“Consciência corporal”: tecnologias de formação do sujeito em “O Estrangeiro”, de Albert Camus, por Elton Uliana

Albert Camus

 

Durante séculos a pena de morte, muitas vezes acompanhada de refinamentos barbáricos, tenta conter o crime; no entanto, o crime persiste. Por quê? Porque os instintos que estão em guerra no homem não são, como afirma a lei, forças constantes em um estado de equilíbrio.

 (Albert Camus)

 

 

O Estrangeiro (1942), de Albert Camus, é um romance composto sobre o absurdo e contra o absurdo da sociedade moderna. A narrativa sombria do romance retrata a vida de um jovem “vagando à margem da sociedade, preso em um jogo ambivalente de solidão e sensualidade, inocência e culpa. Através da vida obstinada do narrador Meursault, o romance mostra a inarticulação entre uma consciência individual e o mundo, um impedimento entre um Eu emergente e a sociedade hipócrita e conspiradora que o cerca. À medida que o romance avança, a condição existencial do protagonista se torna gradualmente um estado subjetivo de “ser-Parasi”, que é continuamente ofuscado por um sistema rígido de justiça externo e, ao mesmo tempo, interiormente perplexo pela distorção de tal sistema. Camus permite que o contraste entre o niilismo individual e o absurdo conceitualizado sob aforma de alteridade permeie a narrativa até que, eventualmente, o narrador mata um homem e se torna efetivamente incapaz de elaborar seus sentimentos e de se ver como um criminoso. Fortemente informada pela perspectiva teórica de Camus sobre o Absurdo, a subjetividade do narrador, com sua lucidez (ou falta dela), é menos afiliada à de uma classe ou coletividade do que à psicologia de seu próprio Eu solitário, apóstata e cada vez mais isolado. Nesse contexto, até a questão de agência e de escolha parece gratuita e irracional. Se a rejeição do romance com relação à argumentos fundamentados apresenta problemas genuínos impossíveis de serem reconciliados em termos filosóficos, a estética literária de Camus incorpora em sua própria estrutura todas as ansiedades ontológicas que o texto se propõe a dissipar. Este estudo analisará O Estrangeiro para explorar a atitude paradoxal do romance em relação à percepção, subjetividade e pertencimento social. Argumentarei que a identidade de Meursault resume as antíteses da cultura, da sociedade e do direito, que são algumas das características do pensamento existencialista. Além disso, sugerirei que o quadro narrativo que constrói a identidade de Meursault gesticula ironicamente para seu próprio artifício inevitável: tenta nos convencer de que o pensamento racional é limitado, mas, ao fazê-lo, produz um construto linguístico altamente racionalizado.

A indiferença intratável de Meursault representa um ataque às convenções sociais. Camus elabora um encontro antitético entre o Eu e o Outro, indicando desde o início que os sentimentos de Meursault estão desdenhosamente em oposição ao que, socialmente, se espera dele:

[O] diretor continuou falando, mas eu não prestei muita atenção. Por fim ele disse: Agora suponho que você gostaria de ver sua mãe? Levantei-me sem responder e ele liderou o caminho para a porta.

      (O Estrangeiro, p.11).

 

O romance decididamente propõe uma reversão da ordem social. O narrador neste momento nem chega ao nível em que as responsabilidades éticas e morais são relevantes. Sua atitude moralmente inerte é, em certo sentido, destrutiva da solidariedade humana, mas também é, perversamente, um sinal dela. O absolutismo impessoal da conduta do personagem parodia a impessoalidade total dos laços que nos conectam a humanidade comum, algo que nenhum impulso subjetivo pode deixar de lado. No entanto, essa capacidade de se desvencilhar do conteúdo consciente da percepção é para Camus, e para a maioria dos escritores existencialistas, não uma lógica estranha, mas uma lógica estrutural. A indiferença autônoma e irrefletida de Meursault (‘Mamãe morreu hoje. Ou talvez ontem, eu não sei.’, O Estrangeiro, p. 9) e o comportamento socialmente impeditivo representam não apenas uma personificação do fenômeno da má fé, mas também um radical rejeição da categoria ontológica “ser-Por-outros. Esse estado se manifesta, segundo Jean-Paul Sartre, através de uma preocupação com o que os outros pensam, uma maneira de estar consciente de si mesmo no mundo que geralmente produz e prolifera a vergonha. A ação de Meursault contraria e desafia a suposição de que a consciência individual está unida por compartilhar as mesmas semelhantes tipificações do mundo e suas experiências nele. Da perspectiva freudiana, a cultura normativa reprime o instinto e a liberdade humanas, mas a tendência de Freud era privilegiar a cultura e não a natureza. Ao contrário de Freud, que vê o ser humano vinculado a um sistema de restrições necessárias para a sobrevivência da humanidade na sociedade, mesmo que ele esteja ciente das consequências disso, Camus reinstala empaticamente em O Estrangeiro a dicotomia natureza-cultura. Meursault é ao mesmo tempo restringido por sua própria narrativa e transgressor dela. Da mesma forma que o texto propaga o conceito existencialista de “ser-Parasi com sua negação de convenções sociais, a conexão impessoal do protagonista com o mundo exterior e sua falta de vínculo humano põem em risco a tradição, o comportamento público e o código social.

