sua cor, cena chocante, mas que para Karin faz parte do seu cotidiano (em espanhol):

Karim foi visitar uma menina que conheceu na casa de Eva e seu pai o expulsou, porque não gosta de “negros”.

Há muitas cenas racistas vividas pelos personagens de etnia indiana, mas não só: o autor abordou também o machismo da cultura, o casamento arranjado e a violência contra a mulher.

A história acontece nos anos 70 e conta a vida como ela é, sem nenhum tabu e ou dramatismo. O narrador- personagem, o filho do “Buda”, Karim Amir, tira sarro de tudo, acha a melhor política. Ele é jovem e está na fase de descobrimentos, sexo com homens e mulheres, drogas (má decisão em qualquer época), roupas extravagantes e rock and roll.

Rir com um livro é fantástico e eu dei gargalhadas várias vezes, um grande feito do autor, fazer rir é a coisa mais difícil.

O pai paquistanês, Harry (adotou um nome inglês, seu nome indiano é Haroon) é um personagem muito curioso. Um sujeito que tira proveito da sua ingenuidade ( o que é uma contradição, nem tão inocente), tem uma amante com um só seio (teve câncer), é funcionário público e infeliz com seu trabalho, não lhe interessa o dinheiro, busca a paz interior. É muçulmano, mas não pratica e se apaixona pela filosofia do budismo. Vive lendo livros, meditando, fazendo yoga e começa a ensinar suas práticas em sessões na casa de Eva. O filho Karim os vê transando no jardim e o pai o vê masturbando- se com o filho de Eva, Charles. Ambos guardam o segredo, os dois com o “telhado de vidro”. Este livro revela as entranhas, o esqueleto das famílias aparentemente “normais”. Em muitos casos, o que se vê é o ditado pela moral religiosa, mas o que acontece na realidade é bem diferente.

O budismo ensinou a Harry deixar- se levar. Ele não reprime desejos e vontades, faz o que mandam os seus sentimentos. Segue o fluxo natural, o que o seu corpo pede. Caramba, que corajosas são as pessoas assim, não é? São livres, mas liberdade custa e não é pra todo mundo. Harry não é livre. Ele é apaixonado por Eva, mas não deixa a esposa e filhos. Prefere sofrer, que provocar sofrimento nos demais, mas o sacrifício não vai durar muito.

Meu exemplar autografado

A mãe de Karim é muito infeliz. A típica dona- de- casa e trabalhadora esgotada (trabalha numa sapataria para pagar a escola do filho mais novo) a ponto de explodir. Ela sacrifica- se pela família, mas não tem nenhum reconhecimento, enquanto o marido é cuca- fresca e sai pelo bairro “alegrando” as vizinhas, mas não consegue fazer feliz a esposa. A inglesa também sente- se discriminada entre a comunidade indiana-paquistanesa. Ela sabe que o marido a trai, mas prefere engolir o orgulho para manter a sua família junta.

O tempo todo eu torci para que ela abandonasse a família ingrata e que caísse no mundo em busca de sua felicidade. Ainda que não a encontrasse, seria melhor do que a vida leva. Veja como entrei na história, até quis interferir na vida da personagem. Isto porque não entramos no pensamento da mulher, só vivenciamos o sofrimento dele. Não sei de que lado ficaria, faltou a versão dela.

Há uma outra parte bem interessante, que é a descrição da geografia da cidade e suas características e também da cultura pop dos anos 70. Vi que a minha cultura musical não é tão boa como pensava: conheci com este livro bandas e cantores como Wild Man Fisher, Captain Beefheart, Traffic, The Faces, Emerson e Soft Machine, por exemplo. Coloca algum som desses de fundo, que te teletransportará direto aos anos 70.

A tradição dos pubs é muito forte no Reino Unido (e na República da Irlanda). Karim cita um que funciona até hoje, o The Chatterton Arms. Se você olhar o Facebook do bar, verá um vídeo com dois caras rapando a cabeça a zero. E também poderão ler uma qualificação negativa de uma moça que disse ter sido maltratada e expulsa do pub com seu grupo de amigos, um deles gay, o que só corrobora com a história do livro, de que, ainda hoje, o subúrbio de Browley em Londres é uma lugar perigoso.

Eu demorei mais do que o esperado em terminar este livro, porque interrompi a leitura muitas vezes. Ficava curiosa e ia conferir as referências. A cultura geral que a leitura nos traz e a maravilha da Internet que nos permite visitar virtualmente tudo que lemos. Ser escritor hoje em dia exige muito mais cuidado e rigor, já que tudo pode ser checado.

A família e suas relações são o centro da narrativa. E família é coisa que dói:

“(…) os psicólogos londrinos aconselhavam que a pessoa vivesse a vida à sua maneira, apesar da família, se não quisesse ficar louca.”(p.85)

O autor aborda vários assuntos universais e preocupantes através do seu personagem Karim: a homofobia, a pederastia e o bullying. Um professor de Karim o chamava de “marica”, mas o sentava em suas pernas e lhe fazia cócegas. Karim voltava da escola cuspido e sujo das coisas que lhe jogavam, fora os insultos racistas. O livro tem uma parte cômica, mas também outra muito triste. O narrador- personagem conta que um professor de artesanato teve um ataque cardíaco, porque um aluno neo- fascista colocou o genital de outro aluno num torno e começou a girar a manivela. Pesado. E que os fascistas lhe obrigavam a cantar hinos, urinavam nos seus sapatos e que um deles lhe marcou o braço com um ferro em brasa, como se faz com gado. Ele agradecia quando conseguia chegar em casa sem nenhuma ferida grave. Inglaterra, década de 70. A ficção imita a realidade, acredite.

Esta obra não é aborrecida em nenhum momento. É muito cinematográfica, é fácil imaginar os cenários e pessoas. Inclusive foi feita uma série na BBC com esta obra. Adivinha quem fez a trilha sonora? O grande David Bowie. O artista também é citado na obra (p.92), ele estudou na mesma escola de Karim, quando ainda chamava- se “David Jones”. Havia uma foto coletiva num corredor da escola e os alunos que sonhavam em ser estrelas de rock se ajoelhavam diante da foto e rezavam.

Veja aqui um trecho da série que passou na BBC2 em 1993:

The Buddha of Suburbia

E aqui a música The Buddha of Suburbia com o inesquecível David Bowie, com várias cenas da série:

Há também muitas referências literárias. Karim adorava chá e andar de bicicleta, que usava como meio de transporte. Passou de bike em frente à casa do escritor londrinense H.G. Wells (1866-1946), que nasceu na Bromley High Street (p. 87), autor de obras como “A máquina do tempo”, “A Ilha do Dr. Moreau” e a “A guerra dos mundos”, por exemplo. Londres é uma cidade fascinante, em todos os lugares encontramos casas de gente artistas incríveis. Talvez seja a minha cidade favorita de todas que conheci até hoje, isso com a visão de turista, para morar é outra história, e menos idílica.

