Bibliotecas incendiadas: os livros são um perigo?

“Biblioclasta” é o termo utilizado para designar quem não respeita e destrói livros.

Na história mundial, há muitos casos de incêndios criminosos em bibliotecas. Esses ataques visam o terror e a destruição, normalmente, de um patrimônio de valor incalculável. São motivados por ódio político, religioso, ideológico, fanatismo, terrorismo, loucura. Queimar livros, deletar a escrita de um povo, é apagar da memória presente e futura  boa parte de sua história e testemunho. Há inúmeros relatos de bibliotecas queimadas na Antiguidade. Era uma forma de vingança, e continua até hoje. As bibliotecas são alvo certo nos conflitos bélicos.

Em abril de 2003, houve um incêndio criminoso à Biblioteca Nacional de Bagdá e à Escola de Estudos Islâmicos no Iraque. Na biblioteca, havia tesouros que jamais poderão ser recuperados. O atentado foi cometido por “saqueadores”. “O Palácio da Sabedoria” havia sido construído em 1961 e abrigava o Centro Nacional de Arquivos.

Reconstruída a biblioteca, hoje o acervo está digitalizado para evitar futuras perdas, já que as ameaças terroristas continuam. Foto do incêndio:

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Também foi incendiada em 2003, a biblioteca da Universidade de Basora no Iraque:

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Os livros educam, doutrinam, expandem, mexem com o psicológico das pessoas. Leitura é poder. Livro é uma arma. Ainda tem alguma dúvida do perigo que são os livros?

Entrevista com Edney Silvestre

Originalmente publicada na revista impressa BrazilcomZ (Espanha), nº93,  julho de 2015. Leia a revista online.


EDNEY SILVESTRE

Sou testemunha do sofrimento, do isolamento, da solidão, das dores e tristezas de quem foi obrigado, seja por que razão for, a viver fora de sua terra.

Entrevista exclusiva com o grande jornalista da Rede Globo, Edney Silvestre (Valença, Rio de janeiro, 24/04/1950), que publicou sua primeira obra “Se eu fechar os olhos agora” (2010) depois dos 50 anos, “como Henry Miller e Cervantes”, livro premiado com o Jabuti. O autor revelou que está trabalhando em um novo livro de contos. Mostrou- se incômodo com a visão de alguns franceses sobre os brasileiros no Salão do Livro de Paris: Os franceses, muitos deles, ainda nos vêm – nós, os criadores de cultura no Brasil e na América Latina – como papagaios exóticos. Quanto mais coloridos e barulhentos formos, mais eles consideram que se trata de “autêntica literatura latino-americana”. E também comenta sobre a questão da imigração, da solidão, da leitura no Brasil e alguns temas polêmicos. Leia a entrevista completa:

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O escritor e jornalista Edney Silvestre de 65 anos, de origem humilde, forjou uma bela e sólida carreira no competitivo mercado de trabalho brasileiro. (foto: Leo Aversa)

(F.S.) No seu último livro, “Boa noite a todos”, a capa sugere um personagem suicida, o leitor já tem essa informação prévia. Com a leitura da obra, certamente vai perceber que Maggie não tem saída. O que você diria ao leitor que pode pensar que você foi excessivamente pessimista?

(E.S.) Maggie tentou todas as saídas que lhe eram possíveis. Desde o começo da sua vida, porém, o destino, ou que nome se dê aos acontecimentos que nos formam, foi cruel com ela. Sua mãe, prostrada pela depressão, a ignorava. Seu pai foi-se para outro país, onde se casou com uma mulher igualmente alheia às necessidades da menina Maggie. Harry poderia ter sido seu porto seguro. Entretanto ela, jovem demais para entender a complexidade do rapaz, afastou-se dele. E por aí foi, abraçando o mundo glamoroso e vazio das celebridades. Não fui pessimista. Ao final Maggie ganha o alívio na memória e na arte – no caso a música de Richard Strauss.

(F.S.) Além de ser um escritor que conseguiu o respeito da crítica especializada conquistando um lugar de destaque na literatura contemporânea, com vários prêmios, antes você já era jornalista de primeiro escalão. Atualmente, apresenta o Globo News Literatura e é repórter especial da TV Globo. Você pretende transformar algum dia a literatura na sua principal atividade?

