Resenha: “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury

451° Fahrenheit: a temperatura que o papel dos livros se inflama e queima. (epígrafe)

 


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O americano Ray Bradbury (1920- 2012) foi romancista, contista, ensaísta, dramaturgo e roteirista, publicou “Fahrenheit 451” em 1953, livro considerado a sua obra- prima. Ray casou- se em 1947 com “Maggie” (Marguerite, falecida em 2003), o casal morava em Los Angeles com muitos gatos, quatro filhos e oito netos.

“Fahrenheit 451”, junto com “1984”, de George Orwell e “Um mundo feliz”, de Aldous Huxley,  foram as obras que popularizaram o termo “distopia”, que é contrário à utopia.  Um romance “distópico” acontece em um universo, país, mundo imaginário criado de uma forma que ninguém deseja, são horrendos, infelizes, tenebrosos. A maioria da obra de Bradbury encaixa- se no gênero ficção científica.

Enredo, personagens, estrutura e impressões sobre Fahrenheit 451

Não podemos perder de vista que esse livro foi publicado em 1953. Tudo o que o autor imaginou realmente foi incrível, um visionário, tudo verossímil.

A obra é dividida em três capítulos (a edição lida foi espanhola, com minha livre tradução ao português, então, algum termo pode estar diferente das edições brasileiras ou portuguesas). São eles:  1º- A chaminé e a salamandra; 2º- A peneira e a areia e o 3º- Fogo vivo.

O personagem principal é Guy Montag. O trabalho dele lhe provoca um grande prazer: destruir a história e o pensamento de gerações, queimar livros. Ele trabalha em um corpo de bombeiros muito estranho, contrário ao que conhecemos, o dos nossos heróis que enfrentam as chamas para salvar pessoas, animais, bens e natureza, mas isso na terra de Montag é lenda urbana. O personagem usa uniforme com uma salamandra na manga, o número 451 bordado (a temperatura em fahrenheit que o papel incendeia- se) e uma fênix no peito. Ele tem trinta anos, casado com Mildred e trabalha há dez no quartel. Os bombeiros são temidos pela população.

Logo na primeira página, o autor revela a função do personagem provocando nessa leitora a intriga, os questionamentos: “Por que ele queima livros, qual o objetivo?”, “Que lugar é esse?”, “Como seria um mundo sem livros? “Como se armazena, então, o conhecimento humano?”.

A estrutura social no mundo de Montag é parecida com a nossa, só que no futuro. Não há seres estranhos, exceto robôs (agora também já existe, mas na época que foi escrito há 64 anos, imaginar o futuro era pura especulação, nem internet tinha), nem um mundo fantástico, é como se fosse a Terra, só que com tecnologias mais avançadas. No país dele tem metrô propulsado por ar, que o deixa em uma plataforma depois de uma rajada de vento e os carros são “retro propulsados”. A jornada de trabalho é tal como conhecemos. Cada dia um autor (livros) está destinado à fogueira.

A vizinha de Montag é Clarisse McClellan, vai completar dezessete anos e pergunta a Montag (p.20):

" - Você lê alguma vez os livros que queima? Ele começou a rir:
- Está proibido por lei!"

Clarisse é o contra- ponto, a sensatez, a alegria e a sensibilidade. Não se deixou contaminar pelo mundo triste que essa sociedade do futuro criou (muito parecida com a nossa, infelizmente). Ela observa que as pessoas voam nos seus carros e nunca reparam nas flores, na grama abaixo, na lua, no sereno. A adolescente pensa e isso incomoda o bombeiro, que começa a pensar também sobre a sua existência.

A narrativa é poética na descrição das paisagens, pessoas e silêncios da cidade, gosto muito da atmosfera de mistério, contada com cuidado, esmero, as palavras pensadas e justas. É um excelente livro. Confesso que eu tinha um certo preconceito em relação a esse gênero literário, mas a história convence. Caí completamente na história de Ray Bradbury.

No país de Montag, as crianças se matam entre si. Há professores virtuais nas escolas, são quatro horas assistindo um aparelho eletrônico. Falta calor humano, debates, não se pode perguntar nada, questionar, tudo já está pronto e imposto. As crianças, pelo menos os filhos da dona Bowles, ficam vinte e sete dias na escola, só os vê três dias ao mês, para ela “suportável”. Nasceram de cesárea, os partos normais praticamente não existem e a natalidade é baixa.

