Resenha: “O Buda dos subúrbios”, de Hanif Kureishi

Um dos melhores livros lidos este ano: “O Buda dos subúrbios”, obra clássica contemporânea do inglês Hanif Kureishi. Eu já li outros dois livros do autor “A última palavra” e “Intimidade”, sugiro que você coloque este autor na sua lista de leituras, ele é MUITO bom!

Eu tive a oportunidade de estar pessoalmente com Hanif numa visita sua à Madri no Dia Mundial do Livro, em 2015.

Hanif Kureishi em Madri, 2015. Foto: Fernanda Sampaio

Kureishi é de ascendência paquistanesa e o “Buda dos subúrbios” parece misturar- se com sua própria vida: uma família anglo- paquistanesa que vive num subúrbio de Londres. Os filhos nasceram em Londres, o pai é do Paquistão e a mãe é inglesa. O filho mais velho é o narrador e personagem principal. O jovem é britânico, mas é visto por muitos nativos como imigrante, “o moreninho”, inclusive no dentista, a secretária comenta com o dentista se ele saberia inglês. Para os brancos, a norma é eles. Esta obra foi escrita em 1990, mas está ambientada nos anos 70.

O racismo na Europa continua vivo, vivíssimo, e isto reflete- se na literatura. A imigração nunca foi o principal problema da Europa, mas os fascistas enfatizam isto, pois é próprio da sua natureza racista e xenófoba. O problema da Europa é a corrupção e as barreiras ao pluralismo.

De tempos em tempos, ressurge a ultra- direita, como o Bolsonaro no Brasil e o partido Vox na Espanha (que ficou em terceiro lugar na última eleição presidencial, em 10/11/2019) ou ainda a Marine Le Pein, na França dando voz a uma horda cruel e daninha movida pelo ódio.

Hanif colocou seu personagem em várias situações de racismo, como quando foi visitar uma moça e seu pai o expulsou por sua cor, cena chocante, mas que para Karin faz parte do seu cotidiano (em espanhol):

Karim foi visitar uma menina que conheceu na casa de Eva e seu pai o expulsou, porque não gosta de “negros”.

Há muitas cenas racistas vividas pelos personagens de etnia indiana, mas não só: o autor abordou também o machismo da cultura, o casamento arranjado e a violência contra a mulher.

A história acontece nos anos 70 e conta a vida como ela é, sem nenhum tabu e ou dramatismo. O narrador- personagem, o filho do “Buda”, Karim Amir, tira sarro de tudo, acha a melhor política. Ele é jovem e está na fase de descobrimentos, sexo com homens e mulheres, drogas (má decisão em qualquer época), roupas extravagantes e rock and roll.

Rir com um livro é fantástico e eu dei gargalhadas várias vezes, um grande feito do autor, fazer rir é a coisa mais difícil.

O pai paquistanês, Harry (adotou um nome inglês, seu nome indiano é Haroon) é um personagem muito curioso. Um sujeito que tira proveito da sua ingenuidade ( o que é uma contradição, nem tão inocente), tem uma amante com um só seio (teve câncer), é funcionário público e infeliz com seu trabalho, não lhe interessa o dinheiro, busca a paz interior. É muçulmano, mas não pratica e se apaixona pela filosofia do budismo. Vive lendo livros, meditando, fazendo yoga e começa a ensinar suas práticas em sessões na casa de Eva. O filho Karim os vê transando no jardim e o pai o vê masturbando- se com o filho de Eva, Charles. Ambos guardam o segredo, os dois com o “telhado de vidro”. Este livro revela as entranhas, o esqueleto das famílias aparentemente “normais”. Em muitos casos, o que se vê é o ditado pela moral religiosa, mas o que acontece na realidade é bem diferente.

O budismo ensinou a Harry deixar- se levar. Ele não reprime desejos e vontades, faz o que mandam os seus sentimentos. Segue o fluxo natural, o que o seu corpo pede. Caramba, que corajosas são as pessoas assim, não é? São livres, mas liberdade custa e não é pra todo mundo. Harry não é livre. Ele é apaixonado por Eva, mas não deixa a esposa e filhos. Prefere sofrer, que provocar sofrimento nos demais, mas o sacrifício não vai durar muito.

