Resenha: “O que não me sai da lembrança”, de Antonio Miranda

Esta obra viajou do Brasil até Madri com uma curiosidade: meu tio é personagem neste livro de crônicas do baiano Antonio Miranda Fernandes (Baixa Grande, 21/11/1946). Antonio é multifacetado: ator, músico, redator, produtor de TV, publicitário e também foi bancário e soldado (serviu o Exército sendo militante de esquerda!). Tem uma companheira chamada Rosa, pai de quatro filhos e avô de três netos.

Antonio Miranda

A arte é bem feita, nota- se que houve uma preocupação estética. O livro é de memórias dos anos 60, 70 e 80, algo também contemporâneo, como a crônica “Quem vai à Roma ver o Papa passa por Veneza”, onde ele e sua Rosa pegaram um trem errado na Itália. Há cinquenta e uma histórias curtas e, como diz o subtítulo, ” Muitas verdades e algumas mentiras em desordem cronológica”. A mentira deve ter sido por conta do rato que botava gato pra correr na pensão da tia de Glauber Rocha. O resto deve ser tudo verdade.

Miranda cresceu em Feira de Santana, a mesma cidade onde vivi durante mais de 20 anos. O autor cita lugares, pessoas e ruas familiares, inclusive a que foi a minha última morada na cidade, a rua Castro Alves. Nos anos 60 nesta rua, um sujeito muito alegre que trabalhava numa casa de família, o Brás, foi preso por usar na rua a expressão com um jeitinho baiano de ser, “fudeno”. A repressão militar, que esperamos, nunca mais aconteça.

As recordações sobre a ditadura é o que mais me chamou atenção nesta obra. É essencial o testemunho de gente que viveu as consequências da ditadura e também para que se desmistifique a imagem negativa dos “comunistas” trabalhada com tanto êxito pela repressão e que vigora no imaginário popular até hoje. O Exército tinha o poder de fazer toda a propaganda negativa contra quem lutava pela democracia, pela justiça, pelo bem- estar de todos e a favor da liberdade.

Foi assim: em 1968, com o AL- 5 massacrando os brasileiros, os movimentos populares se manifestavam ocupando as ruas. (p.24)

O “Ato Institucional Número Cinco”, o AI-5, citado recentemente pelo filho do presidente da República do Brasil, o deputado Eduardo Bolsonaro, como “solução” caso a esquerda radicalize. O presidente o desautorizou e disse que o filho “está sonhando”. O AI- 5 derrubou a Constituição e criou dezessete preceitos duríssimos, onde o Exército começou a caçar, torturar e a matar sumariamente quem fosse contra o regime: jornalistas, artistas, políticos, estudantes, homens, mulheres e crianças, famílias, gente como eu e você. Inclusive o meu tio Normando Leão, que foi preso e torturado em Feira de Santana. Trabalhava na prefeitura de Feira de Santana, que foi tomada pelos militares na gestão de Francisco Pinto. Estudante e trabalhador! Mas, antes da prefeitura, o meu tio trabalhou na livraria “Lápis de Ouro” no centro de Feira de Santana, junto com o autor desta obra, seu primeiro emprego (p. 60-61):

Não vou colocar a crônica inteira por motivos óbvios, mas o final é inusitado.

Este vídeo sobre o AI- 5 é muito esclarecedor:

O fantasma da ditadura volta a rondar.

Miranda, jovem e militante de esquerda contra o Regime, participava de manifestações como em Salvador, no Largo de São Bento. A massa humana formava um escudo contra as balas:

“E de massinha em massinha, íamos todos escapando da polícia, sem deixar as palavras se perderem, mirando nosso público- alvo e escapando do tiro ao alvo dos homens que se diziam da Lei.” (p.25)

A crônica “Ocupação da Escola Teatro” conta como os atores, incluído Miranda e Margarida Ribeiro ( o teatro de Feira leva seu nome, está faltando um site), tiveram que fugir em Salvador por causa do AI- 5.

