O dia em que eu aprendi a ler

Lembro exatamente do dia em que aprendi a ler, ou melhor: lembro do dia que descobri que sabia ler, porque a alfabetização é um processo. Você lembra quando percebeu que já sabia ler?

Eu devia ter seis anos. O trajeto de ônibus da Vila Mangalot até a Vila Mariana parecia não ter fim. O cheiro do diesel queimado, o sacolejo, a monotonia, me provocavam um grande mal estar. Depois de quase duas horas, chegava esverdeada na casa da tia Norma. “Vai brincar que passa”, minha mãe dizia. Ela tinha razão. A brincadeira com os meus primos (três e mais a minha irmã) distraía- me do enjoo, logo já estava correndo e aprontando.

Escola municipal nos anos 80 em São Paulo, obrigava as crianças a entrarem no pré- primário com seis anos completos. E como faço aniversário em agosto, no início do ano não me deixaram, porque tinha cinco. Tive que esperar um ano, completar seis em 1978,  e assim, ansiosíssima, entrar na escola. O uniforme, composto por uma camiseta branca, shorts, conga e boné vermelhos, além de uma sacolinha de pano azul com meu nome bordado pela minha mãe,  ficaram velhos de tanto que vesti antes de começarem as aulas.

Ir para a escola foi uma das maiores alegrias da minha vida. No primeiro dia de aula, eu não chorei, não pedi para minha mãe ficar, sentei numa das quatro cadeirinhas da mesa, disse tchau pra mãe e esqueci do mundo. Minha atenção era absoluta em tudo o que a professora, a tia Áurea, falava. Lembro do seu perfume, do seu rosto e do seu abraço. Ela era brava com os meninos, mas nunca gritou comigo, ao contrário, ela lembrava a minha mãe. Dos janelões da minha sala que ficava no alto, eu conseguia ver a minha casa. Eu me imaginava dando um pulo voador até o meu quintal. Desses mesmos janelões vi uma das coisas mais incríveis da minha curta vida: um eclipse solar. A noite engoliu o dia, alguns colegas começaram a chorar, outros a rir e eu pensei que era um ataque alienígena.

E assim eram os meus dias na escola, cheios de imaginação e descobertas. Em casa, eu era muito brincalhona e desordenada; na escola, eu era a seriedade em pessoa.

Minha irmã estudava na sala vizinha, ela era gigante. Quando eu passava com a fila pela porta da sua sala, sempre dava tchau e a via sorrir. Era muito legal ter uma irmã na quarta série.

A minha memória remota é fotográfica. Lembro de muitas tarefas que fazia com seis anos no Jairo Ramos. Uma folha de papel sulfite, um boneco desenhado e desmembrado e o cheiro de álcool. Primeiro, a pintura sem sair das linhas; depois, o recorte com a tesourinha sem pontas e logo, a cola branca para o boneco ganhar vida com seus membros no devido lugar. Meu amigo Rogério uma vez colou as pernas com os pés para dentro. Vi da minha mesa, avisei, mas já estava colado. Ele teve que entregar na mesa da professora e levou uma bronca. Lembra, Rogério? Rogério é meu amigo até hoje. Ele dançou comigo no São João e eu achava lindo aquele menino de olhos azuis. Como Deus conseguia pintar olhos coloridos e por que os meus eram pretos? Ficava intrigada. Os olhos dos meus bonecos sempre eram pintados de azul.

Na volta da casa da tia Norma, meu pai sempre ia nos buscar. Assim era muito mais legal, eu não ficava enjoada. Minha irmã e eu, íamos no bagageiro da Variant fazendo gestos para os carros que passavam. Quando algum motorista retribuía, a gente caía na gargalhada. Meu pai era muito engraçado, contava piadas e minha mãe soltava gargalhadas. A vida era doce.

Numa dessas voltas da Vila Mariana até Pirituba, comecei a prestar atenção nas placas dos comércios. Que estranho. Eu sabia o que diziam, pareciam um desenho, que eu olhava e já sabia o que dizia, não tinha que ficar juntando letras. O significado vinha, pum! Inteirinho. O meu espanto foi tão grande, que fiquei calada até comprovar. Li uma placa, mais outra e soltei um grito: “mãe, eu sei ler!”. Minha irmã duvidou e mandou eu ler mais coisas. Eu li tudinho. Um mundo inteiro se abriu, comecei a entender tudo nas ruas, completamente abismada. Fui lendo as placas até chegar em casa sem acreditar que tinha acontecido aquela coisa tão espetacular.

E essas são as fotos do ano em que eu aprendi a ler na escola. A festa de São João que eu dancei com Rogério e na formatura do prezinho. A tia Áurea me disse: “não se preocupa com o chapéu que não cai”. E foi assim, há 39 anos, quando eu descobri que sabia ler. Obrigada sempre, tia Áurea, e nesse Dia Internacional das Mulheres!

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Biblioburro

 O leitor interessado em desbravar o mundo da literatura sempre vai encontrar uma maneira, ainda que não tenha um tostão no bolso. Com um pouco de boa vontade, pode- se desenvolver projetos simples e maravilhosos como esse, Biblioburro- Biblioteca Rural Ambulante, desenvolvido na cidade La Glória, na Colômbia, por Luis Soriano. Esse trabalho de distribuição de livros na zona rural e periferia das cidades deveria ser feito pelos governos, mas sabemos que na América do Sul isso ainda é utopia.

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Um singelo burrinho carregado de livros doados fazendo a alegria de adultos e crianças. Bonito, não?!

