5 de junho: aniversário de 118 anos de Federico García Lorca

Um dos maiores escritores da língua espanhola, Federico García Lorca (Fuentevaqueros, 05/06/1898 – Víznar, 19/08/1936), poeta e dramaturgo, completa hoje 118 anos de nascimento. Formado em Letras e Direito, mudou de Granada para Madri onde conheceu inúmeros intelectuais.

Viajou para Nova York e Cuba, voltou em 1936 para a sua cidade natal, onde foi preso e fuzilado, dizem, pelos seus ideais liberais. 

Lorca era homossexual. A Espanha vivia uma ditadura, os gays não “existiam”. O escritor era um insulto à moral e aos bons costumes, fora seus ideais políticos. Foi eliminado.

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Na foto acima, Lorca aos 18 anos com Salvador Dalí que tinha 24. Eles eram muito mais que amigos, mas comenta- se que não foi um amor consumado. (Será?! Eu acho que foi sim). Tudo indica que Dalí era homossexual, mas nunca assumiu publicamente, então, oficialmente, o romance nunca foi assumido. A foto desprende intimidade, não?

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No livro “Querido Salvador, Querido Lorquito”, do jornalista Víctor Fernández, reúne cartas de Dalí a Lorca com conteúdo apaixonado, beirando o erótico. Ambos tinham relacionamento com outras mulheres para dissimular.

A opção sexual dos artistas influenciou nas suas obras? Sim, por isso comento.

Leia os poemas de García Lorca (em espanhol). E- book grátis!

Deixo a dica de um filme que conta a história dos artistas com protagonista famoso, Robert Pattinson:

Resenha: O Rinoceronte, de Eugène Ionesco (PDF grátis)

Psicose coletiva, senhor Dudard, psicose coletiva é o que isso é! É como a religião que é o ópio dos povos! (p. 42)

Você sabe o que é o gênero dramático?

34 - O RINOCERONTE

Encenação de “O rinoceronte” no Teatro de Bolso, Portugal, com estreia em 12 de novembro de 1960.

É um dos gêneros literários mais antigos, sua origem remonta à Grécia antiga. É um tipo de escritura feita para ser encenada por atores em um teatro. O texto é disposto de forma dialógica entre os personagens ou o personagem (no caso dos monólogos). Os acontecimentos são desenvolvidos dentro de um tempo e espaço determinados. O conflito humano é a base da obra teatral, que pode ser comédia, tragédia, drama ou tragicomédia ( híbrido, tragédia e comédia). O texto pode ser escrito em prosa ou verso. Os nomes dos personagens sempre antecedem as suas falas, veja um exemplo da obra “O rinoceronte”, de E. Ionesco, objeto dessa resenha. A obra se encaixa no gênero comédia, pois faz parte do “Teatro do Absurdo”, um conjunto de obras que foram escritas ao longo de 30 anos, entre as décadas de 40 e 60 na Europa e nos Estados Unidos.

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Eugène Ionesco (Slatina, Romênia, 26/11/1909 – Paris, 28/03/1994) foi um dos maiores patafísicos e dramaturgos do teatro do absurdo. A patafísica foi um movimento cultural francês da metade do século XX, uma pseudociência das “soluções imaginárias”, criada pelo excêntrico dramaturgo francês Alfred Jarry (Laval, 08/09/1873 – Paris, 01/011/1907). A patafísica é absurda e de difícil compreensão, quebra com todos os nossos esquemas mentais lógicos e nosso costumeiro raciocínio lineal. O teatro do absurdo é incoerente por natureza. O humor sempre está presente nesse tipo de texto.

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Eugène Ionesco, 1960, foto exposta no National Portrait Gallery, Londres

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Alfred Jarry, o inventor da patafísica

A obra “O rinoceronte” (origina “Rhinocéros”, 1960) é uma das mais conhecidas do dramaturgo Ionesco. O texto é muito divertido e muito visual, como se estivéssemos sentados na poltrona de um teatro. Ambientado numa pequena cidade do interior, numa praça, os personagens são:

A Dona da casa, A Merceeira, Jean, Bérenger, A Garçonnette, O Merceeiro, O Senhor Idoso, O Lógico, O Patrão, Daisy, Senhor Papillon, Dudard, Botard, Madame Coeuf, Um Bombeiro, Senhor Jean, A Mulher do Senhor Jean, Várias Cabeças de Rinocerontes.