A solução no mundo civilizado é a palavra, a Constituição e o entendimento, os acordos entre diferentes. Não há outro caminho.

No entanto, as crônicas não falam só da repressão militar. Há memórias de amigos como Jaguar , Capinam ( eu também cortaria do poema “em dois”) e Millôr, do seu trabalho na Bahiatursa (Turismo), no IRDEB (Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia), sobre os bastidores da TVE e sobre quando trabalhou no Departamento de Cultura da prefeitura de Salvador e conheceu Zezé Mota e Marco Nanini. Também foi Secretário de Turismo e Cultura em Feira de Santana. E sobre a sua ida para Berkeley e do seu “fino” inglês, tudo com muito humor.

Brigitte Bardot, no auge da fama e com uma namorado brasileiro, instalou- se em Búzios e aderiu ao golpe militar. O que tinha de bonita, tinha (e tem) de pérfida. A fascista tem agora 85 anos e não se emendou, continua uma víbora. Declarou- se contra um movimento feminista, é racista e xenófoba, leia aqui (em espanhol). Ela é citada na página 38 e na música emblemática “Alegria, alegria”, de Caetano Veloso, adoro este vídeo:

Miranda conta que Caetano foi o primeiro cantor de trio- elétrico (1972), tirou a faixa de Moraes Moreira (1975). “(…) Caetano subiu ao Trio Tapajós e cantou “Chuva, suor e cerveja” (p.63)

Obrigada, Miranda, pelo livro corajoso (e bem humorado) em um momento necessário, onde há ameaças à nossa democracia! E grata pela simpática dedicatória, “tio”… e grata ao meu tio Normando pelo envio. Que livros assim inspirem outros a revelarem as verdades sobre um dos períodos mais tristes da história brasileira que não… não dá pra esquecer.

Miranda, Antonio Fernandes. O que não me sai do pensamento- Muitas verdades e algumas mentiras em desordem cronológica. Editora P55, Salvador, 2019. Páginas: 96

Escritura Criativa com Antônio Torres em Madri

Antônio Torres (Sátiro Dias, 1940) é o escritor da obra “Essa terra”, que está entre as cinco primeiras da minha lista de preferidas da literatura brasileira. Antônio Torres é simpático, acessível, mantém uma comunicação fluida com seus leitores, é um “cara” legal.

Hoje eu o conheci pessoalmente em Madri numa master class sobre escritura criativa, só havia eu de brasileira.

Algumas conclusões sobre o ofício da escritura:

  • Disciplina: a diferença entre duas pessoas que sonham em escrever um livro, uma que consegue e a outra não, é a constância e o trabalho. Bom ou ruim, publicando ou não, a pessoa disciplinada consegue chegar ao final. Há distrações demais e desconectar- se de todas não é tão fácil. É necessário despedir- se de tudo que tire a atenção do escritor.
  • Solidão: escrever é um ato solitário e que exige atenção total. É das poucas coisas na vida que não podem ser feitas junto com alguma outra. Escrever é enfrentar a solidão e dialogar com os próprios pensamentos e emoções. Mergulhar neste mundo interior de recordações e experiências nem sempre agradáveis pode ser desgastante, muita gente foge disto.
  • Escolhas: para escrever é preciso deixar de fazer alguma outra coisa. O tempo é curto e algo vai ter que ficar para trás.
  • Técnica: Antônio Torres acha que pode- se aprender a escrever (tal como pensamos a literatura, como Arte). Ele falou sobre o conflito que é o X da narrativa. E o conflito clássico por excelência é o relacionamento homem x mulher. E eu acrescento: ou homem x homem, ou mulher x mulher. O que se faz com isso já fica por conta do talento do escritor ou escritora. Torres acha que não há problema que um texto esteja inspirado em outro, que lembre outro. Essa é uma questão que concordo parcialmente. Quando lembra demais me parece uma grande falha do autor. Acho que a “originalidade” é uma grande virtude, a mais difícil de se conseguir. Dentro dos arquétipos clássicos, quem consegue contar a mesma coisa de uma forma “diferente” é rei ou rainha.
  • Musicalidade: Antônio Torres narra como quem compõe uma obra musical. Há que se observar o ritmo, a cadência das palavras.
  • Critério: escolher a palavra certa é uma tarefa hercúlea muitas vezes para o autor. James Joyce uma vez foi encontrado por seus amigos deitado na mesa da cozinha, preocupado: “hoje só escrevi cinco palavras e não sei em que ordem colocá- las”. O autor demorou sete anos para escrever Ulisses, hiper- crítico com seu trabalho. Saramago jamais escrevia mais de duas folhas por dia…enfim, a palavra é para ser escolhida com pinça cirúrgica.