Contos de Natal

Sim, criança tem que ganhar brinquedo no Natal, mas também deveria ganhar um livro. O resultado pode ser uma surpresa agradável, os livros agradam muito mais do que os pais podem imaginar. Livro é um mistério para os pequenos que eles querem desvendar, são lúdicos e divertidos. Os pais são os primeiros responsáveis, antes que a escola, de formar os pequenos grandes leitores. O exemplo e incentivo são fundamentais.

Quem sabe, entre a ceia, o amigo- secreto e a troca de presentes, exista um momento da noite ou do dia de Natal para reunir a criançada e ler um conto de Natal…que tal fazer um Natal um pouco diferente?

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Os contos, as lendas, as fábulas geralmente deixam mensagens para refletir, que emocionam, que nos fazem estar atentos às coisas fundamentais da vida, como o amor, o esforço pessoal, a retidão de caráter, a caridade e a solidariedade…os contos natalinos são escritos para educar, sonhar e ter esperança. Que tal ler ao menos um trecho de “Um conto de Natal”, de Charles Dickens, por exemplo?

Aqui deixo uma história de Natal da Turma da Mônica:

Feliz Natal!

O bilinguismo em crianças imigrantes

Há muitas opiniões e estudos científicos na Internet sobre o bilinguismo em crianças imigrantes com pais imigrantes.

No meu caso particular,  sempre falo com a minha filha em português (às vezes em espanhol) e dessa forma ela não adquiriu o idioma (ela nasceu e cresceu na Espanha): entende, mas não fala. O que me faz pensar que o ambiente é muito importante no processo de aquisição da linguagem; só eu como interlocutora não foi suficiente para que ela  desenvolvesse a língua portuguesa (versão brasileira). Confesso que não forcei e nem induzi o processo: ela me responde em espanhol e eu não a forço que fale em português. Talvez se o pai fosse também brasileiro, ela teria tido mais êxito na aquisição do idioma- é o que normalmente acontece.

Moramos durante seis meses (apenas) em Lisboa e a minha filha com seis anos  aprendeu a falar o português com um sotaque perfeito, com nenhum sinal ou acento espanhol.  Passados seis meses já em Madri,  ela não esqueceu o idioma luso e continua a falar como uma verdadeira portuguesinha com meus pais em Lisboa. Concluo que as crianças podem aprender perfeitamente o idioma de outro país, como a um nacional, sem interferir na sua língua materna. São compartimentos diferentes e totalmente compatíveis, onde elas abrem as gavetas conforme a necessidade. Comigo ela nunca falou em português, porque sabe que eu sei espanhol.

Há opiniões diversas, mas já não tão contraditórias sobre o assunto,  como a do jornalista conservador alemão que diz que crianças imigrantes cujos pais não falam alemão, terão resultados ruins na escola, porque não aprendem bem o alemão. Em contrapartida, um estudo italiano (está em alemão) conclui que as crianças que sabem mais de um idioma, têm um melhor desempenho escolar, pois aprendem mais fácil devido à uma rede de células criadas para os idiomas, que depois de criada, fica mais fácil aprender qualquer idioma. O artigo científico pode ser comprado aqui por 15 dólares.

Uma vez aberto esse “canal” cerebral a facilidade de adquirir idiomas é muito alta, independentemente do grau de inteligencia da crianças como aponta a diretora de um colégio belga no País Vasco, que diz que crianças com QI elevado ou baixo aprendem idiomas com a mesma facilidade; também existem crianças com QI elevado que não conseguem aprender outro idioma, portanto, a aprendizagem de idiomas não depende do nível de inteligencia, mas do processo e do meio, opinião essa já particular. Também acredito que a criança cujos pais não falam o idioma local, irão aprender na escola a língua independente de que seus pais falem ou não o idioma, discordando totalmente do jornalista alemão já citado.

Uma opinião unânime e incontestável é essa sobre a facilidade de aquisição de um segundo idioma nas crianças, como afirma esse artigo que cita um estudo do departamento de neurologia do Memorial Sloan de Nova York, onde afirma que as crianças possuem um “circuito virgem, com potencial infinito, capaz de memorizar dois idiomas de forma simultânea na mesma região cerebral num único circuito”, ao contrário dos adultos que precisamos acionar áreas diferentes do cérebro, guardar as informações para depois traduzi- las.

Portanto, as crianças imigrantes com pais imigrantes não só aprendem, como têm facilidade para aprender , sem nenhum prejuízo. E com o idioma aprendido (em torno de seis meses pela experiência citada com a minha filha) não há justificativa para ter um pior desempenho escolar. Os pais imigrantes podem ficar tranquilos que seus filhos irão aprender tranquilamente o idioma do país de acolhida.

 

O olhar do imigrante

O olhar do imigrante percebe as coisas totalmente diferentes dos locais. Tem coisas que sao naturais para eles, mas que para mim sao estranhas, esquisitas ou fora de lugar. Por exemplo…as maes espanholas têm o costume de dar o lanche pros filhos na porta da escola, quando a criança sai do portao. Tiram das suas bolsas sanduíches de salame, presunto e afins, frutas cortadas, biscoitos e sucos de caixinha, e os pequenos começam a comer ali mesmo, de pé, amontoados na calçada.

Sempre achei estranho e até engraçado isso. Por que nao vao para suas casas e comem sentados na mesa tranquilamente? Talvez porque suas maes o levem para os parques depois da escola. Mas aí penso…por que nao vao ao parque, sentam num banco para que seus filhos comam mais comodamente?

Hoje mesmo com o vento gelado, e todas na porta da escola ao invés de irem com suas crianças pra suas casas quentinhas.

Mas nao…elas estao ali exigindo que os filhos abram a boca e comam tudo o que trouxeram com uma urgência, como se as pobres crianças estivessem mortas de fome. Ou entao querem mostrar às amigas quem tem o lanche melhor. Nao sei…vai entender…