“Consciência corporal”: tecnologias de formação do sujeito em “O Estrangeiro”, de Albert Camus, por Elton Uliana

Albert Camus

 

Durante séculos a pena de morte, muitas vezes acompanhada de refinamentos barbáricos, tenta conter o crime; no entanto, o crime persiste. Por quê? Porque os instintos que estão em guerra no homem não são, como afirma a lei, forças constantes em um estado de equilíbrio.

 (Albert Camus)

 

 

O Estrangeiro (1942), de Albert Camus, é um romance composto sobre o absurdo e contra o absurdo da sociedade moderna. A narrativa sombria do romance retrata a vida de um jovem “vagando à margem da sociedade, preso em um jogo ambivalente de solidão e sensualidade, inocência e culpa. Através da vida obstinada do narrador Meursault, o romance mostra a inarticulação entre uma consciência individual e o mundo, um impedimento entre um Eu emergente e a sociedade hipócrita e conspiradora que o cerca. À medida que o romance avança, a condição existencial do protagonista se torna gradualmente um estado subjetivo de “ser-Parasi”, que é continuamente ofuscado por um sistema rígido de justiça externo e, ao mesmo tempo, interiormente perplexo pela distorção de tal sistema. Camus permite que o contraste entre o niilismo individual e o absurdo conceitualizado sob aforma de alteridade permeie a narrativa até que, eventualmente, o narrador mata um homem e se torna efetivamente incapaz de elaborar seus sentimentos e de se ver como um criminoso. Fortemente informada pela perspectiva teórica de Camus sobre o Absurdo, a subjetividade do narrador, com sua lucidez (ou falta dela), é menos afiliada à de uma classe ou coletividade do que à psicologia de seu próprio Eu solitário, apóstata e cada vez mais isolado. Nesse contexto, até a questão de agência e de escolha parece gratuita e irracional. Se a rejeição do romance com relação à argumentos fundamentados apresenta problemas genuínos impossíveis de serem reconciliados em termos filosóficos, a estética literária de Camus incorpora em sua própria estrutura todas as ansiedades ontológicas que o texto se propõe a dissipar. Este estudo analisará O Estrangeiro para explorar a atitude paradoxal do romance em relação à percepção, subjetividade e pertencimento social. Argumentarei que a identidade de Meursault resume as antíteses da cultura, da sociedade e do direito, que são algumas das características do pensamento existencialista. Além disso, sugerirei que o quadro narrativo que constrói a identidade de Meursault gesticula ironicamente para seu próprio artifício inevitável: tenta nos convencer de que o pensamento racional é limitado, mas, ao fazê-lo, produz um construto linguístico altamente racionalizado.

A indiferença intratável de Meursault representa um ataque às convenções sociais. Camus elabora um encontro antitético entre o Eu e o Outro, indicando desde o início que os sentimentos de Meursault estão desdenhosamente em oposição ao que, socialmente, se espera dele:

[O] diretor continuou falando, mas eu não prestei muita atenção. Por fim ele disse: Agora suponho que você gostaria de ver sua mãe? Levantei-me sem responder e ele liderou o caminho para a porta.

      (O Estrangeiro, p.11).

 

O romance decididamente propõe uma reversão da ordem social. O narrador neste momento nem chega ao nível em que as responsabilidades éticas e morais são relevantes. Sua atitude moralmente inerte é, em certo sentido, destrutiva da solidariedade humana, mas também é, perversamente, um sinal dela. O absolutismo impessoal da conduta do personagem parodia a impessoalidade total dos laços que nos conectam a humanidade comum, algo que nenhum impulso subjetivo pode deixar de lado. No entanto, essa capacidade de se desvencilhar do conteúdo consciente da percepção é para Camus, e para a maioria dos escritores existencialistas, não uma lógica estranha, mas uma lógica estrutural. A indiferença autônoma e irrefletida de Meursault (‘Mamãe morreu hoje. Ou talvez ontem, eu não sei.’, O Estrangeiro, p. 9) e o comportamento socialmente impeditivo representam não apenas uma personificação do fenômeno da má fé, mas também um radical rejeição da categoria ontológica “ser-Por-outros. Esse estado se manifesta, segundo Jean-Paul Sartre, através de uma preocupação com o que os outros pensam, uma maneira de estar consciente de si mesmo no mundo que geralmente produz e prolifera a vergonha. A ação de Meursault contraria e desafia a suposição de que a consciência individual está unida por compartilhar as mesmas semelhantes tipificações do mundo e suas experiências nele. Da perspectiva freudiana, a cultura normativa reprime o instinto e a liberdade humanas, mas a tendência de Freud era privilegiar a cultura e não a natureza. Ao contrário de Freud, que vê o ser humano vinculado a um sistema de restrições necessárias para a sobrevivência da humanidade na sociedade, mesmo que ele esteja ciente das consequências disso, Camus reinstala empaticamente em O Estrangeiro a dicotomia natureza-cultura. Meursault é ao mesmo tempo restringido por sua própria narrativa e transgressor dela. Da mesma forma que o texto propaga o conceito existencialista de “ser-Parasi com sua negação de convenções sociais, a conexão impessoal do protagonista com o mundo exterior e sua falta de vínculo humano põem em risco a tradição, o comportamento público e o código social.