Na página 88, há uma referência aos brasileiros: “A gente do nosso bairro era fanática por compras. Comprar era para eles o que é cantar e dançar samba para os brasileiros.” Pois é, realmente…o brasileiro anda sambando mais do que nunca.

Do amor não há como fugir, adiar, porque isso gera muito sofrimento aos apaixonados. O amor é urgente e torna gigantes os implicados, conseguem saltar qualquer barreira. E assim foi com Harry e Eva. Ambos casados e romperam com seus respectivos para ficarem juntos. Karim foi morar com eles e Helen levou o filho mais novo.

Quase todos os personagens gostam de livros. A literatura está incorporada na vida deles. Quem dera fosse assim também na vida de todo mundo na realidade (como é na minha). Gostaria que fosse corriqueiro, por exemplo, em uma reunião de amigos, alguém que tirasse um livro da bolsa e começasse a ler para todos um verso ou trecho incrível de alguma obra que está lendo no momento, sem que ninguém achasse estranho ou aborrecido. Charlie, o filho de Eva, faz isto. Tira um livro de poemas e começa a ler nos momentos mais inusitados.

A obra tem duas partes, a primeira acontece nos subúrbios (finaliza na página 158) e a segunda em Londres. Eva, Harry e Karim mudam para West Kensington atrás de uma vida mais emocionante e menos racista. Nos anos 70, West Kensington era eminentemente um bairro de imigrantes (assim ainda é assim, aliás, Londres inteira).

A segunda parte foca mais na carreira de ator de Karim, os bastidores e sua relação com Eleanor, uma moça com problemas psicológicos, pois havia perdido o namorado, também ator, por causa de um suicídio. O rapaz era das Antilhas, muito bonito e talentoso, “na realidade melhor do que muitos”, mas as portas não se abriam por causa da sua cor, ele só conseguia papéis de figuração:

“A polícia o levava cada dois por três e lhe submetia a interrogatórios tormentosos. Os táxis nunca paravam pra ele. Lhes diziam que não havia mesas vazias nos restaurantes.” (p.259)

Há também promiscuidade. A cena mais forte acontece na casa do dono da companhia de teatro onde trabalha karim e Eleanor. Pyke e Marlene, casal de meia idade, de certa forma impõem ao jovem casal sexo a quatro. Karim leu nas entrelinhas, que se não o fizesse poderia correr o risco de perder o seu papel na companhia. Mas também não foi problema, o casalzinho é bastante liberal. Parece que nos anos 70, antes da descoberta do vírus HIV, muita gente era….paz, amor e sexo livre era o lema dos hippies.

Citado na obra, na página 163, Gandhi morou num quarto neste bairro, na 20 Barons Court Road. E o vocalista da melhor banda do mundo, Freddie Mercury, também morou em West Kensington num apartamento na 100 Holland Road, W14, além do poeta Nobel de Literatura, W. B. Yeats. Ele morou com a família em Edith Villas.

Edifício em West Kensington, onde morou Freddie Mercury quando era casado com Mary Austin

Eva era a que tinha dinheiro. Ela comprou uma casa de três quartos de uma polaca, parecida com esta (foto acima) que Freddie morou. Nos últimos quinze anos, a casa tinha sido alugada para estudantes e estava bastante estragada. Um pardieiro para Harry. No subúrbio a casa deles era muito melhor. West Kensington fica ao lado do caríssimo Kensington, bairro que Freddie Mercury mudou depois de rico para uma casa chamada Garden Lodge. Depois da sua morte, a casa ficou para sua ex- esposa e amiga, Mary Austin. Voltando para a ficção, Eva reformou a casa, que virou um palacete e teve até festa de inauguração.

Karim, que viajava à deriva, conseguiu encontrar um caminho, o teatro. Só que seu primeiro papel foi de Mowgli, o menino lobo. No ocidente é comum a falta de papéis importantes para atores orientais e africanos, que não sejam algo muito específico, o que não é aceitável numa sociedade multirracial. O papel de Mowgli lhe foi dado por seu aspecto indiano e lhe pediram que falasse com o sotaque deste país, sendo que ele é inglês e nunca havia estado na Índia.

E a questão da desigualdade, da luta de classes, da opressão trabalhadora engole seus ideais para trabalhar, porque quem os emprega são os que têm o poder. Esses que herdam facilidades, que rodam em círculos de gente influente e que têm a facilidade e acesso a lugares que o filho do pobre não pisa, onde tudo lhe é favorável, mas ainda por cima acreditam ter algum mérito. Não têm.

É maravilhoso quando se termina a leitura de um livro com pena. Ele tem mil referências que me fizeram consultar bastantes coisas, muito rico culturalmente, além de questionar assuntos que nos preocupam como: o racismo….

(…) Trata de proteger- te do teu destino, de ser mestiço na Inglaterra. Para ti deve ser difícil de aceitar…não pertencer à nenhum lugar. E também o racismo. (p.182)

…e ainda, as drogas, o machismo na forma de opressão e violência contra as mulheres, a liberdade pessoal contra a moral religiosa, a repressão e violência contra os homossexuais, a falta de perspectivas da juventude e a relação entre pais e filhos. Depois de muito tempo sem se falarem, karim viu seus pais conversarem na estreia da sua peça:

A primeira coisa que me ocorreu ao ver- los é o pequeninos e tímidos que pareciam papai e mamãe, o muito frágil e envelhecidos que estavam e o pouco natural que parecia a distância que os separavam. Você passa a vida toda pensando em seus pais como monstros opressores e protetores que tudo podem e, de repente, um dia volta e lhes pega desprevenidos e o resultado é que não são mais que pessoas frágeis e apreensivas que tratam de sair adiante o melhor que podem. (p. 293/294)

E a questão da identidade: Karim reflete no enterro de Anwar, pai de Jamila, que morreu de um enfarto ao ver o marido da filha, Changez, em plena transa com uma prostituta japonesa. Jamila e Changez viviam separados, Jamila só fingiu o casamento imposto pelo seu pai, que mantinha o costume da Índia dos casamentos arranjados. Pode haver um conflito interior muito grande quando culturas se misturam e brigam entre si, veja:

Agora, ao olhar a todos aqueles seres desconhecidos- os indianos-, me dei conta de que em certo modo eram minha gente, ainda que tivesse passado a vida tratando de negar e ignorar. Me sentia envergonhado e vazio ao mesmo tempo, como se me faltasse metade do meu corpo, como se estivesse conspirando com meus inimigos, esses brancos que queriam que os índios fossem como eles. (p. 273)

Os orientais e africanos, principalmente, podem sofrer um choque cultural grande ao vir para o Ocidente. Aos ocidentais pode ser um símbolo de opressão machista o lenço muçulmano, por exemplo, mas muitas não sentem assim. O respeito é o fundamento de tudo. Não sou a favor de proibir o lenço como cogita- se em alguns países europeus, como na França. As pessoas não têm que deixar de ser quem são para agradar o Ocidente. Será que não é possível uma convivência pacífica e enriquecedora? Tenho certeza que sim. Cristãos, judeus, islamistas, ateus, budistas, hinduístas, espíritas podem e devem conviver em harmonia e com a possibilidade de uns aprenderem com os outros. Eu creio nisto, a Babel é aqui.