Escrever é começar algo sem tempo certo para terminar. Isto provoca ansiedade em muito sonhador ou sonhadora, que desiste antes de começar.

Antônio Torres, Residencia de los Estudiantes, 29/10/2019 (foto: Fernanda Sampaio)

O evento aconteceu na “Residencia de los estudiantes“, um centro estudantil- cultural fundado em 1910 na cidade de Madri, no bairro Chamberí, com o objetivo de complementar o ensino universitário proporcionando interação entre artes e ciências, além da criação e difusão. Muitos intelectuais ilustres frequentaram a Residência, a prata da casa: Miguel de Unamuno, Alfonso Reyes, Manuel de Falla, Juan Ramón Jiménez, José Ortega y Gasset, Pedro Salinas, Blas Cabrera, Eugenio d’Ors ou Rafael Alberti, por exemplo, e também os visitantes: Albert Einstein, Paul Valéry, Marie Curie, Igor Stravinsky, John M. Keynes, Alexander Calder, Walter Gropius, Henri Bergson e Le Corbusier.

A Residência também é dormitório para estudantes. É um lugar bastante interessante, com gente também muito interessante e inspiradora.

Na próxima quinta- feira estarei lá e prometo tirar mais e melhores fotos para vocês sentirem o ambiente incrível do lugar.

Foi um prazer receber um baiano, um brasileiro para dar dicas sobre a arte literária na terra de Cervantes. Este tipo de brasileiro que nos orgulha aqui fora.

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Resenha: “Nós que apagamos a lua”, de Alana Freitas

Esta é uma obra especial, porque tem uma carga afetiva intrínseca: ela foi escrita por uma colega da Universidade Estadual de Feira de Santana. Daquela menina juveníssima, a mais precoce da sala, recordo a alegria, o companherismo, as intervenções sempre inteligentes e do seu comprometimento com o mundo das Letras. Agora, já doutora das Letras, professora de literatura na mesma casa que a acolheu como estudante, lança o seu primeiro livro de ficção, uma coletânea de vinte e uma crônicas. Possivelmente Alana sofra dessa doença “crônica”, como ela mesma define do seu texto de abertura (“Conceito crônico”, p.13). Depois da leitura de “Nós apagamos a lua”, cheguei à conclusão que este será o gênero que a definirá no panorama literário brasileiro. Alana deita e rola, é uma cronista nata.

Alana Freitas El Fahl

“Nós que apagamos a lua” começa a massagear a alma só pelo título tão poético. Cada crônica é antecedida por um aforismo.

No segundo texto, a cronista citou o professor de literatura Luiz Alberto, que podia ser considerado patrimônio da cidade de Feira de Santana. Professor de “segundo grau”, assim chamava- se o nosso Ensino Médio. Luiz Alberto foi a primeira pessoa que vi vestido com um sobretudo no sertão da Bahia, uma figura memorável e peculiar. Alana recorda suas expressões latinas, em especial “aurea mediocritas”, o prazer da vida média, sem sobressaltos. Um texto brilhante, “Gente média” (p.17)

Eu, expatriada há quinze anos, notei com saudade o jeito brasileiro (especialmente baiano) nos textos da Alana. O lado bom do nosso povo, esse de se fazer amizade em qualquer lugar, até no táxi (“Táxi ou Uber?”, p. 21). Na Espanha, vou ao mesmo endocrinologista há dez anos, com a frequência de até três vezes ao ano. Todas as vezes é como se ele me visse pela primeira vez. Eu posso citar centenas de situações assim. No Brasil isso não acontece, há proximidade, carinho e calor humano. O brasileiro é muito mais comunicativo, aberto ao outro, que europeus, até os latinos.