As pessoas que escondem bibliotecas em casa são levadas para um manicômio e suas casas são queimadas. Montag, por influencia de Clarisse, desperta a vontade de ler um livro. Ele nunca leu nenhum, só uma linha de um conto de fadas. Beatty é o capitão do quartel e está totalmente doutrinado, não questiona nada.

A lei é incendiar os livros com querosene e dizer que tudo  neles é mentira, inclusive os autores, que nunca existiram. Normalmente, a polícia evacua os donos das casas e os bombeiros queimam tudo quando estão vazias. Mas nem sempre é assim. Encontraram uma mulher. Ela recusou- se a sair da casa, e por dignidade, ela mesmo acendeu o fósforo que incendiaria tudo, inclusive a si mesma. O índice de suicídios nesse lugar é altíssimo. Muita gente prefere morrer que viver numa ditadura sem esperança. Nesse incêndio, Montag levou um livro consigo, o primeiro da sua vida. O olhar dessa mulher e esse livro mudam a história toda do bombeiro.

Montag quer saber como, quando e porquê começou a sua profissão. A partir daí (p. 66) nós vamos descobrindo com ele as razões de tudo. Em alguns momento a narrativa é vertiginosa, confusa, intensa, labiríntica, viajamos com Montag na busca de respostas.

Em 1953, Ray Bradbury descreveu o que está acontecendo atualmente conosco. Há um excesso de distração inútil, há coisas idiotizantes demais e os livros estão ficando cada vez mais curtos, com muitas imagens (lembra do estouro dos “livros” para colorir?) e esquecidos. As escolas adotam livros clássicos “adaptados” por serem mais “fáceis” de ler. Uma ministra do governo Dilma quis proibir Monteiro Lobato nas escolas. Resistiremos?

Na obra, (pequeno SPOILER!), a desaparição dos livros não foi culpa do governo, como muitos podem pensar. A última escola de Artes no país fechou há quarenta anos por falta de alunos. O professor Faber, que aparece no segundo capítulo, ensinou nessa escola.

A culpa dessa sociedade triste e absurda, foi da população, que preferiu ler títulos, resumos, frases feitas e deixou de pensar e criar, além de comportamentos inaceitáveis de intolerância ao outro. O homem foi ficando vazio, vazio, vazio…esvaziou- se tanto de tudo, que ficou isolado, só. E há outros motivos, a universidade é apontada como uma das grandes culpadas (p.71). Bradbury disse em uma de suas entrevistas, “que acredita nos livros, não nas universidades”.

A universidade destrói a criatividade e padroniza os alunos? Minha experiência pessoal: eu era muito mais criativa, escrevia muito mais, poemas, contos, crônicas, antes de entrar na universidade, tive até um livrinho de poesias. Depois dela…temo escrever, uma espécie de respeito exacerbado pela literatura. Acabou- se. É um fato, virei uma Bartleby (escritora que não escreve). Se aconteceu algo parecido contigo, deixa aí nos comentário.

Fragmento do trecho onde Beatty explica a sociedade deles, creio que é uma crítica extrema esquerda (p.71) e logo depois vem uma crítica à extrema direita:

(…) Não nascemos livres e iguais, como afirma a Constituição, senão que nos transformamos em iguais. Todo homem deve ser a imagem do outro. Então todos são felizes, porque não podem estabelecer diferenças nem comparações desfavoráveis. Um livro é uma arma carregada na casa ao lado. Queimá- lo. Tira o projétil da arma. Domina a mente do homem. Quem sabe qual poderia ser o objetivo de um homem culto?

Quando a população cresce, há muitas minorias, e nesse trecho, creio que é uma crítica aos extremistas. No final, os extremos, direita ou esquerda, não são a mesma coisa? A mesma crueldade imposta, violenta e excludente?