(…) para alcançar a verdadeira liberdade, havia que livrar- se primeiro de todas as amargurar e ressentimentos. Como seria isto possível se todos os dias se geravam novas amarguras e ressentimentos? (p. 292)

Esta é uma obra valente que mostra o outro lado de uma Inglaterra que, para muitos ingleses, não interessa mostrar. Bravo, Kureishi, pela coragem! Desconstrói a ideia de uma Inglaterra acolhedora, multicultural e integradora. E ainda há muito a ser feito.

Os novos europeus, às quais eu me incluo, às vezes não temos histórias bonitas que contar. Eu sou branca, mas já sofri ataques xenófobos em Lisboa, Barcelona e Madri, já me mandaram de volta ao Brasil algumas vezes. E já vi outros sofrerem. A Europa não é o paraíso idealizado por muitos brasileiros. A forma de combater a xenofobia e o racismo? Não se calar, combater, brigar. Não se pode aceitar e normalizar o inaceitável. A Europa é nossa também. O purismo de raças de Hitler deveria ter morrido com ele, com Salazar, Franco e Mussolini. Deveria, mas sobrevive ainda no ano de 2019. Veja este ataque racista num ônibus de Madri neste mês a uma mulher de etnia latina. Tristemente, constatei que aconteceu na linha do bairro que morei durante 10 anos. Muita coisa acontece, mas não há um vídeo para provar. Tal como no Brasil, os fascistas estão perdendo a vergonha de mostrar- se. Polícia neles! O energúmeno xingou a moça, a mandou “para o seu país”, ela respondeu que “aqui é o meu país”, e o sujeito começou a começou a esmurrá- la. Ela que desceu do ônibus. Quando acontece qualquer conflito, como uma disputa por um banco no ônibus, a primeira coisa que atacam é em relação à nossa origem.

O fascismo vive no coração de muitas pessoas, a semente do mal não para de brotar.

O final do livro foi o que menos eu gostei. Pareceu final de novela da Globo, onde no último dia tudo se resolve e acaba em festa, em final feliz. Mais ou menos isto. Embora a última frase tenha sido excelente.

Entrou para os meus favoritos. Recomendadíssimo! A edição lida e um pedaço a minha biblioteca:

Kureishi, Hanif, El buda de los subúrbios, Anagrama, Barcelona, 1994. Páginas: 336

E disse o sábio Buda do Subúrbio:

– Creio que a felicidade só é possível se nos deixarmos guiar pelos nossos sentimentos, nossa intuição e nossos desejos verdadeiros. Se a pessoa age empurrada pelo sentido de dever, a obrigação, o sentimento de culpa e o desejo de contentar os demais, só consegue a infelicidade. (p.102)

Buscar a felicidade antes que seja tarde. A vida tem algum sentido, se não?

“Consciência corporal”: tecnologias de formação do sujeito em “O Estrangeiro”, de Albert Camus, por Elton Uliana

Albert Camus

 

Durante séculos a pena de morte, muitas vezes acompanhada de refinamentos barbáricos, tenta conter o crime; no entanto, o crime persiste. Por quê? Porque os instintos que estão em guerra no homem não são, como afirma a lei, forças constantes em um estado de equilíbrio.

 (Albert Camus)

 

 

O Estrangeiro (1942), de Albert Camus, é um romance composto sobre o absurdo e contra o absurdo da sociedade moderna. A narrativa sombria do romance retrata a vida de um jovem “vagando à margem da sociedade, preso em um jogo ambivalente de solidão e sensualidade, inocência e culpa. Através da vida obstinada do narrador Meursault, o romance mostra a inarticulação entre uma consciência individual e o mundo, um impedimento entre um Eu emergente e a sociedade hipócrita e conspiradora que o cerca. À medida que o romance avança, a condição existencial do protagonista se torna gradualmente um estado subjetivo de “ser-Parasi”, que é continuamente ofuscado por um sistema rígido de justiça externo e, ao mesmo tempo, interiormente perplexo pela distorção de tal sistema. Camus permite que o contraste entre o niilismo individual e o absurdo conceitualizado sob aforma de alteridade permeie a narrativa até que, eventualmente, o narrador mata um homem e se torna efetivamente incapaz de elaborar seus sentimentos e de se ver como um criminoso. Fortemente informada pela perspectiva teórica de Camus sobre o Absurdo, a subjetividade do narrador, com sua lucidez (ou falta dela), é menos afiliada à de uma classe ou coletividade do que à psicologia de seu próprio Eu solitário, apóstata e cada vez mais isolado. Nesse contexto, até a questão de agência e de escolha parece gratuita e irracional. Se a rejeição do romance com relação à argumentos fundamentados apresenta problemas genuínos impossíveis de serem reconciliados em termos filosóficos, a estética literária de Camus incorpora em sua própria estrutura todas as ansiedades ontológicas que o texto se propõe a dissipar. Este estudo analisará O Estrangeiro para explorar a atitude paradoxal do romance em relação à percepção, subjetividade e pertencimento social. Argumentarei que a identidade de Meursault resume as antíteses da cultura, da sociedade e do direito, que são algumas das características do pensamento existencialista. Além disso, sugerirei que o quadro narrativo que constrói a identidade de Meursault gesticula ironicamente para seu próprio artifício inevitável: tenta nos convencer de que o pensamento racional é limitado, mas, ao fazê-lo, produz um construto linguístico altamente racionalizado.

A indiferença intratável de Meursault representa um ataque às convenções sociais. Camus elabora um encontro antitético entre o Eu e o Outro, indicando desde o início que os sentimentos de Meursault estão desdenhosamente em oposição ao que, socialmente, se espera dele:

[O] diretor continuou falando, mas eu não prestei muita atenção. Por fim ele disse: Agora suponho que você gostaria de ver sua mãe? Levantei-me sem responder e ele liderou o caminho para a porta.

      (O Estrangeiro, p.11).

