Resenha: “Liberação”, de Luis Goytisolo

Começo contando uma historinha: na Feira do Livro de Madri de 2014, pensei encontrar uma fila quilométrica no estande de Luis Goytisolo Gay (Barcelona, 17/03/1935), afinal, é um dos expoentes da literatura na Espanha, membro da Real Academia Española, desde 1994, é o Proust espanhol. Goytisolo escreveu o prolixo “Antagonía”, são mais de 1000 páginas de luxuosa narrativa. Quando cheguei no seu estande, estranhei:  o autor estava sozinho. Contei sobre a minha surpresa e ele respondeu: “nunca vou ser um escritor popular”. Concordo. Literatura artística, bem elaborada, infelizmente, nunca será popular. Quase sessenta anos de excelente literatura e não havia ninguém na fila!

Já que estávamos sozinhos, aproveitei para pedir que autografasse vários livros , o que fez com toda a gentileza e simpatia:

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Luis Goytisolo, Feira do Livro de Madri, 2014. Foto: Fernanda Sampaio

Luis pertence à uma família literária. Seus dois irmãos também são escritores, José (poeta) e Juan (narrativa), este último, premiadíssimo, inclusive recebeu o Príncipe de Astúrias. Juan Goytisolo, infelizmente, faleceu em junho deste ano.

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Fernanda Sampaio e Luis Goytisolo na Feira do Livro 2014. Foto: Antonio Jiménez

A impressão que tive de Luis Goytisolo é que nunca vai envelhecer, tem o espírito jovem.

O meu exemplar com dedicatória:

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Saiba mais detalhes do meu encontro com Luis Goytisolo, aqui.

A obra

Como “Liberación” não está editado em português, uso “Liberação” (2014), ao pé da letra, mas poderia ser também “Libertação”. Este é o antepenúltimo livro de Luis Goytisolo, o mais recente é de 2016, “El atasco y demás fábulas ” (“O bloqueio e demais fábulas”). A sua primeira obra publicada é de 1958, “Las afueras”, ( “Os arredores”, algo como “A periferia”).

“Liberação” está dividido em nove capítulos numerados, com subcapítulos titulados. O primeiro capítulo possui nove histórias (aparentemente) independentes, a primeira: “Resumo do ano” (p.13), encontrei logo de cara umas linhas duras, lembrou- me o naturalismo de Aluísio de Azevedo. O protagonista chama- se Ricardo, é casado com Magda. A família tem uma casa de campo chamada “A Nogueira”. Ele fala da tosse incômoda dos pedestres exalando bacilos.

A  demolição de um edifício vai liberar o espaço, não só de uma edificação em ruínas, mas de tudo o que está implícito nele, “(…) eflúvios cuja carga de miséria, enfermidade, sofrimento e desgraça institui- se contagiosa, assim a inquietação do ser humano ante qualquer decidida revisão de seu passado individual ou coletivo que deixe descoberta a realidade mais profunda, mas irrevogável.” 

O narrador, em primeira pessoa, vai comparando esse edifício com uma tosse perniciosa, com a morte. Edifícios e móveis antigos, de antiquários, herdados, o provocam a mesma repulsa. De certa forma, o protagonista acredita que nestas coisas velhas ficam impregnadas energias dos donos. E ele pensa sobre pais e filhos:

Que sabem os filhos dos seus pais, de como eram antes de ser pais? E dos filhos, tanto mais desconhecidos quanto mais crescem? (p.15)

A segunda história é bem curtinha, “Vista da aldeia desde A Mola”. O ambiente do livro é a Espanha rural. “A Mola” é uma fazenda que fica em Vallfranca. O narrador faz uma crítica aos donos das fazendas, que são proprietários, mas não têm conhecimento sobre o campo, uma tendência pós- guerra.

Na terceira história, “Águas turvas”, Carlos sonha com águas turvas, fica com uma impressão ruim durante o dia todo. Começa a relacionar o sonho com a vida e suas recordações, principalmente com Áurea (falecida). Um capítulo embalado pela música de Strauss, “Marcha Radetzky”. É um texto sobre a dúvida, uma possível infidelidade ao estilo Capitu e Bentinho.

A quarta, “Nata“, é um apanhado de personagens e gírias grosseiras, são jovens violentos e marginais. Diferente dos anteriores, a narrativa acontece na cidade, parece um bairro popular e periférico.

“O monte da alegria” é a quinta história (p.27). Quando as pessoas estão muito agoniadas sobem ao monte e voltam de lá renovadas.

