Resenha: Becos da Memória, de Conceição Evaristo

A última resenha do ano! Aviso: este é um LIVRAÇO!

Pode haver poesia na favela? Claro! O olhar de Conceição Evaristo (Belo Horizonte, 29/11/1946) não me deixa mentir. Há muita beleza triste, dolorida e comovente na favela. A sua prosa afiada, que acerta na forma e conteúdo, conta a realidade sem apelar ao dramatismo barato. Escritora de prosa e verso, a doutora Conceição Evaristo é uma das melhores escritoras do Brasil, sem dúvida.

Há muitas coisas na vida, aliás, quase tudo, que a gente nao entende. Será que, mesmo antes de nascer, tudo já está escritinho, pronto para se viver?

Uso o termo “favela”, pois este é o empregado pela autora na obra, inclusive a própria saiu de uma, o que lhe outorga muito mais mérito do que outros que tiveram todas as condições favoráveis. Há quem prefira “comunidade”, já que a maioria não gosta de carregar, e com razão, o pejorativo, discriminatório e deturpado título de “favelado”. Essa é uma resenha difícil, pois temo cair em estereótipos e na superficialidade de um assunto tão delicado e complexo. Desde já desculpo- me, se isto acontecer.

A invisibilidade. Há poucas vozes negras femininas na literatura brasileira que publiquem, estejam em manuais de literatura brasileira, didáticos ou gramáticas (eu comprovei nos mais renomados). Falta destaque nacional e internacional. Não é que não existam, elas estão produzindo, só que há pouco interesse e consideração pelo cânon brasileiro branco, machista e racista. É o preconceito, claro que é. Mulheres não são levadas a sério. Negras, então… poucas conseguem passar pelo funil, são heroínas na verdade, Conceição é uma delas. Veja aqui a sua bio- bibliografia.

A autora será homenageada pelo Jabuti este ano:

Instagram da autora: @conceicaoevaristooficial

Conceição Evaristo (Belo Horizonte, 29/11/1946), criada numa favela, é dona de uma literatura fina. Prosa poética nesta obra, as histórias dos personagens começam e vão encerrando-se em si mesmas, como um labirinto impossível de encontrar a saída. Há muitos personagens, todos da favela, que vão desfilando em uma sucessão de dores constante. A favela é composta, principalmente, de descendentes de escravos. Sim, sua literatura é fina e completamente verossímil.

Sinto o presente e o futuro do Brasil como um murro no estômago: um logo “38” feito com balas de revólver pelo partido do presidente?! Eu sou uma mulher do mundo das palavras, mas para isto me falta uma adequada, tal a estupefação.

As vítimas reais dessas balas 38 moram neste livro de Conceição, gente trabalhadora, que vive com dificuldades de todos os tipos, lembradas só em época de eleição, um clássico. Nesta obra, os sujeitos apareceram prometendo que aplicariam a lei do usucapião, para logo desaparecerem e entrarem os tratores derrubando os barracos e expulsando a população mais que vulnerável.

As classes A e B são as promotoras da exclusão, do racismo, do preconceito, da falta de humanidade e do dinheiro. A origem da violência brasileira é a desigualdade social e isso não se combate com bala; se combate com escola, emprego/direitos/salários dignos, respeito, justiça e igualdade de oportunidades. Humanidade e decência também. Ética e princípios, idem. Quanto mais desigualdade, mais violência. É muito simples: quem promove a desigualdade vive com medo de andar na rua, vive com medo da “obra” que criou com muita persistência e afinco, geração pós geração.

Há gente na favela ressentida e com razão de sobra. Difícil viver pensando nos ancestrais escravizados, sofrer as consequências disso, passar necessidades básicas, fome, sem nunca haver sofrido uma reparação e a pouca ajuda social é vista como muita por gente privilegiada. Se você tem emprego, casa, todas as refeições, água encanada, roupa, sapato e escola, você é um privilegiado. O povo da favela excluído das leis da ONU, que o Brasil faz parte, mas não cumpre, diz que todo cidadão deve ter direito à uma moradia digna.

Há sujeitos como o “Bondade”, que compartilha o pouco que tem, ajuda os necessitados, mas ninguém sabe ao certo quem é ele e todo mundo respeita o seu segredo:

Bondade conhecia todas as misérias e grandezas da favela. Ele sabia que há pobres que são capazes de dividir, de dar o pouco que têm e que há pobres mais egoístas em suas misérias do que os ricos na fartura deles. Ele conhecia cada barraco, cada habitante. Com jeito, ele acabava entrando no coração de todos. E, quando se dava fé, já se tinha contado tudo ao Bondade. Era impressionante como, sem perguntar nada, ele acabava participando do segredo de todos. Era um homem pequeno, quase miúdo, não ocupava muito espaço. Daí, talvez, a sua capacidade de estar em todos os lugares. Bondade ganhou o apelido que merecia.