 

O romance decididamente propõe uma reversão da ordem social. O narrador neste momento nem chega ao nível em que as responsabilidades éticas e morais são relevantes. Sua atitude moralmente inerte é, em certo sentido, destrutiva da solidariedade humana, mas também é, perversamente, um sinal dela. O absolutismo impessoal da conduta do personagem parodia a impessoalidade total dos laços que nos conectam a humanidade comum, algo que nenhum impulso subjetivo pode deixar de lado. No entanto, essa capacidade de se desvencilhar do conteúdo consciente da percepção é para Camus, e para a maioria dos escritores existencialistas, não uma lógica estranha, mas uma lógica estrutural. A indiferença autônoma e irrefletida de Meursault (‘Mamãe morreu hoje. Ou talvez ontem, eu não sei.’, O Estrangeiro, p. 9) e o comportamento socialmente impeditivo representam não apenas uma personificação do fenômeno da má fé, mas também um radical rejeição da categoria ontológica “ser-Por-outros. Esse estado se manifesta, segundo Jean-Paul Sartre, através de uma preocupação com o que os outros pensam, uma maneira de estar consciente de si mesmo no mundo que geralmente produz e prolifera a vergonha. A ação de Meursault contraria e desafia a suposição de que a consciência individual está unida por compartilhar as mesmas semelhantes tipificações do mundo e suas experiências nele. Da perspectiva freudiana, a cultura normativa reprime o instinto e a liberdade humanas, mas a tendência de Freud era privilegiar a cultura e não a natureza. Ao contrário de Freud, que vê o ser humano vinculado a um sistema de restrições necessárias para a sobrevivência da humanidade na sociedade, mesmo que ele esteja ciente das consequências disso, Camus reinstala empaticamente em O Estrangeiro a dicotomia natureza-cultura. Meursault é ao mesmo tempo restringido por sua própria narrativa e transgressor dela. Da mesma forma que o texto propaga o conceito existencialista de “ser-Parasi com sua negação de convenções sociais, a conexão impessoal do protagonista com o mundo exterior e sua falta de vínculo humano põem em risco a tradição, o comportamento público e o código social.

      Camus exacerba esse dilema hermético, retratando seu herói no modo pré-reflexivo, apegado vigorosamente à ética da autenticidade e sinceridade. Em sua determinação ética, Meursault se recusa a mentir (se não em todos os sentidos, como o texto finalmente revela, pelo menos à seus sentimentos): Respondi que nem mamãe nem eu esperávamos algo mais um do outro, ou de fato de outra pessoa, e que ambos nos acostumamos às nossas novas vidas (O Estrangeiro, p. 85). Mentir, segundo Camus, não é apenas a ficcionalização da verdade; é também, e mais importantemente, uma relação hiperbólica com a realidade, é afirmar mais do que realmente se sente. Em seu estudo da Filosofia do Absurdo de Camus, AviSage observa que, se Meursault é incapaz de mentir, é porque ele representa o paradigma autodeterminado do estrangeiro-absoluto, uma personificação das ideias de inocência e irrepreensibilidade de Camus. A meu ver, essa situação é mais paradoxal: Meursault é tão incapaz de mentir quanto ele é incapaz de dizer a verdade. Suas decisões não se baseiam em uma avaliação ética que favorece a verdade sobre o engano ou a autenticidade sobre a falsidade; em vez disso, elas pertencem ao nível de “percepção corporal”, um estágioem que o personagem está submerso em um lodo de sensualidade, e não na percepção consciente. Ao construir seu personagem dessa maneira, Camus consegue capturar em seu romance algo intrinsecamente humano: o fato de que, no nível primário, somos todos animais instintivos, mas na sociedade humana não podemos levar essa suposição muito literalmente. Como alguns comentaristas sugeriram, o romance desafia irremediavelmente a relação entre a verdade humana e a justiça social. De fato, o discurso novelístico-filosófico de Camus é inscrito pelas próprias racionalidades sociais que ele deseja perturbar e transgredir. Se essa construção do“estrangeiro”, se a concepção de Camus de uma forma aparentemente utópica da existência representa uma elevação de seres individuais além de qualquer razão, ela também funciona, ironicamente, como uma ameaça ao capital, à sociedade e às relações humanas.

A identidade de Meursault no romance, então, é tão manchada quanto é apaziguada pela inadequação de sua consciência social. O herói do romance é uma espécie de comprovação das próprias tentativas filosóficas de Sartre de pacificar o dilema referente à autorealização por meio de papéis sociais e de agentesespontaneamente livres para derrubá-los. Na primeira seção do romance, a presença dos outros (representada pelos personagens secundários) não desempenha um papel significativo na formação da identidade de Meursault. Em certo sentido, essa negação de formas normativas de formação de identidade não significa que o olhar público externo não tenha sentido para Meursault. Em vez disso, ela indica que Meursault é textualmente construído nesta parte do romance, dentro da estrutura ontológica “ser-No-mundo”, privilegiada pela experiência e não pela consciência. Inversamente, uma mudança depercepção é produzida na segunda parte do romance, aumentando a instabilidade semiótica do texto :”Pareceu-me então que eu podia interpretar o olhar nos rostos dos presentes; foi uma simpatia quase respeitosa.” (O Estrangeiro, p.107). A prisão do protagonista o obriga a descobrir o outro e a refletir sobre o absurdo de sua própria existência, que agora não é apenas inflexivelmente “taciturna e retirada” da sociedade (O Estrangeiro, p.66), mas também fisicamente libertada dela. Nesse estágio, é quase como se Camus estivesse criando escrupulosamente em Meursault uma identificação com os outros apenas para que essas figuras externas se tornassem entidades subjetivas ofuscantes. Camus infunde no romance uma estrutura real de desidentificação, uma articulação que faz com que Meursault evite a interação social e se torne amplamente incorporado à textualidade.

      Ao lado de uma crise ontológica, o romance retrata uma trágica oposição entre Meursault e a sociedade. Em outras partes do romance, Camus torna transparente o distanciamento contínuo, curioso e eventualmente fatal na relação de Meursault com seus próprios motivos:

[O promotor] gostaria de saber se eu havia voltado sozinho à primavera com a intenção de matar o árabe. ‘Não, eu disse. “Nesse caso, por que ele estava armado e por que voltar exatamente àquele lugar?”, Eu disse que foi por acaso.

(O Estrangeiro, pág. 85)

 

A relação textual entre as ações aparentemente irracionais de Meursault e seu assassinato não pode ser explicada em termos de causa, efeito ou motivação (eu respondi prontamente que era por causa do sol, O Estrangeiro, p.99). René Girard argumenta que esse relacionamento sinistro é essencial e não acidental. Em certo sentido, a explicação de Girard justifica a controvérsia interpretativa em relação ao comportamento do personagem: um crime comum é geralmente pessoal ou ideologicamente motivado. Em outro, coloca o protagonista no domínio dos heróis trágicos, atribuindo as qualidades do evento às mesmas forças essenciais que presidem os destinos desses personagens. Do mesmo modo que as palavras crimee inocência são irreconciliáveis, o estado generalizado e esteticamente elaborado de “não-existência” de Meursault, embora glorificado energicamente no texto, nunca pode ser reconciliado com a sociedade tecnocrática moderna, como a estratégia de Camus para o desfecgo do romance demonstra: Ele [o juiz] anunciou que eu não tinha lugar na sociedade cujas regras fundamentais eu ignorava (O Estrangeiro, p. 99). O comportamento, assim como as ações de Meursault podem parecer insípidas, mas a narrativa tenta continuamente transmitir que, exatamente por não terem sentido, elas são altamente significativas. Dentro do contexto do Absurdo, a existência é aleatória e a ausência de qualquer causalidade preeminente para infundir significado leva à articulação de uma experiência libidinal imediata e instintiva. O problema é que esse conceito precisa envolver o conceito de ordem social e, de fato, de ideologia. Consequentemente, o ostracismo social de Meursault no romance demonstra-se tragicamente em desacordo com os valores culturais.