      Camus exacerba esse dilema hermético, retratando seu herói no modo pré-reflexivo, apegado vigorosamente à ética da autenticidade e sinceridade. Em sua determinação ética, Meursault se recusa a mentir (se não em todos os sentidos, como o texto finalmente revela, pelo menos à seus sentimentos): Respondi que nem mamãe nem eu esperávamos algo mais um do outro, ou de fato de outra pessoa, e que ambos nos acostumamos às nossas novas vidas (O Estrangeiro, p. 85). Mentir, segundo Camus, não é apenas a ficcionalização da verdade; é também, e mais importantemente, uma relação hiperbólica com a realidade, é afirmar mais do que realmente se sente. Em seu estudo da Filosofia do Absurdo de Camus, AviSage observa que, se Meursault é incapaz de mentir, é porque ele representa o paradigma autodeterminado do estrangeiro-absoluto, uma personificação das ideias de inocência e irrepreensibilidade de Camus. A meu ver, essa situação é mais paradoxal: Meursault é tão incapaz de mentir quanto ele é incapaz de dizer a verdade. Suas decisões não se baseiam em uma avaliação ética que favorece a verdade sobre o engano ou a autenticidade sobre a falsidade; em vez disso, elas pertencem ao nível de “percepção corporal”, um estágioem que o personagem está submerso em um lodo de sensualidade, e não na percepção consciente. Ao construir seu personagem dessa maneira, Camus consegue capturar em seu romance algo intrinsecamente humano: o fato de que, no nível primário, somos todos animais instintivos, mas na sociedade humana não podemos levar essa suposição muito literalmente. Como alguns comentaristas sugeriram, o romance desafia irremediavelmente a relação entre a verdade humana e a justiça social. De fato, o discurso novelístico-filosófico de Camus é inscrito pelas próprias racionalidades sociais que ele deseja perturbar e transgredir. Se essa construção do“estrangeiro”, se a concepção de Camus de uma forma aparentemente utópica da existência representa uma elevação de seres individuais além de qualquer razão, ela também funciona, ironicamente, como uma ameaça ao capital, à sociedade e às relações humanas.

A identidade de Meursault no romance, então, é tão manchada quanto é apaziguada pela inadequação de sua consciência social. O herói do romance é uma espécie de comprovação das próprias tentativas filosóficas de Sartre de pacificar o dilema referente à autorealização por meio de papéis sociais e de agentesespontaneamente livres para derrubá-los. Na primeira seção do romance, a presença dos outros (representada pelos personagens secundários) não desempenha um papel significativo na formação da identidade de Meursault. Em certo sentido, essa negação de formas normativas de formação de identidade não significa que o olhar público externo não tenha sentido para Meursault. Em vez disso, ela indica que Meursault é textualmente construído nesta parte do romance, dentro da estrutura ontológica “ser-No-mundo”, privilegiada pela experiência e não pela consciência. Inversamente, uma mudança depercepção é produzida na segunda parte do romance, aumentando a instabilidade semiótica do texto :”Pareceu-me então que eu podia interpretar o olhar nos rostos dos presentes; foi uma simpatia quase respeitosa.” (O Estrangeiro, p.107). A prisão do protagonista o obriga a descobrir o outro e a refletir sobre o absurdo de sua própria existência, que agora não é apenas inflexivelmente “taciturna e retirada” da sociedade (O Estrangeiro, p.66), mas também fisicamente libertada dela. Nesse estágio, é quase como se Camus estivesse criando escrupulosamente em Meursault uma identificação com os outros apenas para que essas figuras externas se tornassem entidades subjetivas ofuscantes. Camus infunde no romance uma estrutura real de desidentificação, uma articulação que faz com que Meursault evite a interação social e se torne amplamente incorporado à textualidade.

      Ao lado de uma crise ontológica, o romance retrata uma trágica oposição entre Meursault e a sociedade. Em outras partes do romance, Camus torna transparente o distanciamento contínuo, curioso e eventualmente fatal na relação de Meursault com seus próprios motivos:

[O promotor] gostaria de saber se eu havia voltado sozinho à primavera com a intenção de matar o árabe. ‘Não, eu disse. “Nesse caso, por que ele estava armado e por que voltar exatamente àquele lugar?”, Eu disse que foi por acaso.

(O Estrangeiro, pág. 85)

 

A relação textual entre as ações aparentemente irracionais de Meursault e seu assassinato não pode ser explicada em termos de causa, efeito ou motivação (eu respondi prontamente que era por causa do sol, O Estrangeiro, p.99). René Girard argumenta que esse relacionamento sinistro é essencial e não acidental. Em certo sentido, a explicação de Girard justifica a controvérsia interpretativa em relação ao comportamento do personagem: um crime comum é geralmente pessoal ou ideologicamente motivado. Em outro, coloca o protagonista no domínio dos heróis trágicos, atribuindo as qualidades do evento às mesmas forças essenciais que presidem os destinos desses personagens. Do mesmo modo que as palavras crimee inocência são irreconciliáveis, o estado generalizado e esteticamente elaborado de “não-existência” de Meursault, embora glorificado energicamente no texto, nunca pode ser reconciliado com a sociedade tecnocrática moderna, como a estratégia de Camus para o desfecgo do romance demonstra: Ele [o juiz] anunciou que eu não tinha lugar na sociedade cujas regras fundamentais eu ignorava (O Estrangeiro, p. 99). O comportamento, assim como as ações de Meursault podem parecer insípidas, mas a narrativa tenta continuamente transmitir que, exatamente por não terem sentido, elas são altamente significativas. Dentro do contexto do Absurdo, a existência é aleatória e a ausência de qualquer causalidade preeminente para infundir significado leva à articulação de uma experiência libidinal imediata e instintiva. O problema é que esse conceito precisa envolver o conceito de ordem social e, de fato, de ideologia. Consequentemente, o ostracismo social de Meursault no romance demonstra-se tragicamente em desacordo com os valores culturais.

O poder transgressor do romance, então, é que ele dramatiza em sua própria estrutura interna um paradoxo crucial: o fato de que o valor colocado na ética mais elevada da justiça surge do fracasso das próprias relações sociais que ela procura presidir. A narrativa de Camus busca maneiras de fugir ou suprimir a objetividade espúria com que as instituições legais envolvem a sociedade e oprimem o indivíduo. Nesse sentido, o romance é um estudo dos resultados e consequências da maquinaria implacável de normas jurídicas, de seus efeitos concretos na sociedade, e não uma investigação do processo institucionalizado pelo qual elas foram e continuam sendo formuladas. Os tratados filosóficos de Camus sugerem que a essência do “absurdo” não está localizada separadamente no indivíduo ou no mundo; é antes um produto da coexistência dos dois. Se a ambivalência e a vulnerabilidade de Meursault representam rebelião; sociedade e justiça representam limitação. O romance representa, assim, um espelho da sociedade em que foi produzido:

Porque, afinal, a sentença que a havia estabelecido era ridiculamente desproporcional com sua persistência inabalável […]. O fato de a sentença ter sido lida às oito em vez das cinco […] todas essas coisas realmente pareciam prejudicar consideravelmente a seriedade de tal decisão.