Meu exemplar autografado

A mãe de Karim é muito infeliz. A típica dona- de- casa e trabalhadora esgotada (trabalha numa sapataria para pagar a escola do filho mais novo) a ponto de explodir. Ela sacrifica- se pela família, mas não tem nenhum reconhecimento, enquanto o marido é cuca- fresca e sai pelo bairro “alegrando” as vizinhas, mas não consegue fazer feliz a esposa. A inglesa também sente- se discriminada entre a comunidade indiana-paquistanesa. Ela sabe que o marido a trai, mas prefere engolir o orgulho para manter a sua família junta.

O tempo todo eu torci para que ela abandonasse a família ingrata e que caísse no mundo em busca de sua felicidade. Ainda que não a encontrasse, seria melhor do que a vida leva. Veja como entrei na história, até quis interferir na vida da personagem. Isto porque não entramos no pensamento da mulher, só vivenciamos o sofrimento dele. Não sei de que lado ficaria, faltou a versão dela.

Há uma outra parte bem interessante, que é a descrição da geografia da cidade e suas características e também da cultura pop dos anos 70. Vi que a minha cultura musical não é tão boa como pensava: conheci com este livro bandas e cantores como Wild Man Fisher, Captain Beefheart, Traffic, The Faces, Emerson e Soft Machine, por exemplo. Coloca algum som desses de fundo, que te teletransportará direto aos anos 70.

A tradição dos pubs é muito forte no Reino Unido (e na República da Irlanda). Karim cita um que funciona até hoje, o The Chatterton Arms. Se você olhar o Facebook do bar, verá um vídeo com dois caras rapando a cabeça a zero. E também poderão ler uma qualificação negativa de uma moça que disse ter sido maltratada e expulsa do pub com seu grupo de amigos, um deles gay, o que só corrobora com a história do livro, de que, ainda hoje, o subúrbio de Browley em Londres é uma lugar perigoso.

Eu demorei mais do que o esperado em terminar este livro, porque interrompi a leitura muitas vezes. Ficava curiosa e ia conferir as referências. A cultura geral que a leitura nos traz e a maravilha da Internet que nos permite visitar virtualmente tudo que lemos. Ser escritor hoje em dia exige muito mais cuidado e rigor, já que tudo pode ser checado.

A família e suas relações são o centro da narrativa. E família é coisa que dói:

“(…) os psicólogos londrinos aconselhavam que a pessoa vivesse a vida à sua maneira, apesar da família, se não quisesse ficar louca.”(p.85)

O autor aborda vários assuntos universais e preocupantes através do seu personagem Karim: a homofobia, a pederastia e o bullying. Um professor de Karim o chamava de “marica”, mas o sentava em suas pernas e lhe fazia cócegas. Karim voltava da escola cuspido e sujo das coisas que lhe jogavam, fora os insultos racistas. O livro tem uma parte cômica, mas também outra muito triste. O narrador- personagem conta que um professor de artesanato teve um ataque cardíaco, porque um aluno neo- fascista colocou o genital de outro aluno num torno e começou a girar a manivela. Pesado. E que os fascistas lhe obrigavam a cantar hinos, urinavam nos seus sapatos e que um deles lhe marcou o braço com um ferro em brasa, como se faz com gado. Ele agradecia quando conseguia chegar em casa sem nenhuma ferida grave. Inglaterra, década de 70. A ficção imita a realidade, acredite.

Esta obra não é aborrecida em nenhum momento. É muito cinematográfica, é fácil imaginar os cenários e pessoas. Inclusive foi feita uma série na BBC com esta obra. Adivinha quem fez a trilha sonora? O grande David Bowie. O artista também é citado na obra (p.92), ele estudou na mesma escola de Karim, quando ainda chamava- se “David Jones”. Havia uma foto coletiva num corredor da escola e os alunos que sonhavam em ser estrelas de rock se ajoelhavam diante da foto e rezavam.

