Resenha: “O Buda dos subúrbios”, de Hanif Kureishi

Um dos melhores livros lidos este ano: “O Buda dos subúrbios”, obra clássica contemporânea do inglês Hanif Kureishi. Eu já li outros dois livros do autor “A última palavra” e “Intimidade”, sugiro que você coloque este autor na sua lista de leituras, ele é MUITO bom!

Eu tive a oportunidade de estar pessoalmente com Hanif numa visita sua à Madri no Dia Mundial do Livro, em 2015.

Hanif Kureishi em Madri, 2015. Foto: Fernanda Sampaio

Kureishi é de ascendência paquistanesa e o “Buda dos subúrbios” parece misturar- se com sua própria vida: uma família anglo- paquistanesa que vive num subúrbio de Londres. Os filhos nasceram em Londres, o pai é do Paquistão e a mãe é inglesa. O filho mais velho é o narrador e personagem principal. O jovem é britânico, mas é visto por muitos nativos como imigrante, “o moreninho”, inclusive no dentista, a secretária comenta com o dentista se ele saberia inglês. Para os brancos, a norma é eles. Esta obra foi escrita em 1990, mas está ambientada nos anos 70.

O racismo na Europa continua vivo, vivíssimo, e isto reflete- se na literatura. A imigração nunca foi o principal problema da Europa, mas os fascistas enfatizam isto, pois é próprio da sua natureza racista e xenófoba. O problema da Europa é a corrupção e as barreiras ao pluralismo.

De tempos em tempos, ressurge a ultra- direita, como o Bolsonaro no Brasil e o partido Vox na Espanha (que ficou em terceiro lugar na última eleição presidencial, em 10/11/2019) ou ainda a Marine Le Pein, na França dando voz a uma horda cruel e daninha movida pelo ódio.

Hanif colocou seu personagem em várias situações de racismo, como quando foi visitar uma moça e seu pai o expulsou por sua cor, cena chocante, mas que para Karin faz parte do seu cotidiano (em espanhol):

Karim foi visitar uma menina que conheceu na casa de Eva e seu pai o expulsou, porque não gosta de “negros”.

Há muitas cenas racistas vividas pelos personagens de etnia indiana, mas não só: o autor abordou também o machismo da cultura, o casamento arranjado e a violência contra a mulher.

A história acontece nos anos 70 e conta a vida como ela é, sem nenhum tabu e ou dramatismo. O narrador- personagem, o filho do “Buda”, Karim Amir, tira sarro de tudo, acha a melhor política. Ele é jovem e está na fase de descobrimentos, sexo com homens e mulheres, drogas (má decisão em qualquer época), roupas extravagantes e rock and roll.

Rir com um livro é fantástico e eu dei gargalhadas várias vezes, um grande feito do autor, fazer rir é a coisa mais difícil.

O pai paquistanês, Harry (adotou um nome inglês, seu nome indiano é Haroon) é um personagem muito curioso. Um sujeito que tira proveito da sua ingenuidade ( o que é uma contradição, nem tão inocente), tem uma amante com um só seio (teve câncer), é funcionário público e infeliz com seu trabalho, não lhe interessa o dinheiro, busca a paz interior. É muçulmano, mas não pratica e se apaixona pela filosofia do budismo. Vive lendo livros, meditando, fazendo yoga e começa a ensinar suas práticas em sessões na casa de Eva. O filho Karim os vê transando no jardim e o pai o vê masturbando- se com o filho de Eva, Charles. Ambos guardam o segredo, os dois com o “telhado de vidro”. Este livro revela as entranhas, o esqueleto das famílias aparentemente “normais”. Em muitos casos, o que se vê é o ditado pela moral religiosa, mas o que acontece na realidade é bem diferente.

O budismo ensinou a Harry deixar- se levar. Ele não reprime desejos e vontades, faz o que mandam os seus sentimentos. Segue o fluxo natural, o que o seu corpo pede. Caramba, que corajosas são as pessoas assim, não é? São livres, mas liberdade custa e não é pra todo mundo. Harry não é livre. Ele é apaixonado por Eva, mas não deixa a esposa e filhos. Prefere sofrer, que provocar sofrimento nos demais, mas o sacrifício não vai durar muito.

Meu exemplar autografado

A mãe de Karim é muito infeliz. A típica dona- de- casa e trabalhadora esgotada (trabalha numa sapataria para pagar a escola do filho mais novo) a ponto de explodir. Ela sacrifica- se pela família, mas não tem nenhum reconhecimento, enquanto o marido é cuca- fresca e sai pelo bairro “alegrando” as vizinhas, mas não consegue fazer feliz a esposa. A inglesa também sente- se discriminada entre a comunidade indiana-paquistanesa. Ela sabe que o marido a trai, mas prefere engolir o orgulho para manter a sua família junta.

O tempo todo eu torci para que ela abandonasse a família ingrata e que caísse no mundo em busca de sua felicidade. Ainda que não a encontrasse, seria melhor do que a vida leva. Veja como entrei na história, até quis interferir na vida da personagem. Isto porque não entramos no pensamento da mulher, só vivenciamos o sofrimento dele. Não sei de que lado ficaria, faltou a versão dela.

Há uma outra parte bem interessante, que é a descrição da geografia da cidade e suas características e também da cultura pop dos anos 70. Vi que a minha cultura musical não é tão boa como pensava: conheci com este livro bandas e cantores como Wild Man Fisher, Captain Beefheart, Traffic, The Faces, Emerson e Soft Machine, por exemplo. Coloca algum som desses de fundo, que te teletransportará direto aos anos 70.

A tradição dos pubs é muito forte no Reino Unido (e na República da Irlanda). Karim cita um que funciona até hoje, o The Chatterton Arms. Se você olhar o Facebook do bar, verá um vídeo com dois caras rapando a cabeça a zero. E também poderão ler uma qualificação negativa de uma moça que disse ter sido maltratada e expulsa do pub com seu grupo de amigos, um deles gay, o que só corrobora com a história do livro, de que, ainda hoje, o subúrbio de Browley em Londres é uma lugar perigoso.

Eu demorei mais do que o esperado em terminar este livro, porque interrompi a leitura muitas vezes. Ficava curiosa e ia conferir as referências. A cultura geral que a leitura nos traz e a maravilha da Internet que nos permite visitar virtualmente tudo que lemos. Ser escritor hoje em dia exige muito mais cuidado e rigor, já que tudo pode ser checado.

A família e suas relações são o centro da narrativa. E família é coisa que dói:

“(…) os psicólogos londrinos aconselhavam que a pessoa vivesse a vida à sua maneira, apesar da família, se não quisesse ficar louca.”(p.85)

O autor aborda vários assuntos universais e preocupantes através do seu personagem Karim: a homofobia, a pederastia e o bullying. Um professor de Karim o chamava de “marica”, mas o sentava em suas pernas e lhe fazia cócegas. Karim voltava da escola cuspido e sujo das coisas que lhe jogavam, fora os insultos racistas. O livro tem uma parte cômica, mas também outra muito triste. O narrador- personagem conta que um professor de artesanato teve um ataque cardíaco, porque um aluno neo- fascista colocou o genital de outro aluno num torno e começou a girar a manivela. Pesado. E que os fascistas lhe obrigavam a cantar hinos, urinavam nos seus sapatos e que um deles lhe marcou o braço com um ferro em brasa, como se faz com gado. Ele agradecia quando conseguia chegar em casa sem nenhuma ferida grave. Inglaterra, década de 70. A ficção imita a realidade, acredite.

Esta obra não é aborrecida em nenhum momento. É muito cinematográfica, é fácil imaginar os cenários e pessoas. Inclusive foi feita uma série na BBC com esta obra. Adivinha quem fez a trilha sonora? O grande David Bowie. O artista também é citado na obra (p.92), ele estudou na mesma escola de Karim, quando ainda chamava- se “David Jones”. Havia uma foto coletiva num corredor da escola e os alunos que sonhavam em ser estrelas de rock se ajoelhavam diante da foto e rezavam.