      (O Estrangeiro, pág. 105)

 

Ao contrastar o funcionamento paródico das instituições sociais com o conceito igualmente absurdo de arbitrariedade, o texto tenta convencer o leitor de que qualquer julgamento de culpa é inevitavelmente errado. De fato, quanto mais o texto tenta normalizar a inadequação das interações de Meursault com o mundo social, mais confirma a inaptidão hipócrita e amoral desse mundo. David Sherman ressalta de forma convincente (apesar de considerar o romance um sucesso estético) que Camus trai o solipsismo de seu próprio trabalho no próprio ato de escrevê-lo. Expandindo o argumento de Sherman, torna-se plausível sugerir que Meursault acaba habitando o mundo do pensamento racional em seu próprio esforço para miná-lo, sendo aprisionado na racionalidade dos preceitos filosóficos do próprio texto.

     O Estrangeiro tipifica, de maneira bastante magnífica, a descrença existencialista em argumentos fundamentados, assim como evidencia a Filosofia do Absurdo de Camus, com seu foco em arbitrariedade, altruísmo e alienação. Argumentei que Camus dramatiza na própria estrutura de O Estrangeiro todas as ambivalências morais, éticas e estéticas de seu próprio pensamento filosófico, mesmo quando ele tenta mediá-las e torná-las acessíveis. Se a fidelidade do protagonista à verdade origina uma autenticidade individual, ela também produz um desengajamento coletivo com a conjuntura social que produz esse personagem. Os preceitos do Absurdo operam continuamente dentro do romance: nem o ambiente social em que Meursault vive, nem o mundo interior de seus pensamentos possuem qualquer organização racional. A estratégia predominante de Camus, na minha opinião, é nos fazer refletir não apenas na ficcionalidade do personagem que dá ao romance  seutítulo, mas também na ilicitude do mecanismo jurídico. O absurdo que está realmente em julgamento no romance não é o do protagonista que, de maneira aparentemente arbitrária, está se submetendo à sua própria percepção primária; mas sim a arbitrariedade dos sistemas social e judicial que preside o destino do personagem.

 

Referências bibliográficas 

 

Bloom, Harold (ed.), Blooms Modern Critical Views: Albert Camus (New York: Chelsea House Publishers, 1989)

Burnier, Michael-Antoine, Sartre and Camus Hoje, trans. intoPortuguese by Bernard Pingaud (Sao Paulo: Editora Documentos, 1986)

Camus, Albert, The Myth of Sisyphus and Other Essays(Chicago: vintage International, 1991)

Camus, Albert, The Outsider, trans. By Joseph Laredo (London: Penguin, 1982)

Craig, Ian, Existentialism and Sociology: A Study of Jean-Paul Sartre (Cambridge: Cambridge University Press, 1996)

Eagleton, Terry, Sweet Violence: The Idea of the Tragic(London: Blackwell, 2002)

Growel, Steven (ed.), Cambridge Companion to Existentialism  (Cambridge: Cambridge University Press, 2012)

Hughes, Edward J., The Cambridge Companion to Camus (Cambridge: Cambridge University Press, 2007)

Jeffrey, Olick, and Daniel Levy, ‘Collective Memory and Cultural Constraint: Existentialist Myth and Rationality in French Literature’, French Literary Review 62, no.6 (1997)

Kermode, Frank (ed.), Fontana Modern Masters: Camus (Glasgow: Fontana/Collins, 1979)

Merleau-Ponty, Maurice, Phenomenology of Perception ( Abgindon: Routledge, 2012)

Petrakis Peter A. and Eubanks Cecil L., ‘Reconstructing the World: Albert Camus and the Symbolization of Experience’, The Journal of Politics, No. 2 (May, 1999)

Podhoritz, Norman,  ‘Camus and His Critics’, The New Criterion (Nov. 1982), [http://www.newcriterion.com/articles.cfm/Camus-and-his-critics-6546]

Sage, Avi, Albert Camus and the Philosophy of the Absurd (Amsterdan: Rodopi, 2002)

Sartre, Jean-Paul, Being and Nothingness: An Essay in Phenomenological Ontology (London: Routledge, 2003)

Sherman, David, Camus (Chichester: Wiley-Blackwell, 2009)


* Elton Uliana é crítico literário e tradutor brasileiro, residente em Londres e afiliado ao Centro de Estudos de Tradução da University College London e à Associação dos Tradutores Britânicos, veja.

 

 

Resenha: “Tartufo”, de Molière

Você sabe o motivo da cor amarela ser considerada de má sorte para os atores? Continue lendo para descobrir!

Literatura clássica francesa. Livros seculares como “Tartufo”, do parisino Molière, emocionam- me muito! Uma obra assim você não pode deixar de colocar na sua lista de leituras. Ela representa com perfeição arquétipos sociais, como a hipocrisia, por exemplo. Uma obra aclamada há quase 350 anos, viva e atual.

Molière nasceu Jean- Baptiste Poquelin e foi batizado em 15 de janeiro de 1622, portanto, há 396 anos, um velhinho quase quatrocentão. Não se sabe a data exata do seu nascimento. Era filho de tecelãos, uma família burguesa, que servia a casa real francesa. O autor tinha três formações universitárias: Humanidades, Filosofia e Direito, profissão que exercia, mas não gostava. Abandonou o Direito para dedicar- se ao teatro, sua paixão. Renunciou também o trabalho de tecelão da monarquia que herdaria do seu pai, isso foi em 1643. A família era boêmia, frequentava teatros, inclusive a irmã de Moliére, Magdalene, era atriz famosa. Para ela, usava- se uma expressão “femme d´esprit”, uma mulher inteligente e culta. O sentido original dessa expressão mudou um pouco com o tempo e agregaram ao seu significado a malícia e o humor.