Veja aqui um trecho da série que passou na BBC2 em 1993:

The Buddha of Suburbia

E aqui a música The Buddha of Suburbia com o inesquecível David Bowie, com várias cenas da série:

Há também muitas referências literárias. Karim adorava chá e andar de bicicleta, que usava como meio de transporte. Passou de bike em frente à casa do escritor londrinense H.G. Wells (1866-1946), que nasceu na Bromley High Street (p. 87), autor de obras como “A máquina do tempo”, “A Ilha do Dr. Moreau” e a “A guerra dos mundos”, por exemplo. Londres é uma cidade fascinante, em todos os lugares encontramos casas de gente artistas incríveis. Talvez seja a minha cidade favorita de todas que conheci até hoje, isso com a visão de turista, para morar é outra história, e menos idílica.

Na página 88, há uma referência aos brasileiros: “A gente do nosso bairro era fanática por compras. Comprar era para eles o que é cantar e dançar samba para os brasileiros.” Pois é, realmente…o brasileiro anda sambando mais do que nunca.

Do amor não há como fugir, adiar, porque isso gera muito sofrimento aos apaixonados. O amor é urgente e torna gigantes os implicados, conseguem saltar qualquer barreira. E assim foi com Harry e Eva. Ambos casados e romperam com seus respectivos para ficarem juntos. Karim foi morar com eles e Helen levou o filho mais novo.

Quase todos os personagens gostam de livros. A literatura está incorporada na vida deles. Quem dera fosse assim também na vida de todo mundo na realidade (como é na minha). Gostaria que fosse corriqueiro, por exemplo, em uma reunião de amigos, alguém que tirasse um livro da bolsa e começasse a ler para todos um verso ou trecho incrível de alguma obra que está lendo no momento, sem que ninguém achasse estranho ou aborrecido. Charlie, o filho de Eva, faz isto. Tira um livro de poemas e começa a ler nos momentos mais inusitados.

A obra tem duas partes, a primeira acontece nos subúrbios (finaliza na página 158) e a segunda em Londres. Eva, Harry e Karim mudam para West Kensington atrás de uma vida mais emocionante e menos racista. Nos anos 70, West Kensington era eminentemente um bairro de imigrantes (assim ainda é assim, aliás, Londres inteira).

A segunda parte foca mais na carreira de ator de Karim, os bastidores e sua relação com Eleanor, uma moça com problemas psicológicos, pois havia perdido o namorado, também ator, por causa de um suicídio. O rapaz era das Antilhas, muito bonito e talentoso, “na realidade melhor do que muitos”, mas as portas não se abriam por causa da sua cor, ele só conseguia papéis de figuração:

“A polícia o levava cada dois por três e lhe submetia a interrogatórios tormentosos. Os táxis nunca paravam pra ele. Lhes diziam que não havia mesas vazias nos restaurantes.” (p.259)

Há também promiscuidade. A cena mais forte acontece na casa do dono da companhia de teatro onde trabalha karim e Eleanor. Pyke e Marlene, casal de meia idade, de certa forma impõem ao jovem casal sexo a quatro. Karim leu nas entrelinhas, que se não o fizesse poderia correr o risco de perder o seu papel na companhia. Mas também não foi problema, o casalzinho é bastante liberal. Parece que nos anos 70, antes da descoberta do vírus HIV, muita gente era….paz, amor e sexo livre era o lema dos hippies.

Citado na obra, na página 163, Gandhi morou num quarto neste bairro, na 20 Barons Court Road. E o vocalista da melhor banda do mundo, Freddie Mercury, também morou em West Kensington num apartamento na 100 Holland Road, W14, além do poeta Nobel de Literatura, W. B. Yeats. Ele morou com a família em Edith Villas.