(…) Aos humanos nos acontece como as plantações, que degeneramos. A terra pode perder substância, mas deixe- a descansar e ela se recupera sozinha. As plantações, em troca, se não têm semente nova, degeneram. Pode ser boa terra, que você não vai colher nada. A planta perdeu perdeu sua capacidade de assimilar. Como nós.  (p.29)

“Desolação” é a sexta história, a de duas moças, Cati e Yolanda. Um texto realmente desolador, mas que para uma boa parte dos jovens, hoje, pode ser visto com naturalidade: a extrema falta de pudor, a liberação sexual que toca a perversão. A banalidade sexual.

Até “Desolação”, todos os textos parecem independentes, sem conexão entre as histórias e personagens. Em “A Marcha Radetzky” e “O interlocutor”, as últimas do primeiro capítulo, ressurgem personagens citados anteriormente e como a vida deles se cruzam. Neles, a colcha de retalhos é costurada e tudo faz sentido. O escritor optou pela escrita indutiva, partiu do particular para o geral. Goytisolo resume o capítulo falando da libertação de repressões. A Espanha ficou muitos anos submetida a um regime ditatorial, onde nada podia, e depois disso, veio o oposto.

O segundo capítulo é composto por seis histórias. A primeira, “Revistas”, acontece num aeroporto e quem a conta é Carlos, que aguarda para embarcar e observa um jovem ser revistado. O rapaz recorda a ele quando jovem e relembra uma experiência de sexo homossexual que nunca contou à Áurea.

Em “O obscuro e o transparente”, revela um lugar muito especial do povoado, que acontece um fenômeno estranho: no “Bosque do Pensamento”, as palavras surgem claras, como uma revelação.

Voltam os personagens jovens do subúrbio em “Mastuerzo” (é uma árvore). Eles têm uns nomes bem “estranhos”:”Cosca”, “Joderas” (apelidos escrachados). A linguagem volta vulgar, cheia de gírias, a língua das ruas dos subúrbios marginais. Os rapazes comportam- se com uma total falta de empatia e respeito ao outro.

E ainda “A terceira maravilha”, o narrador volta a contar sobre a fazenda “La Mola” e sobre quem eram os seus donos. “Primeiro do ano” é o encontro de dois casais que já apareceram antes: Carlos e Áurea, e Ricardo e Magda. Os homens foram colegas de colégio e o reencontro não foi agradável. O tempo transforma as relações em outra coisa nem sempre esperada e desejada. O trecho é contado sob a visão de Ricardo.

Já em “O bobo da vez”, sob o olhar de Carlos, ele vai contando os efeitos do tempo, não só no físico quanto na mente:

A pegajosa inércia das coisas, o mundo circundante, o próprio corpo, tudo como impondo resistência, colocando obstáculos, ou simplesmente aderindo ao modo de rêmora, como algas e moluscos que se instalam e proliferam no casco de uma nave até imobilizá- la. Uma análise de sangue e umas ecografias dentro da normalidade não anulam as fraturas da idade, a decadência física,  as manias (…) (p.58)

E Carlos fala sobre a “mania” de andar pelo meio da rua, para livrar- se da água dos vasos de plantas e também de uma coisa que me irrita muito, um costume forte na Península Ibérica:

(…) por temor que alguma dissimulada dona-de-casa sacudisse durante a sua passagem alguma toalha, algum lençol ou, o que é pior, algum tapete de quarto, com toda sua carga de germes patógenos”. (p.59)

Carlos comenta sobre a morte de Magda e Ricardo. Essa obra é cheia de enigmas, um quebra- cabeças.

O III Capítulo é formado por quatro histórias: “Latidos e dentes”, que fala sobre Vallfranca, o narrador compara o povoado antes e depois da guerra. A comodidade nem sempre traz felicidade. Durante a guerra (civil espanhola) as famílias eram mais unidas, dormiam num só quarto, e hoje, têm até banheiro com jacuzzi, mas sofrem de tédio. Será por falta de metas e objetivos? Há ainda  “Resignação”,O excêntrico” e “Projeto de ano- novo”.

Para evitar uma resenha infinita, decidi não contar mais capítulo por capítulo e já ir finalizando. A obra tem a estrutura original, são várias histórias paralelas, que discorrem aparentemente sem conexão, até que os personagens vão se entrecruzando. O personagem mais profundo é Carlos, seu final é surpreendente e triste.