Na próxima crônica (“De passagem”, p. 25), com sua audição afiada, Alana conta as conversas de fila, de sala de espera, que são muito variadas, nem sempre construtivas. O brasileiro reclama de tudo, reclama do outro com certa hostilidade, com ar de fofoca, uma certa ignorância sobre assuntos importantes e até preconceito. Não deixa de ser divertido essa espontaneidade, com perdas e ganhos, vale a pena.

Alana fala sobre a amizade em “O tipo mais fino de amor” (p.31). Não posso estar mais de acordo, quando desinteressada e verdadeira, a amizade espontânea que se consolidada com o tempo e confiança, é o tipo de amor mais nobre e genuíno.

Um dos mais emotivos é “Juarez”, o doido da rua da autora. Ninguém é tão doido que não consiga amar, a ter apreço e respeito por alguém. O amor encontra brechas até na loucura (p.41). Cadê Juarez, Alana? O que foi dele?

Alana também faz confissões. Narrou magistralmente como a depressão chega e se instala. Um mal silencioso e que vai dominando com toques de culpa e questionamentos, a busca do “porquê?” (p.45). A própria vida já é motivo, não tem que existir um específico. Ela também conta sobre o câncer de tireóide que padeceu, esse “arqueiro cego” (p.59), que nos amedronta a todos, pessoalmente e pelos que amamos. Quem está na luta, que seja breve, e que você saia forte, com muitos aprendizados e muita força para continuar a jornada.

Quem me conhece sabe que uma das minhas características principais é a sinceridade. Apesar de Alana ser uma velha amiga, eu fiz uma leitura imparcial. Leitura é coisa séria. Eu jamais indicaria um livro ruim por “amiguismo”. E este eu indico sem reservas, podem abusar. É muito bom!

Alana, eu te daria um longo abraço por este presente lindo em forma de crônicas. Te conheci mais e te abracei no final de cada texto. Como disse Flávia Aninger no pósfacio: “Toda leitura é oportunidade de encontro”, nos encontramos sim.

Que a vida te presenteie com muitas jujubas vermelhas (p.73) e que nós, mulheres multitarefas que “apagamos a lua” todos os dias, possamos descansar também, que possamos desfrutar do crepúsculo, sem pressa, sem estresse, com uma boa taça de café ou vinho, observar o anoitecer, enquanto eles preparam o jantar. Que o tempo nos seja gentil!

El Fahl, Alana Freitas. Nós que apagamos a lua, Zarte, Feira de Santana, 2018.

Este livro está sendo um sucesso, já teve uma reimpressão. Você pode pedi- lo escrevendo para a editora Zarte: zartegraf@gmail.com ou mandando uma mensagem ao WhatsApp: (71) 99116-6034

Alana escreve sobre novelas no blog “Entretelas”, lá você pode entrar em contato com a autora (clica).

Resenha: “Uma furtiva lágrima”, de Nélida Piñón

Este é um dos melhores livros escritos em português. “Uma furtiva lágrima”, de Nélida Piñón é comparável ao “Livro do desassossego”, de Fernando Pessoa.

Narrar é prova de amor. O amor cobra declarações, testemunho do que sente. Fala da desesperada medida humana. Como amar sem os vizinhos saberem? Sem tornar pública a paixão que alberga os corpos na penumbra do quarto? (“Prova de amor, p.71)

Nélida Piñón passou um ano em Lisboa e acabou de voltar ao Rio de Janeiro neste mês de março de 2019. Nélida publicou este livro em terras lusas. Uma obra emotiva e transparente. Ela tem outros livros com teor biográfico, mas este é o mais íntimo e revelador.