Edifício em West Kensington, onde morou Freddie Mercury quando era casado com Mary Austin

Eva era a que tinha dinheiro. Ela comprou uma casa de três quartos de uma polaca, parecida com esta (foto acima) que Freddie morou. Nos últimos quinze anos, a casa tinha sido alugada para estudantes e estava bastante estragada. Um pardieiro para Harry. No subúrbio a casa deles era muito melhor. West Kensington fica ao lado do caríssimo Kensington, bairro que Freddie Mercury mudou depois de rico para uma casa chamada Garden Lodge. Depois da sua morte, a casa ficou para sua ex- esposa e amiga, Mary Austin. Voltando para a ficção, Eva reformou a casa, que virou um palacete e teve até festa de inauguração.

Karim, que viajava à deriva, conseguiu encontrar um caminho, o teatro. Só que seu primeiro papel foi de Mowgli, o menino lobo. No ocidente é comum a falta de papéis importantes para atores orientais e africanos, que não sejam algo muito específico, o que não é aceitável numa sociedade multirracial. O papel de Mowgli lhe foi dado por seu aspecto indiano e lhe pediram que falasse com o sotaque deste país, sendo que ele é inglês e nunca havia estado na Índia.

E a questão da desigualdade, da luta de classes, da opressão trabalhadora engole seus ideais para trabalhar, porque quem os emprega são os que têm o poder. Esses que herdam facilidades, que rodam em círculos de gente influente e que têm a facilidade e acesso a lugares que o filho do pobre não pisa, onde tudo lhe é favorável, mas ainda por cima acreditam ter algum mérito. Não têm.

É maravilhoso quando se termina a leitura de um livro com pena. Ele tem mil referências que me fizeram consultar bastantes coisas, muito rico culturalmente, além de questionar assuntos que nos preocupam como: o racismo….

(…) Trata de proteger- te do teu destino, de ser mestiço na Inglaterra. Para ti deve ser difícil de aceitar…não pertencer à nenhum lugar. E também o racismo. (p.182)

…e ainda, as drogas, o machismo na forma de opressão e violência contra as mulheres, a liberdade pessoal contra a moral religiosa, a repressão e violência contra os homossexuais, a falta de perspectivas da juventude e a relação entre pais e filhos. Depois de muito tempo sem se falarem, karim viu seus pais conversarem na estreia da sua peça:

A primeira coisa que me ocorreu ao ver- los é o pequeninos e tímidos que pareciam papai e mamãe, o muito frágil e envelhecidos que estavam e o pouco natural que parecia a distância que os separavam. Você passa a vida toda pensando em seus pais como monstros opressores e protetores que tudo podem e, de repente, um dia volta e lhes pega desprevenidos e o resultado é que não são mais que pessoas frágeis e apreensivas que tratam de sair adiante o melhor que podem. (p. 293/294)

E a questão da identidade: Karim reflete no enterro de Anwar, pai de Jamila, que morreu de um enfarto ao ver o marido da filha, Changez, em plena transa com uma prostituta japonesa. Jamila e Changez viviam separados, Jamila só fingiu o casamento imposto pelo seu pai, que mantinha o costume da Índia dos casamentos arranjados. Pode haver um conflito interior muito grande quando culturas se misturam e brigam entre si, veja:

Agora, ao olhar a todos aqueles seres desconhecidos- os indianos-, me dei conta de que em certo modo eram minha gente, ainda que tivesse passado a vida tratando de negar e ignorar. Me sentia envergonhado e vazio ao mesmo tempo, como se me faltasse metade do meu corpo, como se estivesse conspirando com meus inimigos, esses brancos que queriam que os índios fossem como eles. (p. 273)

Os orientais e africanos, principalmente, podem sofrer um choque cultural grande ao vir para o Ocidente. Aos ocidentais pode ser um símbolo de opressão machista o lenço muçulmano, por exemplo, mas muitas não sentem assim. O respeito é o fundamento de tudo. Não sou a favor de proibir o lenço como cogita- se em alguns países europeus, como na França. As pessoas não têm que deixar de ser quem são para agradar o Ocidente. Será que não é possível uma convivência pacífica e enriquecedora? Tenho certeza que sim. Cristãos, judeus, islamistas, ateus, budistas, hinduístas, espíritas podem e devem conviver em harmonia e com a possibilidade de uns aprenderem com os outros. Eu creio nisto, a Babel é aqui.