Veja aqui um trecho da série que passou na BBC2 em 1993:

The Buddha of Suburbia

E aqui a música The Buddha of Suburbia com o inesquecível David Bowie, com várias cenas da série:

Há também muitas referências literárias. Karim adorava chá e andar de bicicleta, que usava como meio de transporte. Passou de bike em frente à casa do escritor londrinense H.G. Wells (1866-1946), que nasceu na Bromley High Street (p. 87), autor de obras como “A máquina do tempo”, “A Ilha do Dr. Moreau” e a “A guerra dos mundos”, por exemplo. Londres é uma cidade fascinante, em todos os lugares encontramos casas de gente artistas incríveis. Talvez seja a minha cidade favorita de todas que conheci até hoje, isso com a visão de turista, para morar é outra história, e menos idílica.

Na página 88, há uma referência aos brasileiros: “A gente do nosso bairro era fanática por compras. Comprar era para eles o que é cantar e dançar samba para os brasileiros.” Pois é, realmente…o brasileiro anda sambando mais do que nunca.

Do amor não há como fugir, adiar, porque isso gera muito sofrimento aos apaixonados. O amor é urgente e torna gigantes os implicados, conseguem saltar qualquer barreira. E assim foi com Harry e Eva. Ambos casados e romperam com seus respectivos para ficarem juntos. Karim foi morar com eles e Helen levou o filho mais novo.

Quase todos os personagens gostam de livros. A literatura está incorporada na vida deles. Quem dera fosse assim também na vida de todo mundo na realidade (como é na minha). Gostaria que fosse corriqueiro, por exemplo, em uma reunião de amigos, alguém que tirasse um livro da bolsa e começasse a ler para todos um verso ou trecho incrível de alguma obra que está lendo no momento, sem que ninguém achasse estranho ou aborrecido. Charlie, o filho de Eva, faz isto. Tira um livro de poemas e começa a ler nos momentos mais inusitados.

A obra tem duas partes, a primeira acontece nos subúrbios (finaliza na página 158) e a segunda em Londres. Eva, Harry e Karim mudam para West Kensington atrás de uma vida mais emocionante e menos racista. Nos anos 70, West Kensington era eminentemente um bairro de imigrantes (assim ainda é assim, aliás, Londres inteira).

A segunda parte foca mais na carreira de ator de Karim, os bastidores e sua relação com Eleanor, uma moça com problemas psicológicos, pois havia perdido o namorado, também ator, por causa de um suicídio. O rapaz era das Antilhas, muito bonito e talentoso, “na realidade melhor do que muitos”, mas as portas não se abriam por causa da sua cor, ele só conseguia papéis de figuração:

“A polícia o levava cada dois por três e lhe submetia a interrogatórios tormentosos. Os táxis nunca paravam pra ele. Lhes diziam que não havia mesas vazias nos restaurantes.” (p.259)

Há também promiscuidade. A cena mais forte acontece na casa do dono da companhia de teatro onde trabalha karim e Eleanor. Pyke e Marlene, casal de meia idade, de certa forma impõem ao jovem casal sexo a quatro. Karim leu nas entrelinhas, que se não o fizesse poderia correr o risco de perder o seu papel na companhia. Mas também não foi problema, o casalzinho é bastante liberal. Parece que nos anos 70, antes da descoberta do vírus HIV, muita gente era….paz, amor e sexo livre era o lema dos hippies.

Citado na obra, na página 163, Gandhi morou num quarto neste bairro, na 20 Barons Court Road. E o vocalista da melhor banda do mundo, Freddie Mercury, também morou em West Kensington num apartamento na 100 Holland Road, W14, além do poeta Nobel de Literatura, W. B. Yeats. Ele morou com a família em Edith Villas.

Edifício em West Kensington, onde morou Freddie Mercury quando era casado com Mary Austin

Eva era a que tinha dinheiro. Ela comprou uma casa de três quartos de uma polaca, parecida com esta (foto acima) que Freddie morou. Nos últimos quinze anos, a casa tinha sido alugada para estudantes e estava bastante estragada. Um pardieiro para Harry. No subúrbio a casa deles era muito melhor. West Kensington fica ao lado do caríssimo Kensington, bairro que Freddie Mercury mudou depois de rico para uma casa chamada Garden Lodge. Depois da sua morte, a casa ficou para sua ex- esposa e amiga, Mary Austin. Voltando para a ficção, Eva reformou a casa, que virou um palacete e teve até festa de inauguração.

Karim, que viajava à deriva, conseguiu encontrar um caminho, o teatro. Só que seu primeiro papel foi de Mowgli, o menino lobo. No ocidente é comum a falta de papéis importantes para atores orientais e africanos, que não sejam algo muito específico, o que não é aceitável numa sociedade multirracial. O papel de Mowgli lhe foi dado por seu aspecto indiano e lhe pediram que falasse com o sotaque deste país, sendo que ele é inglês e nunca havia estado na Índia.

E a questão da desigualdade, da luta de classes, da opressão trabalhadora engole seus ideais para trabalhar, porque quem os emprega são os que têm o poder. Esses que herdam facilidades, que rodam em círculos de gente influente e que têm a facilidade e acesso a lugares que o filho do pobre não pisa, onde tudo lhe é favorável, mas ainda por cima acreditam ter algum mérito. Não têm.

É maravilhoso quando se termina a leitura de um livro com pena. Ele tem mil referências que me fizeram consultar bastantes coisas, muito rico culturalmente, além de questionar assuntos que nos preocupam como: o racismo….

(…) Trata de proteger- te do teu destino, de ser mestiço na Inglaterra. Para ti deve ser difícil de aceitar…não pertencer à nenhum lugar. E também o racismo. (p.182)

…e ainda, as drogas, o machismo na forma de opressão e violência contra as mulheres, a liberdade pessoal contra a moral religiosa, a repressão e violência contra os homossexuais, a falta de perspectivas da juventude e a relação entre pais e filhos. Depois de muito tempo sem se falarem, karim viu seus pais conversarem na estreia da sua peça:

A primeira coisa que me ocorreu ao ver- los é o pequeninos e tímidos que pareciam papai e mamãe, o muito frágil e envelhecidos que estavam e o pouco natural que parecia a distância que os separavam. Você passa a vida toda pensando em seus pais como monstros opressores e protetores que tudo podem e, de repente, um dia volta e lhes pega desprevenidos e o resultado é que não são mais que pessoas frágeis e apreensivas que tratam de sair adiante o melhor que podem. (p. 293/294)

E a questão da identidade: Karim reflete no enterro de Anwar, pai de Jamila, que morreu de um enfarto ao ver o marido da filha, Changez, em plena transa com uma prostituta japonesa. Jamila e Changez viviam separados, Jamila só fingiu o casamento imposto pelo seu pai, que mantinha o costume da Índia dos casamentos arranjados. Pode haver um conflito interior muito grande quando culturas se misturam e brigam entre si, veja:

Agora, ao olhar a todos aqueles seres desconhecidos- os indianos-, me dei conta de que em certo modo eram minha gente, ainda que tivesse passado a vida tratando de negar e ignorar. Me sentia envergonhado e vazio ao mesmo tempo, como se me faltasse metade do meu corpo, como se estivesse conspirando com meus inimigos, esses brancos que queriam que os índios fossem como eles. (p. 273)

Os orientais e africanos, principalmente, podem sofrer um choque cultural grande ao vir para o Ocidente. Aos ocidentais pode ser um símbolo de opressão machista o lenço muçulmano, por exemplo, mas muitas não sentem assim. O respeito é o fundamento de tudo. Não sou a favor de proibir o lenço como cogita- se em alguns países europeus, como na França. As pessoas não têm que deixar de ser quem são para agradar o Ocidente. Será que não é possível uma convivência pacífica e enriquecedora? Tenho certeza que sim. Cristãos, judeus, islamistas, ateus, budistas, hinduístas, espíritas podem e devem conviver em harmonia e com a possibilidade de uns aprenderem com os outros. Eu creio nisto, a Babel é aqui.

(…) para alcançar a verdadeira liberdade, havia que livrar- se primeiro de todas as amargurar e ressentimentos. Como seria isto possível se todos os dias se geravam novas amarguras e ressentimentos? (p. 292)

Esta é uma obra valente que mostra o outro lado de uma Inglaterra que, para muitos ingleses, não interessa mostrar. Bravo, Kureishi, pela coragem! Desconstrói a ideia de uma Inglaterra acolhedora, multicultural e integradora. E ainda há muito a ser feito.

