“Você vai voltar ao Brasil?”

Esta é uma das perguntas mais recorrentes: “você vai voltar ao Brasil?”.

Confesso: durante muitos anos não fui uma imigrante convicta. Todos os dias pensava em voltar, vivia mergulhada em uma incômoda melancolia, que fazia com que eu não acabasse de aterrissar na Espanha. Percebi que me boicotava inconscientemente. Fazia coisas que me impediam de criar raízes, atitude adotada desde coisas mais simples às mais profundas.

Quando comprava roupas, por exemplo, pensava: “esta serve para o Brasil, vou comprar!”. Evitava acumular coisas que não pudessem ser levadas; evitava decorar a casa com objetos e móveis de valor, já que “logo” teriam que ser deixados para trás; evitava entrar em cursos longos; não queria tentar trabalhos que me dessem estabilidade (concursos públicos, por exemplo), porque “vai que dá certo e eu nunca mais saio daqui”. A minha mente andou nublada e negativa por muito tempo.

“Esse dá pra usar no Brasil?”

Comecei a odiar a Espanha e os espanhóis. Tudo me incomodava. Eu não queria que desse certo, queria ter motivos para ir embora. Mas não foi só minha culpa. Muita coisa deu errado mesmo, o que reforçava o meu pensamento de que estava no lugar errado. As coisas não deslanchavam. A minha aura negativa atraía coisas negativas, é uma lei natural, e isso derivou em muito sofrimento e choros diários.

Eu pensava que meu coração tinha ficado no Brasil e nada mais importava. Dizem que “o nosso lar é onde o nosso coração está”. Isto não é correto, como a maioria destas frases de efeito.

Comecei a entender que não era o lugar, era eu. O meu coração está em mim, não nos lugares. Eu posso amar de onde estiver, o amor é infinito e não precisa de endereço. Se eu estava infeliz na Espanha, possivelmente estaria no Brasil também. A gente tem que saber encontrar a paz no meio da guerra, fictícia ou não. Se você está infeliz no Brasil e pensa em imigrar dessa forma, cuidado. Os problemas não desaparecem com uma mudança, eles irão contigo. Seja feliz onde estiver.

O meu desejo foi ficando cada vez mais enfraquecido, debilitado, por diversos acontecimentos alheios a mim. Tive que me conformar. E nisto, fui procurando acalmar o meu coração e encontrar alternativas. Mas isto fica para outro post.

No show de Milton Nascimento no verão passado no jardim botânico da Universidad Complutense de Madrid. Eu nunca tinha assistido Milton no Brasil. Foi emocionante!

E quanto à pergunta inicial: não, por enquanto não há planos para voltar. Talvez, quando estiver aposentada, passarei os meus dias numa ilha da Bahia. Quem sabe? Estamos todos só de passagem.

Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria

Como eu vim parar na Espanha

Eu nunca pretendi sair do Brasil, mesmo com um pai estrangeiro. Depois do acidente (1996), o medo de viajar, ainda que de carro ou ônibus, impediam- me de conhecer o meu próprio país. Viagem internacional era impensável!

No entanto, tudo mudou inesperadamente. Eu não acreditava em destino. Hoje, acredito que é impossível fugir do que nos foi destinado. Há algo muito importante que escapa das nossas possibilidades e que não temos controle. Podemos interferir momentaneamente com a força do nosso livre- arbítrio, mas é só isto. No final, eu viajei ( e viajo) muito! Viagens nacionais e internacionais.

Aos 29 anos, eu tinha um emprego público seguro, outros dois em cursos pré- vestibular, uma casa paga, carro, estava fazendo uma pós- graduação e tinha começado a procurar um apartamento na praia. Morava sozinha, era independente, tinha amigos e uma vida plena e divertida. Minha família morava perto, o que me provocava um conforto emocional, que eu não era capaz de renunciar. O que fez tudo mudar assim tão bruscamente?!

O amor…mas isto fica para outro post.

Bem- vindas, bem- vindos! O meu nome é Fernanda, nasci em São Paulo em 1972, de pai português e mãe baiana, casada com o Toni há 18 anos e mãe da Laura. Moro na Espanha há 17 anos.

No De Passagem, eu vou contar as minhas experiências de imigrante. As minhas e a dos que me antecederam, mas não só: quero tratar o tema da imigração com dados reais, de forma mais séria. Quantos brasileiros vêm e voltam? O que os impulsa a sair do país? Do que sobrevivem? Encontram o que procuravam? A natureza humana é nômade? E a questão da identidade? Como a imigração afeta psicologicamente as pessoas? Compensa ser imigrante?

Irei tentar responder a estas e outras questões.

Da esquerda, no alto: minha avó Nize (brasileira), meus pais Ana (brasileira) e Fernando (português), minha bisavó Durvalina (brasileira), meu avô Joaquim (português); abaixo, esquerda: vô Zeca (brasileiro), Toni (espanhol) e eu (hispano- luso- brasileira), meu bisavô Custódio (português) e minha vó Esmeraldina (portuguesa).