(…) para alcançar a verdadeira liberdade, havia que livrar- se primeiro de todas as amargurar e ressentimentos. Como seria isto possível se todos os dias se geravam novas amarguras e ressentimentos? (p. 292)

Esta é uma obra valente que mostra o outro lado de uma Inglaterra que, para muitos ingleses, não interessa mostrar. Bravo, Kureishi, pela coragem! Desconstrói a ideia de uma Inglaterra acolhedora, multicultural e integradora. E ainda há muito a ser feito.

Os novos europeus, às quais eu me incluo, às vezes não temos histórias bonitas que contar. Eu sou branca, mas já sofri ataques xenófobos em Lisboa, Barcelona e Madri, já me mandaram de volta ao Brasil algumas vezes. E já vi outros sofrerem. A Europa não é o paraíso idealizado por muitos brasileiros. A forma de combater a xenofobia e o racismo? Não se calar, combater, brigar. Não se pode aceitar e normalizar o inaceitável. A Europa é nossa também. O purismo de raças de Hitler deveria ter morrido com ele, com Salazar, Franco e Mussolini. Deveria, mas sobrevive ainda no ano de 2019. Veja este ataque racista num ônibus de Madri neste mês a uma mulher de etnia latina. Tristemente, constatei que aconteceu na linha do bairro que morei durante 10 anos. Muita coisa acontece, mas não há um vídeo para provar. Tal como no Brasil, os fascistas estão perdendo a vergonha de mostrar- se. Polícia neles! O energúmeno xingou a moça, a mandou “para o seu país”, ela respondeu que “aqui é o meu país”, e o sujeito começou a começou a esmurrá- la. Ela que desceu do ônibus. Quando acontece qualquer conflito, como uma disputa por um banco no ônibus, a primeira coisa que atacam é em relação à nossa origem.

O fascismo vive no coração de muitas pessoas, a semente do mal não para de brotar.

O final do livro foi o que menos eu gostei. Pareceu final de novela da Globo, onde no último dia tudo se resolve e acaba em festa, em final feliz. Mais ou menos isto. Embora a última frase tenha sido excelente.

Entrou para os meus favoritos. Recomendadíssimo! A edição lida e um pedaço a minha biblioteca:

Kureishi, Hanif, El buda de los subúrbios, Anagrama, Barcelona, 1994. Páginas: 336

E disse o sábio Buda do Subúrbio:

– Creio que a felicidade só é possível se nos deixarmos guiar pelos nossos sentimentos, nossa intuição e nossos desejos verdadeiros. Se a pessoa age empurrada pelo sentido de dever, a obrigação, o sentimento de culpa e o desejo de contentar os demais, só consegue a infelicidade. (p.102)

Buscar a felicidade antes que seja tarde. A vida tem algum sentido, se não?

Tesouros da “British Library” (vídeo).

A Biblioteca Britânica é uma verdadeira joia da humanidade, ela é a guardiã de tesouros de valor incalculável. Nela há manuscritos de todas as épocas, de todos os povos, de todas as disciplinas. Eu estive passeando na biblioteca, sofri Síndrome de Stendhal, chorei na frente de originais de escritores, que jamais pensei que iria ter a oportunidade de ver. Você que é apaixonado por literatura como eu, vai entender.

Nem dá pra citar todos, impossível, mas digo que vi a letra do próprio punho de vários escritores e gênios das artes, literatura, música,  como Dostoievski, Proust, Tolstoi, George Orwell, Freud, Leonardo da Vinci, Mozart, Stefan Zweig, etc…

shakesEdição de “Orlando Furioso”, de Shakespeare, de 1591. (British Library)

Se você não pode, por enquanto, conhecer em pessoa essa biblioteca incrível, pode consultar vários textos no site, clica aqui.