Bondade era contador de histórias boas e ruins. Contou uma de uma menina que sonhava em:

“armazenar chocolates e maças. Ter patins para dar passos largos… A mãe da menina sonha leite, pão, dinheiro. Sonha remédios para o filho doente, emprego para o marido revoltado e bêbado. Sonha um futuro menos pobre para a menina (…).

E você, com que sonha? A menina sonhadora foi vendida, por necessidade, pela própria mãe.

Tio Totó mantinha um sorriso no rosto, apesar de muitas dores, era movido pelo sonho:

Sonho que é uma vontade grande de o melhor acontecer. Sonho que é a gente não acreditar no que vê e inventar para os olhos o que a gente não vê. Eu já tive sonho que podia e não podia ter. Eu tive sonho que dava para minha vida inteira, para todo o meu viver.

No entanto, cansado, ele deixou de sonhar:

Mas, um dia, todos começaram a perceber que Tio Totó estava envelhecendo. Não pelos cabelos brancos, porque havia muito que ele já os tinha. Não porque andasse meio trôpego nem porque já trouxesse a voz meio rouca. Não eram essas as marcas da velhice de Tio Totó. Ele envelhecia porque estava perdendo as esperanças. Envelhecia porque nem vontade de recomeçar de novo tinha. Envelhecia ao fazer um balanço de toda a sua vida e só ver a morte como única saída.

A favela é também um espaço democrático e acolhedor, ao contrário do que muita gente pensa. Há muita diversidade na exclusão e muita solidariedade também. O passado das pessoas não importa, quem chega sempre recebe um prato de comida e um canto para dormir.

Na favela, a maioria tem ascendência escrava. As histórias ancestrais eram repassadas por gente como tio Tatão. Como a de Pedro da Zica, que foi assassinado por Zé Meleca por questões de terra, era capanga do Coronel Jovelino, negro como ele. A traição de um dos nossos sempre dói mais.

Maria- Nova sente que ainda mora na senzala. A senzala é a favela e o bairro nobre ao lado, a casa- grande. No ginásio, na turma de quarenta e cinco alunos, só ela e uma outra negra.

Negro Alírio lutou contra o desfavelamento, sem êxito. As construtoras davam tijolos e tábuas para que saíssem do beco. Quem não aceitasse ficaria sem nada mesmo. A construtora botava tudo e a todos em cima de um caminhão e os retirava de lá, como se fossem entulho.

Uma das que subiu no caminhão foi Custódia que havia parido seu bebê de quase sete meses há uns dias. Ela estava sangrando, pensava que iria desmaiar. O marido alcoólatra, Tonho, chegou bêbado, ela foi carregar, apanhou do homem e da sogra Dona Santina, uma que só andava com a Bíblia na mão, e acabou parindo antes da hora uma menina que nasceu morta. Ela e a sogra enterraram a filha, enquanto o marido roncava.

Agora a estavam expulsando da favela. Para onde ir? Para outra favela ou assumir a condição de mendigo e dormir na rua.

Esta obra mostra o Brasil que tentam esconder debaixo do tapete. “Um país tão rico” e tão cruel com os desfavorecidos, sendo que foi a própria história e estrutura do país que os gerou. Culpar as próprias vítimas do processo é coisa rotineira. Os que levantam a bandeira da meritocracia poderiam viver um tempo numa comunidade, com o mesmo dinheiro e condições que eles. A dor do outro só incomoda quando passa a ser a própria. Quem é mais violento?

Ditinha olhava as joias da patroa Laura e seus olhos reluzem. Ditinha faz a faxina na casa da loira alta e bonita. Ficava perto da mansão da dona Laura o barraco de Ditinha. Ela mora em dois cômodos, seis pessoas, incluído o pai paralítico. Esse é o Brasil, é sim. A ficção imita a vida. Uma terra com esse abismo social não pode ser feliz. Nenhum lugar próspero e civilizado tem esse apartheid tão gritante. E não há nenhuma vontade da classe A e B, onde concentra- se toda a riqueza do país, que isso acabe. Óbvio: para isto, eles teriam que ser menos ricos. Preferem continuar com seus carros e casas blindadas e continuar fabricando e explorando miseráveis. A culpa é de vocês! Culpa da falta de educação, princípios, humanidade e senso de justiça. Um país tão religioso e que não aprendeu nada. Religião é só para tentar ocultar os podres que são por dentro.