(E.S.) Gosto de chegar à redação e estar com os colegas jornalistas, gosto de sair para fazer reportagens na rua, gosto de escrever reportagens, gosto de editar imagens e textos de reportagens. Quando penso no meu futuro – e penso pouco, minha preocupação é com o aqui e agora – não me vejo fora do jornalismo. Quando, finalmente, publiquei meu primeiro romance, “Se eu fechar os olhos agora”, eu era jornalista há mais de 3 décadas. Continuo. É uma profissão que me permite estar sempre em contato com o real, que vem me dando a chance de conhecer profundamente o meu país e os brasileiros, assim como me leva a entender melhor as contradições da história contemporânea ao me fazer testemunha de acontecimentos como os atentados terroristas em Nova York em 11 de setembro de 2001, o horror sofrido pelo povo no Iraque, a dor das vítimas de furacões em Honduras, o desencanto e a esperança na vida de Cuba.

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No lançamento de “Boa noite a todos”, seu último romance. (Foto: Vera Donato)

(F.S.) Vender muitos livros é sinônimo de sucesso? O que é o sucesso pra você?

(E.S.) Gabriel García Márquez vendia muitos livros. Salinger vendeu muito, também. Jorge Amado foi um autor best-seller. Um colombiano, um americano, um brasileiro. São apenas três, dos muitos exemplos, de escritores de qualidade com obras acatadas por um grande público. Sucesso, sem dúvida. A permanência deste sucesso, no entanto, é outra história. A morte, em geral, apaga alguns escritores da lembrança dos leitores. Falo no sentido do grande público, aquele que transforma um romance como “Amor em tempo de cólera” em fenômeno de vendas. Ainda que este trio Amado-Salinger-Marques não se encontre hoje nas listas dos mais vendidos, continua sendo cânone, continua sendo referência, como continuam os menos lembrados e outrora escritores de enorme sucesso, como Rachel de Queiroz e João Ubaldo Ribeiro.

(F.S.) A pós- modernidade lançou diversos escritores midiáticos, que exercem profissões paralelas (atores, cantores, humoristas e padres), o que gera muita desconfiança na crítica, a maioria com fundamento, já que são obras inexpressivas e sem valor artístico- literário. Edney Silvestre, jornalista e um rosto conhecido no Brasil. Com a publicação do seu primeiro livro, como viveu esse período de prova? Sofreu algum estigma, mesmo sendo jornalista e tendo familiaridade com a escritura? Com expectativa, ansiedade ou não te afetou?

(E.S.) Eu não era uma celebridade quando lancei meu primeiro romance, nem o sou agora, portanto não me encaixaria na categoria “escritor midiático. Sempre escrevi textos de ficção, apenas publiquei meu primeiro romance depois dos 50 anos. Cervantes também publicou depois dos 50. Henry Miller foi outro. Sou, fui e serei meu crítico mais atento. Se, mesmo com os prêmios literários que ganhei, eu ainda tivesse dúvidas se me acolhiam porque eu era jornalista de televisão, essas dúvidas teriam se dirimido com a publicação de meus romances na França, na Grã-Bretanha, na Sérvia, na Holanda, em Portugal, na Itália e na Alemanha – onde ninguém tinha a menor ideia de quem eu era. E, aliás, continua não tendo. E ainda assim leem minha obra.

(F.S.) Você já entrevistou diversos escritores consagrados, como é estar do outro lado, ser o entrevistado? Sente- se confortável falando de si?

(E.S.) Eu tenho muito prazer em conversar – e ouvir – pessoas inteligentes, como José Saramago, João Ubaldo Ribeiro, Adélia Prado, Nardine Gordimer, Milton Hatoun. Aprendi e aprendo com essas pessoas. Quando estou do outro lado, e estou sendo entrevistado por alguém que se preparou, pesquisou, estudou, leu minha obra, tenho a chance de repensar e analisar o que fiz, porque fiz, como fiz. É um prazer, também, de outro tipo. Mesmo que eu não consiga responder a essas questões.

(F.S.) Em “Vidas provisórias”, você narra a vida de imigrantes brasileiros no exterior. Você também já esteve nesta situação. O que emprestou das suas experiências aos personagens do livro? É verdade que os seus personagens viveram situações pessoais extremas e difíceis, mas você acredita que exista um ponto de intersecção entre todos? Você também sentiu em algum momento a sensação de perda de identidade? De ter que se reinventar? E a solidão?