Não gravei muito, porque como disse, estava extasiada, fora que não permitem gravar dentro da sala dos tesouros. Mas veja o videozinho aqui, clica e inscreva- se no canal! 🙂

Blindness and Insight: The Meaning of Form in F.S. Flint’s Malady, by Elton Uliana

 

Blindness and Insight: The Meaning of Form in F.S. Flint’s Malady

flint

 

 

Frank Stuart Flint (London, 19 December 1885 – Berkshire, 28 February 1960)

Malady (F.S. Flint)

I MOVE:

perhaps I have wakened;

this is a bed;

this is a room;

and there is light . . .

 

Darkness!

 

Have I performed

the dozen acts or so

that make me the man

men see?

 

The door opens,

and on the landing —

quiet!

I can see nothing: the pain, the weariness!

 

Stairs, banisters, a handrail:

all indistinguishable.

One step farther down or up,

and why?

But up is harder. Down!

Down to this white blur;

it gives before me.

 

Me?

 

I extend all ways:

I fit into the walls and they pull me.

 

Light?

 

Light! I know it is light.

 

Stillness, and then,

something moves:

green, oh green, dazzling lightning!

And joy! this is my room;

there are my books, there the piano,

there the last bar I wrote,

there the last line,

and oh the sunlight!

 

A parrot screeches.


F.S. Flint’s Malady is the archetypical Imagist poem.[1] The poem urges its readers to visualize objective images but Flint’s radical principles of clarity, cadence and exactness powerfully suggest a blinding, disorientating subjective condition. In the early twentieth century just the same kind of ontological anxiety, alongside an irreverent crisis in artistic representation took the form of Modernism. In this context, the pragmatic question of what kind of event is really happening in Malady is inseparable from Flint’s shifting contrast between objective binary oppositions, from the poet’s ‘unrhymed cadence’ technique and from the graphic image of the poem on the page.[2] This study will analyze Malady to elucidate the assertion that the Imagist paradigm the poem represents is inextricably aligned with the shared aesthetics of Modernist narrative. I shall argue that Malady is a kind of phenomenology of language, one in which the meaning of the words in the poem is closely bound up with the image and the experience of them. In addition, I will suggest that the blindness of the speaker is a metaphor for the blindness of the modern human subject where dissolubility and fragmentation are part its aesthetic.

Malady signals a development in poetic perspective. If its true that the poem rejects verbal inventiveness, ‘nearly-exact’ or ‘decorative words’, it is also true that it tersely draws attention to this fact.[3] It does so by continuously posting signifiers that refer unambiguously to material objects, making the poem strikingly visual and forcing the reader to ‘ideate’ such visions in the imagination: ‘this is a bed;/this is a room; and there is light…/Darkness!’, (lines 3-6).[4] The poet depicts external objects in an astonishingly compacted manner and by repeatedly questioning their stability in relation to the speaker and to their binary oppositions (‘But up is harder. Down!’, line 19), the author engraves the subjective experience of this ‘man’ (who ‘is ill and cannot see’) at extraordinary length in the mind of the reader.[5] This powerful imagist effect is enhanced with a combination of language precision, emphatic punctuation and sharp line breaks. The poem’s self-conscious sculpturedness not only allows for, but also imposes pause, silence and mental elaboration. In addition, the words are direct and emotionally blank, which fuelled by a circumspection of thought become a kind of emotional response in itself, increasing thereby the destabilizing, dizzying effect: ‘Stairs, banisters, a handrail:/ all indistinguishable.’ (lines 15-16). As a result, the speaker’s vertiginous perplexity becomes palpable and strikingly visible.

