A biblioteca dos Templários, Ponferrada, Espanha

Há lugares no mundo que parecem mágicos, acabados de sair dos livros de contos de fadas ou dos filmes, mas que são reais, eles existem. Um desses lugares é o Castelo dos Templários em Ponferrada, Espanha.

IMG_7109  O castelo é uma fortaleza construída no século XV por D. Pedro Álvarez de Osório, Conde de Lemos. Há um castelo anterior em ruínas, do século XI, no mesmo terreno. A cidade era dominada pela “Ordem do Templo”, quando a Igreja tinha muito, mas muito poder. Ao redor do castelo formou- se uma vila romana.

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Dentro do Castelo há uma biblioteca muito especial com uma exposição chamada “Templum Libri” (“Templo do Livro” em latim) com alguns dos livros mais belos da história, que até pouco tempo estavam ocultos, pertenciam à coleções privadas, estavam em monastérios, universidades e museus. Primeiramente, tais livros só podiam ser apreciados pela igreja e realeza, a nobreza e a burguesia, quem os tinha, detinha o poder, o conhecimento.

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A maioria deles são códices e manuscritos com temáticas religiosas, ciências físicas e humanas, livros impressos ilustrados com grande valor artístico. A exposição é composta por fac-símiles (cópias idênticas às originais, costuma- se fazer quando são livros muito importantes, raros e de valor histórico) de livros, principalmente bíblias, de todo o território europeu.
IMG_7153O térreo da biblioteca:

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A coleção de bíblias é imensa, preciso de um post só para falar delas:

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A paixão pelo livro: o livro como portador de conhecimentos e obra de arte constitui uma das contribuições mais notáveis criadas pelo ser humano, o melhor da nossa herança cultural e intelectual.IMG_7292

Esses fac- símiles colocam diante dos nossos olhos um passado longínquo, que nos faz conhecer mais sobre nós mesmos como humanidade.11873484_504999292988969_4228809097412228199_n“O livro das horas”, de Medici Rothschild. Final do século XV, Inglaterra.IMG_7397

Os Cavaleiros Templários faziam parte de uma ordem militar religiosa medieval muito poderosa. Lutavam para defender e ganhar territórios.

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Libri nostri sunt. (“Os livros são nossos”). Vamos desfrutá- los!


Endereço:

 Avda. del Castillo s/n – 24400 Ponferrada- Espanha

http://www.ponferrada.org

Sete anos do Falando em Literatura na Feira do Livro de Madri

O nosso Falando em Literatura começou há 7 anos com o nome de “A última flor do Lácio”. Surgiu como um blog para os meus alunos de português na Espanha, para que eles praticassem o nosso idioma. Depois transformou- se, mudou o nome, e continuou como blog literário. Para a fugacidade dos nossos tempos,  nós estamos persistindo há 2555 dias, mais fortes e animados do que nunca!

A cada ano, o número de leitores vai aumentando. Diariamente, tendo ou não post novo, cerca de 1000 pessoas passam por aqui, no mínimo. Por mês, são mais de 30 mil pessoas. Parece pouco? Mas não está nada mal para um blog literário ( com literatura de qualidade) e sem patrocínio, sem choramingar por leitores, sem spam. Eu não retribuo as visitas de ninguém ( não tenho tempo, mas respondo todos os comentários), quem vem, chega aqui porque quer, sem esperar nada em troca (a não ser a troca de ideias). Trabalho com liberdade, quando e como quero, lendo só o que tenho vontade, sem a imposição de livrarias e/ou editoras. Houve um tempo em que fiz parceria com a Editora Planeta, mas não gostei, achei que não valia a pena, desisti no primeiro mês. “Liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que aos homens deram os céus” (Miguel de Cervantes, em Dom Quixote”).

A comemoração hoje foi na Feira do Livro de Madri, que vai até o dia 16 de junho. Veja algumas fotos:

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A Feira abre às 11:00h. Cheguei 40 minutos antes e foi o tempo que levei para chegar no final dos stands. Com a feira vazia pude observar detalhes impossíveis de perceber quando está lotada.
DSC_0053Reparem na boa fé dos expositores. As cargas de livros chegam cedo e ficam esperando nas ruas do parque ou na frente dos stands sem nenhuma vigilância. A minha cabeça de brasileira pensou logo, “no Brasil não ficaria um!”. Pena, não é?

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As caixinhas esperando seu dono chegar. Stand de “comics”, que são as histórias em quadrinhos no Brasil ou banda desenhada em Portugal. Um mercado cada vez mais interessante, que pretendo conhecer mais profundamente em breve.

DSC_0063 As bibliotecas da cidade de Madri têm quase 3 milhões de sócios. Você faz a carteirinha e pode pegar livros em qualquer uma delas.

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Só na cidade de Madri existem 47 bibliotecas públicas. Juntando com as do estado são 202 bibliotecas. Fantástico!