A biografia de Molière, considerado o “pai da comédia francesa”, é muito interessante, mas só vou dar uma pincelada, porque é extensa, recomendo que leiam na íntegra. Nessa edição espanhola (foto), o prólogo é bem interessante, conta toda a cronologia do autor. Ele montou uma companhia de teatro com alguns sócios, foi nessa época que adotou o nome artístico de “Molière”. A companhia foi um fracasso, endividaram- se, não puderam pagar e Molière foi preso.  Depois de solto, saiu de Paris, começou a apresentar- se com a companhia pelo interior da França e deu certo. O dramaturgo tinha muitos inimigos, principalmente atores, desafetos que foi ganhando pela vida. A realeza censurou as suas obras também. Molière teve um filho, Louis, que morreu na infância e teve uma filha, “Esprit Madeleine”, que adulta chamava- se “Madame de Montalant” e um outro menino chamado Pierre. Se eu não contei errado, Moliére encenou vinte e três peças. Ele escrevia e atuava também.

Segundo este prólogo biográfico e crítico, Moliére era um homem sério, calado, triste, feio, baixo, de sobrancelhas e traços grosseiros, e parece que estava acima do peso. Creio que foi uma descrição injusta, o homem não me parece tão pouco agraciado assim, achei até simpático, que você acha?

Doente, perdeu bastante peso e ficou miudinho. Vivia sempre vermelho por causa dos ataques de tosse, tinha tuberculose. Já perto de falecer, também morreram a sua irmã Madeleine e um outro filho, isso prejudicou a sua saúde, dizem. Ele levava suas dores para o palco, sua última obra: “O doente imaginário”. Agora vem a história da cor amarela:

Molière teve uma convulsão em cima do palco, na última cena e vestia amarelo. As pessoas acharam que ele tinha morrido, o que só veio acontecer horas mais tarde na sua casa. E ainda por cima escreveu este epitáfio para o personagem: “Aqui jaz o rei dos atores. Agora se faz de morto e na verdade, o faz muito bem”. Virou lenda. Os sacerdotes recusaram- se a dar- lhe extrema- unção por causa da obra “Tartufo”, principalmente. A Igreja detestava Molière, ele os delatava nas suas obras.

A assinatura de Molière

Então, vamos descobrir o motivo dessa obra ser tão polêmica. “Tartufo” tinha sido censurada durante muito tempo, mas foi autorizada a ser representada pela primeira vez em 5 de fevereiro de 1669 e foi um sucesso absoluto. São doze personagens e a história acontece na casa de Orgón, em Paris:

E Dorine endossa e revela a hipocrisia que acontece no meio social que frequentam (p.101):

– Não será Daphné e o maridinho dela que falam mal de nós? Aqueles cuja conduta mais se presta ao ridículo são sempre os que se metem a falar mal dos outros. Estão sempre prontos a observar o mais leve indício de simpatia para com alguém, espalham a notícia com o maior açodamento, desvirtuando as coisas a seu talante e apresentando-as como querem que sejam vistas. Julgam poder justificar as próprias ações neste mundo, dando às dos outros o colorido que lhes convêm, e procuram inocentar as próprias intrigas com a ilusória esperança de parecerem íntegros; ou então fazer recair alhures algumas migalhas esparsas dessa reprovação pública, que os sobrecarrega em demasia.

Senhora Pernelle, mãe de Orgon
Orgon,marido de Elmire
Elmere, mulher de Orgon
Damis, filho de Orgon
Mariane, filha de Orgon e apaixonada de Valère
Valère, apaixonado de Mariane
Cléante, cunhado de Orgon
Tartufo, falso devoto
Dorine, dama de companhia de Mariane
O senhor Loyal, sargento
Flipote, criada da senhora Pernelle

A senhora Pernelle é uma matriarca déspota, que critica com crueldade toda a sua família. Todos estão alvoroçados, porque receberá a visita de Tartufo, que a mãe idolatra e sua família detesta. A madame reprova várias condutas, até o fato de receberem visitas e a vizinhança comentar, reclamar do barulho e do entra e sai e Cléante rebate (p.101):

(…) – Não há como garantir-se contra calúnia. Não nos preocupemos com os mexericos tolos; esforcemo-nos por viver em completa inocência, dando aos faladores plana liberdade.

Quando algo incomoda demais em alguém, é espelho. A pessoa vê no outro o que tem em si em abundância e o reflexo provoca mal- estar. Disso ao ódio é um pulo. Por isso a Igreja e a Realeza incomodaram- se tanto com Molière? Claro!

O machismo e a inversão de valores também foram assuntos tocados por Moliére. Na cena IV (p.105), acontece um diálogo entre Dorine e Orgón sobre Tartufo e a mulher de Orgón, Elmere, que estava passando muito mal com uma enxaqueca, não dormiu a noite toda, não conseguiu comer e estava sangrando muito. Tartufo, o hóspede deles, jantou um banquete, bebeu vinho, dormiu tranquilamente, e ainda por cima, ELE era o “pobre homem”! O “pobre homem” saiu de manhã para rezar e fortalecer sua alma de bom cristão.

Orgon e Cléante têm falas imensas. Fiquei pensando na memória de elefante que têm que ter os atores que representam esses personagens. Adoraria ver esta obra encenada. Cléante tem uma fala brilhante sobre o verdadeiro e o falso. Claro que a carapuça deve ter caído em muita gente naquela época, e hoje ainda, obviamente. A falsidade. Como saber se uma pessoa está sendo sincera ou simplesmente o seu discurso é manipulado para conseguir certos objetivos? Você consegue perceber?

Tartufo aparece na cena VII declarando- se para a esposa de Orgon, Elmere. E ela surpresa, “tão bom cristão”. Enquanto isso, Orgon estava querendo obrigar a filha a casar- se com Tartufo por dinheiro. E Tartufo culpa a mulher pelo seu desejo de cobiçar a mulher alheia (a partir daqui usei o PDF em português para facilitar as citas):

– Ah! Mas nem por ser devoto eu não sou menos homem; e quando se chega a ver seus celestes atrativos, o coração torna-se escravo e não raciocina mais. Sei que essas palavras parecem estranhas partindo de mim, mas, senhora, apesar de tudo, não sou um anjo; e se condena a confissão que acabo de lhe fazer, deve culpar seus encantos.

Iria ficar tudo em segredo, mas Damis ouviu tudo escondido e depois chega o marido também e o armou- se o barraco. Mas, pensa que Tartufo foi banido da família pela ousadia de assediar a mulher do dono da casa que estava hospedado?! O marido solucionou o problema obrigando Tartufo a casar- se com sua filha. Você acha que Orgon trocaria a posição social de Tartufo por honra e dignidade?!