Teoricamente, esta é uma obra de ficção, mas poderia ser uma crônica da vida diária de boa parte da população brasileira, infelizmente. A morte de Maria Gazogênia, tuberculosa, me fez chorar. Seus últimos pensamentos sobre a morte e a vida, me apertaram o coração.

Um dia, quando a roda girar e houver uma limpeza geracional da naftalina e do ranço, escritoras como Conceição Evaristo serão aclamadas e votadas por unanimidade para uma cadeira na ABL, por exemplo. Haverá uma grande editora capitaneada por uma negra e uma grande rede de livrarias também. A supremacia branca vai perder a força. Eu tenho fé no tempo. Eu tenho fé que o melhor do Brasil possa ser para todos.

O Brasil vive uma estagnação da economia desigual e instável. A pouca recuperação que ocorre beneficia mais os mais ricos. Quanto mais rico, mais rápida a recuperação”, afirma o pesquisador Marcelo Medeiros, professor visitante na Universidade de Princeton, e que desde 2001 se dedica a pesquisar como o comportamento do 1% mais rico influencia a desigualdade de renda no país.

Quem consegue dormir tranquilo sabendo que há 13,9 milhões de pessoas no país em situação de pobreza extrema?! Há brasileiros que ganham 89 reais por mês, valor “apto” para participar do Bolsa Família. O índice do Banco Mundial que considera alguém extremamente pobre é de 145 reais, maior. E o atual governo vem enxugando as ajudas sociais, talvez seja um plano macabro de extinção dessa população e matá- los de fome. Eu sinto muita, muita vergonha. E sinto repúdio por quem pensa que o Bolsa Família é demais. Os valores vão de 89 a 372 reais. Uma “fortuna” para a classe privilegiada, um “absurdo”, “recebem essa ajuda e ninguém mais quer trabalhar”. Vocês gastam mais que isso num café da manhã! Quem sabe uma boa cura seria dormir uma semana numa favela. Já foi comprovado, e eu não tenho nenhuma dúvida, que a ajuda é provisória. Ninguém está nesta situação por gosto ou preguiça.

“Você tem 6 milhões de pessoas que passaram a viver em famílias onde ninguém ganha nada. E é mais ou menos o mesmo número de pessoas que entraram na pobreza, o que significa que não foram criadas novas redes de proteção social”, afirma o pesquisador Marcelo Neri, diretor da FGV Social e autor do estudo A Escalada da Desigualdade.

Não é difícil, é simples. Outros países já conseguiram. Basta ser gente, ser honesto, ser humano. Vista a pele do outro. Você aguentaria viver como eles?

Uma noite chuvosa na favela. Vários dias de chuva, tudo vai mofando. A roupa não seca. As roupas das patroas nao secam. Não há dinheiro. O que faz uma lavadeira sem sol? E quando são meses de água? E quando o desfavelamento corta as torneiras públicas? De brisa ninguém vive, barriga não se enche com vento.

Negro Alírio, o “das mil lutas”:

“Para ele, a leitura havia concorrido para a compreensão do mundo. Ele acreditava que, quando um sujeito sabia ler o que estava escrito e o que nao estava, dava um passo muito importante para a libertação.”

Eu creio nisto, sempre falo: a leitura, a literatura, a Educação, salvam.

Com a palavra, Conceição Evaristo:

E para as Marias-Novas, que moram nas favelas e adoram ler: nunca percam a fé. Nunca acreditem- se ser menos que os outros. Vocês são a esperança, o futuro, e ele há de ser melhor.

(…) A sua vida, menina, não pode ser só sua. Muitos vão se realizar por meio de você. Os gemidos sempre estarão presentes. É preciso ter os ouvidos, os olhos e o coração abertos.

O livro digital lido sem paginação, por isto não coloquei os números das páginas nas citações.

Maria- Nova olhou novamente a professora e a turma. Era uma História muito grande! Uma história viva que nascia das pessoas, do hoje, doa gora. Era diferente de ler aquele texto. Assentou- se , pela primeira vez, veio- lhe o pensamento: quem escreveria esta história um dia? Quem passaria para o papel o que estava escrito, cravado e gravado no seu corpo, na sua alma, na sua mente.

Esta obra dá visibilidade a brasileiros que são só frias estatísticas. Eles têm nome, sobrenome e história, embora ficção, ela conta a vida de muitos. A história acontece em um processo de desfavelamento. As pessoas vão morrendo em vida, vão morrendo mesmo, é uma história muito triste. Triste e necessária, atualíssima. “Becos da memória” foi escrita nos anos 80 e só publicada em 2006 (veja quanto tempo demorou para ser publicada!), mas continua sendo escrita num país tão rico de recursos e tão pobre de honestidade e decência- e eu não falo só de políticos. A distância me deixou muito mais evidente, que o povo brasileiro normalizou a indecência. Um favor aqui, outro ali, amigos nunca pegam fila em nenhum lugar… sonegamos um impostinho… vendemos mercadoria de baixa qualidade a preço de ouro, pagamos uma miséria para a “secretária do lar”, que faz tudo em casa e dos filhos, e achamos ainda que é um favor, e assim vai, as várias transgressões diárias e “normais”. Não, não estou orgulhosa e nem feliz com meu país… não enquanto 13,9 (um pouco mais que nessa reportagem) milhões estiverem vivendo em condições de extrema- pobreza.