These formal innovations extend also to prosody. Like end-rhymes, regular metre is peculiar to most poetry which preceded Flint’s generation. These are precisely the features that Malady rejects. Instead, the images are compressed into short lines of distinctive syllabic count: ‘I move: / perhaps I have wakened; /this is a bed;/ this is a room;/ and there is light . . .’ (line 1-5). The iambic foot with which the second line begins echoes the metrical rhythm of the opening line and this pattern operates to mutually reinforce the mood of both lines. Perhaps the reader would be expecting after that some kind of regularity, something like a rising, bouncing iambic rhythm. But being undisputedly of a Modernist strand, the poem is not bound to regularity.  Significantly, the pattern is broken in the third line where a sudden rhythmic modulation occurs.  The stress falls from the second syllable (‘I move’ and ‘perhaps’) to the first syllable ‘this’, a strategy which in turn, is reproduced in the following line, thus generating another kind of regularity, one that will be equally displaced subsequently. By diverting the rhythm of the language from its anticipated course the poet arguably infuses the words with new content and function.  Indeed, in my view, he invites the reader to participate in the composition by generating his or her own personal pauses, inflection and intonation. It becomes then plausible to suggest that these cumulative verbal effects endow the straightforward scenario depicted with dizzying emotional color. Notably, Flint’s poetic method is structured in Imagist concerns with expressing ‘new moods’ by figuring out new prosodic relations.[6]

This new method has another nuance. With an insightful brushstroke Flint subjects the space described, a universally ordinary bedroom (in the sense that it could be anyone’s bedroom) to a powerful transformation.  In replacing a few words (‘a’ bed, ‘a’ room – lines 3,4, by ‘my’ room, ‘my’ books – lines 30,31), the meaning radically changes and the space becomes distinguishably personal, the speaker’s own recognizable bedroom. This semantic shift is performed with a grammatical one: the substitution of the impersonal indefinite articles by definite personal ones. Indeed, this aesthetic denouement has the overpowering effect of changing the psychological landscape of the speaker from painful to peaceful.

There is an abiding paradox operating in the poem: this is the fact that Flint makes ubiquitous, forceful and artificial use of conventional punctuation and in making these typographical signs so promptly conspicuous, the poet highlights the very artifice that the Imagists wish to clear poetry from.[7] With the exception of the third stanza, which is a four-line sentence with three enjambments, every other line of the poem is a strictly independent clause terminated by an emphatic punctuation mark (reticent only in line 5, ‘and there is light…’). For a critic like T.S. Eliot, speaking about poetry in general, such punctuation signs are ‘naïve, usually superfluous and overemphatic’. In truth, far from being a grammatical solecism, the incisive punctuation in Malady becomes a formal staple upon which the poetic image can be assembled by the reader. The special pathos in this is that intervening repeatedly on the poem’s phrasal movement and graphic shape, Flint allows the audience to experience the images at different lengths and intensity. Sometimes by stumbling towards points of arrival (‘But up is harder. Down!’, line 19), sometimes by moving away from points of departure ( ‘Me?’, line 22), the reader is able to emulate, to enact the experience of the speaker. According to Mercedes Romon-Alonso, these typographical incisions are trivial and highlight the critical fallacy on which Imagism has been built.[8] In my view, if this showcase of ink marks betrays Imagism and places practice and theory in dialectic, it does so by sharply materializing a form which seeks simultaneously to contain and extend the speaker’s complex emotional drama on the page. In this way, Flint experiments with new poetic forms for contemporary concerns.

The closing movement of Malady starkly stages a defamiliarizing device. It explores, rather unexpectedly, an external image that is apparently unrelated to the speaker’s mood: ‘A parrot screeches.’ (line 35). Flint’s final line abruptly disrupts the poem’s semiotic situation and leaves the reader intrigued, perplexed and puzzled. Suzanne Clark has suggested that the sentence is embroidered into the piece as a kind of sophistry, linking more or less desultorily the sensations of the speaker with the squealing sound of the parrot.[9] For the critic, the line is spurious and appears to be meaningful but it is actually vapid. In my view, far from being self-indulgently meaningless, the sudden appearance of the parrot imbues the poem with a redemptive quality. It restores beauty, brightness, hope and insight, if momentarily, to the life (or indeed death) of the individual speaking in the poem. Pushing the image to an extreme, it can be metaphorically understood as representing some kind optimism for the collapsing, shattered modern subjectivity. In one way, lurking on the surface of the poem is both the personally chaotic, dissolute interiority of the poet’s persona and the universally fractured state of modern sensibility. In another, the poem functions to foreground key concepts of Modernist aesthetics with affected awareness.