Os novos europeus, às quais eu me incluo, às vezes não temos histórias bonitas que contar. Eu sou branca, mas já sofri ataques xenófobos em Lisboa, Barcelona e Madri, já me mandaram de volta ao Brasil algumas vezes. E já vi outros sofrerem. A Europa não é o paraíso idealizado por muitos brasileiros. A forma de combater a xenofobia e o racismo? Não se calar, combater, brigar. Não se pode aceitar e normalizar o inaceitável. A Europa é nossa também. O purismo de raças de Hitler deveria ter morrido com ele, com Salazar, Franco e Mussolini. Deveria, mas sobrevive ainda no ano de 2019. Veja este ataque racista num ônibus de Madri neste mês a uma mulher de etnia latina. Tristemente, constatei que aconteceu na linha do bairro que morei durante 10 anos. Muita coisa acontece, mas não há um vídeo para provar. Tal como no Brasil, os fascistas estão perdendo a vergonha de mostrar- se. Polícia neles! O energúmeno xingou a moça, a mandou “para o seu país”, ela respondeu que “aqui é o meu país”, e o sujeito começou a começou a esmurrá- la. Ela que desceu do ônibus. Quando acontece qualquer conflito, como uma disputa por um banco no ônibus, a primeira coisa que atacam é em relação à nossa origem.

O fascismo vive no coração de muitas pessoas, a semente do mal não para de brotar.

O final do livro foi o que menos eu gostei. Pareceu final de novela da Globo, onde no último dia tudo se resolve e acaba em festa, em final feliz. Mais ou menos isto. Embora a última frase tenha sido excelente.

Entrou para os meus favoritos. Recomendadíssimo! A edição lida e um pedaço a minha biblioteca:

Kureishi, Hanif, El buda de los subúrbios, Anagrama, Barcelona, 1994. Páginas: 336

E disse o sábio Buda do Subúrbio:

– Creio que a felicidade só é possível se nos deixarmos guiar pelos nossos sentimentos, nossa intuição e nossos desejos verdadeiros. Se a pessoa age empurrada pelo sentido de dever, a obrigação, o sentimento de culpa e o desejo de contentar os demais, só consegue a infelicidade. (p.102)

Buscar a felicidade antes que seja tarde. A vida tem algum sentido, se não?

Dez anos e um adeus

Parece que tudo secou, todas as velhas vontades, os antigos suspiros e desejos. As coisas boas e ruins, ainda bem, um dia acabam. O fim é o destino de tudo. É preciso reinventar- se, destruir para reconstruir.

As palavras fogem esbaforidas de mim, chegaram ao fim da linha e vão caindo no despenhadeiro do fim da página. Estão todas aqui brigando, empurrando- se, procurando os seus lugares, só que já não sinto mais vontade de ajudá- las, de colocá- las nos seus devidos lugares ao sol. Elas são frágeis e eu também; se não podem ser livres, melhor não ser. Ser, eis a questão.

Vamos continuar em algum lugar, em algum caderno ou livro fechado, até que algum dia alguém nos venha, quem sabe, despertar. Até então, a palavra e eu, nos conjugamos e nos bastamos.

Agradeço a quem fez parte disto durante (longos) dez anos.

A gente vai se reencontrar algum dia. Sejam felizes…

Fernanda Sampaio Carneiro

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Veja os finalistas do Prêmio Jabuti 2017

O Prêmio Jabuti já está na sua 59ª edição, é a mais importante premiação literária do Brasil. Dá prestígio, mas muito dinheiro não. O maior prêmio (bruto) é de 35 mil reais. Divulgaram os finalistas de 2017, são muitas categorias, vou listar abaixo só algumas,  mas você pode ler todas AQUI.

header-59-Premio-jabuti

Já temos listas de bons livros para colocar na nossa estante:

Romance

Título: A Tradutora – Autor(a): Cristovão Tezza – Editora: Record

Título: Como se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas – Autor(a): Elvira Vigna – Editora: Companhia das Letras

Título: Descobri que Estava Morto – Autor(a): J. P. Cuenca – Editora: Tusquets

Título: Machado – Autor(a): Silviano Santiago – Editora: Companhia das Letras

Título: O Marechal de Costas – Autor(a): José Luiz Passos – Editora: Companhia das Letras

Título: O Tribunal da Quinta-feira – Autor(a): Michel Laub – Editora: Companhia das Letras

Título: Outros Cantos – Autor(a): Maria Valéria Rezende – Editora: Companhia das Letras

Título: Simpatia Pelo Demônio – Autor(a): Bernardo Carvalho – Editora: Companhia das Letras

Título: Soy Loco Por Ti America – Autor(a): Javier Arancibia Contreras – Editora: Companhia das Letras

Título: Tristorosa – Autor(a): Eugen Weiss – Editora: @linkeditora


Contos e Crônicas

Título: Caixa Rubem Braga – Crônicas – Autor(a): Rubem Braga (autor), André Seffrin, Bernardo Buarque de Hollanda, Carlos Didier (organização) – Editora: Autêntica

Título: Diário das Coincidências – Autor(a): João Anzanello Carrascoza – Editora: Companhia Das Letras

Título: O sucesso – Autor(a): Adriana Lisboa – Editora: Companhia das Letras

Título: Receita para se fazer um monstro – Autor(a): Mário Rodrigues – Editora: Record

Título: Rio em shamas – Autor(a): Anderson França – Editora: Companhia das Letras

Título: Se for pra chorar que seja de alegria – Autor(a): Ignácio de Loyola Brandão – Editora: Global

Título: Somos mais limpos pela manhã – Autor(a): Jorge Ialanji Filholini – Editora: Selo Demônio Negro

Título: Sul – Autor(a): Veronica Stigger – Editora: Editora 34

Título: Trinta e Poucos – Crônicas – Autor(a): Antonio Prata – Editora: Companhia das Letras

Título: Vossos velhos – Autor(a): Dayse Torres – Editora: Edição do Autor


Poesia

Título: A Palavra Algo – Autor(a): Luci Collin – Editora: Iluminuras

Título: Carcaça – Autor(a): Josoaldo Lima Rêgo – Editora: 7 Letras

Título: Dobres Sobre a Luz – Autor(a): Thiago Ponce de Moraes – Editora: Lumme Editor

Título: Identidade – Autor(a): Daniel Francoy – Editora: Urutau

Título: Livro das Postagens – Autor(a): Carlito Azevedo – Editora: 7letras

Título: Madrigaes Tragicomicos – Autor(a): Glauco Mattoso – Editora: Lumme Editor

Título: O Mar e o Búzio – Autor(a): Bruno Palma – Editora: Com-arte

Título: Quase Todas as Noites – Autor(a): Simone Brantes – Editora: 7letras

Título: Rol – Autor(a): Armando Freitas Filho – Editora: Companhia das Letras

Título: Tempo de Voltar – Autor(a): Mariana Ianelli – Editora: Edições Ardotempo


Teoria/Crítica Literária, Dicionários e Gramáticas

Título: Armas de Papel: Graciliano Ramos, as Memórias do Cárcere e o Partido Comunista Brasileiro – Autor(a): Fabio Cesar Alves – Editora: Editora 34

Título: Corpo no Outro Corpo. Homoerotismo na Narrativa Portuguesa Contemporânea – Autor(a): Jorge Vicente Valentim – Editora: EDUFSCAR

Título: De Volta ao Fim: O “Fim das Vanguardas” Como Questão da Poesia Contemporânea – Autor(a): Marcos Siscar – Editora: 7letras

Título: Graciliano Ramos e a Cultura Política: Mediação Editorial e Construção do Sentido – Autor(a): Thiago Mio Salla – Editora: Editora da Universidade de São Paulo / FAPESP

Título: Machado de Assis e o Cânone Ocidental: Itinerários de Leitura – Autor(a): Sonia Netto Salomão – Editora: EDUERJ

Título: Murilo Rubião e as Arquiteturas do Fantástico – Autor(a): Ricardo Iannace – Editora: Editora da Universidade de São Paulo / FAPESP

Título: Mutações da Literatura no Século XXI – Autor(a): Leyla Perrone-Moisés – Editora: Companhia das Letras

Título: O Mundo Sitiado: A Poesia Brasileira e a Segunda Guerra Mundial – Autor(a): Murilo Marcondes de Moura – Editora: Editora 34

Título: O Simbolismo: Uma Revolução Poética – Autor(a): Álvaro Cardoso Gomes – Editora: Editora da Universidade de São Paulo