 – Deves aprender que nossa civilização é tão vasta que não podemos impedir que nossas minorias se alterem e rebelem (…)

– O povo de cor não  gosta de ‘O negrinho Sambo’. Queimemo- los. O povo branco sente- se incômodo com ‘A cabana do tio Tom’. Queimemo- los. (p. 72)

Na civilização de Montag tudo foi destruído para não ter divergências, já que essas ficaram incontroláveis. Ou seja, todos os extremistas são verdadeiros descerebrados intolerantes, tanto no passado, quanto no presente, no futuro, na ficção como na vida, porque cega e imbeciliza. São esses que impulsionam as guerras e conflitos, e conseguem conduzir bandos de cordeirinhos. Nada na vida pode ser preto ou branco. Há mil tons de cinza (e não falo daquele livro ruim). O mundo deveria ter espaço para todos, independente do que pensem, amem, pratiquem, acreditem ou desacreditem.  Isso não seria… a democracia?!

A intolerância, o pensamento totalitário, estão levando muita gente para a tumba de várias maneiras. Venezuela que o diga. E a Síria?! E o nosso Brasil dividido, uma gincana torpe, cada um puxando a corda do seu lado, e dessa forma, nunca haverá vencedores. O máximo que pode acontecer é que todos caiam. É necessário aparecer alguém que estabeleça a ordem e o consenso.

Na civilização de Montag, a vida humana também vale muito pouco, ninguém se comove mais. Morrer é banal. Nesse país, os carros esmagam coelhos e cachorros, isso também já não importa. E no nosso mundo, as pessoas param para socorrer animais que atropelam ou que foram atropelados?

Lembra que Montag escondeu um livro e o levou consigo para não ser queimado? A curiosidade é inerente ao humano; infringir as regras também (que não tem porquê ser negativo, quando essas são injustas). Ele e a esposa começaram a ler (segundo capítulo).

Ouve- se explosões de bombas constantemente. Essa civilização vive em guerra há muitos anos. Não há comoção com as mortes que acontecem nas guerras.

Estudar, investigar, criar é coisa clandestina, faz- se na escuridão dos porões.

(…) Quem sabe os livros possam nos tirar da nossa ignorância. Talvez pudéssemos impedir que cometêssemos os mesmos funestos erros (…) p.87

Um dos problemas da falta de prática leitora é que a interpretação de texto fica deficiente; portanto, quanto mais leitura, mais entendimento. Montag teve dificuldade para entender o  livro que salvou, teve que pedir ajuda ao professor Faber.

Na obra há bastante diálogos. Outros personagens: as senhoras Phelps e Bowles, amigas de Mildred (apelido Millie).

Montag e sua redenção, de carrasco a messias. “há tempo para tudo…uma época para destruir e outra para construir”.

Ray Bradbury é atualíssimo! E triste, porque há muita semelhança com a nossa realidade. Já não estamos vivendo em um mundo distópico?

Esse foi para a lista de favoritos. Já contei demais, agora é com você, LEIA!

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Bradbury, Ray. Fahrenheit 451. Debolsillo,  Penguin Randon House, Barcelona, 1993. Páginas: 185- Preço: 9,95€ na La Central (Callao, Madri).

Quer saber mais sobre Ray Bradbury? Baixe aqui gratuitamente o livro “O zen e a arte da escrita” e leia Os onze conselhos de Ray Bradbury para escritores novatos.

 

 

 

 

 

 

 

PDF grátis: “O Zen e a Arte da Escrita”, de Ray Bradbury

Esta semana será dedicada ao escritor americano Ray Bradbury.

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Ray Bradbury, autor de “Crônicas marcianas”.

Se você não leu o post de ontem: “Onze conselhos de Ray Bradbury para escritores novatos”, dá uma olhada, vale a pena!

E vocês, leitores fiéis do Falando em Literatura, merecem um presentinho: PDF totalmente gratuito do livro “O Zen e a Arte da Escrita”, que reúne onze ensaios de Bradbury, onde o autor fala sobre o prazer de escrever. Ele desfruta do seu ofício e explica como e porquê. Clique no link abaixo e salve o arquivo no seu computador:

O Zen e a Arte da Escrita – Ray Bradbury

Ah, dê uma olhada na lista de e-books já postados aqui no blog para ver se algum te interessa.

Enjoy!

 

Onze conselhos de Ray Bradbury para escritores novatos

Em 2001, Ray Bradbury participou de um simpósio de escritores na PLNU (Universidade de Point Loma Nazarene- San Diego, Califórnia), deixando onze conselhos para escritores novatos.