(E.S.) Sou testemunha do sofrimento, do isolamento, da solidão, das dores e tristezas de quem foi obrigado, seja por que razão for, a viver fora de sua terra. É muito, muito duro. É claro que não me refiro aos ricos empresários ou artistas que se divertem em temporadas passadas em suas belas e confortáveis casas e apartamentos em Paris ou Miami, indo a bons restaurantes e assistindo a espetáculos bacanas. Falo das pessoas que ralam, que trabalham duro, que se sentem discriminadas. Fui morar nos Estados Unidos com visto de trabalho, o que fazia de mim um privilegiado. Mas convivi com gente que temia ser pego pela imigração e deportado, aquelas pessoas que precisam trabalhar, seja no que for que aparecer, para não apenas se sustentarem, mas também mandarem dinheiro para suas famílias que ficaram no Brasil. Nunca senti que perdia a identidade pois creio que o brasileiro não a perde, de forma alguma. Quanto à solidão… Essa eu conheci desde muito cedo, com pouco mais de 15 anos, quando me mudei de minha cidade no interior para o Rio de Janeiro.

(F.S.) A crítica negativa incomoda? Você lê tudo o que escrevem sobre seus livros? Acompanha o retorno dos leitores? Lê as resenhas dos “blogueiros”?

(E.S.) Tem uma frase ótima que o dramaturgo Edward Albee me falou numa entrevista, quando eu comparei as boas críticas que tinha recebido na época da peça “Quem tem medo de Virginia Woolf”, das ruins que deram à sua peça mais recente (então), “A cabra”. Ele me disse mais ou menos assim: “Se elogia, eu considero (o crítico) inteligente por ter percebido minhas intenções; se fala mal, é porque trata-se de um tolo”.
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O amor à literatura chegou muito cedo, ainda menino, quando sofria de anemia profunda e ficava na lendo na cama. O escritor em Paris com a tradução francesa de “A felicidade é fácil”.

(F.S.) Os seus livros ganharam traduções em vários idiomas. Como está sendo a recepção da sua obra pelo leitor estrangeiro?

Muito além do que eu jamais poderia imaginar. Na França o jornal Le Monde e a revista L’Express aplaudiram meus dois romances publicados ali, em Portugal e na Holanda idem, o inglês The Guardian e o alemão Stern me deram página inteira nas resenhas elogiosas a “Se eu fechar os olhos agora” e, no ano passado, “A felicidade é fácil” foi considerado um dos dez melhores romances policiais do ano na Inglaterra. Ano que vem “A felicidade é fácil” sai na Alemanha.

(F.S.) Você acha que já escreveu a sua obra- prima ou esta ainda está para ser escrita?

(E. S.) Será que um escritor com um mínimo de senso crítico, mesmo aquele com ego gigantesco, acha mesmo que escreveu, ou está escrevendo, ou acabará por escrever uma obra-prima? Nos estados unidos eles, os autores, sempre se referem à tentação de escrever “o grande romance americano” que estaria por vir. Isso os esmaga. Não acredito que Saramago pretendeu, jamais, escrever uma obra- prima. Entretanto deixou-nos seu Evangelho. Drummond deixou-nos várias obras- primas – e sempre se disse um aprendiz.

(F.S.) Está escrevendo algum livro? Já tem o título da sua próxima obra?

(E.S.) Estou construindo em um livro de contos onde tenho a chance de experimentar temas e linguagens. É possível que venha a publicar no ano que vem. Ainda não tenho um título definitivo, embora eu venha trabalhando desde o ano passado com um.

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O escritor na biblioteca do seu apartamento no Leblon, no Rio de Janeiro (foto: Revista Quem)

(F.S.) Edney leitor. Quais são os seus livros favoritos? Quais autores são essenciais na sua biblioteca?

(E.S.) Não tenho favoritos, Fernanda. Gosto de ler, ponto. Leio de tudo, inclusive quadrinhos, quadrinhos mesmo, tipo Tio Patinhas e Asterix. Se tomar como guia os livros que tenho em minhas estantes: toda a obra de Drummond, toda a obra de Graciliano Ramos, toda a obra de Guimarães Rosa, toda a obra de José Saramago, muita coisa de Eugene O’Neil e Tennessee Williams, muita coisa de Fernando Pessoa, a obra completa de Machado de Assis, todo Cervantes, quase tudo do teatro de Nelson Rodrigues, um tanto de Marguerite Duras, outro tanto de Camus, praticamente tudo o que se conhece de Shakespeare (nao lido na maior parte), Elizabeth Bishop, muitos livros de Patricia Highsmith, Georges Simenon e F. Scott Fitzgerald.