Título: Sinuca de Malandro: Ficção e Autobiografia em João Antônio – Autor(a): Bruno Zeni – Editora: Editora da Universidade de São Paulo


Reportagem e Documentário

Título: A Clínica: A Farsa e os Crimes de Roger Abdelmassih – Autor(a): Vicente Vilardaga – Editora: Record

Título: A Molécula Mágica – A Luta de Cientistas Brasileiros por um Medicamento Contra o Câncer – Autor(a): Carlos Henrique Fioravanti – Editora: Manole

Título: A Tortura como Arma de Guerra: da Argélia ao Brasil – Autor(a): Leneide Duarte-Plon – Editora: Civilização Brasileira

Título: Correspondente de Guerra – Autor(a): Diogo Schelp e André Liohn – Editora: Editora Contexto

Título: Era Um Garoto – O Soldado Brasileiro de Hitler – Autor(a): Tarcísio Badaró – Editora: Vestígio

Título: Ladrões de Bola – Autor(a): Rodrigo Mattos – Editora: Panda Books

Título: Nazistas entre nós: A trajetória dos oficiais de Hitler depois da guerra – Autor(a): Marcos Guterman – Editora: Editora Contexto

Título: O Livro dos Bichos – Autor(a): Roberto Kaz – Editora: Companhia das Letras

Título: Petrobras: Uma história de Orgulho e Vergonha – Autor(a): Roberta Paduan – Editora: Companhia das Letras

Título: Turno da Noite – Autor(a): Aguinaldo Silva – Editora: Companhia das Letras


E aí, quais as suas apostas? Boa sorte a todos!

Resenha: “O Cortiço”, de Aluísio de Azevedo #livroparavestibular #ENEM

“O Cortiço”, de Aluísio de Azevedo, é leitura obrigatória para quem vai fazer ENEM e vestibular no Brasil. Na lista da UNICAMP para 2018 e 2019, por exemplo, consta essa obra. Mas, fora essa obrigação escolar, recomendo esse livro para todos que apreciam a boa literatura brasileira clássica. É um livraço!

O livro  “O Cortiço” (1890) é Naturalista, estilo parecido com o Realismo, só que um pouco mais radical. Entenda um pouco: o francês Èmile Zola foi o precursor desse estilo literário. Nele, o homem é visto como um brinquedo do destino, é fruto do meio, da sua herança genética, ele não pode controlar a própria vida. Zola inspirou- se em correntes científicas, médicas, biológicas e filosóficas, como Charles Darwin e Auguste Comte, para construir seu mundo visto sem eufemismos. A linguagem do Naturalismo é simples, clara e direta. Feio é feio, pobre é pobre, ladrão é ladrão, sexo é sexo, e assim por diante, tudo à vista. O natural em um país de terceiro mundo é ter muitos miseráveis, uma minoria exploradora e muitos explorados.

No caso de “O cortiço”, também é uma crítica à burguesia carioca do século XIX. A realidade naturalista conta todas as mazelas do homem e da sociedade. A estética é a feiura, o submundo, as periferias, as paixões e vícios humanos, o “lado b” dos personagens, sem romantismos.

Aluísio de Azevedo era do Maranhão (São Luís, 14/04/1857) e faleceu em Buenos Aires (Argentina, 14/01/1913), porque era diplomata e trabalhava nessa cidade. Seu pai era viúvo, o português David Gonçalves e uniu- se à sua mãe,  Emília Amália, uma mulher divorciada, foi um escândalo na época. Além de escritor e diplomata, também foi caricaturista, desenhava para jornais.

A obra

“O cortiço”  está dividido em vinte e três capítulos.

A história acontece no subúrbio do Rio de Janeiro. João Romão, português, tem um barzinho. Ele descobre uma forma de fazer dinheiro explorando a pobreza: começa a construir cortiços, que são moradias precárias, amontoadas e baratas. Consegue o dinheiro da quitandeira Bertoleza, viúva,  escrava, cujo proprietário é um homem cego e idoso. Ela trabalha de sol a sol para pagar a sua alforria e o português começa a administrar o seu dinheiro. No final se “amigaram” e ele mente à mulher dizendo que já tinha sua carta de alforria. “- Você agora não tem mais senhor!” (p.39). No entanto, a mulher continua tendo o dono anteior e o novo, o português. Era sua criada, amante e ainda continuava trabalhando na taverna e na quitanda, mas o dinheiro ficava com o lusitano.

João Romão vive para trabalhar de domingo a domingo, mas também para roubar, enganar clientes, não tem nenhuma ética ou honestidade, o dinheiro é o que mais lhe importa. Tudo que ganha vai para o banco e para comprar terrenos e imóveis. Assim começa a ficar rico, porque não paga ninguém para fazer nada, ele mesmo começa a construir o seu cortiço. Rouba material de construção de outras obras, ou seja, construía sem gastar nada. Dessa forma consegue construir três casas, início do seu grande cortiço e também arranja dinheiro para comprar uma pedreira, o que o enriquece.

O autor descreve o processo de enriquecimento emergente, que não mede esforços  e nem tem escrúpulos em lesar o outro. Um individualismo total, criminoso e desumano.

Miranda, um negociante português, muda para a Rua do Hospício, um prédio perto da venda de João Romão, para afastar a mulher de outros homens. Essa é outra história paralela. Miranda pegou em flagra a esposa com outro, mas por interesse e dinheiro não divorciou- se da mulher, Dona Estela. Eles não têm nenhuma relação sentimental, só sexual e financeira, não se falam, odeiam- se. Têm a filha Zulmirinha em comum. E temia um escândalo, “ficava mal para um negociante de certa ordem” (p.18). Miranda quer comprar o terreno de João Romão para ter mais quintal, mas esse não quer de jeito nenhum, o que provocou uma rixa entre os lusitanos.

João Romão foi ampliando seus negócios e enriquecendo cada vez mais. Passa a ser distribuidor de mercadorias com vários depósitos e seu cortiço tem noventa e cinco casinhas. “Estalagem de São Romão. Alugam- se casinhas e tinas para lavadeiras”. (p.38)

As pessoas humildes que querem morar no cortiço, multiplicam- se e são descritas como larvas no esterco. Veja o hiper-realismo característico do naturalismo (p.40):

E naquela terra encharcada e fumegante, naquela unidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar- se como larvas no esterco. 

Quem não gosta nada do cortiço abarrotado de gente ao seu a seu pé é Miranda (p.42):

À noite e aos domingos ainda mais recrudescia o seu azedume, quando ele, recolhendo- se fatigado do serviço, deixava- se ficar estendido numa preguiçosa, junto à mesa da sala de jantar, e ouvia, a contragosto, o grosseiro rumor que vinha da estalagem numa exalação forte de animais cansados. Não podia chegar à janela sem receber no rosto aquele bafo, quente e sensual, que o embebedava como seu fartum de bestas no coito. 

Miranda morre de inveja do João Romão que ficou rico sem precisar casar com uma mulher de detesta e ficar amarrado a vida toda.

Na casa de Miranda há três criados, Isaura, Leonor e Valentim, esse, um escravo alforriado. E ainda moram na casa dois hóspedes, Henrique, quinze anos, filho de um fazendeiro cliente de Miranda (paga a hospedagem) e o velho Botelho, setenta anos, um “parasita”. (p.52)

No Naturalismo, as descrições são bem explícitas, na do velho Botelho, por exemplo, o narrador comenta até de suas hemorroidas. (p.53)

Botelho é o amigo interesseiro, falso, leva e trás, o que presencia a infidelidade de dona Estela com Henrique (menino de quinze anos!) e ainda cobre e apoia, porque quer continuar vivendo de graça na casa. Ele, teoricamente, é amigo de Miranda, mas a lealdade não é o seu forte.

Uma curiosidade interessante são as profissões que não existem mais como: o “sardinheiro” (vendedor de peixes à domicílio) ou “cavouqueiro” ( pessoa que trabalha em pedreiras), um dos trabalhos mais duros que existe, quebrar pedras. Não, no Brasil essa profissão ainda existe. Seria o trabalho perfeito para condenados por crimes hediondos, não acha? No livro, os que trabalham fazendo paralelepípedos na pedreira de João Romão são chamados de “macaqueiros”. Essas pedreiras realmente existiram no Rio de Janeiro no Brasil Colônia, leia esse artigo.