A antologia consta de 146 textos (se não contei mal), com temáticas bastante diversas. Nélida narra em primeira pessoa, “Falar em primeira pessoa requer audácia” (“Sou múltipla”, p.197). E generosidade, completo. Nélida contou- se nesse livro. E contou a história dos seus ancestrais. Acredito nisto também, que somos multidão, carregamos na memória dos nossos gens, todos os que nos antecederam, além de carregar todas as leituras que fizemos. Ela mesma nos convida a vê- la sem véus, “vejam- me como sou” (“Eternidade”, p.97).

Nélida fala da sua infância no Rio de Janeiro, sua terra natal citada muitas vezes, dos passeios que fazia com a tia Teresa pelo centro do Rio. Teatro, cinema, o lanche na Americana. O sabor de um Rio de Janeiro mágico (em “A primeira vida”, p. 63).

“Uma furtiva lágrima” é uma aula magna sobre literatura. Nélida conta- nos sobre a sua profissão. Leia “Meu ofício” (p.18).

“Não há poesia na Morte” (p.19).

Concordo, a morte é dor. Nélida, no final de 2015, recebeu uma sentença de morte, “de seis meses a um ano”. O oncologista a sentenciou antes mesmo dos exames definitivos. Nélida pensou em escrever um diário, um resumo do seu final. Dá para entender o motivo da força deste livro, a autora acreditava que estava nos seus últimos dias, despedia- se da vida. Ela recebeu consolo dos seus dois cachorrinhos, Suzy e o falecido Gravetinho, sua paixão, seu “amuleto” (p.71), citado várias vezes. Esta obra é dedicada a ele. Nélida “contava os dias”, os que acreditava últimos. E pouca gente soube. Graças a Deus, o médico estava errado.

Viajamos com Nélida. Viagens “reais” a países e cidades; e viagens até os mitos gregos. O rastro de todas as suas leituras nos deixa uma rica bibliografia a ser anotada. “A imaginação é razão de viver.” (p.22)

A família é um assunto importante neste livro. E foi justamente um texto sobre este tema que me fez desmanchar, literalmente, em lágrimas. Eu li, reli, li de novo, e se ler agora outra vez, será pranto. É lindo, verdadeiro, mexeu com as minhas mais profundas emoções. Esta beleza chama- se “Estatuto do amor” (p.25).

Nélida é descendente de espanhóis. Em “Minhas quimeras (p.80), a autora declara o seu amor ao Brasil e reivindica suas raízes “recentes”, como qualificou no seu discurso da Academia Brasileira de Letras. No entanto, aqui meio que arrependida, talvez, finca seu pé no Brasil, terra de seus plenos direitos:

(…) Brasil agora é meu naufrágio, minha salvação, meu amor. E as raízes que brotam de qualquer rincão do país aninham- se igualmente no meu peito. E falo dele agora sem sanções, adquiri todos os direitos. Sou tão arcaica quanto quem aqui esteve no albor desta terra. (“A civilização do mundo”, p.92)

Por certo: Clarice e Nélida eram amigas. Clarice é citada nesta obra também, ela gostava de se olhar no espelho, tal como Lygia Fagundes, outra amiga de Nélida. (p.78).

Nélida fala sobre muitos outros autores. Machado de Assis, autores estrangeiros, e de João Cabral de Melo Neto (que morou na Espanha), disse que o autor de “Morte e vida severina”(clica), era “peculiar, que odiava música” (p.58); conta sobre a confissão de Carlos Heitor Cony (clica), que jamais havia amado tanto alguém como a sua cachorra Mila e ela a ele (p.60).

“Uma furtiva lágrima” será publicado no Brasil em abril pela Record:

A mais recente obra de Nélida Piñón (2019) publicada em Portugal.

Nélida fala da Bíblia, que a “deleita”. Fala no seu sentido narrativo e como ela inspira o escritor moderno (p.86). Cita Eclesiastes e Machado, que dominava estes textos. Sobre religião, Nélida declara- se “às vezes panteísta” (p.88). Eu também, só que sempre. Acho que é a definição perfeita de como sinto a vida.