A peça é dividida em três atos. A movimentação normal da cidade, dois amigos conversando e ouvem um ruído ensurdecedor, mas não sabem de que se trata. O barulho vai ficando mais forte e… passa correndo um rinoceronte! O rinoceronte esmaga o gato da Dona de Casa que fica inconsolável. E a discussão continua absurda, a preocupação dos moradores é se o rinoceronte tem um ou dois chifres, se é da Ásia ou da África. Entra o Lógico para tentar colocar um pouco de ordem em tudo, mas a lógica também é ininteligível às vezes. O tema racial aparece na conversa.

O segundo ato acontece num escritório, uma editora, onde Daisy, Dudard e Botard continuam com a conversa sobre o paquiderme e o gato esmagado. Uma das falas de Botard refere- se à raça do gato morto. Mais atual do que nunca no nosso século (p. 38):

Peço, desculpas, chefe, mas o senhor não pode negar que o racismo é um dos grandes erros deste século.

A discussão continua com patrão e empregados discutindo sobre a veracidade do caso. Passou ou não passou um rinoceronte? Teria sido uma alucinação coletiva? É possível ver o que não existe ou fazer com que não exista o que se vê? Parece que sim. Depende do interesse e da retórica do implicado em distorcer e levar “a verdade” para o seu campo. Os políticos sabem fazer bem isso, não? Talvez alguém que você conheça também seja assim. A “verdade”, parece, pode ser muito variada.

A história começa a ficar surreal, absurda e engraçada. Certeza que você vai dar umas boas risadas.

Muda o cenário novamente, agora na casa de Jean. Bérenger foi desculpar- se com o amigo por causa da discussão acalorada que tiveram sobre os chifres dos rinocerontes. Jean parece adoentado e a história sofre uma metamorfose bem kafkaniana.

É preciso restituir a base da nossa vida. Precisamos voltar à integridade primordial! (p.66)

O texto transforma- se num diálogo filosófico entre Bérenger e Jean e passa a ser uma grande crítica à sociedade da época, mas que cai como uma luva para a atual também. Parece que as boas virtudes falham em todas as épocas. A manada de rinocerontes começou a aparecer em todas as partes, gente que se rebelou com a ordem estabelecida, a metamorfose é uma mudança política. Um não à submissão e ao conformismo. Em muitas ocasiões só a metamorfose nos salva de certos absolutismos e imposições. Não é fácil ser diferente, os obstáculos são muitos, o desprezo também, mas às vezes é a única forma de redenção e encontro consigo mesmo e as nossas ideias e verdades.

Bérenger sofre uma crise existencial em seu monólogo final, quem está certo, afinal? Os homens ou os rinocerontes? O último homem tenta defender a raça humana. Está difícil!

Você pode baixar o PDF grátis no maravilhoso site Desvendando o Teatro, a biblioteca virtual deles é excelente. Não deixe de ver!

Resenha: “Casa de bonecas”, de Henrik Ibsen, baixe a obra grátis

Vamos agilizar nossas leituras? Acumulou tudo, não é? Então vamos, falta pouco para terminar o ano!

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Quem ama literatura não vai deixar de se emocionar com esse tesouro: o manuscrito original de “Casa de bonecas” (1879), do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen (Skien, 20/03/1828 – Oslo, 23/05/1906). Ibsen é o dramaturgo mais importante da Noruega, influenciou o teatro mundial, considerado o “pai do drama realista moderno”.

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Veja aqui o manuscrito de Ibsen, que era super organizado, caligrafia bonita, muito bom de apreciar (ainda que não saibamos norueguês)!

Vamos à resenha:

“Casa de Bonecas” é uma obra dramática escrita em três atos. Ibsen levou a realidade ao teatro, mostrando o cotidiano de uma família burguesa da época. A estreia dessa peça gerou muita polêmica, muita gente não gostou do espelho diante dos seus olhos. Ibsen foi crítico, corajoso e transgressor levando em conta a época em que foi escrita a obra.