A obra deixa uma sensação bastante verossímil do “jeito espanhol” de hoje e de ontem, várias gerações, há recuos históricos e personagens contemporâneos. Personagens de várias camadas sociais e diferentes idades, da zona urbana e rural, suas angústias e solidões. E a violência, que também há, infelizmente. O fim da guerra gerou liberdade, que, em grande parte, não soube ser bem aproveitada pelos cidadãos espanhóis. O que fazer com tanta liberdade? Parece que muitos ficaram perdidos e perderam a medida.

Este livro ainda não está editado em português. Quem sabe estou plantando uma sementinha. Se algum editor do Brasil ou qualquer país lusófono chegar por aqui, anote esse nome: Luis Goytisolo.

Se você está no Brasil, Portugal, Angola, Goa ou Moçambique e lê em espanhol, pode comprar “Liberación” em e-book aqui. E você que está na Espanha pode comprá- lo nas melhores livrarias do país.

goytisolo (1)  Goytisolo, Luis. Liberación, Siruela, Espanha, 2014. Páginas: 190

Resenha II: Dom Quixote de La Mancha

A resenha era pra ser do capítulo I ao X, mas a edição de uma revista na Espanha arrebatou totalmente o meu tempo. Fica aqui um pouco da bio de Cervantes e a resenha até o capítulo II.

Um pouco da biografia de Miguel de Cervantes. 

Nascido em na cidade de Alcalá de Henares, na Comunidade de Madri, Espanha, provavelmente no dia 29 de setembro de 1547 (dia de São Miguel, por isso seu nome) Miguel de Cervantes Saavedra, filho de Rodrigo Cervantes, um “zurujano sangrador”, que era uma mistura entre médico e barbeiro, e filho de Leonor de Cortinas. O casal teve sete filhos, três meninas e quatro meninos, Miguel foi o quarto. Ele nasceu em casa, onde hoje funciona seu museu. Morou pouco tempo em Alcalá de Henares, a família mudou- se para Valladolid quando Miguel tinha 4 anos. A família alugou uma casa na rua Rastro (hoje funciona um museu de Cervantes), mas durou pouco também, apenas dois anos. Voltaram para Alcalá de Henares outra vez. Depois disso Cervantes mudou para Córdoba, Sevilha, Toledo e Madri, durante sua vida adulta não parou muito tempo em nenhum lugar. Os estudiosos dizem que seu pai fugia dos cobradores. Cervantes voltou adulto para Valladolid e foi nessa cidade que escreveu o prólogo de “Dom Quixote”, leia aqui a resenha.

No ano passado, historiadores, arqueólogos e geofísicos afirmaram (ainda que não seja possível afirmar 100%, já que o DNA está deteriorado depois de 400 anos) que os restos mortais de Cervantes estão na igreja das Trinitárias, em Madri. Aqui na Espanha, o evento foi transmitido ao vivo na TV, um grande rebuliço, cientistas e pesquisadores dando seus pareceres favoráveis ao achado. Então, até que provem o contrário, Miguel de Cervantes é meu vizinho, jaz na cidade de Madri junto a sua esposa Catalina Salazar Vozmediano. Não tiveram filhos. Cervantes, aos 37 anos, era apaixonado por Ana Franca de Rojas (uma mulher casada), com quem teve sua única filha, Isabel de Saavedra. Cervantes não acabou com o seu grande amor, ele estava comprometido com Catalina e Ana morreu cedo. Nas próximas resenhas irei contando mais.

Continuando a leitura de “Dom Quixote”.

O livro é dividido em duas partes, a primeira com 52 capítulos. E para introduzir a segunda parte, acontecem de novo todos os protocolos do início da primeira, a burocracia, pagamento de taxas, erratas, aprovação e também um novo prólogo, como se fosse um segundo livro.

1ª parte: os capítulos são  introduzidos com um título. O primeiro:

I. Que trata da condição e exercício do famoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha

O célebre início:

Em algum lugar de La Mancha, cujo nome não quero recordar, não faz muito tempo que vivia um fidalgo…(p.27)

A descrição de dom Quixote: 50 anos, magro, rosto fino, gosta de acordar cedo e de caçar. O sobrenome, “dizem”, Quijada ou Quesada.  Tudo indica que dom Quixote (antes Quijada)  tenha existido mesmo, é um personagem real, famoso antes desse livro, que foi sendo reconstruído à base de testemunhas, nem sempre concordantes entre si. Quijada era um grande leitor, tanto, que até esquecia de administrar a sua fazenda e de caçar. Vendeu terras para comprar coleções de livros de cavalaria, gostava do escritor Feliciano de Silva. Desses livros de Feliciano destacou essa frase (p. 29):

La razón de la sinrazón que a mi razón se hace, de tal manera mi corazón enflaquece, que con razón me quejo de vuestra fermosura. 