20ventura600Ray Bradbury, aos 88 anos (junho 2009), para o NYT: “Eu não acredito em escolas e universidades. Eu acredito em livrarias”

Se você tem 15 ou 75 anos e sonha em ser escritor, dá uma olhada nesses excelentes conselhos para sonhadores de todas as idades:

1– Comece pelos contos curtos
Bradbury aconselha a não começar pelo romance. “O problema com os romances é que você  pode ficar um ano escrevendo um e pode não ficar bom, já que você ainda não aprendeu a escrever”. O ideal é escrever muitos contos curtos, mesmo que sejam ruins, servem para treinar. “Te desafio a escrever cinquenta e dois contos ruins. Não se pode”. E praticando… “certamente chegará uma história maravilhosa”.

2. Não tente imitar os seus autores favoritos
Procure o seu próprio estilo. Bradbury cita como um erro da sua juventude, quando tentava imitar os autores que ele admiraba, entre os quais, Julio Verne, Arthur Conan Doyle e H.G. Wells. “Você não pode ser nenhum deles” (…) “você pode amá- los, mas não pode vencê-los”.

3. Aprenda com os grandes contistas
Bradbury cita como mestres dos contos curtos: Roald Dahl, Guy de Maupassant, John Cheever, Nigel Kneale, Edith Wharton e John Collier, que o aspirante a escritor deve ler e estudar. Também aconselha afastar- se das histórias contemporâneas como as publicadas pela revista New Yorker, pois “carecem de metáforas”, só retratam a vida cotidiana.

4. Use muitas metáforas
“Metáfora” é uma figura retórica de pensamento e talvez seja o recurso mais utilizado pelos escritores, de um modo geral (quer um post sobre as metáforas? Se sim, escreva seu desejo nos comentários!).

Bradbury não se considera um romancista nato, mas um “colecionador de metáforas”. Por isso,  o escritor novato tem que “engolir” obras literárias clássicas, para ampliar os seus recursos, que serão depois utilizados para criar as suas próprias histórias.  O autor sugere a leitura, todas as noches, de um conto, um poema e um ensaio, especialmente os de George Bernard Shaw. Segundo Bradbury, com essa rotina você vai acabar  “cheio de ideias e metáforas” na cabeça,  que combinadas com sua perspectiva e experiências de vida irão gerar novas metáforas e ideias.

5. Afaste- se das pessoas que não acreditam em você
Está cercado de pessoas que não acreditam no seu sonho de ser escritor e até tiram sarro disto? Conselho de Bradbury: “Chame- os hoje mesmo e despeça- se deles. Serve para qualquer coisa.

6. Visite a biblioteca com frequência
Bradbury não tinha nível superior, não pode pagar seus estudos, foi autodidata, se formou na biblioteca. Ele ia três, quatro vezes por semana, durante dez anos. “Viva na biblioteca, não no seu computador”. Sim pessoal, ler um livro é muito mais confiável, estimulante e completo, que pegar textos mastigados, curtos e duvidosos da internet. Vá direto na fonte: os livros. E o mais legal: viciam.

7. O cinema como fonte de inspiração
Bradbury frequentou cinemas desde criança. Cinema é magia pura e uma incrível fonte de inspiração para novos escritores. Procure os filmes clássicos, principalmente.

8. Divirta- se criando e escrevendo
Escreva para divertir- se, não se leve tão a sério, relaxe. Se começar a escrever e a história transformar- se em “trabalho”, jogue no lixo e tente outra vez. “Se a mente ficar em branco no meio de uma história, é o seu subconsciente te dizendo que não gosta do que está fazendo”.

9. Esqueça o dinheiro
Bradbury  foi valente e recusou grandes quantidades de dinheiro, quando lhe ofereceram para escrever sob encomenda, sabia que isso lhe “destruiria”, porque iria escrever o que não desejava. “Minha esposa e eu tínhamos  trinta e sete anos quando pudemos comprar o nosso primeiro carro”. Quem te disse que seria fácil?

10. Escreva duas listas
O que você ama e o que você odeia? “Escreva uma lista com dez coisas que ama apaixonadamente e escreva sobre elas. Faça uma lista com dez coisas que você odeia e as mate”. Escreva sobre as personas que você odeia, sobre seus medos, pesadelos e os mate.