Curioso que várias pessoas já me disseram que “eu não sei de nada”, em sua máxima ignorância e estupidez, porque moro longe. Ao contrário. Um grande quadro necessita distância para bem ser visto. Assim sou eu e a minha relação com o Brasil. Da distância, melhor vejo. No Brasil falta é espelho, auto-crítica honesta e sem preconceitos.

Feliz Natal, né? Jesus deve estar “bem” contente. Até quando, Brasil?! E nem têm vergonha…

Bandido Social e a neofavela: descolonização e criminalidade em “Cidade de Deus”, por Ísis Moraes

Você sabe o porquê do Brasil ser tão violento? O colonizador saiu do Brasil, mas a mentalidade da colônia permanece. Leia o irretocável e esclarecedor texto de Ísis Moraes:


 

Bandido Social e a neofavela: descolonização e criminalidade em Cidade de Deus

As margens da sociedade sempre reservaram aos seus inquilinos uma ampla galeria de privações. Da miséria mais sofrível à mais abjeta ausência de cidadania, despossuídos de toda sorte viram-se, no largo curso da História da humanidade, animalizar e coisificar em favor das elites. Subjugados por um poder que esteve quase sempre além de uma compreensão por vezes tolhida pela fome, pela jornada exaustiva de trabalho, pela inacessibilidade ao sistema educacional, pela dor física e moral, pelo medo e outras formas de coerção, esses condenados à marginalidade viveram quase sempre em função de um único mediador: a violência. Da mais cordial à mais dolosa, é a voz dela que os embala desde o berço até as valas onde depositam seus corpos anônimos e espoliados.

Não é de se estranhar, então, que a linguagem que lhes soa mais familiar seja aquela que ajusta a palavra “defesa” à lâmina afiada que se insurge contra a garganta do opressor. Assim, se por um lado é a voz da violência que os conduz ferozmente à servidão silenciosa, é a sua força que os liberta e os põe de novo frente a frente com a humanidade perdida. Como assinala Jean-Paul Sartre, no prefácio do livro Os Condenados da Terra, de Frantz Fanon, “na falta de outras armas, a perseverança da faca será suficiente” para resgatar aquilo que nunca deveria ter sido usurpado:

Encontramos a nossa humanidade do lado de cá da morte e do desespero, ele a encontra do lado de lá dos suplícios e da morte. Fomos os semeadores de ventos; ele é a tempestade. Filho da violência, extrai dela a cada instante a sua humanidade; fomos homens à custa dele; ele se faz homem à nossa custa. Um outro homem, de melhor qualidade. (SARTRE, Jean-Paul. In: FANON, 1979, p.16)

Na visão de Sartre, o temor que os explorados experimentam diante dos inesgotáveis meios de repressão do dominador surge como o responsável direto pelo furor que os inspira a reclamar o que lhes é de direito. Encurralados entre as armas que apontam contra eles e os “desejos de carnificina” que lhes tomam, acabam por explodir veementemente contra o seu antagonista, devolvendo-lhe a sua própria crueldade, que se avoluma e os dilacera. A imagem que se vê, então, assemelha-se a de mendigos “lutando, em sua miséria, contra ricos poderosamente armados”, na tentativa desesperada de fazer a violência “cicatrizar as feridas que ela mesma fez”.

No vermelho do sangue opressor que se derrama – produto de duas violências que se chocam e se equiparam – nasce a consciência de que os pobres nem sempre precisam ser “desamparados” e “dóceis”. É através da arma que muitos descobrem que também podem ser terríveis. E que a “liberdade”, forjada a quente no seio do embate, é um privilégio que também lhes cabe. A partir disso, o dominador jamais deixa de ser o oponente. Mais que isso. Frantz Fanon o coloca na alça de mira da “coisa colonizada, oprimida, espoliada”: será sempre “o homem a abater”. Isto porque o explorado é um perseguido que acalenta constantemente o sonho de comandar a caçada. E não se trata de competir com o inimigo: quer o lugar dele. As disparidades entre os dois universos não permitem, em hipótese alguma, a coexistência. Em sendo assim, não hesitará um segundo em matá-lo, sobretudo porque desde muito cedo percebe claramente que o mundo estreito e semeado de interdições que o aflige não pode ser reformulado senão pela violência absoluta, afinal, como constata Fanon, “o colonialismo só larga a presa ao sentir a faca na goela”. É, pois, uma violência em estado bruto, que só se curva frente a uma violência ainda maior. Trata-se de tomar tudo aquilo que sempre foi negado pelo poder:

A cidade do colono é uma cidade sólida, (…) iluminada, asfaltada, onde os caixotes de lixo regurgitam de sobras desconhecidas, jamais vistas, nem mesmo sondadas. A cidade do colono é uma cidade saciada, indolente, cujo ventre está permanentemente repleto de boas coisas. (…) é uma cidade de brancos, de estrangeiros./ A cidade do colonizado (…) é um lugar mal afamado, povoado de homens mal afamados. (…) é uma cidade faminta, faminta de pão, de carne, de sapatos, de carvão, de luz. A cidade do colonizado é uma cidade acocorada, uma cidade ajoelhada, uma cidade acuada. (…) O olhar que o colonizado lança para a cidade do colono é um olhar de luxúria, um olhar de inveja. Sonhos de posse. Todas as modalidades de posse: sentar-se à mesa do colono, com a mulher deste, se possível. O colonizado é um invejoso. O colono sabe disto; surpreendendo-lhes o olhar, constata amargamente, mas sempre alerta: ‘Eles querem o nosso lugar’. É verdade, não há um colonizado que não sonhe pelo menos uma vez por dia em se instalar no lugar do colono. (FANON, 1979. pp. 28-29)

Mas só há um meio de se conseguir isso: assumir a identidade forjada pelo opressor. Esse título, porém, trará sempre consigo a marca da ambigüidade. Isto porque se por um lado o bandido é visto como nada mais que um criminoso comum pelos olhos da lei que protege os ricos, por outro será encarado como o herói de uma gente pobre e humilhada, que vê na sua insubordinação o seu próprio triunfo. Inimigo do senhor e do Estado, o bandoleiro torna-se, pois, o campeão e o vingador dos desprovidos. E uma vez figurando no imaginário coletivo popular como símbolo de protesto e rebelião social, este líder da “libertação” será amplamente admirado, ajudado e sustentado por sua gente, sobretudo porque a sua revolta – salvo nos casos de delação – não costuma atingir seus iguais, apenas os que se encontram do lado oposto da miséria:

O indivíduo que sucumbe numa peleja depois de ter abatido quatro ou cinco policiais, o que se suicida para não denunciar seus cúmplices, constituem para o povo guias, esquemas de ações, ‘heróis’. E é inútil, evidentemente, dizer que tal herói é um ladrão, um crápula ou um depravado. Se o ato pelo qual este homem é perseguido pelas autoridades colonialistas é (…) dirigido exclusivamente contra uma pessoa ou um bem colonial, (…) O processo de identificação é imediato. (FANON, 1979, p. 53)

Legítimos representantes de um mundo em dissolução, os bandidos sociais não são apenas homens fisicamente aptos que, a passar fome, preferem tomar pelas armas aquilo de que necessitam. Surgem como sintomas de uma grave crise, imbuídos da missão de desagravar as injustiças. Sonhando com um mundo de liberdade, igualdade e fraternidade, onde a submissão não mais seja imposta como norma da vida humana – o que dificilmente sairá do plano da idealização –, quase sempre ajudam a gente humilde que os acolhe e admira. Roubando dos ricos para dar aos pobres, muitos bandidos acabam por encarnar o mito do Robin Hood, o ladrão nobre. Mas, de acordo com Eric Hobsbawm, em sendo a realidade como é, poucos deles possuirão a abnegação, o idealismo ou a consciência social para exercer esse papel. Assim, tirar dos ricos é uma certeza; dar aos pobres, nem sempre. De toda sorte, representam o produto da contrapartida da passividade geral dos necessitados e, portanto, afirmam-se como seus “legítimos” defensores.

Fenômeno universal, nascido das entranhas de todas as épocas de pauperismo e cerceamento, o banditismo social não encontrou, no entanto, seu lugar na contemporaneidade. É, pois, no dizer de Eric Hobsbawm, um fenômeno do passado: “O mundo moderno o matou, substituindo-o por suas próprias formas de rebelião e de crime” (HOBSBAWM, 1975, p. 18), diz ele, como que a reiterar que, num tempo regido pela voracidade de um capitalismo que nega em absoluto toda uma legião de miseráveis, colocando-a sob suspeição e vigilância constantes e empurrando-a cada vez mais contra as suas margens, até o sufocamento completo, não há mais espaço para delito algum que conserve o menor resíduo de nobreza.