A história tem reveses. Quem parece que vai ganhar, perde e vice- versa. Um texto bem contruido, amarradíssimo e surpreendente! Muito gostoso de ser lido, recomendadíssimo!

Molière. Tartufo. Catedra. Letras Universales, Madrid, 2010. Páginas: 179

Se quiser ler um PDF em espanhol (grátis!), clica aqui.

Se preferir ler em português, é só clicar aqui (grátis!).

Se quiser ler em inglês, clica aqui.

Boa leitura!

O poder da alegria, do filósofo Frédéric Lenoir

A natureza nos avisa mediante um signo preciso de que alcançamos nosso destino. Esse signo é a alegria. (Bergson)

Esse livro não se vende como auto- ajuda, embora possa ajudar muita gente. O autor nos convida a conhecer a alegria verdadeira e profunda, a forma mais desejável de felicidade, baixo uma visão filosófica. E sim, há formas de provocá- la e cultivá- la nesses tempos de felicidade artificial da cultura narcisista e consumista. O que o autor propõe também não é a ataraxia (ausência de sofrimento e perturbações) proposta por Epicuro, pelos estóicos e os céticos/niilistas. Lenoir encontra alegria mesmo com as dificuldades da vida. A eliminação de problemas e tristezas não garante a felicidade nem a alegria.

Sou consciente de haver recebido muito da vida. Tive a oportunidade de ter pais cultos com os que aprendi muito. Quando era menino, meu pai passava generosamente uma boa parte do seu tempo livre nos lendo livros. Quando cheguei à adolescência, me fez conhecer a filosofia. Foi uma revelação. (F.L.)

O que é a alegria?

A alegria é uma força que nos empurra, é a manifestação do nosso poder vital, é um meio para alcançar esta força de existir. “O apaixonado na presença do ser amado, o jogador no momento da vitória, o pesquisador no momento da descoberta”, essa emoção, o prazer desses momentos, talvez sejam bons exemplos da forma mais concreta da felicidade.

O autor mostra três vias possíveis, concretas, para poder chegar à alegria. Parece que a alegria só pode acontecer se for espontânea, mas não é bem assim, temos que provocá- la:

A alegria é um poder, cultiva- la. (Dalai Lama)

Como disse o escritor Mathieu Terence:

A alegria não é voluntária. Nem se decide, nem se decreta tampouco. Há que se fugir como da peste daqueles que querem vender sua receita. Ao contrário, a alegria exige um clima favorável: um estado mental similar ao estado de graça.”

Lenoir propõe vários tópicos como a gratidão, a renúncia, a perseverança, etc, ilustrando com suas próprias experiências. Nesse momento, retiro o que disse a princípio…o livro é sim auto- ajuda mascarada de filosofia.

O mais ignorante dos homens é o que renuncia ao que sabe de si mesmo para adotar a opinião dos demais.” (Ahmad Ibn Ata Allah)

Bem, depois ele volta pra filosofia de novo. Cita Spinoza e sua visão sobre a alegria. Cita Jung e até Jesus, que foi dos poucos que colocou em prática o amor que pregou. A conclusão não é muito diferente do senso comum, o que Gandhi falou: ” a verdadeira revolução é interior”.

Ser capaz de encontrar sua alegria na alegria dos outros: esse é o segredo da felicidade. (Bernanos)

“Aceitar o mundo” é uma das formas de encontrar a paz e felicidade. Desligar- se do que acontece no mundo e “religar- se” é o termo utilizado para o caminho ao qual tentamos criar relacionamentos justos, verdadeiros, relações que nos fazem acreditar e nos fazem sentir alegres. Devemos manter longe quem nos asfixia. É questão de sobrevivência.

O autor considera a alegria completamente viável, mesmo para pessoas que passaram situações extremas, como as que viveram em campos de concentração. Nós consentimos a tristeza ou a alegria. O poder do consentimento é enorme. A gente permite, mesmo sem notar que a alegria ou tristeza se instale. Complicado, não? Então, cultivemos a alegria mesmo quando ela parece estar muito distante.

Bem, um livro água com açúcar, que fala de coisas triviais, leitura fácil pra passar o tempo esperando o avião, a consulta do dentista ou afins, nada profundo, muitos tópicos mastigados, só recomendo para leitores iniciantes.

Eu achei o autor bem charmoso, Frédéric Lenoir (Madagascar, 03/06/1962) é antropólogo e filósofo:

frederic-lenoir.png

9788416820269

Lenoir, Frédéric; El poder de la alegría. Plataforma, Barcelona, 2016. Páginas: 186

Resenha: “O estrangeiro”, de Albert Camus

Essa é uma das leituras mais complicadas que já fiz. A análise não está completa, talvez nunca esteja, ainda estou pensando.

Depois de ter lido “A queda” e ter adorado, emendei com “O estrangeiro”, que é uma das obras mais conhecidas de Albert Camus. História complexa. Confesso que me faltam recursos “técnicos” em Psicologia para descrever a profundidade do personagem Meursault.

O livro é dividido em duas partes: a primeira nos conta quem é o personagem principal, suas relações, sentimentos e modo de vida; a segunda, as consequências do assassinato que cometeu.

Esse romance transcende tudo o que eu já li até agora, vai mais além do que eu conheço e entendo.  É uma parábola da condição do homem. Uma alegoria da fatalidade que resulta viver como se vive.

A história acontece na Argélia (terra natal do autor). Começa com a notícia do falecimento da mãe de Meursault comunicada através de um telegrama. Ele mora em Argel e a mãe em Marengo, distante duas horas. Ela morreu num asilo. Parece que a relação entre eles não era muito fluida, não se falavam todos os dias, ele não sabe ao certo o dia de sua morte. Assim começa o livro (p.11):

Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei. Recebi um telegrama do asilo: “Mãe falecida. Enterro amanhã. Sentido pêsames”. Nada quer dizer. Talvez foi ontem.

Parece frieza, mas quem era sua mãe? Cuidou dele ou o abandonou? Em um brevíssimo momento cita o seu pai, nunca o conheceu. Ele pagava o asilo para a mãe, não a deixou desamparada. Mas, dependendo da sua visão do mundo, se tem a sua mãe em um pedestal e a considera um ser santificado, vai julgar e condenar Meursault como a maioria faz. Asilo virou sinônimo de coisa ruim, abandono, descaso, mesmo que a pessoa esteja sendo muito bem tratada, cuidada e amada. Camus era inteligentíssimo. “Brincou” com muitos dos pré- conceitos das pessoas.