(F.S.) Edney escritor. A alteridade, viver outros “alguéns” provoca desconforto, angústia, alívio, salvação, redenção? Como é o seu processo criativo?

(E.S.) Um escritor é um canal para transmitir vozes, desejos, ânsias, frustrações, esperanças de seu tempo. E tenta ser o canal mais limpo e aberto possível. Eu tento.

(F.S.) Livro tradicional ou livro digital? Você aderiu aos e- books?

(E.S.) Livro, ponto. Leio em ambas as formas. Digital é mais prático, sem dúvida. Mas nem vale a pena comentar, pois está afundando no mundo inteiro.

(F.S.) Brasileiro ainda lê muito pouco, mesmo na era digital com muita literatura gratuita na rede (muitos ainda não têm acesso à Internet). Como formar leitores no nosso país que, infelizmente, ainda não tem como prioridade a Educação?

(E.S.) Os números mostram que o brasileiro lê cada vez mais. Basta ver as pesquisas da SNEL. De onde você tirou essa conclusão que lê pouco? Educação tem que ser política pública. De que adianta comentar aqui? É política pública, não pessoal.

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No Salão do Livro de Paris (2015)

(F.S.) Como foi participar do Salão do Livro de Paris 2015 como autor convidado?

Os franceses, muitos deles, ainda nos vêm – nós, os criadores de cultura no Brasil e na América Latina – como papagaios exóticos. Quanto mais coloridos e barulhentos formos, mais eles consideram que se trata de “autêntica literatura latino-americana”. A culpa é do Gabriel Garcia Marques, que escrevia esplendidamente tramas que jamais poderiam se passar senão em selvas, cidades perdidas, verdejantes, habitadas por personagens peculiares, carregando amores ao longo de séculos. Ele era uma força original. Nada tinha de “papagaio exótico”. Mas aqueles que encaram superficialmente nossa cultura não entendem isso. E só querem reconhecer, no caso do Brasil, o “soft power” de samba, mulatas e futebol. Falei contra isso o tempo todo. Espero ter aberto a cabeça de alguns. Outros se irritaram. Incitei-os a lerem o que me parece a literatura mais original e diversificado do mundo neste momento, a brasileira, que reúne autores tão diversos quanto Milton Hatoun, Luiz Ruffatto, Alberto Mussa, Nélida Piñón, para citar apenas quatro contemporâneos.

(F.S.) Você ganhou o prêmio Jabuti em 2010 com “Se eu fechar os olhos agora”, sua obra de estreia, com os votos da crítica especializada e depois perdeu para Chico Buarque, que foi votado pelo público, mas continua sendo o ganhador moral. Existe algum constrangimento entre você e Chico por causa dessa história?

(E.S.) Não conheço Chico Buarque pessoalmente, não frequentamos os mesmos lugares, não temos amigos em comum. Ele é uma instituição, autor de clássicos da MPB como “A banda” e “Sabiá˜, vencedor de vários prêmios literários. Chico Buarque nunca disse uma palavra desabonadora a meu respeito, mesmo tendo perdido o Jabuti de Melhor Romance para mim, um autor estreante, mesmo depois de toda a campanha que reuniu mais de 15 mil assinaturas . Tem sido elegante, espero me comportar da mesma maneira.

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Edney foi correspondente internacional da Globo em Nova York, foi o primeiro repórter a chegar no local do atentado terrorista às Torres Gêmeas em 2001.

(F.S.) Você é muito ativo nas redes sociais, usa Facebook, Instagram, Twitter. O que essas redes trouxeram de bom e de ruim? Qual o saldo?

Gosto de conhecer pessoas, gosto de papear, nós do interior somos assim, colocamos a cadeira na calçada e falamos com quem passa. É como vejo as redes sociais. Saí do Messenger recentemente, por conta de assédio de quem só se aproximava porque queria ser entrevistado no programa de literatura da Globonews. Passei anos explicando cordialmente que aquela era uma página pessoal, que a página a procurar era a do Globonews Literatura. Porém, após algumas agressões gratuitas e exibições de vaidade, entendi que era melhor cair fora. Muito do aumento da leitura de livros, hoje, deve-se ao incentivo trazido pelas redes sociais. Particularmente para leitores com menos de 35 anos.