No encalacrado mundo das grandes metrópoles, despossuídos, subnutridos, e também negros e mestiços, são as vítimas preferenciais de uma violenta política de saneamento social que visa unicamente a sobrevivência da dita sociedade “sã”: endinheirada, poderosa e branca. Os que não se encaixam neste perfil devem permanecer isolados, acuados nos becos das neofavelas, que nada mais são do que depósitos de gente, uma gente enquadrada pelo sistema como portadora de uma “identidade social maléfica” (ZALUAR, 1987). Para esses suspeitos em potencial, cruzar a fronteira que leva à “cidade ideal” significa quase sempre ser eliminado: ou será preso, ou será morto.

Essa nova forma de “colonização” acende o estopim de uma violência ainda mais apta a passar por cima de todas as barreiras interiores. Mais uma vez é ela a mediadora do conflito. E é exatamente sobre esse novo estágio de rebelião – e por que não dizer descolonização? – que a narrativa de Paulo Lins se debruça. Intitulado Cidade de Deus, o romance desnuda os conflitos existentes no tecido social do país e aponta uma arma para a cara da sociedade brasileira. Encurralada, esta já não tem outra alternativa senão enfrentar os fantasmas que ela mesma criou. Afinal, o tempo da indiferença foi “passado” e o crime nos diz, altissonante, que não há mais conciliação possível. Decretando a morte do malandro, o livro indica que o que nos identifica hoje é tão somente uma rasura e esclarece que a explosão da violência não mais nos permite pensar o país pelos moldes da “cordialidade” e da “harmonia”. O tempo presente refuta idealizações desta ordem, insurgindo-se veementemente contra a pseudotranqüilidade de uma identidade nacional forjada ao longo da história.

Nascido da truculência colonialista, o Brasil revelado por Paulo Lins parece não mais aceitar refletir imagens distorcidas pela conveniência. O seu retrato de agora é nítido e estampa sorrisos caídos de bocas sem dentes, que tramam a morte nos conchavos de becos. Nesse sentido, Cidade de Deus ilumina os labirintos de um conjunto habitacional do Rio de Janeiro criado parra “conter” não seres humanos dotados, cada um deles, de identidades individuais, mas uma massa de miseráveis forjada pelo Estado e homogeneamente marcada pelo signo da “delinqüência”. O que se vê, então, e de dentro, é um “retrato hediondo” de um Brasil que, acossado pela pobreza, pela discriminação e pela indigência, mata, assalta, estupra, trafica e se vê obrigado a fugir constantemente de uma polícia igualmente violenta e quase sempre corrupta. Mais do que nunca, viver, em Cidade de Deus, é não morrer, mesmo para aqueles que não abraçam a carreira do crime. Sim, sempre haverá os “otários”, que trabalham honestamente mesmo sabendo que jamais irão a lugar algum com a “merreca” que lhes pagam. Já os “bichos-soltos” optarão sempre por cobrar na bala o que julgam que a sociedade lhes deve:

Lembrou-se (…) daquela safadeza do incêndio, quando aqueles homens chegaram com saco de estopa ensopado de querosene botando fogo nos barracos (…). Fora nesse dia que sua vovó rezadeira, a velha Benedita, morrera queimada. (…) ‘Se eu não fosse molequinho ainda’, pensava Inferninho, ‘eu tirava ela lá de dentro a tempo e, quem sabe, ela tava aqui comigo hoje, quem sabe eu era otário de marmita e o caralho, mas ela não tá, morou? Tô aí pra matar e pra morrer.’ Um dia após o incêndio, Inferninho foi levado para a casa da patroa de sua tia. (…) Ficava entre o tanque e a pia o tempo todo e foi dali que viu, pela porta entreaberta, o homem do televisor dizer que o incêndio fora acidental. Sentiu vontade de matar toda aquela gente branca, que tinha telefone, carro, geladeira, comia boa comida, não morava em barraco sem água e sem privada. (…) Pensou em levar tudo da brancalhada, até o televisor mentiroso e o liquidificador colorido. (CD, p.23)

Como se pode notar, o “favelado” também lança sobre a cidade dos ricos aquele mesmo olhar invejoso que deseja arrancar dela tudo o que ele nunca teve, e sobre os seus donos aquele mesmo ódio que ambiciona exterminá-lo. Se o bandido social não mais existe nas modernas sociedades, os resquícios de seu levante ainda permeiam o cotidiano daqueles que se revoltam frente às injustiças. A sua carabina pode ter mudado de mãos, mas o alvo ainda é o mesmo. Desse modo, a bala freqüentemente vem a substituir a palavra que o “bicho-solto” é obrigado a engolir a seco: Falha a fala. Fala a bala. (CD, p. 21)