Mersault é um ser racional, que aceita sem dramas as coisas ruins da vida. As boas, tampouco lhe emocionam. Um ser que parece carecer de sangue nas veias, mas isso tudo tem a ver com a verdade. Ele não teatraliza a sua existência.

No dia do velório da mãe, ele pensa em coisas triviais, a hora que vai pegar o ônibus, pensa no chefe que o dispensou do trabalho com má vontade e nem sequer deu os pêsames. Ele resolve essas coisas, viaja, almoça, com uma sensação de não acreditar ainda na morte de sua mãe. Pode ser um mecanismo de defesa, a negação. Quando você não pensa em algo, ela não existe.

A mãe estava há três anos no asilo. A relação entre eles era incômoda, não tinham assunto. Ela gostava de ficar no asilo, estava adaptada e tinha até um namorado.

Durante o processo judicial Meursault sofreu um julgamento paralelo mais forte em relação a sua mãe, do que o do assassinato do árabe. O crime não foi premeditado, foi em legítima defesa. Meursault foi ofuscado pelo sol na praia e disparou mais tiros do que os necessários. Mas ele já estava condenado antes de ser julgado.

Muitas resenhas por aí dizem que o protagonista é frio e que não ligou para a morte da mãe. Isso é ter lido O estrangeiro muito superficialmente, não leu as entrelinhas, não interpretou e isso é o mais importante de uma obra literária. Ler ao pé- da- letra não é ler.  Nem sei se vou conseguir me fazer entender aqui, mas sei que não foi simplesmente frieza.

Pensei em muitas coisas, até em sociopatia e psicopatia, no final, mas ainda refletindo, creio que Meursault é o mais equilibrado dos personagens, pelo menos age de acordo com o que pensa e sente, não como a maioria das pessoas na vida mesmo. Ser verdadeiro é coisa muito mal vista, todos estão para as aparências e para agradar os demais, não? Meursault é um símbolo de algo maior. A liberdade? A clareza, a sinceridade?

Não tenho capacidade para adivinhar o que quis dizer Camus com esse personagem, mas vou dar a minha opinião: todos somos Meursault. Quantas vezes você sorriu sem vontade? Fez muitas coisas sem vontade, porque era o estabelecido, você não tem liberdade de ser quem quer, quem é, por causa de regras sociais de conduta. Quantas vezes esteve com pessoas e lugares que não queria estar? Muitas, não? A diferença é que  Meursault não faz isso, ele nos revela atos e verdades incômodas, consegue ser livre dentro da prisão que é o viver. Isso fica bem claro no final. Na prisão, mas livre.

A linha entre ser “uma pessoa normal” e um assassino é muito sutil. Se você tem uma arma na mão e uma pessoa quer te machucar, porque já te machucou antes…se ela viesse na sua direção com uma faca, o que você faria? Esperaria ser esfaqueado ou atiraria na pessoa?

Não o condenaram pelo ato de matar alguém, mas por quem ele aparentava ser durante a sua vida. Foi julgado até por ter tomado um café- com- leite no velório da sua mãe e por não ter chorado. Por ter ido à praia e ao cinema com a sua namorada no dia seguinte. Tudo isso o condenou.

Tudo o que você pensa é bom? Você, leitor, também julgou Mersault.

Analise os seus pensamentos e ações e veja o quanto de Meursault existe em você. Ainda bem que o pensamento é livre, senão estaríamos todos, eu digo todos, condenados.

Quando você não demonstrar algo que a sociedade espera, será esmagado. Continue fingindo. Meursault é inocente. Ou somos todos culpados?

Leia  e coloque o personagem no banco dos réus. Brinque de juiz.

A edição espanhola lida:

13418727_619713974850833_7974081358851172287_nCamus, Albert. El extranjero. Alianza Editorial, Madrid, 2015. Páginas: 122

SORTEIO de livros: “Quem são os leitores do Falando em Literatura?”

Queremos traçar o perfil dos nossos leitores e saber o que vocês gostariam de ver por aqui. O seu nome, cidade e idade vai ter prêmio: dois livros! Quem se manifestar e dizer (exemplo): “Oi, sou Fulano, tenho 18 anos, moro em Manaus e gostaria de ler mais sobre Machado de Assis”. Quem cumprir as regras (abaixo) vai entrar para o sorteio de DOIS livros da série “Em busca do tempo perdido”, de Marcel Proust. Os dois livros serão para UMA só pessoa. Regras:

  • Curtir a página do Falando em Literatura  no Facebook (Clica) 
  • Compartilhar esse post no Facebook
  • Seguir o Falando em Literatura no Twitter (Clica)
  • Seguir o Falando em Literatura no Instagram (Clica)
  • Deixar nos comentários aqui no blog, o seu nome, idade, cidade e o que gostaria de ler mais aqui no Falando em Literatura.
  • UPDATE: se você não estiver em todas essas redes sociais, vale as que você participar.

É imprescindível seguir todas as regras, caso o sorteado não tenha cumprido todos os itens, será realizado novo sorteio. O sorteio acontecerá no dia 12 de dezembro, às 22h (hora espanhola). Pode participar gente de qualquer parte do mundo. Os livros sorteados serão esses a seguir, livros de bolso, edição portuguesa, 2º e 3º volumes da obra “Em busca no tempo perdido”:

11026246_533020320186866_307788683045180943_n

Participe e compartilhe com os amigos!

UPDATE: se você não estiver em todas essas redes sociais, vale as que você participar.

Livrarias de Madri (3ª): “Pasajes”

A livraria internacional Pasajes (“Passagens”) é especializada em livros em outros idiomas, mas como sempre, o português é muito pouco privilegiado, uma estante pequena com uma maioria de escritores portugueses e três ou quatro livros de escritores brasileiros. Clarice Lispector, Nélida Piñón e Rubem Fonseca. Bons, mas tenho todos.