11. Escreva sobre a primeira coisa que vier na sua cabeça
“Quando começo a escrever nunca sei aonde vou, todos meus livros foram surpresas”. O autor recomenda começar associando palavras que venham na cabeça. “Com sorte, no final da segunda página, começarão a aparecer personagens” provenientes da sua “verdadeira essência”. Dessa forma, você irá descobrir coisas sobre si mesmo que não sabia.

Deixo aqui a conferência de Ray Bradbury na íntegra. Mesmo que você não entenda inglês, vale a pena dar uma olhada, pelo menos para conhecer a voz do autor, muito simpático por sinal. Espero que estes conselhos te ajudem. Se você colocar esses exercícios de escritura criativa em prática venha me contar se funcionaram.

Ah, e volte rapidinho aqui, pois a resenha de “Fahrenheit 451”, a obra- prima de Bradbury, está para sair!

 

 

 

 

 

 

Dez bibliotecas incríveis

Antigas, cheias de história e são guardiãs de verdadeiros tesouros literários. Tive o privilégio de conhecer seis (Espanha e Portugal) dessa lista de dez. Veja:

1. Biblioteca Nacional da França (Paris)

img_01_l(foto: Nikon)


2. Biblioteca Nacional da Espanha (Madrid)

Una-imagen-de-la-sala-de-lecturas-de-la-Biblioteca-Nacional-- (1)(foto: BNE)


3. Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra (completou 500 anos em 2013). (Portugal)

Biblioteca Joanina

(Foto: figaro.fis.uc.pt)


4. Biblioteca do Palácio de Mafra (Portugal)

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(foto: aguiaturista.blogspot.com)


5. Real Gabinete Português de Leitura (Rio de Janeiro)

04(Foto: RGPL)


6. Biblioteca Pública de Nova York (EUA)

Main reading room of New York Public Library after NYPL announced partnership with Google(foto: Diario Vasco)


7. Biblioteca da Universidade de Salamanca (Espanha)

bibliotecas_para_no_estudiar_93393815_1200x797(foto: traveler)


8. Biblioteca Girolamini de Nápoles (Itália)

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(foto: ABC)


9. Real Biblioteca do Monastério do El Escorial (Espanha)

EscorialBiblioteca(foto: blog Universidade de Zaragoza)


10. Biblioteca do Ateneo de Madrid (Espanha)

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Resenha: “Brooklyn Follies”, Paul Auster

Esse foi o primeiro livro que li de Paul Auster (Nova Jersey, Estados Unidos, 1947), ele é romancista, poeta, roteirista e diretor de cinema. Foi marinheiro, viveu três anos na França, onde trabalhou como tradutor, ghost writer e caseiro numa fazenda. Desde 1974 mora em Nova York e dedica- se exclusivamente à literatura.

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Brooklyn follies, 2006 (Loucuras do Brooklyn): um homem de quase sessenta anos, recém- divorciado após um casamento de mais de 30 anos com Edith, aposentado, era corretor de seguros, muda- se para o bairro do Brooklyn, pois busca um lugar tranquilo para morrer.  É o seu bairro de infância, no qual nunca havia retornado em cinquenta e seis anos. Ele tem câncer de pulmão, e apesar da doença estar regredindo, ele não é otimista. Chega a ser grosseiro com a sua única filha, Rachel, dizendo que iria morrer logo (coisa que, no fundo, não acreditava). Apesar de estes fatos tristes, o livro não começa melodramático, sem nenhum tipo de apelação ao sentimentalismo, ao contrário, parece ser muito bem humorado.

O autor faz um desenho muito interessante dos habitantes do Brooklyn, seus costumes, cita lugares reais, ruas e comércios, como a delicatessen La Bagel Delight, onde o personagem foi comprar rosquinhas de canela e passas. Um livro que tem esse “plus” de guia turístico disfarçado em narrativa ficcional. Sem dúvida, você vai terminar sabendo muito mais sobre Nova Iorque do que antes dessa leitura.