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A TVE, a rede de televisão pública do país, esquentando os motores.

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Não posso deixar de citar essa presença deliciosa na Feira, meu sorvete preferido, o Ben & Jerry’s de baunilha! hahahaDSC_0072

O editor da Léeme, uma editora jovem e muito bacana, com livros atuais, divertidos, bem acabados. Em outro post vou falar das minhas aquisições e dos presentes que deu-me José, esse rapaz simpaticíssimo e que faz um trabalho fantástico atrás do balcão. Em breve (será que breve mesmo?! hahaha) resenhas de três obras dessa editora legal. Um dos livros da Léeme tem o Sócrates na capa:

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Depois eu conto tudo, tudo, tudo!

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Outra simpática editora, a Marian. Ela é da Editora Nevsky, alguns livros têm as capas lindíssimas, depois eu mostro os que trouxe, muito especiais. Os títulos são ótimos, vou virar freguesa. A especialidade deles é a literatura russa.

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As pessoas começando a chegar.

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Olha o livro da Nádia, a primeira biógrafa da Clarice, livro que ajudou demais os pesquisadores. Tradução espanhola!DSC_0076

Livro polêmico do escritor austríaco que foi para o Brasil fugindo do nazismo e acabou suicidando- se com a esposa no Rio de Janeiro, pois pensavam que o nazismo iria dominar o mundo. Tenho muita curiosidade para ler esse livro, está na mão!

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Esse livro eu não conhecia, fiquei curiosa. Roberto Arlt, um argentino com uma obra vasta, falecido em 1942 aos 42 anos, jovem. Vou voltar pra comprar esse depois.


Eu tenho muitaaaas novidades da Feira, vou parar, senão o post vai ficar imenso. Voltarei em breve!

Continuamos sonhando com um mundo de leitores, onde o mal e as guerras só acontecem na ficção. V’ambora, sonhadores! A literatura salva.

O livro que vai mudar a sua vida

Primeiro: vença a preguiça e a ideia de que “não gosta de ler”. Todo benefício exige um mínimo de esforço e vontade. Se você não gosta do que está recebendo e não faz nada, tudo vai continuar igual. Pensamento e ação!

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Os livros são muito inspiradores e cheios de ideias que podem servir para você, podem indicar caminhos, despertar a sua criatividade e a sua vontade de desenvolver coisas, projetos, sonhos. Eles podem te dar a certeza do rumo que você quer dar à sua existência. Quem sabe, lendo Stephen Hawking, você descobre que quer cientista, físico e tentar descobrir os mistérios do Universo…ou lendo Fernando Pessoa descobre no mais profundo da sua alma que é  poeta; ou com Sigmund Freud, seria ele a despertar algo mágico em você? “Quero ser psicanalista!”. Ou qualquer obra que não tenha relação direta com nenhuma profissão: às vezes uma frase, um acontecimento, uma memória, podem mudar o seu “destino”. Mas se você não ler estará desperdiçando essa forma tão viável de descobrir, “de se encontrar”, de perceber aonde é o seu lugar no mundo.

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Já leu alguma obra que mexeu contigo, que mudou algo na sua vida?

Abra um livro. Você pode estar ali: dentro dele.

A sala dos livros mortos, de Ignácio Loyola de Brandão

O jornalista e escritor Ignácio Loyola de Brandão (Araraquara, SP, 31 de julho de 1936) é um craque! Sou fã dos seus textos, suas crônicas. A partir de agora quero ler e estudar mais profundamente a sua obra.5918438899_689c1dc64b_zFoto: Nelson Toledo

Uma biblioteca com livros esquecidos, mutilados. Há pessoas que usam livros públicos e os riscam, sujam, arrancam páginas. Usuários de bibliotecas públicas deveriam aprender a respeitar e a amar os livros.  Nessa biblioteca, os livros que não foram lidos por 5 anos e os livros incompletos iam para a sala dos livros mortos:

A sala dos livros mortos

No seu primeiro dia como funcionária daquela biblioteca pública, Ana Lygia foi levada pela diretora para conhecer o prédio. Subiram e desceram escadas, o elevador há muito tinha sido desativado por falta de verba de manutenção, por sorte eram apenas três andares, mais o porão. Secretaria, diretoria e salas e salas repletas de livros em estantes de metal, uma pequena sala de convívio, uma saleta para os jornais. Existia até uma quantidade razoável de volumes, ainda que o acervo estivesse desatualizado em relação à atual literatura brasileira. Quanto à mundial, a atualização era sentida pelos best-sellers, por aqueles que tinham sido os mais vendidos nas revistas semanais. Finalmente, desceram ao porão, havia montes de caixas com doações de livros ainda em fase de estudos, o que valia e o que não valia a pena, porque os doadores em geral entregam à biblioteca o que não querem em casa e o que ninguém quer e não presta para nada.

 Duas saletas com material de limpeza e uma sala com porta de ferro, trancada.

– E aqui?