11136743_445717635583802_2469613516527440444_n

Essa livraria foi fundada em 1999 e ganhou um prêmio de “Bibliodiversidade” em 2008 da Associação de Editores de Madri. Os funcionários sabem falar diferentes idiomas, o que facilita a busca de livros para quem chega e não sabe falar espanhol.

15568_445717428917156_7723586494150428344_nA livraria pertence à Editora Trotta, que editou toda a obra de Walter Benjamin. O nome da livraria vem de um livro do escritor “Passagens”, “o ar livre de um céu azul sem nuvens curvado sobre a folhagem, e no entanto, ficou coberto com o pó de muitos séculos por milhões de folhas às que se agitavam à fresca brisa do afã, o pesado fôlego do pesquisador, a tormenta do tesão juvenil e o sopro indolente da curiosidade”. (livre tradução)

10277816_445717338917165_6670362753547267318_n

No alto das estantes fotos de grandes personalidades literárias.

10258768_445717702250462_4984630117413659975_n

Na vitrine, livros em francês expostos.

10384696_445717538917145_8650561888847470906_n

Em “Pasajes” há livros em espanhol, inglês, francês, alemão, português, russo, italiano, chinês, entre outros.

10959615_445717378917161_486990526975800026_n

A livraria é bem “standard” no quesito arquitetônico/decorativo, o único elemento diferente é essa coluna, suponho que da construção original e que foi mantida.

11039248_445717568917142_8442221173146050034_n

São várias salas distribuídas em dois andares.

11062022_445717398917159_2274770087911729829_n

Em cada sala há um funcionário para das informações.

11156195_445717515583814_6670721829529031894_n

O acervo é bom, mas tem algo nessa livraria que faz com que eu não me sinta muito à vontade. Normalmente entro, compro o que preciso e saio rápido. Não sinto vontade passear e olhar livros. Falta charme e janelas. Acho que é meio claustrofóbica. Por isso e pela escassa oferta de literatura brasileira, vai levar uma nota 5. Já que é internacional, deveria valorizar mais o idioma, que também pertence à União Europeia. É uma livraria de “passagem” mesmo, já que não tem lugar pra sentar e nem cafeteria.

11164820_445717482250484_1257390428149051359_n

Um espaço para os professores oferecerem seus serviços.

11159542_445717672250465_3890819050657416297_n

O acesso à livraria é fácil. Saindo da Plaza de Colón (uma com a enorme bandeira espanhola), na rua justo em frente é a Génova. Na Praça de Colombo também fica o Consulado do Brasil.

Librería Pasajes

Callé Génova, 3- Madrid

Aberta de segunda à sábado de 09:30- 21:30


Veja as outras livrarias resenhadas AQUI.

“No café da juventude perdida”, Patrick Modiano

(…) Às vezes te oprime o coração quando pensa nas coisas que podiam ter sido e que não foram, ainda digo agora inclusive, que a casa continua vazia esperando- nos. (Ronald, p. 128)

Prepare uns sapatos confortáveis porque você vai caminhar muito pelas ruas de Paris! Livro com encanto, tom nostálgico, de memórias, mistério, de um amor inesquecível passe o tempo que passe, aconteça que acontecer. A cafeteria “Le Condé”, em Paris, é o ponto- de- encontro de jovens e de gente madura com espírito boêmio. O que um filósofo sentimental chamava de ‘juventude perdida’ (p.14). Anos 60, a época do surrealismo francês em uma das suas faces mais aloucadas, a patafísica de Alfred Jarry, Boris Vian, Eugène Ionesco e Julio Cortázar. Ainda não foi editado no Brasil.

1144-2123.main_p

 Patrick Modiano (Boulogne-Billancourt, 30/06/1945) na bela biblioteca da sua casa. (Foto: France Today). Modiano ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 2014.

Os personagens são Louki, Zacharias, Tarzan, Jean- Michel, Fred, Ali Cherif, Annet, Seu Carlos, Mireille, Adamov e o doutor Vala. A dona da cafeteria é a dona Chadly. Um dos narradores- personagem encontra- se com Chadly às margens do Sena, quando a cafeteria já havia fechado há muitos anos, em seu lugar havia uma loja de bolsas. A senhora temia pelo futuro daquela turma sem futuro . “Que será que foi deles?” Eles não estavam preocupados com o futuro, viviam só o presente, queriam descobrir quem eram.

A história gira em torno de Louki, que vai sendo construída aos poucos, o livro é cheio de sutilezas, converte em grande o que parece ser normal, cotidiano, descreve o que pensamos e sentimos em centelhas de segundos, aquelas percepções, insights, sensação de déjà vu, “eu já vi isso antes”…esse livro me fez sorrir…isso é boa literatura!

O cenário parisiense, toda a cartografia da cidade vai sendo desenhada: os encontros na Avenue de la Grande- Armée, o rio Sena, o bairro Porte- de- Maillot, os metrôs, Neuilly (uma cidade metropolitana de Paris), enfim, nesse livro temos um mapa da cidade das luzes.

Pimms2

Pimm’s é um licor que serve como base para coquetéis criado em 1823 pelo escocês James Pimm. Louki e a amiga Jeannette tomam um “Pimm’s champagne” no bar “Le Canter” (Jeannette é uma das donas), na rua de La Rochefoucauld.

Tem gente que faz coisas que parecem insignificantes ou inúteis, veja o que fazia Bowing: ele escrevia num caderno todos os nomes das pessoas de frequentavam a cafeteria, simplesmente para que existissem. Quando a gente coloca nome em alguém, ela deixa de ser uma a mais na multidão. Isso te parece inútil?! Ele queria acabar com o anonimato da grande cidade.

(…) Bowing estava desejando salvar do esquecimento as borboletas que dão voltas durante breves instantes ao redor de uma lâmpada.(Caisley, p.16)

Mas também tem uma coisa: um nome sem significado e sem história é só um nome marcado à tinta num papel. O doutor Vala comentou com Bowing que achava engraçado esse experimento dele “de patafísica”, mas o narrador corrige: “Ele confundia tudo: patafísica, o letrismo, a escritura automática, as metagrafías e todos os experimentos que realizavam os frequentadores mais literatos do Le Condé (…)”. (p.22)

Ninguém da turma do Le Condé sabe o nome verdadeiro de Louki. Ela mora perto do cemitério de Montparnasse.