(Algo assim: “A razão da irracionalidade que faço a minha razão, dessa forma o meu coração  enfraquece, que com razão me queixo de sua beleza.”)

Quijada ia lendo essas coisas e perdendo o juízo. Ele tentava entendê- las, mas nem Aristoteles as entenderia, pensava. Por causa dessas leituras sentia também vontade de escrever. Há muitas referências bibliográficas, autores medievais de romances de cavalaria, caso você queira conhecer esse tipo de literatura fascinante e antiga, como Amadís de Gaula, Palmerín de Inglaterra, Belianís, por exemplo. E uma obra de referência, uma verdadeira enciclopédia sobre o assunto, é o livro de Ríquer, “Os trovadores”, depois mostro em outra ocasião.

Quijada varava as noites lendo, tantas sem dormir, que perdeu o juízo, já não diferenciava a realidade da ficção. E quis viver tudo o que lia nas histórias de cavalaria, decidiu sair pelo mundo. Assim surgiu “dom Quixote”, que saiu pelo mundo com a arma velha dos seus bisavós e com seu cavalo Rocinante, “um nome alto, sonoro e significativo” (p.32). Os fidalgos não recebiam o tratamento de “dom”, mas Quijana ao mudar seu status para “cavaleiro”, ganhou esse direito. Escolhidos o nome do cavalo e o seu próprio, “Quixote”, que é uma parte da armadura que protege a coxa, agora “só faltava encontrar a dama a quem apaixonar- se, porque o cavaleiro andante sem amores era árvore sem folhas e sem fruto e corpo sem alma” (p.33).

A moça escolhida foi uma lavradora chamada Aldonza Lorenzo, que Quixote achou melhor mudar para estar mais a sua altura, decidiu chamá- la”Dulcinea del Toboso”. Toboso fica atualmente na província de Toledo. “(…) nome, a seu parecer, músico e peregrino e significativo, como todos os demais que a ele e suas coisas havia posto”. (p.33)

Capítulo II: Que trata da primeira saída que da sua terra fez o engenhoso dom Quixote:

Os capítulos são curtos, cinco ou seis páginas mais ou menos. Nesse segundo, o narrador conta como o mais novo desbravador da velha Espanha saiu pela primeira vez do seu “pueblo” (povoado).

Uma curiosidade: saber português está ajudando na leitura de Cervantes sem a adaptação ao espanhol atual. Muitas notas explicam o que Cervantes quis dizer, colocam sinônimos, mas a maioria delas para os lusofalantes são desnecessárias (creio eu), pois nos são familiares.

Quixote, armado e vestido, sai montado em Rocinante de madrugada sem comunicar a ninguém sobre a aventura prestes a ser empreendida. Foi quando percebeu que estava cometendo um engano. Os cavaleiros não usavam arma de fogo, só “arma branca” (facas, espadas e afins) e que um digno cavaleiro como os dos romances que lia, usavam mesmo era um escudo e uma espada. . E dessa forma, temos o Dom Quixote vestido e paramentado, como no desenho abaixo:

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Dom Quixote, determinado, ingênuo e sonhador tinha a certeza que no futuro, um sábio escreveria as suas façanhas. O recém- nomeado cavaleiro antecipava os fatos: seu cavalo era famoso sem ser, Dulcinea, sua namorada, sem conhecê- la, o que o narrador classifica de “disparate” (p. 36), considera o recém- cavaleiro um desmiolado.

O narrador conta a história como se Quixote fosse real: “há autores que dizem que a primeira aventura que lhe aconteceu foi a de ‘Puerto Lápice’; outros dizem que foi a dos moinhos de vento.” (p.36)

A edição lida nesse post:

Cervantes, Miguel de. Don Quijote de La Mancha. Edición Conmemorativa VI centenario Cervantes. Alfaguara, 2015. Páginas: 1249

Crédito da imagem: clica.

25 de setembro, aniversariantes ilustres: Carlos Ruiz Zafón e Valter Hugo Mãe

A literatura contemporânea está bem representada por esses dois escritores, um espanhol e outro angolano: Carlos Ruiz Zafón (Barcelona,1964) e Valter Hugo Mãe (Henrique de Carvalho, 1971), nasceram no mesmo dia.