 – Ninguém entra. É a sala dos mortos.

– Mortos?

– Sim, a sala dos livros retirados de circulação.

 – Retiram? E qual o critério?

– Se em cinco anos ninguém retirou o livro, ele é descartado do mundo dos livros vivos.

– E ficam aqui? Quanto tempo?

– Para sempre.

– Não podem ser doados a outras bibliotecas, ao público? Avisam: quem quiser livros venha buscar? Assim talvez continuem vivos!

 – A lei não permite. É um bem público. Pertence ao patrimônio. É a situação mais complicada que existe, porque a burocracia impede essa doação, é preciso montar um processo jurídico e, como todo processo jurídico, se eterniza. Nem vale a pena, o melhor é esquecer.

 – Posso ver a sala?

– Melhor não entrar. Aliás, tem um problema, a chave foi perdida, para mandar fazer outra monta-se um processo administrativo.

 – Talvez tenha livros interessantes que eu queira ler.

 – Não adianta, a lei diz que devemos inutilizar. Quando o livro vem para cá, tem uma determinada página arrancada, ou duas, uma do começo, outra do final.

 Leitora desde a infância, Ana Lygia lembrou-se do Barba-Azul e do famoso cômodo no qual suas esposas não podiam entrar e quando entravam eram assassinadas. Sua curiosidade aumentou. Ela começou a trabalhar e meses mais tarde foi designada para um plantão de domingo, uma experiência nova. Aconteceu de ser dia chuvoso e ninguém foi à biblioteca. Ana Lygia lembrou-se da sala dos mortos, desceu, experimentou, trancada. Subiu, perguntou a uma auxiliar se sabia onde estava a chave, ela apontou para uma gaveta, disse que ali havia umas cem chaves, talvez fosse uma delas. Ana Lygia colocou-as em uma caixa e desceu. Começou a experimentar uma a uma.

 Algumas ela descartou pelo tamanho, outras entravam, não giravam, ela não forçava, com medo de quebrar. Exercício de paciência. Também, ela não tinha nada a fazer. Finalmente, a chave 83 funcionou. Veio de dentro um cheiro abafado de mofo e umidade, ela abriu totalmente a porta, esperou. Procurou o interruptor e uma luz amarelada inundou o cômodo de fantasmas. Havia pilhas de livros amontoados até o teto. E, em volta, junto à parede, uma coleção de extintores de incêndio. Contou 35, cada um de um modelo, percebeu que alguns eram velhos, outros pré-históricos. Poderiam ser alinhados em um museu, ali estava a evolução dos extintores, os mais antigos enormes, desajeitados, para manobrar aquilo seriam necessárias duas pessoas.

Havia ainda relógios de ponto, alguns estapafúrdios, palavra que ela associou à idade do equipamento. Também fariam o encanto do velho Dimas de Melo Pimenta, um ícone da relojoaria nesta cidade. Ela experimentou mexer nas alavancas, umas travadas pela ferrugem, outras funcionaram com um ruído seco. Quantos teriam sido pontuais, quantos o relógio teria punido? Gostava de imaginar coisas assim, afinal, havia um quê de ficcionista dentro dela, daí sua paixão pelos livros e por ter escolhido a profissão. Ana Lygia percorreu aquele porão empoeirado contemplando escovas, vassouras, rodos, baldes furados, panos de chão podres, latas de cera, tubos de desinfetantes, detergentes, latas com pedacinhos de sabão, escovões. Nossa, há quantas décadas o escovão desapareceu da cena doméstica, quem ainda encera a casa? Tudo que devia ser descartado, porém era impossível, tratava-se de patrimônio.

Afinal, dedicou-se aos livros. Estendeu a mão, curiosa, puxou um. A Menina Morta, de Cornélio Penna. Puxa, esqueceram o Cornélio? Ninguém o leu por cinco anos? Foi folheando, livro grosso, talvez isso tenha assustado. Lendo. De repente percebeu a página arrancada. Apanhou outro livro, A Montanha Mágica, de Thomas Mann. EJosé de Alencar, Lúcio Cardoso, Ibiapaba Martins, Osman Lins, Mário Donato (puxa, fez tanto sucesso nos anos 50), José Geraldo Vieira, John dos Passos, Romain Gary, Malcolm Lowry, Oscar Wilde, Maria Alice Barroso. Todos mutilados. Apanhou um deles, escondeu debaixo da blusa. Levou para casa. Na biblioteca de um amigo encontrou um exemplar completo, digitou a página faltante, colou dentro do volume doente. A cada semana, leva um embora, recupera. Ela imagina que em alguns anos terá recuperado todos. Leva para bibliotecas comunitárias, existem várias. A simples idéia de ver um livro reciclado, ou queimado, a deixa doente.

Mais fácil comprar outro? Sim. Mas e o prazer de salvar um livro?

(Fonte: O Estado de São Paulo – Sexta-Feira, 04 de Julho de 2008)

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