O poder transgressor do romance, então, é que ele dramatiza em sua própria estrutura interna um paradoxo crucial: o fato de que o valor colocado na ética mais elevada da justiça surge do fracasso das próprias relações sociais que ela procura presidir. A narrativa de Camus busca maneiras de fugir ou suprimir a objetividade espúria com que as instituições legais envolvem a sociedade e oprimem o indivíduo. Nesse sentido, o romance é um estudo dos resultados e consequências da maquinaria implacável de normas jurídicas, de seus efeitos concretos na sociedade, e não uma investigação do processo institucionalizado pelo qual elas foram e continuam sendo formuladas. Os tratados filosóficos de Camus sugerem que a essência do “absurdo” não está localizada separadamente no indivíduo ou no mundo; é antes um produto da coexistência dos dois. Se a ambivalência e a vulnerabilidade de Meursault representam rebelião; sociedade e justiça representam limitação. O romance representa, assim, um espelho da sociedade em que foi produzido:

Porque, afinal, a sentença que a havia estabelecido era ridiculamente desproporcional com sua persistência inabalável […]. O fato de a sentença ter sido lida às oito em vez das cinco […] todas essas coisas realmente pareciam prejudicar consideravelmente a seriedade de tal decisão.

      (O Estrangeiro, pág. 105)

 

Ao contrastar o funcionamento paródico das instituições sociais com o conceito igualmente absurdo de arbitrariedade, o texto tenta convencer o leitor de que qualquer julgamento de culpa é inevitavelmente errado. De fato, quanto mais o texto tenta normalizar a inadequação das interações de Meursault com o mundo social, mais confirma a inaptidão hipócrita e amoral desse mundo. David Sherman ressalta de forma convincente (apesar de considerar o romance um sucesso estético) que Camus trai o solipsismo de seu próprio trabalho no próprio ato de escrevê-lo. Expandindo o argumento de Sherman, torna-se plausível sugerir que Meursault acaba habitando o mundo do pensamento racional em seu próprio esforço para miná-lo, sendo aprisionado na racionalidade dos preceitos filosóficos do próprio texto.

     O Estrangeiro tipifica, de maneira bastante magnífica, a descrença existencialista em argumentos fundamentados, assim como evidencia a Filosofia do Absurdo de Camus, com seu foco em arbitrariedade, altruísmo e alienação. Argumentei que Camus dramatiza na própria estrutura de O Estrangeiro todas as ambivalências morais, éticas e estéticas de seu próprio pensamento filosófico, mesmo quando ele tenta mediá-las e torná-las acessíveis. Se a fidelidade do protagonista à verdade origina uma autenticidade individual, ela também produz um desengajamento coletivo com a conjuntura social que produz esse personagem. Os preceitos do Absurdo operam continuamente dentro do romance: nem o ambiente social em que Meursault vive, nem o mundo interior de seus pensamentos possuem qualquer organização racional. A estratégia predominante de Camus, na minha opinião, é nos fazer refletir não apenas na ficcionalidade do personagem que dá ao romance  seutítulo, mas também na ilicitude do mecanismo jurídico. O absurdo que está realmente em julgamento no romance não é o do protagonista que, de maneira aparentemente arbitrária, está se submetendo à sua própria percepção primária; mas sim a arbitrariedade dos sistemas social e judicial que preside o destino do personagem.

 

Referências bibliográficas 

 

Bloom, Harold (ed.), Blooms Modern Critical Views: Albert Camus (New York: Chelsea House Publishers, 1989)

Burnier, Michael-Antoine, Sartre and Camus Hoje, trans. intoPortuguese by Bernard Pingaud (Sao Paulo: Editora Documentos, 1986)

Camus, Albert, The Myth of Sisyphus and Other Essays(Chicago: vintage International, 1991)

Camus, Albert, The Outsider, trans. By Joseph Laredo (London: Penguin, 1982)

Craig, Ian, Existentialism and Sociology: A Study of Jean-Paul Sartre (Cambridge: Cambridge University Press, 1996)

Eagleton, Terry, Sweet Violence: The Idea of the Tragic(London: Blackwell, 2002)

Growel, Steven (ed.), Cambridge Companion to Existentialism  (Cambridge: Cambridge University Press, 2012)

Hughes, Edward J., The Cambridge Companion to Camus (Cambridge: Cambridge University Press, 2007)

Jeffrey, Olick, and Daniel Levy, ‘Collective Memory and Cultural Constraint: Existentialist Myth and Rationality in French Literature’, French Literary Review 62, no.6 (1997)

Kermode, Frank (ed.), Fontana Modern Masters: Camus (Glasgow: Fontana/Collins, 1979)

Merleau-Ponty, Maurice, Phenomenology of Perception ( Abgindon: Routledge, 2012)

Petrakis Peter A. and Eubanks Cecil L., ‘Reconstructing the World: Albert Camus and the Symbolization of Experience’, The Journal of Politics, No. 2 (May, 1999)

Podhoritz, Norman,  ‘Camus and His Critics’, The New Criterion (Nov. 1982), [http://www.newcriterion.com/articles.cfm/Camus-and-his-critics-6546]

Sage, Avi, Albert Camus and the Philosophy of the Absurd (Amsterdan: Rodopi, 2002)

Sartre, Jean-Paul, Being and Nothingness: An Essay in Phenomenological Ontology (London: Routledge, 2003)

Sherman, David, Camus (Chichester: Wiley-Blackwell, 2009)


* Elton Uliana é crítico literário e tradutor brasileiro, residente em Londres e afiliado ao Centro de Estudos de Tradução da University College London e à Associação dos Tradutores Britânicos, veja.

 

 

Kindle: prós e contras

O meu iPad de quase dez anos pifou. Na verdade, mudei de ID Apple há alguns anos e o anterior que usava no iPad caiu num limbo irrecuperável, consta como inexistente, e com isto, o tablet ficou sem utilidade. Tentei recuperar o ticket de compra na loja, mas foi impossível. Sem poder provar que o eletrônico é meu, a Apple nada faz. Que isto sirva de alerta para quem tem um iPad.