Mas o caminho trilhado por essa neodescolonização é ainda mais sangrento, sobretudo porque tem de lidar com um esquema muito bem montado de alienação, que, por vezes, desvia o foco da violência do explorado, fazendo-a recair sobre ele próprio. Trata-se de um jogo, que leva o oprimido a incidir numa sangrenta guerra contra os seus. Retomando Fanon, exposto a tentativas diárias de morte, à fome, à expulsão do quarto não pago, à falta de oportunidade de trabalho digno, à bala perdida que cruza os becos em busca de um corpo, o espoliado chega a ver seu semelhante como um inimigo implacável. E nessas circunstâncias o assassinato é só mais um passo. O próximo, talvez. Além disso, no mundo do crime urbano, diferentemente do que ocorre no universo rural do banditismo social, proteger os inocentes já não é mais um requisito moral. Se os “bichos-soltos” o fazem, é puramente por interesse. E num ambiente em que “é mais seguro atirar primeiro e fazer perguntas depois”, este costuma ser altamente volúvel. Por isso, entre a arma e a sina que ela terá de cumprir, o inocente é quase sempre um obstáculo a ser derrubado em favor da demanda individual.

Em Cidade de Deus, Paulo Lins evidencia o horror de um campo de batalha onde não apenas traficantes se entrematam e espalham o terror entre os seus irmãos “favelados”, transformando-os em vítimas e cúmplices do seu ódio, mas onde homens simples também se revelam capazes de assassinar cruelmente, e por motivos muitas vezes tomados como banais. Contudo, alerta Sartre, que ninguém se iluda: “não se creia que um sangue demasiado ardente ou desventuras da infância lhe tenham dado para a violência não sei que gosto singular: ele se faz o intérprete da situação, nada mais”. E não se trata de defender o crime, mas apenas de não submetê-lo às leis sumárias da conivente justiça das elites. É preciso entender que, em um contexto miserável, ser bandido quase nunca é uma opção. É, antes, uma estratégia de sobrevivência. Por isso, em Cidade de Deus, não há “bandidos” nem “heróis”, há homens, mulheres e crianças lutando para resgatar a humanidade usurpada.

De qualquer modo, é este cenário caótico, movimentado pela antiética do lucro que rege as sociedades capitalistas, que vai minando vorazmente os poucos resíduos do banditismo nobre. Se num primeiro momento Inferninho reparte o butim igualitariamente entre o bando, posteriormente Zé Miúdo não hesitará em matar um comparsa para ficar com a sua parte do roubo. Se em dado momento um “bicho-solto” pede aos seus comandados para só matar para não morrer, mais adiante assassinato será a palavra de ordem para ganhar prestígio. Se um marginal-malandro como Pardalzinho pede pela vida de inocentes e pela não violação das mulheres em certa fase do romance, depois da sua morte Zé Miúdo não pensará duas vezes em matar o avô e estuprar a noiva de Zé Bonito, um “otário” que, frente à injustiça cometida, abraçará a carreira do crime ressuscitando e encarnando, embora não por muito tempo, um dos tipos mais significativos que se inserem na linhagem dos bandidos sociais: o vingador.

Para se transformar no pesadelo de um dos mais cruéis criminosos de Cidade de Deus, Zé Bonito – até então trabalhador honesto, homem pacato, de boa família e conduta – se alia a Sandro Cenoura, traficante da região que disputa com Miúdo a liderança das bocas-de-fumo. Revoltado, irá firmar seu direito de ser respeitado pela luta declarada e se insurgirá para constituir a exceção numa comunidade em que os senhores do tráfico substituem o Estado.

Bonito manuseou a pistola 45 com a agilidade que adquirira no tempo em que servira na brigada de pára-quedistas do exército. (…)/ O volume da arma alertou os amigos:/ – Vai aonde?/ – Vou matar aquele desgraçado!/ – Meu irmão, tu não pode ir lá sozinho não, rapá! O cara é matador! Esquece isso! (…) Tu é um cara pintoso, tem tudo pra se dar bem, não entra numa de bandidagem, não…/ Bonito não dava ouvidos. Percorreu toda a rua do Meio, (…) entrou por duas vielas a passos largos, na terceira diminuiu as passadas, tirou a arma da cintura, engatilhou-a e entrou na viela (…) onde Miúdo costumava ficar. Avistou seu inimigo e mais três quadrilheiros, apontou a arma e atirou seguidamente./ Miúdo riu fino, estridente e rápido e devolveu os tiros (…), os outros dois também atiraram e acompanharam o estuprador, o terceiro tentou trocar tiros com o vingador e foi atingido fatalmente na testa./ Bonito aproximou-se do cadáver (…) colocou o pé esquerdo em cima da cabeça, o direito em cima da barriga e gritou:/ – Esse é o primeiro! Quem quiser seguir esse desgraçado vai ter o mesmo fim desse aqui! (CD, pp. 313-315)