A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos. (Fernando Pessoa)

E você, está de passagem comprada para onde?

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Resenha: “Liberação”, de Luis Goytisolo

Começo contando uma historinha: na Feira do Livro de Madri de 2014, pensei encontrar uma fila quilométrica no estande de Luis Goytisolo Gay (Barcelona, 17/03/1935), afinal, é um dos expoentes da literatura na Espanha, membro da Real Academia Española, desde 1994, é o Proust espanhol. Goytisolo escreveu o prolixo “Antagonía”, são mais de 1000 páginas de luxuosa narrativa. Quando cheguei no seu estande, estranhei:  o autor estava sozinho. Contei sobre a minha surpresa e ele respondeu: “nunca vou ser um escritor popular”. Concordo. Literatura artística, bem elaborada, infelizmente, nunca será popular. Quase sessenta anos de excelente literatura e não havia ninguém na fila!

Já que estávamos sozinhos, aproveitei para pedir que autografasse vários livros , o que fez com toda a gentileza e simpatia:

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Luis Goytisolo, Feira do Livro de Madri, 2014. Foto: Fernanda Sampaio

Luis pertence à uma família literária. Seus dois irmãos também são escritores, José (poeta) e Juan (narrativa), este último, premiadíssimo, inclusive recebeu o Príncipe de Astúrias. Juan Goytisolo, infelizmente, faleceu em junho deste ano.

Goytisolo
Fernanda Sampaio e Luis Goytisolo na Feira do Livro 2014. Foto: Antonio Jiménez

A impressão que tive de Luis Goytisolo é que nunca vai envelhecer, tem o espírito jovem.

O meu exemplar com dedicatória:

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Saiba mais detalhes do meu encontro com Luis Goytisolo, aqui.

A obra

Como “Liberación” não está editado em português, uso “Liberação” (2014), ao pé da letra, mas poderia ser também “Libertação”. Este é o antepenúltimo livro de Luis Goytisolo, o mais recente é de 2016, “El atasco y demás fábulas ” (“O bloqueio e demais fábulas”). A sua primeira obra publicada é de 1958, “Las afueras”, ( “Os arredores”, algo como “A periferia”).

“Liberação” está dividido em nove capítulos numerados, com subcapítulos titulados. O primeiro capítulo possui nove histórias (aparentemente) independentes, a primeira: “Resumo do ano” (p.13), encontrei logo de cara umas linhas duras, lembrou- me o naturalismo de Aluísio de Azevedo. O protagonista chama- se Ricardo, é casado com Magda. A família tem uma casa de campo chamada “A Nogueira”. Ele fala da tosse incômoda dos pedestres exalando bacilos.

A  demolição de um edifício vai liberar o espaço, não só de uma edificação em ruínas, mas de tudo o que está implícito nele, “(…) eflúvios cuja carga de miséria, enfermidade, sofrimento e desgraça institui- se contagiosa, assim a inquietação do ser humano ante qualquer decidida revisão de seu passado individual ou coletivo que deixe descoberta a realidade mais profunda, mas irrevogável.” 

O narrador, em primeira pessoa, vai comparando esse edifício com uma tosse perniciosa, com a morte. Edifícios e móveis antigos, de antiquários, herdados, o provocam a mesma repulsa. De certa forma, o protagonista acredita que nestas coisas velhas ficam impregnadas energias dos donos. E ele pensa sobre pais e filhos:

Que sabem os filhos dos seus pais, de como eram antes de ser pais? E dos filhos, tanto mais desconhecidos quanto mais crescem? (p.15)

A segunda história é bem curtinha, “Vista da aldeia desde A Mola”. O ambiente do livro é a Espanha rural. “A Mola” é uma fazenda que fica em Vallfranca. O narrador faz uma crítica aos donos das fazendas, que são proprietários, mas não têm conhecimento sobre o campo, uma tendência pós- guerra.

Na terceira história, “Águas turvas”, Carlos sonha com águas turvas, fica com uma impressão ruim durante o dia todo. Começa a relacionar o sonho com a vida e suas recordações, principalmente com Áurea (falecida). Um capítulo embalado pela música de Strauss, “Marcha Radetzky”. É um texto sobre a dúvida, uma possível infidelidade ao estilo Capitu e Bentinho.

A quarta, “Nata“, é um apanhado de personagens e gírias grosseiras, são jovens violentos e marginais. Diferente dos anteriores, a narrativa acontece na cidade, parece um bairro popular e periférico.

“O monte da alegria” é a quinta história (p.27). Quando as pessoas estão muito agoniadas sobem ao monte e voltam de lá renovadas.

(…) Aos humanos nos acontece como as plantações, que degeneramos. A terra pode perder substância, mas deixe- a descansar e ela se recupera sozinha. As plantações, em troca, se não têm semente nova, degeneram. Pode ser boa terra, que você não vai colher nada. A planta perdeu perdeu sua capacidade de assimilar. Como nós.  (p.29)

“Desolação” é a sexta história, a de duas moças, Cati e Yolanda. Um texto realmente desolador, mas que para uma boa parte dos jovens, hoje, pode ser visto com naturalidade: a extrema falta de pudor, a liberação sexual que toca a perversão. A banalidade sexual.