Depois desta experiência ruim, saí em busca de outro tablet. Da Apple nem pensar! Na verdade só usava para ler e-books, o que me fez mudar de direção e ir atrás de um e- reader.

Os tablets são mais baratos que os e- readers. Absurdo, sendo que os primeiros são computadores portáteis, têm várias utilidades. Mesmo assim, insisti no e- reader, porque nunca tive e queria experimentar, além de não querer a distração da Internet.

Pensei primeiro no mais popular, o Kindle da Amazon. A desvantagem é que você só pode baixar livros da plataforma deles. O BQ Cervantes e outras marcas que vi, são aceitos outros formatos.

Mas aí eu vi o Kindle Paperblank, que é à prova d’água, perfeito para uma pessoa desastrada como eu, que vive com copos e taças perto dos eletrônicos. Ele tem textura agradável de papel, o tamanho perfeito para levar na bolsa, leve, a luz agradável e uma bateria que dura duas semanas e com capacidade para uns 4 mil livros (8 GB). E eu pensei: os livros eletrônicos que compro são quase que exclusivamente da Amazon…então, está decidido! Ah, e é possível ler arquivos PDF no Kindle, pelo menos nesta versão que eu comprei.

Trouxe comigo o Kindle. E tenho trinta dias de teste com o “Unlimited”, leitura “ilimitada”, mas não sei se compensa, porque não são todos os títulos e não gosto dessa obrigação mensal. Prefiro comprar só quando realmente precise ou queira.

Prefiro livro em papel, mas para viagens e quando não quero carregar peso, o e-reader é o ideal. Fora que ter uma biblioteca portátil salva os bibliófilos que já não têm tanto espaço em casa (eu!). Um não elimina o outro, se complementam.

Quando comecei a procurar uma capa na Amazon para este Kindle, detectei que me haviam vendido o 2018 pelo preço do mais novo de 2019. Voltei e devolvi. A diferença à primeira vista é muito sutil, a moldura da frente do novo é mais fina, além disso, o novo é melhor iluminado. Ainda ficou uma ponta de dúvida se aproveitaria melhor o tablet (é só colocar em “modo avião”, que a internet não atrapalha.)

Quem tem um Kindle? Vale a pena?!

A Nobel de Literatura 2018: a polaca Olga Tokarczuc

Por causa de um escândalo sexual na academia sueca em 2018, o anúncio do Nobel de Literatura foi adiado até este mês de outubro de 2019. O nome da escritora polaca Olga Tokarczuc foi anunciado junto com o Nobel 2019, o austríaco Peter Handke, mas dele vou falar em um outro post.

Olga Tokarczuc (Sulechów, Polônia, 29/01/1962) ganhou o maior prêmio da literatura mundial aos 57 anos. É uma mulher atual, lutadora, trabalhou como faxineira em Londres, antes de conseguir ganhar dinheiro com literatura. Psicóloga e ecologista, ganhou também em 2018, o The Booker Prize, no valor de 57 mil euros. Olga escreve há 30 anos. Ela é a 15ª mulher a ganhar o Nobel desde 1901, ou seja, dos 118 vencedores, só QUINZE mulheres!

E há gente que ainda reclama do empoderamento feminino (eles, claro, porque se tiver alguma mulher reclamando disso, merece um chapéu de burra e um cantinho na esquina da parede para pensar) . Precisamos nos unir e nos impor mais do que nunca, porque se depender deles, é isto que nos destinam: a periferia, a cozinha, o ostracismo, o papel secundário, as sombras, o descaso, a inferioridade, o servilismo, a cama.

O mesmo com a Academia Brasileira de Letras. Quem eles pensam que são?! Se bons fossem realmente, o Brasil não teria esta posição periférica em termos literários, podiam fazer melhor, não? Nem os próprios brasileiros sabem quem são, quanto mais. Ficam numa atitude inútil no seu mundo encantado confabulando e retro- alimentando seus próprios egos inservíveis para a sociedade. Inclusive, as poucas mulheres da ABL são muito mais ativas, atuantes e internacionais que a maioria deles: Nélida Piñón, Ana Maria Machado, Lygia Fagundes Telles. E negras? Nenhuma.

Olga recebendo o Man Booker Prize em 2018

Bem, mas voltando à polaca…Olga publicou dezenove livros e pelo que li, sua prosa é poética. Eu comprei a obra motivo do momento da foto acima…não tem tradução em português do Brasil, aliás na Cultura só achei um. Em espanhol ficou “Los errantes”, as críticas são excelentes.

Estou lendo agora um livro que estou gostando muito “O buda dos subúrbios”, de Hanif Kureishi, que irei postar resenha nesta semana e a próxima leitura será “Los errantes” de Olga, assim quando sair no Brasil você já terá lido a resenha aqui e não ficará “viajando”.

Vamos privilegiar mais a literatura escrita por mulheres? Irei focar nisto.

Escritura Criativa com Antônio Torres em Madri

Antônio Torres (Sátiro Dias, 1940) é o escritor da obra “Essa terra”, que está entre as cinco primeiras da minha lista de preferidas da literatura brasileira. Antônio Torres é simpático, acessível, mantém uma comunicação fluida com seus leitores, é um “cara” legal.

Hoje eu o conheci pessoalmente em Madri numa master class sobre escritura criativa, só havia eu de brasileira.

Algumas conclusões sobre o ofício da escritura:

  • Disciplina: a diferença entre duas pessoas que sonham em escrever um livro, uma que consegue e a outra não, é a constância e o trabalho. Bom ou ruim, publicando ou não, a pessoa disciplinada consegue chegar ao final. Há distrações demais e desconectar- se de todas não é tão fácil. É necessário despedir- se de tudo que tire a atenção do escritor.
  • Solidão: escrever é um ato solitário e que exige atenção total. É das poucas coisas na vida que não podem ser feitas junto com alguma outra. Escrever é enfrentar a solidão e dialogar com os próprios pensamentos e emoções. Mergulhar neste mundo interior de recordações e experiências nem sempre agradáveis pode ser desgastante, muita gente foge disto.
  • Escolhas: para escrever é preciso deixar de fazer alguma outra coisa. O tempo é curto e algo vai ter que ficar para trás.
  • Técnica: Antônio Torres acha que pode- se aprender a escrever (tal como pensamos a literatura, como Arte). Ele falou sobre o conflito que é o X da narrativa. E o conflito clássico por excelência é o relacionamento homem x mulher. E eu acrescento: ou homem x homem, ou mulher x mulher. O que se faz com isso já fica por conta do talento do escritor ou escritora. Torres acha que não há problema que um texto esteja inspirado em outro, que lembre outro. Essa é uma questão que concordo parcialmente. Quando lembra demais me parece uma grande falha do autor. Acho que a “originalidade” é uma grande virtude, a mais difícil de se conseguir. Dentro dos arquétipos clássicos, quem consegue contar a mesma coisa de uma forma “diferente” é rei ou rainha.
  • Musicalidade: Antônio Torres narra como quem compõe uma obra musical. Há que se observar o ritmo, a cadência das palavras.
  • Critério: escolher a palavra certa é uma tarefa hercúlea muitas vezes para o autor. James Joyce uma vez foi encontrado por seus amigos deitado na mesa da cozinha, preocupado: “hoje só escrevi cinco palavras e não sei em que ordem colocá- las”. O autor demorou sete anos para escrever Ulisses, hiper- crítico com seu trabalho. Saramago jamais escrevia mais de duas folhas por dia…enfim, a palavra é para ser escolhida com pinça cirúrgica.