A vida no cortiço é descrita como um organismo único de sons e costumes.  E na página 74 começam a aparecer muitos personagens: a lavadeira portuguesa Leandra, a “Machona“, que tem três filhos a das Dores, a Neném e Agostinho.

Augusta Carne- Mole, lavadeira, brasileira, mulher de Alexandre, um mulato, têm dois filhos pequenos, entre eles, a Juju, que vivia com a madrinha na cidade, a Léonie, uma “cocote” francesa (p.76), “cocote” é prostituta.

A lavadeira Leocádia, portuguesa, mulher do ferreiro Bruno. E ainda Paula (a Bruxa), uma cabocla velha, meio idiota, a quem respeitavam todos pelas virtudes de que só ela dispunha para benzer erisipelas e cortar febres por meio de rezas e feitiçarias.

Também as lavadeiras Marciana e Florinda, mãe e filha. E ainda dona Isabel, viúva de um suicida, com uma filha doente, a “flor do Cortiço, Pombinha” (p.79). Ela tem um namorado chamado João da Costa.

E o único lavadeiro, o Albino,  é afeminado, as mulheres o tratam como pessoa do mesmo sexo. Exceto Pombinha e o namorado, a descrição dos personagens é dura, até cruel.  E uma coisa comum entre todos: são de famílias desestruturadas.

A fofoca para ser esporte nacional mais antigo no Brasil literário e real. Isso fica refletido em “O cortiço”, uma rede de intrigas forte e extensa. Rita Baiana é uma das que caiu na boca do povo por ser uma mulher livre e volúvel.

Jerônimo, excelente empregado de João Romão na pedreira, muito honesto, e sua esposa Piedade de Jesus, também moram no cortiço na casa 35, a de “mau agouro”, “Foi lá que morreu a Maricas do Farjão!” (p.119). O casal tem uma filha, a Marianita. Também são imigrantes.

Depois de meses sem aparecer, Rita Baiana volta ao cortiço com um menino e seu amante, o Firmo. A baiana era a festeira do cortiço.

No cortiço também tinha um grupo de italianos, o Delporto, Pompeo (“varridos pela febre amarela, p. 361), Francesco e Andréa, todos mascates. Os mascates seriam os representantes comerciais de hoje, só que levavam a mercadoria com eles.

Há muita algazarra no cortiço. Gente demais num espaço reduzido. Miranda grita da janela e reclama do barulho, e de lá, revidam com vaias. E ainda moram no cortiço: o velho Libório e Porfiro.

Numa das festas, Jerônimo (o português casado com Piedade, excelente trabalhador da pedreira) viu dançar a Rita Baiana e não consegue tirá- la da cabeça.

Leocádia (casada com Bruno) transa com Henriquinho, o menino de quinze anos hospedado na casa de Miranda. Ela quer ficar grávida para ser ama- de- leite, porque pagam bem as amas. É sexo só, rápido, sem nenhum romantismo ou compromisso. O marido chega e a vê vestindo afobada a saia, desconfia e lhe dá uma surra, mesmo sem ter visto Henrique ou o ato em si (p. 204). E a coloca para fora de casa.

Lembrando que o adultério no Brasil deixou de ser crime só em 2005 e a Maria da Penha, lei contra a violência doméstica à mulher, entrou em vigor em 2006. Antes disso as mulheres estavam completamente desprotegidas. Raramente há represálias quando o traidor é o homem, já com as mulheres…e sobre ser crime o adultério…hahaha…a lei existia, mas não era colocada em prática, já que seria impossível manter na prisão tanta gente, entre 15 dias e seis meses. Imaginou o Brasil quase inteiro na cárcere?! Brincadeiras a parte, é ridículo que uma lei tão provinciana ainda estivesse em vigor até 2005.

Bem, voltando à história de Jerônimo e sua paixão por Ritinha. O português mudou completamente de hábitos, abrasileirou e já não dormia com a mulher, que encomendou os serviços de feitiçaria de Bruxa. Outro ponto abordado pelo autor é essa, o da superstição sem cabimento. A Bruxa mandou a portuguesa fazer algumas mandingas absurdas.

Firmo e Jerônimo debatem- se em um duelo pela mulata. Pobre Piedade, esposa do português…este saiu pior da briga. Juntou- se com Pataca, Garnisé e Zé Carlos para uma vingança. O cortiço é palco de todas as desgraças humanas, de violência, inclusive contra a polícia. Dinheiro, sexo, cobiça, luxúria e bebida são os estopins. Mas, só num cortiço é assim?

O erotismo é bastante presente na obra, inclusive há uma cena lésbica entre a prostituta Léonie e Pombinha, filha de Isabel, a moça meiga e virginal. Mãe e filha foram visitar a francesa e a menina caiu nas suas garras, enquanto a mãe descansava. Foi praticamente um estupro. A menina nem a menstruação tinha ainda. Pombinha é sensível, inocente e alfabetizada, diferente da maioria do cortiço.

No cortiço, há muitas “confusões sexuais”, maiores transando com menores, como Domingos com a filha de Marciana.  O cara não quer casar com a menina Florinda, que fugiu e a mãe enlouqueceu. João Romão não teve a mínima compaixão pela mulher. Na primeira oportunidade livrou- se da inquilina da pior maneira possível.

João Romão morre de inveja do vizinho Miranda, que era muito mais refinado e bem relacionado, inclusive ganhou o título de barão. E Miranda morre de inveja da riqueza do outro. Romão, por causa da inveja do vizinho, refinou- se, até banho começou a tomar. Começou a comer e beber melhor, a sair, a vestir- se melhor, a usar guardanapo, a civilizar- se.

Os cortiços proliferam- se na cidade do Rio de Janeiro, um deles é o “Cabeça-de-Gato, uma “nova república da miséria”. (p.362)

O forte dessa obra são os personagens, todos eles têm muita força, o enredo realmente fica para um segundo plano.

João Romão, imigrante pobre, sem nenhum escrúpulo consegue a ascensão financeira, e depois, a social.

O final é triste, essa não é uma obra otimista, sempre tenha isso em mente, é uma característica naturalista. João Romão é a metáfora daqueles dias e, infelizmente, dos nossos também.


Recomendo esta edição lida (foto),  baixei muito baratinha no iBooks, porque ela é especial para estudantes, tem um complemento de leitura com detalhes fundamentais da obra, além de questões de vestibulares. No entanto, há outras opções gratuitas de PDF,  como no site Domínio Público .

Azevedo, Aluísio. O cortiço. Ciranda Cultural, 619 páginas, ePUB

Não se assuste, estudante: a quantidade de páginas depende do seu e-reader, do tamanho da letra que você usar, fora que nessa edição há complemento de leitura.

Faça o download de “O cortiço” aqui!

Resenha: “O seminarista”, de Bernardo Guimarães #RevisitandoOsClássicos #1

“Crescent illae, et vos crescentis, amores”
(“As árvores hão de crescer, e com elas haveis de crescer vós, meus amores” – Virgílio citado na p. 88)

Aqui começa uma série: Revisitando os Clássicos Brasileiros. O que significa?

São livros que eu já li há muito tempo e tenho vontade de reler. O tempo, a experiência leitora, transformam e mudam as nossas percepções. Aconteceu dessa forma com “O seminarista”, de Bernardo Guimarães: (re)li um novo livro. E essa constatação óbvia, mas interessante, me fez criar esse post, o primeiro de uma série, espero.

Para quem nunca leu, ou leu poucos clássicos da literatura brasileira, vamos começar?!

A primeira obra escolhida: “O Seminarista” (1872), de Bernardo Guimarães.

Brevíssima Biografia do Autor
O mineiro Bernardo Guimarães nasceu e morreu em Ouro Preto (1825- 1884). Juiz e escritor de prosa e verso, foi membro da Academia Brasileira de Letras. Inclusive você pode ler a biografia completa do autor no site da ABL. Casou- se com Maria Teresa e teve oito filhos. Era tio do poeta Alphonsus de Guimarães, que foi noivo de sua filha Constança, falecida aos dezessete anos por causa de uma tuberculose.


O livro é uma narração, e pela extensão, é uma novela. As novelas são mais curtas que os romances, esses, dentro do cânone literário, devem ter mais de 300 páginas; portanto, vou chamar pelo nome correto, embora no Brasil, o chamem de “romance”, normalmente. Dentro da narração, novela e romance são gêneros literários diferentes. E em outros idiomas/países, como na Espanha, não os diferenciam só pela extensão, mas também pelo teor: nesse país, o romance ganha ares fantásticos. O termo mais comum  é “novela”, ao contrário do Brasil.