Carlos Ruiz Zafón

10012599_811092592253672_1841899_nfoto: Facebook do escritor

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O romancista Carlos Ruiz Zafón é um dos escritores espanhóis mais populares hoje no mundo, com traduções nos cinco continentes, premiado, conquistou o respeito da crítica e dos leitores. Campeão de vendas, mas com grande qualidade. Suas obras mais conhecidas “A sombra do vento” e “O jogo do anjo” são presentes para quem ama a boa literatura. Veja toda a sua bibliografia aqui.

Valter Hugo Mãe

10550969_680316412043964_5637800761998822976_n Valter com o nosso querido e saudoso Ariano Suassuna (Facebook do escritor)10609633_689470561128549_5251035529217480711_nValter Hugo Mãe, um dos proeminentes escritores da atualidade. (Facebook do autor)

Valter Hugo Mãe é poeta, romancista, escritor de literatura infantil, cronista, compositor e cantor, e ainda artista plástico. Artista completo. Um dos seus livros mais conhecidos é “O  remorso de baltazar serapião”. Veja toda sua bibliografia aqui.

Dois escritores para colocar na sua lista de leituras. Felicidades aos dois, feliz aniversário, feliz cumpleaños!

“Sherezade ya no danza”, Sandra García Colina

“O que veio primeiro, o desenho ou o texto?”, essa foi a pergunta que fiz para Sandra García Colina,  escritora/ artista plástica nascida no País Basco, Bilbao (1973). Seriam muitas outras perguntas, mas nosso encontro  marcado no Parque del Retiro foi cancelado pela escritora e essa pergunta foi respondida via Facebook.:

Primero vinieron algunos de los relatos, no todos, porque son una descripción vital, como un camino que ha ido parejo.
La pintura es la fotografía de la vida que Sherezade quiere tener, en algunas ocasiones y en otras los cuadros reflejan la sensibilidad y fuerza de una mujer valiente.
No hay una correspondencia cronológica entre relatos y cuadros. Son dos escenarios diferentes y , al mismo tiempo, complementarios.
Podríamos decir que son como la música y la partitura de la vida de Sherezade.

Primeiro vieram alguns dos relatos, não todos, porque são uma descrição vital, como um caminho que veio em dupla. A pintura é a fotografia da vida que Sherazade quer ter, em algumas ocasiões, em outras os quadros refletem a sensibilidade e a força de uma mulher valente. Não existe uma correspondência cronológica entre relatos e quadros. São dois palcos diferentes e, ao mesmo tempo, complementários. Poderíamos dizer que são como a música e a partitura da vida de Sherazade.”

Sandra publicou “Sherezade ya no danza” (Sherazade já não dança”) seu primeiro livro que foi lançado na última Feira do livro de Madri, um belo impulso para uma escritora novata. Contos, mas que poderiam estar reunidos em uma única narrativa, pois a personagem é a mesma e os textos são suficientemente coesos, interligados para estarem juntos num único texto.

O livro é muito breve, breve demais: 57 páginas compostas por 21 micro- contos e 24 reproduções em preto e branco de quadros ( em cores) pintados pela escritora/pintora. O cenário dos textos e imagens acontecem na Turquia, uma Sherazade que dança, que vende o seu corpo, mas que não gosta, quer se libertar e se liberta. Textos que falam de amor e desamor, de sonhos e busca pela felicidade.

Quando vi esse título pela primeira vez, “Sherezade ya no danza”, a impressão que me passou foi de que seria uma obra de cunho feminista, que trouxesse alguma novidade à respeito da atual situação da mulher na sociedade contemporânea. Estava enganada, não há teoria feminista alguma, é um livro carregado de misticismo, que inclusive cita termos como “dívidas kármicas” (pág. 53) ou “karmicamente” (pág. 52) mostrando que a autora (supostamente) acredita em destino e na pré- determinação dos acontecimentos.

No Facebook da artista é possível ver na sua galeria os quadros originais, coloridos. Uma pena no livro não terem reproduzido em cores, pois perde muito as imagens em preto e branco. Os quadros mostram cenas típicas do deserto com uma Sherazade que lembra uma sereia, muito feminina e sensual com suas curvas e cabelos longos. Uma escritora que é uma excelente artista plástica.

Colina, S. G., Sherezade ya no danza, Madrid, Sial, 2010.

Preço: 15 euros

Compra online: Livraria Proteo.