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Casas típicas do Brooklyn

Por sugestão da filha, Nathan Glass pensa em algo para ocupar o seu tempo e decide escrever a sua própria biografia. Começou a escrever notas soltas em qualquer pedaço de papel que achava, textos desconexos e foi guardando tudo em caixas diferentes, classificadas por temas. Começou a recordar histórias engraçadas da sua infância, quis manter o tom cômico, mas em momentos de melancolia era impossível não lembrar das muitas histórias tristes que ouviu durante seus 30 anos de profissão vendendo seguros de vida. Um dos casos, com um final muito previsível, me fez desacreditar um pouco no autor: um médico alemão que fez um seguro com Nathan, não via a sua mãe há muitos anos por causa da guerra na Alemanha. No dia do reencontro nos Estados Unidos, o filho médico foi chamado para uma cirurgia e não pode buscá- la no aeroporto. A mãe vai para o seu apartamento num táxi, quando sofre um acidente e a levam para o hospital. A mulher fica inconsciente e o filho a vê morrer. Dramático, não? Com essa história, Auster encerrou o primeiro capitulo.

No segundo capítulo, o narrador- personagem começa a contar histórias da sua vida. A única irmã,  June,  sofreu uma hemorragia cerebral e faleceu aos 49 anos. Nathan ficou sem ver os sobrinhos por sete anos, até encontrar Tom. O encontro aconteceu na livraria de Harry Brightman, homossexual excêntrico. Tio e sobrinho conversam sobre a tese de Tom, e este cita três obras de Poe muito pouco conhecidas e difíceis de achar (p. 23):

– Trata- se de dois mundos inexistentes- começou a explicar o meu sobrinho.- É um estudo sobre o refúgio interior, um mapa do território aonde se vai quando já não é possível viver no mundo real.
-A imaginação.
– Exato. Primeiro, Poe, e uma análise de três de suas obras mais esquecidas: Filosofia do mobiliário, A casinha de Landor e O Senhor de Arnheim. Consideradas por separado, estas obras são simplesmente curiosas, excêntricas. Mas, vistas em conjunto, oferecem um sistema plenamente elaborado das aspirações humanas.

E o sobrinho faria uma tese comparativa de Poe com Thoreau, que Representam extremos opostos do pensamento norte- americano. A partir daí começa uma verdadeira aula de literatura, o autor escreve as dicotomias entre os autores e suas coincidências, apesar de tão diferentes. Fiquei encantada com esse trecho e lembrou- me que não posso deixar de ler Walden ou a vida nos bosques, de Henry David Thoreau. Passado algum tempo, Tom e seu tio encontram- se na livraria Brightma’s Attic, onde Tom trabalha. Nathan considerava o seu sobrinho brilhante e ficou surpreso de encontrá- lo como balconista e acima do peso, deixando o seu corpo atlético para trás, além do ar  de derrota e melancolia.  A vida não é assim? Às vezes uma pessoa tem tudo para ser uma vencedora, mas os acontecimentos da vida mudam o seu destino…Tom queria terminar o doutorado e ser professor de literatura em alguma universidade, mas no capítulo “Purgatório” virou taxista durante 12 horas diárias. A mãe dizia, “não se pode mudar o tempo, Tom.” Algumas coisas são como são e não há como mudá- las. O rapaz vivia num apartamento minúsculo, começou a retrair- se e passou seu aniversário de 30 anos sozinho. Tudo isso antes de ir trabalhar na livraria de Harry Brightman na Sétima Avenida. Essa livraria não existe na realidade. Tom morava perto da livraria e entrava quase todos os dias, quase nunca comprava nada, ficava folheando livros velhos. Harry percebeu que Tom seria excelente encarregado para a sua seção de livros raros e manuscritos. Os dois tornaram- se amigos, mas Tom recusou por seis meses a oferta de Harry, defendia a sua profissão de taxista. Acabou preferindo mudar de vida, aceitou o novo emprego. Tom foi descobrindo que Harry era como um personagem de ficção, sua vida não era nada do que havia contado. Harry, o livreiro, era ex- presidiário e tinha uma filha, Flora, com graves problemas psiquiátricos.