(F.S.) Sobre o Acordo Ortográfico entre os países lusófonos. Contra ou a favor? Já aderiu à nova ortografia?

(E.S.) Não fui chamado a opinar antes da decisão. Ninguém é consultado. A decisão fica numa esfera totalmente fora do alcance. Depois dela, os livros didáticos têm que ser impressos novamente, milhões deles. Todos os livros, enfim. A quem isso beneficia? Mas já foi, está feito. Não adianta nada comentar agora.

(F.S.) E qual a sua relação com a Espanha? Conhece bem o país? Quando vem nos visitar?!

(E.S.) Gostarei muito quando meus livros forem publicados na Espanha, o que ainda não aconteceu. Sinto uma grande identificação com a cultura iconoclasta que deu origem a Gaudi, a Buñuel, a Cervantes, a Garcia Lorca, a Picasso, a Almodóvar.

(F.S.) Dá para definir o que é a literatura na sua vida em três palavras?

(E.S.) Acho que não. (risos) Tem três palavras na frase, não é mesmo?        

                                                                                                        

O que é ser intelectual?

Nos comentários de um post recente, Rosângela Neres, professora na Universidade Estadual da Paraíba, escreveu o seguinte: “(…) a intelectualidade de uns também é questionável. Nunca fui muito fã desse termo, afinal o que quer dizer ser intelectual, não é mesmo? Todos não temos propensão ao intelecto? Tem gente que só porque leu muitos livros e falou sobre eles já se denomina assim.” E eu fiquei pensando…afinal, o que é ser intelectual na pós- modernidade?

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Em primeiro lugar, na minha opinião, existem pessoas que são intelectuais e outras que não são. Nem todas as pessoas, aliás, a maioria, não é. Apesar dessa “propensão ao intelecto”, como citou Rosângela, que é um pensamento difundido pelo filósofo italiano Antonio Gramsci  (Ales, 22 de janeiro de 1891 – Roma, 27 de abril de 1937). Para o filósofo, “intelectual” não se refere, como costumamos fazer, a certos indivíduos particularmente dotados, distantes da massa, que normalmente são filósofos, artistas, literatos ou cientistas. Para ele, o intelectual só pode ser entendido pela sua base histórica e seu meio social. Cada pessoa é diferente e deve ser “analisada” individualmente. Até aí  estou de acordo. Mas, para ele, todos os seres humanos são filósofos, médicos, advogados, todo mundo pode ser tudo. Ser intelectual é algo orgânico para Gramsci, já nasce inerente ao sujeito. Meritocracia.. o sujeito pode ser tudo? Não existem condições financeiras e/ou sociais que te impeçam de ser o que quiseres? Sim, claro que existem impedimentos, sabemos que na prática é assim. Uma pessoa pode estar apta fisiologicamente para desenvolver atividades mentais, mas a maioria da população mundial não desenvolve essas faculdades. A maioria exerce funções mecânicas, repetitivas, braçais. Não falo desse tipo de intelectual orgânico.  A minha referência nesse post é para os letrados despreparados que criticam sem fundamento, que não aprenderam o suficiente nos seus anos de estudo e deveriam voltar às salas de aula ao invés de serem os professores. É indignante ler erros ortográficos gritantes, professores universitários que mal sabem escrever. Minha crítica é para esse tipo de pseudo- intelectual, que tem a obrigação de saber as regras gramaticais elementares e também as complexas, mas escrevem como crianças de 8 anos. Somado a isso, uma pessoa letrada deveria aceitar a opinião alheia, já que faz parte da intelectualidade a pluralidade. Gente que ocupa cadeiras nas universidades brasileiras, mas que deveria voltar para a alfabetização, ser aluno e não professor. Vamos às definições para o termo intelectual:

 Dicionário Priberam

1. Que é do domínio da inteligência.

2. Relativo à inteligência.

3. Espiritual.

4. Que ou quem tem gosto predominante pelas coisas do espírito.

5. Que ou quem tem uma atividade intelectual permanente ou predominante.

6. Que ou quem tem grande cultura.

Ou seja, todas as faculdades mentais e espirituais, gente que trabalha com alguma atividade intelectual (há exceções, gente que não tem preparação para exercer atividades desse gênero, mas atuam na área por outros motivos, muitas vezes políticos ou administrativos, nepotismo e afins, portanto, há ressalvas) e gente que não trabalha com isso, mas que detêm cultura variada e informação, pessoas que viajam muito, que tratam com gente diversificada, pessoas que leem, que escrevem, que têm um nível de retórica superior, que se preocupam com o bem falar, com a linguagem de um modo geral, que falam mais de um idioma, que têm uma boa cultura geral em áreas que as pessoas mais “simples” muitas vezes não ousam tocar, enfim, as pessoas cultas e os auto- didatas. Todos esses ítens juntos ou alguns deles. Não é necessário ter frequentado uma universidade para ser intelectual.

Um artigo de Jean Paulo Pereira de Menezes, Mestre em História pela FCH/UFGD-MS, docente do curso de Serviço Social e Pedagogia da Unilago-SP, diz o seguinte:

A palavra intelectual passou a ser empregada a partir de 1898 em Paris para se referir a Emille Zola e seus correligionários que buscavam inferirem através da crítica no espaço público da política francesa. De início a palavra intelectual foi carregada de uma depreciação, pois os intelectuais de Zola eram entendidos pelo governo francês como alguma espécie de bisbilhoteiros da política do tempo presente. Assim mesmo, o termo intelectual pegou e passou a ser um designativo nada pejorativo, uma vez que o intelectual buscava a preservação dos valores burgueses universais como liberdade, justiça etc.

Graças a Emile Zola, o termo “intelectual” passou a ser usado, a princípio como algo negativo, porque atacava o governo francês, e logo, como um elogio. Ser intelectual era atribuído ao sujeito que lutava publicamente através da retórica pelo bem da sociedade. Com o marxismo, esse termo mudou de forma e segundo Antonio Gramsci,  “todo mundo é intelectual” (como acha a professora Rosângela):

O conceito de intelectual em Gramsci é muito mais amplo. O intelectual no sentido gamsciano não é necessariamente apenas o palestrante, o literato, os homens das letras diante de seus posicionamentos. Para Gramsci, intelectual é todo sujeito que exerce uma intelecção. Assim, todos os sujeitos são intelectuais.

Um encanador pode ler um livro e um professor de física quântica pode trocar um cano furado eventualmente. Mas Gramsci faz uma ressalva: ele diz que há “graus” de intelectualidade. A grosso modo: há intelectuais medíocres, médios e brilhantes.

Jean Paulo continua explicando que as universidades são fábricas de arquétipos de intelectuais que são movidos por interesses político- administrativos do Estado, comodismo ou interesses próprios. Leia artigo. Tais arquétipos podem ser altamente nocivos, já que se afastam muito do termo intelectual original de Zola, no sentido de usar e trabalhar com a mente para o “bem geral”.

A modo de conclusão: nem sempre a profissão que o sujeito exerce o transforma num intelectual. Há professores que não deveriam ser professores, mas pode existir algum mecânico que é um exímio leitor e entende mais de gramática e literatura que muitos letrados. Todo professor e todo aquele que trabalha com o intelecto deveria ser um intelectual, mas nem sempre é assim; todas as pessoas (exceto as que nasçam com alguma doença) nascem com as suas faculdades mentais prontas para serem desenvolvidas, mas a maioria não tem a oportunidade/ vontade de o fazer e partem para as profissões braçais e mecânicas, já que o estudo e uma boa preparação têm um custo financeiro muito alto, além de outras exigências pessoais, como a constância e tenacidade, que nem todos os indivíduos possuem. Ou seja, a propensão ao intelecto existe, mas nem todos a desenvolvem, mesmo os que têm um canudo na mão. É bem típico dessa nossa “pós- modernidade líquida” (termo do sociólogo Zygmunt Bauman) a falta de definições mais contundentes, o caos social e a falta de clareza, impedem a categorização precisa dos fatos sociais.

De certa forma, esse discurso é um apelo a não- propagação da ignorância. As redes sociais vieram para denunciar o que antes só ficava entre os muros dos centros de ensino: alunos e professores universitários (de Letras e outras áreas) que não sabem gramática básica. Professores universitários que formam outros profissionais deveriam ser escolhidos com critérios mais exigentes. Professores merecem receber um salário condizente com a importância da profissão, mas também têm que fazer um exame de  consciência e averiguar se estão fazendo um bom trabalho. Estão? Todo mundo pode melhorar, basta deixar a poltrona do comodismo e arregaçar as mangas! Se os resultados estão sendo ruins (principalmente na Educação pública) algo falha.