Escrever é começar algo sem tempo certo para terminar. Isto provoca ansiedade em muito sonhador ou sonhadora, que desiste antes de começar.

Antônio Torres, Residencia de los Estudiantes, 29/10/2019 (foto: Fernanda Sampaio)

O evento aconteceu na “Residencia de los estudiantes“, um centro estudantil- cultural fundado em 1910 na cidade de Madri, no bairro Chamberí, com o objetivo de complementar o ensino universitário proporcionando interação entre artes e ciências, além da criação e difusão. Muitos intelectuais ilustres frequentaram a Residência, a prata da casa: Miguel de Unamuno, Alfonso Reyes, Manuel de Falla, Juan Ramón Jiménez, José Ortega y Gasset, Pedro Salinas, Blas Cabrera, Eugenio d’Ors ou Rafael Alberti, por exemplo, e também os visitantes: Albert Einstein, Paul Valéry, Marie Curie, Igor Stravinsky, John M. Keynes, Alexander Calder, Walter Gropius, Henri Bergson e Le Corbusier.

A Residência também é dormitório para estudantes. É um lugar bastante interessante, com gente também muito interessante e inspiradora.

Na próxima quinta- feira estarei lá e prometo tirar mais e melhores fotos para vocês sentirem o ambiente incrível do lugar.

Foi um prazer receber um baiano, um brasileiro para dar dicas sobre a arte literária na terra de Cervantes. Este tipo de brasileiro que nos orgulha aqui fora.

Já me segue no Instagram? @falandoemliteratura

Fiz um exame de DNA, veja o resultado

Eu sou fascinada por assuntos ancestrais. E para descobrir mais sobre os meus, comecei a fazer a minha árvore genealógica no ano passado e depois completei com um exame genético.

Pelo lado paterno (português), consegui avançar bastante, já que Portugal soube conservar muito bem os seus registros paroquiais e teve a deferência de disponibilizar, gratuitamente, os arquivos digitalizados na internet. Consegui chegar até a minha sétima geração (e seguirei). Tais arquivos me levaram a conhecer a minha cidade raíz em Portugal e tive uma grande surpresa ao visitá- la, mas esta história, possivelmente, será contada num livro.

Se você desconfia ou tem certeza de que tem ancestrais portugueses, pode procurar os registros no Tombo.

Já a minha busca pelas raizes brasileiras está sendo infrutífera. No cartório da cidade de Ipirá (Bahia), onde nasceram minha mãe, avós e bisavós, não acharam nenhuma certidão destes últimos, o que impede de avançar. Dos trisavós eu sei os nomes de uma das ramas, nenhum dado mais.

Agora há uma esperança: os mórmons (Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias) estão digitalizando os arquivos paroquiais do Brasil. Registros de nascimento, casamento, batizado e óbito. Estou olhando os de Feira de Santana e Cachoeira, pois no final do século XIX, a cidade de Ipirá (então chamada de “Camisão”) pertencia a estas outras localidades.

Faltam páginas nos livros, há páginas ilegíveis, fora a letra dos sacristãos, que são verdadeiros hieróglifos, parece que escreviam para ninguém entender. Está sendo um trabalho árduo e é preciso ter olho bom e muita paciência.

Se você tem curiosidade em descobrir as suas raízes, algum imigrante europeu que foi para o Brasil ou os registros já citados, vá lá no Family Search. Basta registrar- se, é tudo gratuito. Eu encontrei os registros de imigração do meu pai, avó e tios que imigraram de Portugal ao Brasil nos anos sessenta. Encontrei documentos com fotos deles que não conhecia. E tem uma parte útil disso também, o de resgatar nacionalidades estrangeiras, já que tem muita gente com vontade de morar em países diferentes.

“Quem sou eu?” Quem já não se fez esta pergunta? Pelo menos uma resposta genética é possível.

Eu fiz um teste no “My Heritage”, que é uma empresa de um cientista de Israel, Gilad Japhet, mas o laboratório fica em Houston, nos Estados Unidos. O processo é bem simples. Você faz um registro no site ou aplicativo, pede um kit (agora custa 59 euros) e não demorará a chegar. No kit há duas hastes com algodão compridas, que você irá passar no interior da boca por dois minutos de cada lado e depois colocar dentro de uns tubinhos com um líquido que conservará o seu material genético. Coloca- se num envelope já timbrado e o envio pelo Correio é por nossa conta. Podemos acompanhar no aplicativo o passo- a- passo do processo de extração do DNA. O resultado demora um mês. Veja qual é a minha herança étnica, eu achei incrível, três continentes!

Claro ficou que os meus predecessores também tinham alma imigrante como eu! Esse teste pode mostrar vestígios antigos, de mais de 500 anos. Quanto menos DNA, mais provável que seja antigo. Herdamos 50% de cada um dos pais, 25% dos avós e irmãos, e de bisavós cerca de 12% do nosso material genético. Mas falar de DNA não é coisa simples, é muito complexo, até mesmo para os cientistas.

O My Heritage tem um banco genético enorme e vai cruzando os dados armazenados. Já encontrei primos que jamais pensaria conhecer por causa deste teste. Hoje tenho amizade com uma prima de quarto ou quinto grau, brasileira que mora nos Estados Unidos. E estou conhecendo muita gente interessante. A última foi uma prima da Bahia, compartilhamos sobrenome e genética, além do gosto pelas Letras. Na minha lista há cerca de 1300 primos distantes. Minha mãe e irmãos também fizeram o teste, o que elucidou (um pouco) o que herdei de qual progenitor.

A minha pele é branca, alvíssima…mas vejam: tenho sangue nigeriano, norte- africano (região do Marrocos, Líbia, Egito, Argélia, Tunísia e o Saara, eminentemente muçulmana) e indígena americano. Acho que uma boa tentativa de acabar com o racismo no mundo seria que todo bebê deixasse a maternidade com um teste genético. Meu marido, que também fez o teste, além de ibérico, irlandês e italiano, também é judeu asquenaze (asquenazita, vi que no Brasil também chamam assim, uma gente muito inteligente, a maioria dos vencedores de prêmios Nobel tem essa etnia. Meu marido é inteligente mesmo, casou comigo…hahaha!). Ou seja, ele casou- se com uma pessoa com sangue mouro, “inimigos” (veja o eterno conflito entre muçulmanos e judeus em Jerusalém/Faixa de Gaza/Israel).