Essa novela está dividida em vinte e quatro capítulos.

O enredo

O enredo é a história em si, do que trata o livro, a trama, a ação. Em “O Seminarista”, a história não é original, mas funciona: o amor impossível. Um seminarista apaixonado pela amiga de infância, um amor inesperado, já que Margarida era como sua irmã. E isso traz um monte de complicações para a vida de ambos.


Os pais de Eugênio acham que o filho tem vocação para a vida eclesiástica, porque brincava de ser padre na infância. Na época, a vida religiosa era algo que dava muito status e respeito.

Então, lá se foi Eugênio para o Seminário de Congonhas do Campo, aos 13 anos, com o coração partido. Uma mudança radical na sua vida.

Eugênio,  entre tarefa e tarefa, pensava em Margarida. Uma espécie de melancolia o acompanhava o tempo todo. Ele não conseguia concentrar- se nos estudos. Custou- se acostumar- se e assim passaram- se doze anos. O menino cresceu dentro do seminário. E Margarida continuou no seu coração.

Com dezesseis anos, começou a ter problemas, pois o padre regente descobriu alguns poemas de amor de Eugênio destinados a uma tal “Margarida”. O padre, que era também seu professor, gostou da veia poética do rapaz e levou os escritos ao diretor, que ficou indignado e assombrado. Chamou Eugênio e foi bastante duro com ele. A partir disso, toda vez que Eugênio sonhava com Margarida, sentia pânico, rezava, fazia jejum e pagava penitência, como se o amor fosse um castigo, uma doença. Doente ficou o menino, emagreceu muito, ficou com uma aparência “às bordas da sepultura”. (p.66)

Essa parte do livro é triste e forte…choca. Tudo com a instrução e aval do padre. O fanatismo religioso é um mal terrível (na realidade também!)!

Depois de quatro anos sem ver a sua família, nem Margarida, voltou para casa. Imagina o reencontro dos dois….a descrição do autor desse momento é mágico! Um turbilhão de emoções em questão de segundos. Quem já se apaixonou sabe como é difícil explicar. A literatura explicando sentimentos universais desde sempre…

Estava como que espantado, com os olhos fitos em Margarida, querendo falar, e não achando nada que dizer. As grandes emoções lançam uma nuvem no espírito e paralisam a língua. (p.82)

Como esquecer um grande amor? Já que quanto mais se tenta esquecer, mais se lembra? Não tente, porque vai perder a batalha, mantenha- se distraído, só isso…

As puras e santas afeições da alma, longe de a desviarem do caminho do céu, são asas com que mais depressa se eleva ao trono de Deus. (p.38)

Espaço e Tempo

A história começa na “província” de Minas Gerais (terra do autor). Na época em que foi escrita a novela, o Brasil ainda era uma colônia de Portugal,  um país monárquico. Veja a descrição do lugar, já no primeiro parágrafo, junto com o tempo (“há quarenta anos”).

A uma légua, pouco mais ou menos, da antiga vila de Tamanduá, na província de Minas Gerais, e a pouca distância da estrada que vai para a vizinha vila da Formiga, via- se, há de haver quarenta anos, uma pequena e pobre casa, mas alva, risonha e nova. Uma porta e duas janelinhas formavam toda a sua frente. (p.2)

A descrição da casa de Margarida e sua mãe Umbelinda é perfeita, ela parece sorrir, toda feliz e faceira! Bernardo Guimarães era um excelente narrador, mestre na descrição. A construção das paisagens e pessoas é muito visual, retratos perfeitos. É uma delícia ler e entrar nos cenários criados pelo autor,  são bem fidedignos. Esse é um dos elementos que transformam a literatura em uma grande forma de expressão artísticas, social, antropológica…

A magia das palavras. A prosa de Bernardo também é poética.

Genial essa metáfora (analogia), veja: “Eram quase ave- marias.” (p. 6). Gostei!

Personagens

Eugênio é o protagonista, personagem principal, o futuro seminarista, menino no início da história (12- 13 anos). Filho do capitão Francisco Antunes. Tem dois irmãos mais velhos que não aparecem na história, casaram e foram embora. Foi criado junto com Margarida, que é como sua irmã.

O rapaz era alvo, de cabelos castanhos, de olhar meigo e plácido e em sua fisionomia como em todo o seu ser transluziam indícios de uma índole pacata, doce e branda. (p.3)

Na página 73

Margarida, filha de Umbelina, órfã de pai, mora numa casinha emprestada nas terras do padrinho, Capitão Antunes, pai de Eugênio.

A menina era morena; de olhos grandes, negros e cheios de vivacidade; de olhos grandes, negros e cheios de vivacidade, de corpo esbelto e flexível como o pendão da imbaúba. (p.3)

Na página 73, há nova descrição de Margarida já moça.

Umbelina,  mãe de Margarida, mora nas terras do Capitão Antunes junto com a filha Margarida e uma escrava. E viúva e comadre dos donos da fazenda.

Era uma matrona gorda e corada, de rosto sempre afável e prazenteiro (…) (p.11)

Capitão Francisco Antunes, pai de Eugênio e padrinho de Margarida, fazendeiro honesto, tinha poucos escravos e muitos agregados na fazenda, dos quais não cobrava nada.

Senhora Antunes, esposa de Francisco Antunes, mãe de Eugênio e madrinha de Margarida. Não é tão legal, trata mal a escrava Josefa. É bastante supersticiosa. Apegou- se à Margarida desde bebê, ensinou-lhe a costurar.

Luciano Gaspar de Oliveira Faria e Andrade,  invejoso do tamanho do seu nome. Atrapalhou a vida dos apaixonados. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. É só a arte imitando a vida.

A linguagem

Uma coisa que achei inverossímil (longe da realidade) foram os diálogos. O povo da roça, nem mesmo os patrões, podiam falar com a correção gramatical exposta pelo autor. Havia outras línguas de contato, muitos imigrantes, indígenas, escravos, uma grande maioria de analfabetos, um português tão correto me pareceu impossível.

A obra carece de uma mais linguagem coloquial, o que concordaria mais com a história. Curioso, porque costuma- se dizer o contrário desse escritor, que o tom de suas obras é coloquial. Vai ver “O Seminarista” é a exceção.

O narrador fala como um português. Se a gente der por certo que era a forma usada em 1832, época que o autor retrata, nota- se como em 185 anos, o português do Brasil transformou- se e distanciou- se muito do idioma luso.

Curiosidades

Bernardo Guimarães cita Aleijadinho (1738- 1814), de uma forma nada agradável, uma crítica destrutiva e maldosa, na boca do seu narrador (p. 30) :

É sabido que estas estátuas são obra de um escultor maneta ou aleijado da mão direita, o qual, para trabalhar, era mister que lhe atassem ao punho os instrumentos.

Por isso sem dúvida a execução artística está muito longe da perfeição. Não é preciso ser profissional para reconhecer nelas a incorreção do desenho, a pouca harmonia e falta de proporção de certas formas. Cabeças mal contornadas, proporções mal guardadas, corpos por demais espessos e curtos e outros muitos defeitos capitais e de detalhes estão revelando que esses profetas são filhos de um cinzel tosco e ignorante…

Eugênio vai justamente para o seminário em Congonhas, no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, onde estão as obras sacras de Aleijadinho, consideradas as suas obras- primas.

Recalcado o Guimarães, não?! O escritor e o escultor nasceram na mesma cidade de Ouro Preto.

E veja também como é feio chamar alguém de “Aleijadinho”. Uma das funções da literatura é essa também, de nos trazer o passado para melhorar no futuro. Hoje em dia é inaceitável chamar alguém por um problema físico. O artista perdeu a sua identidade, quem sabe o nome de Aleijadinho? Eu sei agora, porque fui pesquisar: Antônio Francisco Lisboa (valeu Wiki!).

Um salve para o Antônio, que mesmo com sua deficiência física, provavelmente escravo ou filho de escravos (sabe- se muito pouco sobre a sua biografia e mesmo assim, ela é incerta), no interior do Brasil colonial, deixou uma obra reconhecida mundialmente. Deixo aqui o compromisso: estudar a obra de Antônio.