Primeira- ministra, quem sabe um dia me candidato

José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa

Nascido em Vilar de Maçada, concelho de Alijó, distrito de Vila Real, em 6 de Setembro de 1957

Licenciado em engenharia civil

Pós-graduado em Engenharia Sanitária, na Escola Nacional de Saúde Pública

Militante do Partido Socialista desde 1981

Presidente da Federação Distrital de Castelo Branco entre 1986 e 1995

Membro do Secretariado Nacional do Partido Socialista desde 1991, e membro da Comissão Política do PS

Porta-voz do PS para a área do Ambiente a partir de 1991

Deputado à Assembleia da República de 1987 a 1995 e desde 2002 (V, VI, VII, VIII e IX Legislaturas), pelo círculo de Castelo Branco, tendo sido, na IX Legislatura, Vice-Presidente do Grupo Parlamentar do PS, membro da Comissão Parlamentar de Defesa Nacional e membro da Comissão Permanente da Assembleia da República

Membro da Assembleia Municipal da Covilhã

Ministro do Ambiente e do Ordenamento do Território do XIV Governo Constitucional

Ministro Adjunto do Primeiro-Ministro do XIII Governo Constitucional

Secretário de Estado Adjunto do Ministro do Ambiente do XIII Governo Constitucional

Eleito Secretário Geral do Partido Socialista em Setembro de 2004 (Fonte: http://www.portugal.gov.pt)

Não sei. Um engenheiro governar um país? Qual seria a qualificação ideal para administrar uma nação? Um administrador? Não sei de novo, mas ele está lá, governando o país. Já viram o Lula, o presidente brasileiro, só tem o ensino médio…

É necessário nascer no local para ser um bom governante? Não sei outra vez. Mas, Sarcozy, o presidente francês é húngaro de Budapeste.

Vejam, não pude fazer um concurso (“oposición”) para a Escola Oficial de Idiomas em Barcelona, porque exigem título da língua catalana. Entendo o idioma perfeitamente e ainda assim, nao iria utilizá- lo em absoluto o catalão no exercício da minha profissão. Mas eles exigem, só querem professores falantes do catalão. E o espanhol?! Espanhol eu tenho diploma! Mas o espanhol não serve pra eles.

Bairrismo, eu creio. É uma forma de excluir todos que venham de fora. Eu sempre notei isso na Espanha: são muito “bairristas”, valorizam mais a parte que o todo, têm uma visão muito limitada de mundo. Um país tão pequeno e tão dividido culturalmente e lingüísticamente. A Espanha (em Madri nota- se menos esse fenômeno) vai em contra- mão à maioria do mundo, que busca na globalização uma forma de interação entre os povos. Eu vejo as comunidades espanholas mesquinhas: ” o que é meu, é meu, não nos misturamos…minha cultura é melhor e não quero que se misture com a deles…só falo no meu idioma e não em castelhano, que arrebatou e tirou a nossa liberdade”. Um discurso tão medieval, tao ressentido e muitas vezes nublado pelo ódio histórico. Um retrocesso. Tem catalão com pais espanhóis com vergonha do sobrenome castelhano, inclusive: uma colega do mestrado na cafeteria da UAB, entre um café e outro, nos comentou esse disparate, que teve vergonha a vida inteira do seu sobrenome andaluz.

Então, o primeiro- ministro português ao que me referi no início do texto, não tem a qualificação adequada para ser presidente da República (sob o meu ponto-de-vista), nem o Sarcozy é francês, mas governa a França, nem o Lula tem a qualificação formal suficiente, mas está trabalhando melhor que muitos antecessores seus que são doutores e afins; apesar disso, todos têm o cargo mais alto de seus países. Contudo, eu na Catalunha não posso ser professora em órgãos oficiais sem ter título de catalão… tenho todas as qualificaçoes necessárias, experiência no cargo pretendido, mas tenho a nacionalidade brasileira (e portuguesa), estou fora! E ainda penso: será que se tivesse um diploma de catalão, teria chances? Sinceramente, não acredito, porque ainda restaria o sotaque.

Quem sabe seja mais fácil conseguir um cargo de presidente em outros países, do que uma luso- brasileira conseguir ser professora de português na EOI da Catalunha!