Ninguém é puro, homens e mulheres misturaram- se durante milênios. Ter consciência de quem me precedeu enriqueceu- me muito. Comecei a me interessar e a pesquisar sobre esses países, meu mundo expandiu- se.

A minha composição genética/geográfica ancestral faz muito sentido. Eu já montei várias histórias e suposições. E consigo imaginar como deveria ser cada dessas figuras que ficaram marcadas nas minhas células. O corpo conta histórias.

Hoje em dia há correntes que pensam que o DNA não é imutável, que nosso modo de vida, de pensar, de agir e de sentir pode modificá- lo. Veja que livro interessante (esse não tem muito a ver com etnias, é mais sobre saúde e estilo de vida):

Durante muito tempo acreditamos que os genes determinassem nosso destino biológico e que fossem imutáveis, mas recentes descobertas no campo da genética mostram que eles são dinâmicos e podem ser influenciados por diversos fatores. Em Supergenes, a dupla de médicos Deepak Chopra e Rudolph Tanzi discorre sobre como a ciência atual sustenta que nossos genes reagem a tudo o que fazemos, dizemos e pensamos. Oferecendo um cardápio de escolhas para 6 esferas da vida – dieta, estresse, atividade física, meditação, sono e emoções –, em três níveis de dificuldade, os autores também mostram, de forma muito prática, o que devemos fazer no dia a dia para ativar o melhor do nosso código genético pela vida afora.

Eu quis compartilhar com vocês a emoção dessas descobertas. Se você fizer o teste, me conta o resultado depois. Até a próxima!

Resenha: “Nós que apagamos a lua”, de Alana Freitas

Esta é uma obra especial, porque tem uma carga afetiva intrínseca: ela foi escrita por uma colega da Universidade Estadual de Feira de Santana. Daquela menina juveníssima, a mais precoce da sala, recordo a alegria, o companherismo, as intervenções sempre inteligentes e do seu comprometimento com o mundo das Letras. Agora, já doutora das Letras, professora de literatura na mesma casa que a acolheu como estudante, lança o seu primeiro livro de ficção, uma coletânea de vinte e uma crônicas. Possivelmente Alana sofra dessa doença “crônica”, como ela mesma define do seu texto de abertura (“Conceito crônico”, p.13). Depois da leitura de “Nós apagamos a lua”, cheguei à conclusão que este será o gênero que a definirá no panorama literário brasileiro. Alana deita e rola, é uma cronista nata.

Alana Freitas El Fahl

“Nós que apagamos a lua” começa a massagear a alma só pelo título tão poético. Cada crônica é antecedida por um aforismo.

No segundo texto, a cronista citou o professor de literatura Luiz Alberto, que podia ser considerado patrimônio da cidade de Feira de Santana. Professor de “segundo grau”, assim chamava- se o nosso Ensino Médio. Luiz Alberto foi a primeira pessoa que vi vestido com um sobretudo no sertão da Bahia, uma figura memorável e peculiar. Alana recorda suas expressões latinas, em especial “aurea mediocritas”, o prazer da vida média, sem sobressaltos. Um texto brilhante, “Gente média” (p.17)

Eu, expatriada há quinze anos, notei com saudade o jeito brasileiro (especialmente baiano) nos textos da Alana. O lado bom do nosso povo, esse de se fazer amizade em qualquer lugar, até no táxi (“Táxi ou Uber?”, p. 21). Na Espanha, vou ao mesmo endocrinologista há dez anos, com a frequência de até três vezes ao ano. Todas as vezes é como se ele me visse pela primeira vez. Eu posso citar centenas de situações assim. No Brasil isso não acontece, há proximidade, carinho e calor humano. O brasileiro é muito mais comunicativo, aberto ao outro, que europeus, até os latinos.

Na próxima crônica (“De passagem”, p. 25), com sua audição afiada, Alana conta as conversas de fila, de sala de espera, que são muito variadas, nem sempre construtivas. O brasileiro reclama de tudo, reclama do outro com certa hostilidade, com ar de fofoca, uma certa ignorância sobre assuntos importantes e até preconceito. Não deixa de ser divertido essa espontaneidade, com perdas e ganhos, vale a pena.

Alana fala sobre a amizade em “O tipo mais fino de amor” (p.31). Não posso estar mais de acordo, quando desinteressada e verdadeira, a amizade espontânea que se consolidada com o tempo e confiança, é o tipo de amor mais nobre e genuíno.

Um dos mais emotivos é “Juarez”, o doido da rua da autora. Ninguém é tão doido que não consiga amar, a ter apreço e respeito por alguém. O amor encontra brechas até na loucura (p.41). Cadê Juarez, Alana? O que foi dele?

Alana também faz confissões. Narrou magistralmente como a depressão chega e se instala. Um mal silencioso e que vai dominando com toques de culpa e questionamentos, a busca do “porquê?” (p.45). A própria vida já é motivo, não tem que existir um específico. Ela também conta sobre o câncer de tireóide que padeceu, esse “arqueiro cego” (p.59), que nos amedronta a todos, pessoalmente e pelos que amamos. Quem está na luta, que seja breve, e que você saia forte, com muitos aprendizados e muita força para continuar a jornada.

Quem me conhece sabe que uma das minhas características principais é a sinceridade. Apesar de Alana ser uma velha amiga, eu fiz uma leitura imparcial. Leitura é coisa séria. Eu jamais indicaria um livro ruim por “amiguismo”. E este eu indico sem reservas, podem abusar. É muito bom!

Alana, eu te daria um longo abraço por este presente lindo em forma de crônicas. Te conheci mais e te abracei no final de cada texto. Como disse Flávia Aninger no pósfacio: “Toda leitura é oportunidade de encontro”, nos encontramos sim.

Que a vida te presenteie com muitas jujubas vermelhas (p.73) e que nós, mulheres multitarefas que “apagamos a lua” todos os dias, possamos descansar também, que possamos desfrutar do crepúsculo, sem pressa, sem estresse, com uma boa taça de café ou vinho, observar o anoitecer, enquanto eles preparam o jantar. Que o tempo nos seja gentil!

El Fahl, Alana Freitas. Nós que apagamos a lua, Zarte, Feira de Santana, 2018.

Este livro está sendo um sucesso, já teve uma reimpressão. Você pode pedi- lo escrevendo para a editora Zarte: zartegraf@gmail.com ou mandando uma mensagem ao WhatsApp: (71) 99116-6034

Alana escreve sobre novelas no blog “Entretelas”, lá você pode entrar em contato com a autora (clica).