Nossa melhor escritora brasileira perdeu bastante visão. Isso eu já sabia por ela mesma, mas agora contou em “Olhos” (p.167). A autora teme não poder ler nem escrever, que são a sua vida. Deus queira que isto não chegue a acontecer.

Nélida Piñón em Madri (Palace Hotel), no dia 25/11/2017. (foto: Fernanda Sampaio)

Depois de ler esta obra, estou com um livro sobre mitos gregos na cabeceira para reavivar a memória; esta, que também é mito representado pela deusa Mnemósine. A memória prodigiosa de Nélida Piñón a caracteriza, embora ela tenha dito num texto que “a memória é frágil”. (p.126). Que seria dos humanos, sobretudo se são autores, sem a memória?

A arte narrativa, além de avaliar o que foi pretérito e hoje é presente, perpetua a fala da alma, restaura a crença no que há por trás da harmonia e da discórdia. (p.71)

A obra pode ser lida sem ordem, os textos são independentes. Eu me apaixonei por muitos, li e reli, porque me seduziram completamente. Fazia tempo que eu não sentia pena ao acabar um livro.

Não esqueça que esta obra será lançada no Brasil no próximo mês de abril. Anota na sua lista, este você precisa ter, garanto que você vai gostar.

Nesta obra há muitos outros tesouros, alguns eu quero guardar só para mim. Encontre os seus também. Boa leitura!


PDF grátis: “Felicidade clandestina”, de Clarice Lispector

Nesta obra, “Felicidade clandestina”, de Clarice Lispector, que você pode baixar gratuitamente aqui, há um dos melhores contos da literatura brasileira: “Felicidade clandestina”, que deu nome ao livro.

Clarice Lispector

Que felicidade ter um livro querido e desejado nas mãos, não é? A menina do conto, talvez a voz da menina Clarice, sentiu essa “felicidade clandestina” ao conseguir o livro de sua “algoz”. Não deixe de ler!

Poesia concreta brasileira

O Concretismo no Brasil “impôs- se” em 1956, segundo Alfredo Bosi. Antes disso, em 1952, surgiu uma antologia “Noigrandes”, composta por Haroldo Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari, creio que os escritores mais importantes e, digamos, “puros” nesse gênero, pois desenharam uma poesia carregada de significados, poesia pra ver. Veja alguns exemplos:

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Essa é uma das minhas preferidas, de Décio Pinatari. Vai continuar tomando Coca- Cola?!décio

Essa também é de Décio Pignatari:

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A leitura de poesia concreta é diferente da poesia convencional, porque a forma é muito importante. As palavras soltas no espaço têm muito mais liberdade artística e de significado. Elas podem ser lidas de baixo pra cima, do meio pro final, de trás para frente, não têm uma ordem, os versos podem ser livres, fixos, sem rimas, com rimas, não têm sistema definido. O leitor é convidado à anarquia, à rebelião e é um sujeito muito ativo no processo leitor, na construção de significados. A forma do poema antecede a leitura convencional. O leitor pode até parar por aí, se quiser, só na forma do poema. Os modernistas vieram para isto, para quebrar esquemas, ritmos, leituras, tradições, destruir e recriar  algo novo, diferente.

Referência bibliográfica: Bosi, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira, Cultrix, 36ª ed., SP, 1994.

Por que o Falando em Literatura existe?

No início do ano fui convidada pelo produtor do programa “Trilha de Letras” da TV Brasil para divulgar o Falando em Literatura.

Mandei um vídeo, envergonhada, avisando sobre a minha incapacidade de produzir vídeos legais e que o dispensassem se não servisse. Não entrou no ar até agora e acho que não vai entrar, porque é muito ruim mesmo…hahaha! Então, posto aqui pra vocês o meu fracasso como videomaker.

Vídeo no Falando em Literatura

Ah, aproveita e se inscreva no canal 🙂