 Malady typifies, rather magnificently, the modernist disbelief that traditional poetic conventions could capture the experience of the modern world. I have argued that the relationship between form and content in the poem is typically a modernist one. If Flint’s poetics is suffused with recurrent, sharp, clear-cut images of everyday life, it is also punctuated with the painstaking drama of human disintegration and meaninglessness, an inherent condition of modernity and one which the modernists have been profusely concerned with representing.[10] For Flint, and for the modernists in general, literature is about complicating ideas of form so far that these ideas reflect the subjective apprehension of modern life.

Bibliography

Artridge, Derek, Poetic Rhythm (Cambridge:  Cambridge University Press, 2002)

Clark, Suzanne, Sentimental Modernism (Indianapolis: Indiana University Press, 1999)

Copp, Michael (ed.), Imagist Dialogues: Letters between Aldington, Flint and Others

(Cambridge: The Lutterworth Press, 2009)

Davis, Alex. (ed.), The Cambridge Companion to Modernist Poetry (Cambridge: Cambridge University Press, 2007)

Herman, Theo, The Structure of Modernist Poetry (London: Croom Helm, 1982)

Hughes, Glenn (ed.), Imagist Anthology (London: Chatto & Windus,1930)

Iser, Wolfgang, The Act of Reading: a Theory of Aesthetic Response (Baltimore: The John Hopkins University Press, 1980)

Jones, Peter, Imagist Poetry (ed.) (London: Penguin, 2001)

Kolokotroni, Vassiliki (ed.) Modernism: An Anthology of Sources and Documents (Edinburgh: Edinburgh University Press, 1998)

Levenson, Michael H., A Genealogy of Modernism: A Study of English Literary Doctrine 1908-1922 (Cambridge: Cambridge University Press, 1986)

Romon-Alonso, Mercedes, H.D. Sublimity and Beauty in Her Early Work (1912-1925), Durham University, 1999,  [http://etheses.dur.ac.uk]

[1] See ‘Imagism: Preface to some Imagist Poets’ in Modernism: An Anthology of Sources and Documents, ed. by Vassiliki Kolokotroni, Jane Goldman, and Olga Taxidou (Edinburgh: Edinburgh University Press, 1998), p. 268-269.

 
[2] Kolokotroni (1998), p.268.
[3] Kolokotroni (1998), p. 269.
[4] Wolfgang Iser, The Act of Reading: a Theory of Aesthetic Response (Baltimore: The John Hopkins University Press, 1980), p. 136-137.
[5] In a letter to the editor of The Nation Flint explains, after being called ‘Prose-impressionist’ and accused of confusing ‘white blur’ with significance by one of the periodical critics, that ‘the man is ill and cannot see; and there is no impressionism therefore, but exact rendering.’

This is also an evidence that the speaker in the poem is a male figure. See Michael Copp (ed.), Imagist Dialogues: Letters between Aldington, Flint and Others (Cambridge: The Lutterworth Press, 2009), p. 96.
[6] Kolokotroni (1998), p. 269.
[7] Kolokotroni (1998), p. 269.
[8] Mercedes Romon-Alonso, H.D. Sublimity and Beauty in Her Early Work (1912-1925), Durham University eTheses, 1999,  [http://etheses.dur.ac.uk/4691/1/4691_2160.PDF?UkUDh:CyT], assessed 9 Jan 2015.
[9] Suzanne Clark, Sentimental Modernism (Indianapolis: Indiana University Press, 1999), p.132.
[10] Michael H. Levenson,  A Genealogy of Modernism: A Study of English Literary Doctrine 1908-1922 (Cambridge: Cambridge University Press, 1986), p.5.


 

Um texto de Elton Uliana, brasileiro residente em Londres, bacharel em Literatura Inglesa pela Universidade Birkbeck College, University of London.