Depois de ler o trecho sobre o Aleijadinho (me custa escrever, já não é hora de chamá- lo pelo nome, acho um desrespeito!), já tomei uma bronca de Bernardo, que passei a caçar tudo de negativo na obra dele, sou dessas. Na adolescência minhas leituras eram mais ingênuas, eu deixava passar muitos detalhes. Mas a sorte dele, é que realmente escreve bem.

Além disso, a gente sabe que a voz da narrativa não é o autor, mas foi ele que colocou esse pensamento na boca do narrador e a gente dá aquela gongada de todas as formas. Abaixo, trecho:

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O autor mostrou usos e costumes da roça, um tipo de dança chamada “quatragem”, os mutirões e as festas.

E voltando à história de amor…Eugênio foi proibido pela mãe de ir à casa de Margarida quando este lhe confessou a sua falta de vocação para o sacerdócio. Isso não impediu que os apaixonados trocassem promessas e juras, fortaleceram- se mais ainda.

A linda Margarida é muito cortejada, apareceu um terceiro para atrapalhar, Luciano, invejoso e maldoso, notou o que havia entre Eugênio e Margarida. Tratou de atrapalhar. Entre os pais de Eugênio e o tal Luciano, o desejo do casalzinho de ficar junto foi ficando cada vez mais difícil. Eugênio adoeceu. Eugênio prometeu à Margarida que jamais seria padre, jurou que voltaria.

Os pais podem destruir a vida dos filhos se não aceitarem como são . Os pais têm uma tendência a querer moldar os filhos baixo seus próprios desejos, moral, necessidades e costumes, como se fossem um ser único. Pais e filhos, muitas vezes, estão nas antípodas. Aconteceu com Eugênio e acontece na vida real. A ditadura maternal e paternal pode matar de muitas formas. Margarida e Umbelina foram expulsas da fazenda. Umbelina faleceu.

Grande é o poder do tempo. O próprio braço da dor, quando não consegue esmagar a sua vítima, por fim de contas esmorece fatigado, e o seu estilete, por mais buído que seja, acaba de embotar- se” (p.161)

Eugênio passou por um vale de sombras, de terror, para poder seguir em frente. Há várias alegorias religiosas ilustrando esse deserto que ele teve que cruzar para tentar destruir um sentimento muito forte, que não pode existir, a sua via crucis, e para piorar, chegou a notícia: Margarida casou- se. (SPOILER: mentira, nunca casou- se e também estava doente, mas eugênio nunca soube).

Anos mais tarde, Eugênio volta, já padre, para a Vila do Tamanduá. Via a casa de Umbelina e Margarida em ruínas. As suas pernas tremeram. Sentimentos como esses nunca morrem. Alguém chamou o padre para dar uma extrema- unção. Fácil adivinhar, não?

São as almas sujas da Terra, as que destruíram esse amor, por vaidade, inveja, maldade pura; são as que mentem, enganam, manipulam para possuir o que jamais terão. Assim como na vida. Nem com tanta gente contra, família e religião, nada conseguiu impedir o encontro- ainda que breve.

Gostei muito do final. Eugênio, de certa forma, conseguiu cumprir a sua promessa, além de dar, mesmo sem querer, uma boa lição nos energúmenos dos seus pais.


“O Seminarista” é uma obra muito intensa, bem escrita, emocionante, que desperta vários sentimentos: de ternura, beleza, raiva, pena, indignação. E a obra não te custará absolutamente nada. Ele está no banco de clássicos gratuitos do governo do Brasil, o Domínio Público. Não foi o deles que eu li, pois eu já tinha um no tablet, que baixei por 0,99 cêntimos (de euro), foi esse:

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Guimarães, Bernardo. O seminarista. PDF (no iBook, sem editora). Páginas: 237- Preço: 0,99€

Disponível gratuitamente no site Domínio Público, do governo do Brasil.

 

 

Resenha: “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury

451° Fahrenheit: a temperatura que o papel dos livros se inflama e queima. (epígrafe)

 


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O americano Ray Bradbury (1920- 2012) foi romancista, contista, ensaísta, dramaturgo e roteirista, publicou “Fahrenheit 451” em 1953, livro considerado a sua obra- prima. Ray casou- se em 1947 com “Maggie” (Marguerite, falecida em 2003), o casal morava em Los Angeles com muitos gatos, quatro filhos e oito netos.

“Fahrenheit 451”, junto com “1984”, de George Orwell e “Um mundo feliz”, de Aldous Huxley,  foram as obras que popularizaram o termo “distopia”, que é contrário à utopia.  Um romance “distópico” acontece em um universo, país, mundo imaginário criado de uma forma que ninguém deseja, são horrendos, infelizes, tenebrosos. A maioria da obra de Bradbury encaixa- se no gênero ficção científica.

Enredo, personagens, estrutura e impressões sobre Fahrenheit 451

Não podemos perder de vista que esse livro foi publicado em 1953. Tudo o que o autor imaginou realmente foi incrível, um visionário, tudo verossímil.

A obra é dividida em três capítulos (a edição lida foi espanhola, com minha livre tradução ao português, então, algum termo pode estar diferente das edições brasileiras ou portuguesas). São eles:  1º- A chaminé e a salamandra; 2º- A peneira e a areia e o 3º- Fogo vivo.

O personagem principal é Guy Montag. O trabalho dele lhe provoca um grande prazer: destruir a história e o pensamento de gerações, queimar livros. Ele trabalha em um corpo de bombeiros muito estranho, contrário ao que conhecemos, o dos nossos heróis que enfrentam as chamas para salvar pessoas, animais, bens e natureza, mas isso na terra de Montag é lenda urbana. O personagem usa uniforme com uma salamandra na manga, o número 451 bordado (a temperatura em fahrenheit que o papel incendeia- se) e uma fênix no peito. Ele tem trinta anos, casado com Mildred e trabalha há dez no quartel. Os bombeiros são temidos pela população.

Logo na primeira página, o autor revela a função do personagem provocando nessa leitora a intriga, os questionamentos: “Por que ele queima livros, qual o objetivo?”, “Que lugar é esse?”, “Como seria um mundo sem livros? “Como se armazena, então, o conhecimento humano?”.

A estrutura social no mundo de Montag é parecida com a nossa, só que no futuro. Não há seres estranhos, exceto robôs (agora também já existe, mas na época que foi escrito há 64 anos, imaginar o futuro era pura especulação, nem internet tinha), nem um mundo fantástico, é como se fosse a Terra, só que com tecnologias mais avançadas. No país dele tem metrô propulsado por ar, que o deixa em uma plataforma depois de uma rajada de vento e os carros são “retro propulsados”. A jornada de trabalho é tal como conhecemos. Cada dia um autor (livros) está destinado à fogueira.

A vizinha de Montag é Clarisse McClellan, vai completar dezessete anos e pergunta a Montag (p.20):

" - Você lê alguma vez os livros que queima? Ele começou a rir:
- Está proibido por lei!"

Clarisse é o contra- ponto, a sensatez, a alegria e a sensibilidade. Não se deixou contaminar pelo mundo triste que essa sociedade do futuro criou (muito parecida com a nossa, infelizmente). Ela observa que as pessoas voam nos seus carros e nunca reparam nas flores, na grama abaixo, na lua, no sereno. A adolescente pensa e isso incomoda o bombeiro, que começa a pensar também sobre a sua existência.

A narrativa é poética na descrição das paisagens, pessoas e silêncios da cidade, gosto muito da atmosfera de mistério, contada com cuidado, esmero, as palavras pensadas e justas. É um excelente livro. Confesso que eu tinha um certo preconceito em relação a esse gênero literário, mas a história convence. Caí completamente na história de Ray Bradbury.

No país de Montag, as crianças se matam entre si. Há professores virtuais nas escolas, são quatro horas assistindo um aparelho eletrônico. Falta calor humano, debates, não se pode perguntar nada, questionar, tudo já está pronto e imposto. As crianças, pelo menos os filhos da dona Bowles, ficam vinte e sete dias na escola, só os vê três dias ao mês, para ela “suportável”. Nasceram de cesárea, os partos normais praticamente não existem e a natalidade é baixa.

As pessoas que escondem bibliotecas em casa são levadas para um manicômio e suas casas são queimadas. Montag, por influencia de Clarisse, desperta a vontade de ler um livro. Ele nunca leu nenhum, só uma linha de um conto de fadas. Beatty é o capitão do quartel e está totalmente doutrinado, não questiona nada.