Como todo bandido social, o destemido rival do traficante Zé Miúdo (que também não deve ser condenado nem olhado de esguelha pelo leitor, já que é tão “vítima” da situação quanto seu adversário) ganha o apoio inequívoco de sua comunidade: ferido em combate, será acolhido, tratado e amparado pelo povo do lugar, que o respeita e reverencia não só pela bravura, mas também por se configurar como um restaurador da moralidade que o tráfico apagou. Contudo, esse mesmo justiceiro não demorará a perceber que “Onde os homens se tornam bandidos, a crueldade gera crueldade, o sangue exige sangue”. (HOBSBAWM, 1975, p. 56)

Isto porque, ao pôr em curso o programa de sua “descolonização”, Zé Bonito desencadeou uma verdadeira guerra em Cidade de Deus. Só não imaginava que o desagravo de sua injustiça solaparia os últimos sinais de um banditismo que inicialmente mostrara-se nobre, mas que logo se perderia nas trincheiras do crime. Por várias vezes, Bonito tentará honrar seus princípios, que em vários aspectos se igualam aos que regem a carreira do vingador nobre. Nunca matar, a não ser em legítima defesa ou por vingança justa, será o principal deles. E também o primeiro a tropeçar nas valas abertas pelo tráfico.

A partir daí, o Zé Bonito que, num primeiro instante, estranha as gírias dos marginais, que não usa drogas, que se recusa a concordar com a arregimentação de crianças para o tráfico por acreditar que o lugar delas é na escola, que proíbe a violação de mulheres e que não se esconde da polícia por não se achar um delinqüente se verá obrigado a liberar os estupros e assaltos na área do inimigo e a permitir que crianças tenham seus crânios estourados pelos fuzis dos traficantes que se arriscam a enfrentar. E como se isso não bastasse, consumirá desesperadamente a cocaína que tanto renegou. Entretanto, este bandido social pós-moderno, assim como seus “antepassados”, jamais deixará de lamentar o destino que o levou a compactuar com a instauração daquela “febre de morte” entre os homens.

Sentado num banco, as lágrimas se destroçavam no chão de cimento cru. (…) Era um bandido, um matador, um formador de quadrilha, um desencaminhador de menores. E não fora para isso que aprendera a orar quando criança, não fora para isso que sempre tinha sido o melhor aluno na escola, não fora para isso que se resguardara das amizades de rua. O curso superior em educação física havia ido para a casa do caralho, assim como a lua-de-mel com sua amada, depois de testemunhar o pênis de Miúdo na vagina dela feito retroescavadeira, o corpo do avô ensangüentado, a casa cheia de buracos de balas, a mãe de Filé com Fritas recolhendo os pedaços da cabeça destroçada do filho no asfalto quente. As lágrimas avolumaram-se. (…) A noite foi em claro. (CD, pp. 346-347)

Na reflexão de Bonito, a constatação de que um bandido, mesmo determinado a não dobrar a cerviz, não consegue fugir tão facilmente à lógica da vida numa sociedade minada pela exploração se desnuda violentamente. Depois disso, tendo cumprido, ainda que atropelado pelos percalços do crime, quase toda a sina do vingador clássico, só lhe restava o único fim destinado aos emissários do banditismo social: a morte por traição; já que, a exemplo do que afirma Hobsbawm, nenhum membro decente da comunidade auxiliaria as autoridades – sejam as do tráfico, sejam as do Estado – contra bandoleiros de sua estirpe.

O viciado olhou para trás, para os lados; não vendo ninguém, disparou três vezes nas costas de Bonito, que ainda se virou, apontou o revolver na tentativa de matá-lo. O viciado deu-lhe mais um tiro. Zé Bonito caiu. (CD, p. 375)

Mas a morte de Zé Bonito não legará aos moradores de Cidade de Deus um exemplo de coragem e honra a ser seguido. O tempo do banditismo social que inspira a admiração das massas passou. As páginas nada conciliatórias do romance de Paulo Lins não farão sucessores para este vingador. Elas vieram pelo crime. Para dizer que do ventre dele só nascem “anjos”, aqueles que cada vez mais cedo virão para cobrar da sociedade sua impagável conta.

** Este artigo está publicado em: BOTELHO, Marcos (org). Seis Passeios por Cidade de Deus. Feira de Santana: UEFS, 2007.


Ísis Moraes Ramos é jornalista e editora do Jornal Tribuna Feirense. isis.m.ramos@bol.com.br