Nathan era apaixonado pela garçonete casada, Marina Gonzalez, do restaurante Cosmic Dinner (existe de verdade). Tom e Nathan almoçaram juntos nesse restaurante:

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Tio e sobrinho terminaram o almoço e voltaram até a livraria caminhando pela Sétima Avenida conversando sobre os patifes. A paixão pela trapaça é universal, rapaz, e quando alguém pega o gosto, já não tem remédio. O dinheiro fácil: não tem maior tentação do que essa. (p. 59)

Tom era apaixonado por uma mulher felizmente casada, tal como o seu tio Nat. Ela era uma vizinha do Brooklyn, Nancy Mazzucchelli, desenhista de jóias.

Quando falha tudo, assedia- las  com demonstrações de amor. (p. 97)

Nathan continua a contar suas recordações familiares e algumas reflexões que surgiram desse livro: às vezes é tarde demais para pedir perdão. O melhor é evitar certas ações, depois não adianta “chorar pelo leite derramado”; ter pena de si mesmo é uma das formas de auto- destruição mais poderosas; família é o único que fica quando não há mais nada. A imprevisibilidade da vida é que faz dela fantástica. Não existe tristeza nem alegria definitiva. O tempo de convivência perdido com as pessoas que amamos, jamais poderá ser recuperado. O amor e a literatura salvam- sobretudo o amor. O primeiro livro de Nat ganhou o título de “Biografia à prova de fogo”.

Como dizia Oscar Wilde, depois dos vinte e cinco todo o mundo tem a mesma idade. (p. 87)

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Auster, Paul. Brooklyn Follies. Anagrama, Barcelona, 2009. 312 páginas

Reyes Monforte e suas Marias: drama na vida real e na ficção

A viúva Reyes Monforte e justiça para Maria José Carrascosa

A escritora espanhola Reyes Monforte (1973) ficou viúva ontem do popular ator espanhol Pepe Sancho, que faleceu aos 68 anos de câncer no pulmão.

Reyes Monforte escreveu “Um burka por amor” (eu li na época do seu lançamento, em 2007, muito bom!), uma história comovente, violenta, real, o drama de Maria, uma espanhola que apaixonou- se por um homem do Afeganistão e padeceu horrores por esse amor. Maria entrou em contato com Reyes (que é jornalista) e a sua história virou livro e também um filme, veja (na íntegra, em espanhol):

Reyes Monforte lançou outro livro no ano passado (publicado no Brasil), “Amor cruel”, também baseado na história real de Maria José Carrascosa, advogada espanhola, que casou com um americano, sofreu maltratos, separou- se e foi presa acusada de sequestrar sua própria filha. Leia a história com mais detalhes, é terrível. Maria continua presa, mesmo com inúmeros e graves problemas de saúde. A Justiça é muito injusta, às vezes. Essa mulher não é uma delinquente, é uma mãe desesperada, não merece isso! Ela saiu dos Estados Unidos para Espanha com sua filha de 7 anos em 2006 e foi condenada a cumprir 14 anos de prisão. Mais uma prova que os imigrantes estão completamente desprotegidos, mulher, maltratada, ao invés de ser protegida, foi condenada! No final de 2012 ela pediu a liberdade condicional, mas o governo de Nova Jersey negou seu pedido e agora ela só pode solicitar outra vez depois de 1 ano e meio. Aonde estão as autoridades espanholas para intervir por essa mulher?!

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LIBERDADE para Maria Carrascosa já!

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Carta da filhinha da Maria pedindo aos Reis Magos que traga a mãe dela de volta. É de partir a alma!

Reyes Monforte, além de ser uma excelente escritora é uma fantástica jornalista que leva para a ficção histórias dramáticas de mulheres sofridas, que padeceram maltratos e injustiças. A literatura também pode ter esse papel social e de denúncia. Literatura dolorida, que chora, como a própria vida.

Reys Monforte, hoje a dor é sua. Espero que a dor se transforme, em breve, em doce saudade. RIP Pepe Sancho.

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Visto aos portugueses que viajam aos EUA

A partir de hoje não só Portugal, mas também França, Alemanha, Suíça, Grã-Bretanha, Bélgica, Espanha, Singapura, Nova Zelândia, Japão e Austrália terão que pedir um visto pela internet antes de viajar aos Estados Unidos no site https://esta.cbp.dhs.gov.

O mundo “globalizado” está em regresso, por causa da violência e terrorismo.

Visto em Sapo Notícias.