Caminhava com essa sensação de leveza que, às vezes, sentimos em sonhos. Já não temos medo à nada, todos os perigos são irrisórios. Se as coisas ficam feias de verdade, basta despertar- se. Somos invencíveis. Caminhava, impaciente por chegar ao final, ali aonde não havia mais que  céu azul e um vazio. (Louki, p.84)

O narrador 1 mora no boulevard Saint- Michel, nº 85, em um quarto alugado, é aluno da Escola Superior de Minas na Sorbonne, ele mantém segredo aos colegas da cafeteria, tanto sobre o lugar onde mora quanto sobre o lugar que estuda, não parece muito convencido da sua escolha profissional.

“Vivemos à mercê de certos silêncios. Sabemos muito uns de outros. Assim que fazemos por encontrar- nos.” (Ronald, p.29)

Um outro narrador, que chamarei de 2,  (pensamos que é um narrador, só no final do livro que descobrimos que são dois) tem uma obsessão por descobrir quem é Louki. E foi conseguindo: o nome, “Jacqueline Choureau”, de solteira “Delanque”. Foi casada com Jean- Pierre Choureau, a quem Louki havia abandonado há dois meses. Ela, 22, o ex- marido, 36. A mãe trabalha no Moulin Rouge. O romance vai sendo construído aos pedaços, o tempo vai e volta, presente- passado. Também vamos descobrir quem é o narrador, mas não vou revelar, vou deixar para vocês descobrirem também. Só o nome: Caisley. Nessa obra nada é por acaso, tudo vai sendo amarrado, costurado com uma precisão matemática! Seu primeiro nome só vamos descobrir na última página.

5188b620447955.48029606.page_slider_8

O restaurante “Au chien qui fume” (“O cachorro que fuma”), na rua Cherche- midi, Montparnasse, citado pelo narrador 1, (p.33), ele entrou para tomar um conhaque, nervoso com a possibilidade de encontrar Louki. Ficção e realidade. O restaurante realmente existe (foto acima), como muitos lugares citados no livro, que nos leva pela mão num passeio gostoso por Paris. Vous vous promenez? Paris é uma cidade dividida por 20 distritos (arrondissements), que começa no ponto mais central e vai circulando a cidade em forma de aspiral.

Na metade do livro mais ou menos (p. 59) vai ficar ainda mais interessante, porque agora entra Louki com própria voz para explicar a sua história e como ela vê os frequentadores do Le Condé, a mesma coisa que fez Caisley.

Louki sofria ataques de pânico, Modiano conseguiu explicar esse problema incômodo e o que passa na cabeça da pessoa com um ataque de ansiedade. A metáfora de fios desunidos é perfeita! É isso, é como se a pessoa estivesse desconectada do mundo e de si mesma, o mal-estar toma conta de tudo:

“De repente, sentia uma sensação de vazio pela rua. A primeira vez foi diante do bar que havia ao lado do Cyrano. Passava muita gente, mas isso não me tranquilizava. Cairia redonda e essa gente continuaria seu caminho sem fazer- me caso. Caída de tensão. Corte de corrente. Tinha que esforçar- me para voltar a unir os fios.” (Louki, p. 78)

Ela tinha “agorafobia”, não podia sair dos limites do seu bairro. Sentia que não podia ultrapassar a fronteira. Traumas do seu passado. O medo de viver às vezes é tão grande que o cérebro procura um meio de desconectar. Ela estava só, sua mãe morreu há quatro anos e ela cresceu sem o pai. Não tem família.  Frequenta as sessões de Guy de Vere (nome de um personagem do poema “Lenore” de Edgar Allan Poe), uma espécie de guru espiritual. Jacqueline o conheceu na Livraria Vega, que realmente existe e é uma editora de livros esotéricos, espiritualistas.

Desse livro eu senti falta de uma descrição física mais detalhada de Louki, Caisley e Ronald. Não consegui visualizá- los. Gosto de Andersen, Proust ou Dostoiévski, por exemplo, que desenham os personagens, fazem um retrato- falado dos personagens.

photo2

Essa é a “Place de la République”, onde nossos dois “flâneurs” Louki e Ronald passeiam. A famosa estátua que simboliza “Liberdade, fraternidade e igualdade”. Essa noite dormiram no mesmo quarto de hotel.

Encontram- se Louki e Ronald. O narrador cita um fenômeno interessante que acontece com a maioria de nós,  o “Eterno Retorno”, uma teoria filosófica de Nietzsche que tem a ver com o tempo e a repetição periódica de acontecimentos, a inevitável alternância de coisas boas e ruins:

Ainda hoje acontece algumas vezes: ouço, pela noite, uma voz que, pela rua, chama o meu nome. Uma voz rouca. Arrasta um pouco as sílabas e a reconheço rápido: a voz de Louki. Dou a volta e não há ninguém. (…) Tudo volta a começar, igual que era antes. Os mesmos dias, as mesmas noites, os mesmos lugares, os mesmos encontros. ‘O Eterno Retorno’. (Ronald, p. 95)

Já teve essa sensação alguma vez?

É uma única história contada sob várias perspectivas. Uma delas é como Ronald vê a relação entre Louki e Jeannette Gaul. Assim que percebemos que tudo, todas as histórias têm mais de um ponto de vista, tudo é relativo. As histórias condicionadas pelo tempo, o vivido e o lembrado, podem ser diferentes.

Quando de verdade amamos uma pessoa, temos que aceitar a parte de mistério que existe nela…Porque é por isso que a amamos, verdade (…)? (Ronald, p. 118)

Essa história é sobre Paris e sobre um relacionamento que acaba, mas que o amor nunca termina. Não é um romance romântico, é tudo muito sutil, conta sem contar, um verdadeiro quebra- cabeças. O final…melhor não contar. Surpreendente.

E aí, vai colocar na sua lista? Essa é a edição espanhola lida:

cafe

Modiano, Patrick. En el café de la juventud perdida, Anagrama, Barcelona, 6ª edição, 2014.

Preço: R$ 92,14, Saraiva (Brasil).

Preço: EUR 14, 90, Casa del Libro (Espanha), dependendo do frete, compensa.

Páginas: 131