      Camus exacerba esse dilema hermético, retratando seu herói no modo pré-reflexivo, apegado vigorosamente à ética da autenticidade e sinceridade. Em sua determinação ética, Meursault se recusa a mentir (se não em todos os sentidos, como o texto finalmente revela, pelo menos à seus sentimentos): Respondi que nem mamãe nem eu esperávamos algo mais um do outro, ou de fato de outra pessoa, e que ambos nos acostumamos às nossas novas vidas (O Estrangeiro, p. 85). Mentir, segundo Camus, não é apenas a ficcionalização da verdade; é também, e mais importantemente, uma relação hiperbólica com a realidade, é afirmar mais do que realmente se sente. Em seu estudo da Filosofia do Absurdo de Camus, AviSage observa que, se Meursault é incapaz de mentir, é porque ele representa o paradigma autodeterminado do estrangeiro-absoluto, uma personificação das ideias de inocência e irrepreensibilidade de Camus. A meu ver, essa situação é mais paradoxal: Meursault é tão incapaz de mentir quanto ele é incapaz de dizer a verdade. Suas decisões não se baseiam em uma avaliação ética que favorece a verdade sobre o engano ou a autenticidade sobre a falsidade; em vez disso, elas pertencem ao nível de “percepção corporal”, um estágioem que o personagem está submerso em um lodo de sensualidade, e não na percepção consciente. Ao construir seu personagem dessa maneira, Camus consegue capturar em seu romance algo intrinsecamente humano: o fato de que, no nível primário, somos todos animais instintivos, mas na sociedade humana não podemos levar essa suposição muito literalmente. Como alguns comentaristas sugeriram, o romance desafia irremediavelmente a relação entre a verdade humana e a justiça social. De fato, o discurso novelístico-filosófico de Camus é inscrito pelas próprias racionalidades sociais que ele deseja perturbar e transgredir. Se essa construção do“estrangeiro”, se a concepção de Camus de uma forma aparentemente utópica da existência representa uma elevação de seres individuais além de qualquer razão, ela também funciona, ironicamente, como uma ameaça ao capital, à sociedade e às relações humanas.

A identidade de Meursault no romance, então, é tão manchada quanto é apaziguada pela inadequação de sua consciência social. O herói do romance é uma espécie de comprovação das próprias tentativas filosóficas de Sartre de pacificar o dilema referente à autorealização por meio de papéis sociais e de agentesespontaneamente livres para derrubá-los. Na primeira seção do romance, a presença dos outros (representada pelos personagens secundários) não desempenha um papel significativo na formação da identidade de Meursault. Em certo sentido, essa negação de formas normativas de formação de identidade não significa que o olhar público externo não tenha sentido para Meursault. Em vez disso, ela indica que Meursault é textualmente construído nesta parte do romance, dentro da estrutura ontológica “ser-No-mundo”, privilegiada pela experiência e não pela consciência. Inversamente, uma mudança depercepção é produzida na segunda parte do romance, aumentando a instabilidade semiótica do texto :”Pareceu-me então que eu podia interpretar o olhar nos rostos dos presentes; foi uma simpatia quase respeitosa.” (O Estrangeiro, p.107). A prisão do protagonista o obriga a descobrir o outro e a refletir sobre o absurdo de sua própria existência, que agora não é apenas inflexivelmente “taciturna e retirada” da sociedade (O Estrangeiro, p.66), mas também fisicamente libertada dela. Nesse estágio, é quase como se Camus estivesse criando escrupulosamente em Meursault uma identificação com os outros apenas para que essas figuras externas se tornassem entidades subjetivas ofuscantes. Camus infunde no romance uma estrutura real de desidentificação, uma articulação que faz com que Meursault evite a interação social e se torne amplamente incorporado à textualidade.