A lei é incendiar os livros com querosene e dizer que tudo  neles é mentira, inclusive os autores, que nunca existiram. Normalmente, a polícia evacua os donos das casas e os bombeiros queimam tudo quando estão vazias. Mas nem sempre é assim. Encontraram uma mulher. Ela recusou- se a sair da casa, e por dignidade, ela mesmo acendeu o fósforo que incendiaria tudo, inclusive a si mesma. O índice de suicídios nesse lugar é altíssimo. Muita gente prefere morrer que viver numa ditadura sem esperança. Nesse incêndio, Montag levou um livro consigo, o primeiro da sua vida. O olhar dessa mulher e esse livro mudam a história toda do bombeiro.

Montag quer saber como, quando e porquê começou a sua profissão. A partir daí (p. 66) nós vamos descobrindo com ele as razões de tudo. Em alguns momento a narrativa é vertiginosa, confusa, intensa, labiríntica, viajamos com Montag na busca de respostas.

Em 1953, Ray Bradbury descreveu o que está acontecendo atualmente conosco. Há um excesso de distração inútil, há coisas idiotizantes demais e os livros estão ficando cada vez mais curtos, com muitas imagens (lembra do estouro dos “livros” para colorir?) e esquecidos. As escolas adotam livros clássicos “adaptados” por serem mais “fáceis” de ler. Uma ministra do governo Dilma quis proibir Monteiro Lobato nas escolas. Resistiremos?

Na obra, (pequeno SPOILER!), a desaparição dos livros não foi culpa do governo, como muitos podem pensar. A última escola de Artes no país fechou há quarenta anos por falta de alunos. O professor Faber, que aparece no segundo capítulo, ensinou nessa escola.

A culpa dessa sociedade triste e absurda, foi da população, que preferiu ler títulos, resumos, frases feitas e deixou de pensar e criar, além de comportamentos inaceitáveis de intolerância ao outro. O homem foi ficando vazio, vazio, vazio…esvaziou- se tanto de tudo, que ficou isolado, só. E há outros motivos, a universidade é apontada como uma das grandes culpadas (p.71). Bradbury disse em uma de suas entrevistas, “que acredita nos livros, não nas universidades”.

A universidade destrói a criatividade e padroniza os alunos? Minha experiência pessoal: eu era muito mais criativa, escrevia muito mais, poemas, contos, crônicas, antes de entrar na universidade, tive até um livrinho de poesias. Depois dela…temo escrever, uma espécie de respeito exacerbado pela literatura. Acabou- se. É um fato, virei uma Bartleby (escritora que não escreve). Se aconteceu algo parecido contigo, deixa aí nos comentário.

Fragmento do trecho onde Beatty explica a sociedade deles, creio que é uma crítica extrema esquerda (p.71) e logo depois vem uma crítica à extrema direita:

(…) Não nascemos livres e iguais, como afirma a Constituição, senão que nos transformamos em iguais. Todo homem deve ser a imagem do outro. Então todos são felizes, porque não podem estabelecer diferenças nem comparações desfavoráveis. Um livro é uma arma carregada na casa ao lado. Queimá- lo. Tira o projétil da arma. Domina a mente do homem. Quem sabe qual poderia ser o objetivo de um homem culto?

Quando a população cresce, há muitas minorias, e nesse trecho, creio que é uma crítica aos extremistas. No final, os extremos, direita ou esquerda, não são a mesma coisa? A mesma crueldade imposta, violenta e excludente?

 – Deves aprender que nossa civilização é tão vasta que não podemos impedir que nossas minorias se alterem e rebelem (…)

– O povo de cor não  gosta de ‘O negrinho Sambo’. Queimemo- los. O povo branco sente- se incômodo com ‘A cabana do tio Tom’. Queimemo- los. (p. 72)

Na civilização de Montag tudo foi destruído para não ter divergências, já que essas ficaram incontroláveis. Ou seja, todos os extremistas são verdadeiros descerebrados intolerantes, tanto no passado, quanto no presente, no futuro, na ficção como na vida, porque cega e imbeciliza. São esses que impulsionam as guerras e conflitos, e conseguem conduzir bandos de cordeirinhos. Nada na vida pode ser preto ou branco. Há mil tons de cinza (e não falo daquele livro ruim). O mundo deveria ter espaço para todos, independente do que pensem, amem, pratiquem, acreditem ou desacreditem.  Isso não seria… a democracia?!

A intolerância, o pensamento totalitário, estão levando muita gente para a tumba de várias maneiras. Venezuela que o diga. E a Síria?! E o nosso Brasil dividido, uma gincana torpe, cada um puxando a corda do seu lado, e dessa forma, nunca haverá vencedores. O máximo que pode acontecer é que todos caiam. É necessário aparecer alguém que estabeleça a ordem e o consenso.

Na civilização de Montag, a vida humana também vale muito pouco, ninguém se comove mais. Morrer é banal. Nesse país, os carros esmagam coelhos e cachorros, isso também já não importa. E no nosso mundo, as pessoas param para socorrer animais que atropelam ou que foram atropelados?

Lembra que Montag escondeu um livro e o levou consigo para não ser queimado? A curiosidade é inerente ao humano; infringir as regras também (que não tem porquê ser negativo, quando essas são injustas). Ele e a esposa começaram a ler (segundo capítulo).

Ouve- se explosões de bombas constantemente. Essa civilização vive em guerra há muitos anos. Não há comoção com as mortes que acontecem nas guerras.

Estudar, investigar, criar é coisa clandestina, faz- se na escuridão dos porões.

(…) Quem sabe os livros possam nos tirar da nossa ignorância. Talvez pudéssemos impedir que cometêssemos os mesmos funestos erros (…) p.87

Um dos problemas da falta de prática leitora é que a interpretação de texto fica deficiente; portanto, quanto mais leitura, mais entendimento. Montag teve dificuldade para entender o  livro que salvou, teve que pedir ajuda ao professor Faber.

Na obra há bastante diálogos. Outros personagens: as senhoras Phelps e Bowles, amigas de Mildred (apelido Millie).

Montag e sua redenção, de carrasco a messias. “há tempo para tudo…uma época para destruir e outra para construir”.

Ray Bradbury é atualíssimo! E triste, porque há muita semelhança com a nossa realidade. Já não estamos vivendo em um mundo distópico?

Esse foi para a lista de favoritos. Já contei demais, agora é com você, LEIA!

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Bradbury, Ray. Fahrenheit 451. Debolsillo,  Penguin Randon House, Barcelona, 1993. Páginas: 185- Preço: 9,95€ na La Central (Callao, Madri).

Quer saber mais sobre Ray Bradbury? Baixe aqui gratuitamente o livro “O zen e a arte da escrita” e leia Os onze conselhos de Ray Bradbury para escritores novatos.

 

 

 

 

 

 

 

Você sabe o que significa “serendipity”?

O termo “serendipidade” vem do inglês “serendipity”. A palavra foi inventada pelo escritor britânico Horace Walpole (século XVIII), ela apareceu em um dos seus contos.

O “serendipismo” acontece quando algo muito legal surge por acaso. Exemplo: um físico está estudando sobre a teoria de cordas e descobre um novo elemento químico, que não tem nada a ver com seu estudo inicial; você está procurando o fio do seu computador e encontra os seus óculos perdidos há meses; a moça cruzou a rua fugindo do ex- namorado e esbarra no seu novo amor. A história está cheia de casos de cientistas que estudavam uma coisa e encontraram outra.

“Serendipity” está relacionada com acontecimentos bons e agradáveis, então é uma palavra feliz. Em espanhol, “serendipia”. Esse post surgiu, serendipitosamente, quando eu procurava ontem um romance clássico na livraria e encontrei esse de poesia contemporânea espanhola:

 

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20376048_835630786592483_3204756588155701777_n.jpg“Descobrimento feliz e inesperado que acontece quando se está procurando outra coisa diferente”.

20374781_835630789925816_6829196623110258514_n“Eu me perdi./ No caminho/ descobri alguém.// Era eu.// Não tenhas/ medo de procurar respostas.// Porque, do contrário,/ terás uma vida/ cheia de perguntas.”

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David Sadness  (nome artístico de David Olivas) é um jovem fotógrafo e poeta de Albacete, Espanha.