Torvald Helmer, advogado

Nora, sua esposa,

Rank, médico

Senhora Linde

Krogstad, advogado

Os três filhos pequenos de Helmer

Anna- Maria, a babá

Helena, a criada

O Entregador

A ação no primeiro ato acontece na casa de Helmer, confortável, mas sem luxo. Helmer e Nora, casal que passa por problemas econômicos, mas tenta manter as aparências. Ela é uma mulher que vive para a casa e o marido; ele por sua vez, tenta recompensá- la com mimos e presentes. Nora é submissa e serviçal, impregnada no seu papel de dona-de-casa exemplar, sua conduta vai de acordo com a forma que a sociedade acha que deve ser. O marido a mantém confinada, sua vida social é totalmente controlada pelo marido e o dinheiro também. Nora não faz nada que desagrade ao marido, ele é a peça mais importante da família, todos são satélites que giram ao redor do homem, seus desejos são ordens. Acontece que Nora não é tão angelical como pode pensar o seu marido. Ela tem uma vida obscura, mentirosa e até delitiva, já que cometeu estelionato falsificando a assinatura do pai moribundo. Coisa inadmissível ao moralista Helmer Torvald, advogado e diretor de um banco, que inclusive culpa às mães pelos crimes futuros dos filhos. Fala com a mentirosa esposa, sem ter consciência de fato:

Helmer- Como advogado já vi isso muitas vezes, querida. Quase todos os jovens que se voltaram para o crime tiveram mães mentirosas. (p. 44)

A falta de liberdade, a opressão familiar e social geram a hipocrisia, a mentira…assim vivia Nora, mais vítima que carrasca numa sociedade completamente machista, assim encenou o polêmico Ibsen. A trama está centrada nisso, nos bastidores da vida, a verdadeira, o que há por trás das vidas aparentemente perfeitas.

A história continua excelente. Nora se rebela depois de um acontecimento importante. Ela descobre ser uma boneca, um objeto inanimado, primeiro na casa do pai, depois na casa do marido. Decide não brincar mais de casinha e descobre- se pessoa. Esse pensamento é libertador. Transporte o pensamento abaixo para o século XIX, em uma sociedade machista (p. 98):

Helmer– Antes de mais nada você é esposa e mãe.

Nora– Já não creio nisso. Creio que antes de mais nada sou um ser humano, tanto quanto você…ou pelo menos, devo tentar vir a sê- lo. Sei que a maioria lhe dará razão, Torvald, e que essas ideias também estão impressas nos livros. Eu porém já não posso pensar pelo que diz a maioria nem pelo que se imprime nos livros. Prefiro refletir sobre as coisas por mim mesma e tentar compreendê- las.

Em todos os tempos, e ainda hoje, existe imensa quantidade de mulheres que sacrificam- se diariamente muito mais que os homens. Renunciam mais, anulam- se, cumprem seus deveres de mãe, esposa, trabalhadora, dona-de-casa e o machismo impede de compartilhar tudo isso, de dividir o peso com o outro. A união de Torvald e Nora ainda tão corrente…quantos deles ainda entre nós? Quantos casais vivem em uniões de aparência e não em verdadeiros casamentos? Gente que não fala sobre coisas importantes, porque não poderiam suportar o peso das verdades. Casais que preferem levar o cotidiano só na base das superficialidades pelo nome de tudo: religião, filhos, sociedade, comodidade, mas esquecem do amor. Tenho certeza que você conhece algum casal assim, que mal pode conviver, mas por conveniências financeiras e sociais continuam amargando- se juntos. Nora não, Nora foi muito valente. Nora foi embora, deixou casa, marido e filhos. Possivelmente, Ibsen tenha sido o primeiro feminista da história!

Eu gostei muito dessa obra, porque o autor conseguiu ir de menos a mais, a tensão foi subindo, subindo e o final foi um BUM! A casa caiu!

Encene essa obra na sua escola, no centro social do seu bairro, na sua rua. Recomendo!

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Faça o download do livro “A casa de bonecas” grátis em PORTUGUÊS, em ESPANHOL, ou INGLÊS.