Até “Desolação”, todos os textos parecem independentes, sem conexão entre as histórias e personagens. Em “A Marcha Radetzky” e “O interlocutor”, as últimas do primeiro capítulo, ressurgem personagens citados anteriormente e como a vida deles se cruzam. Neles, a colcha de retalhos é costurada e tudo faz sentido. O escritor optou pela escrita indutiva, partiu do particular para o geral. Goytisolo resume o capítulo falando da libertação de repressões. A Espanha ficou muitos anos submetida a um regime ditatorial, onde nada podia, e depois disso, veio o oposto.

O segundo capítulo é composto por seis histórias. A primeira, “Revistas”, acontece num aeroporto e quem a conta é Carlos, que aguarda para embarcar e observa um jovem ser revistado. O rapaz recorda a ele quando jovem e relembra uma experiência de sexo homossexual que nunca contou à Áurea.

Em “O obscuro e o transparente”, revela um lugar muito especial do povoado, que acontece um fenômeno estranho: no “Bosque do Pensamento”, as palavras surgem claras, como uma revelação.

Voltam os personagens jovens do subúrbio em “Mastuerzo” (é uma árvore). Eles têm uns nomes bem “estranhos”:”Cosca”, “Joderas” (apelidos escrachados). A linguagem volta vulgar, cheia de gírias, a língua das ruas dos subúrbios marginais. Os rapazes comportam- se com uma total falta de empatia e respeito ao outro.

E ainda “A terceira maravilha”, o narrador volta a contar sobre a fazenda “La Mola” e sobre quem eram os seus donos. “Primeiro do ano” é o encontro de dois casais que já apareceram antes: Carlos e Áurea, e Ricardo e Magda. Os homens foram colegas de colégio e o reencontro não foi agradável. O tempo transforma as relações em outra coisa nem sempre esperada e desejada. O trecho é contado sob a visão de Ricardo.

Já em “O bobo da vez”, sob o olhar de Carlos, ele vai contando os efeitos do tempo, não só no físico quanto na mente:

A pegajosa inércia das coisas, o mundo circundante, o próprio corpo, tudo como impondo resistência, colocando obstáculos, ou simplesmente aderindo ao modo de rêmora, como algas e moluscos que se instalam e proliferam no casco de uma nave até imobilizá- la. Uma análise de sangue e umas ecografias dentro da normalidade não anulam as fraturas da idade, a decadência física,  as manias (…) (p.58)

E Carlos fala sobre a “mania” de andar pelo meio da rua, para livrar- se da água dos vasos de plantas e também de uma coisa que me irrita muito, um costume forte na Península Ibérica:

(…) por temor que alguma dissimulada dona-de-casa sacudisse durante a sua passagem alguma toalha, algum lençol ou, o que é pior, algum tapete de quarto, com toda sua carga de germes patógenos”. (p.59)

Carlos comenta sobre a morte de Magda e Ricardo. Essa obra é cheia de enigmas, um quebra- cabeças.

O III Capítulo é formado por quatro histórias: “Latidos e dentes”, que fala sobre Vallfranca, o narrador compara o povoado antes e depois da guerra. A comodidade nem sempre traz felicidade. Durante a guerra (civil espanhola) as famílias eram mais unidas, dormiam num só quarto, e hoje, têm até banheiro com jacuzzi, mas sofrem de tédio. Será por falta de metas e objetivos? Há ainda  “Resignação”,O excêntrico” e “Projeto de ano- novo”.

Para evitar uma resenha infinita, decidi não contar mais capítulo por capítulo e já ir finalizando. A obra tem a estrutura original, são várias histórias paralelas, que discorrem aparentemente sem conexão, até que os personagens vão se entrecruzando. O personagem mais profundo é Carlos, seu final é surpreendente e triste.

A obra deixa uma sensação bastante verossímil do “jeito espanhol” de hoje e de ontem, várias gerações, há recuos históricos e personagens contemporâneos. Personagens de várias camadas sociais e diferentes idades, da zona urbana e rural, suas angústias e solidões. E a violência, que também há, infelizmente. O fim da guerra gerou liberdade, que, em grande parte, não soube ser bem aproveitada pelos cidadãos espanhóis. O que fazer com tanta liberdade? Parece que muitos ficaram perdidos e perderam a medida.

Este livro ainda não está editado em português. Quem sabe estou plantando uma sementinha. Se algum editor do Brasil ou qualquer país lusófono chegar por aqui, anote esse nome: Luis Goytisolo.

Se você está no Brasil, Portugal, Angola, Goa ou Moçambique e lê em espanhol, pode comprar “Liberación” em e-book aqui. E você que está na Espanha pode comprá- lo nas melhores livrarias do país.

goytisolo (1)  Goytisolo, Luis. Liberación, Siruela, Espanha, 2014. Páginas: 190