      Ao lado de uma crise ontológica, o romance retrata uma trágica oposição entre Meursault e a sociedade. Em outras partes do romance, Camus torna transparente o distanciamento contínuo, curioso e eventualmente fatal na relação de Meursault com seus próprios motivos:

[O promotor] gostaria de saber se eu havia voltado sozinho à primavera com a intenção de matar o árabe. ‘Não, eu disse. “Nesse caso, por que ele estava armado e por que voltar exatamente àquele lugar?”, Eu disse que foi por acaso.

(O Estrangeiro, pág. 85)

 

A relação textual entre as ações aparentemente irracionais de Meursault e seu assassinato não pode ser explicada em termos de causa, efeito ou motivação (eu respondi prontamente que era por causa do sol, O Estrangeiro, p.99). René Girard argumenta que esse relacionamento sinistro é essencial e não acidental. Em certo sentido, a explicação de Girard justifica a controvérsia interpretativa em relação ao comportamento do personagem: um crime comum é geralmente pessoal ou ideologicamente motivado. Em outro, coloca o protagonista no domínio dos heróis trágicos, atribuindo as qualidades do evento às mesmas forças essenciais que presidem os destinos desses personagens. Do mesmo modo que as palavras crimee inocência são irreconciliáveis, o estado generalizado e esteticamente elaborado de “não-existência” de Meursault, embora glorificado energicamente no texto, nunca pode ser reconciliado com a sociedade tecnocrática moderna, como a estratégia de Camus para o desfecgo do romance demonstra: Ele [o juiz] anunciou que eu não tinha lugar na sociedade cujas regras fundamentais eu ignorava (O Estrangeiro, p. 99). O comportamento, assim como as ações de Meursault podem parecer insípidas, mas a narrativa tenta continuamente transmitir que, exatamente por não terem sentido, elas são altamente significativas. Dentro do contexto do Absurdo, a existência é aleatória e a ausência de qualquer causalidade preeminente para infundir significado leva à articulação de uma experiência libidinal imediata e instintiva. O problema é que esse conceito precisa envolver o conceito de ordem social e, de fato, de ideologia. Consequentemente, o ostracismo social de Meursault no romance demonstra-se tragicamente em desacordo com os valores culturais.

O poder transgressor do romance, então, é que ele dramatiza em sua própria estrutura interna um paradoxo crucial: o fato de que o valor colocado na ética mais elevada da justiça surge do fracasso das próprias relações sociais que ela procura presidir. A narrativa de Camus busca maneiras de fugir ou suprimir a objetividade espúria com que as instituições legais envolvem a sociedade e oprimem o indivíduo. Nesse sentido, o romance é um estudo dos resultados e consequências da maquinaria implacável de normas jurídicas, de seus efeitos concretos na sociedade, e não uma investigação do processo institucionalizado pelo qual elas foram e continuam sendo formuladas. Os tratados filosóficos de Camus sugerem que a essência do “absurdo” não está localizada separadamente no indivíduo ou no mundo; é antes um produto da coexistência dos dois. Se a ambivalência e a vulnerabilidade de Meursault representam rebelião; sociedade e justiça representam limitação. O romance representa, assim, um espelho da sociedade em que foi produzido:

Porque, afinal, a sentença que a havia estabelecido era ridiculamente desproporcional com sua persistência inabalável […]. O fato de a sentença ter sido lida às oito em vez das cinco […] todas essas coisas realmente pareciam prejudicar consideravelmente a seriedade de tal decisão.

      (O Estrangeiro, pág. 105)

 

Ao contrastar o funcionamento paródico das instituições sociais com o conceito igualmente absurdo de arbitrariedade, o texto tenta convencer o leitor de que qualquer julgamento de culpa é inevitavelmente errado. De fato, quanto mais o texto tenta normalizar a inadequação das interações de Meursault com o mundo social, mais confirma a inaptidão hipócrita e amoral desse mundo. David Sherman ressalta de forma convincente (apesar de considerar o romance um sucesso estético) que Camus trai o solipsismo de seu próprio trabalho no próprio ato de escrevê-lo. Expandindo o argumento de Sherman, torna-se plausível sugerir que Meursault acaba habitando o mundo do pensamento racional em seu próprio esforço para miná-lo, sendo aprisionado na racionalidade dos preceitos filosóficos do próprio texto.

     O Estrangeiro tipifica, de maneira bastante magnífica, a descrença existencialista em argumentos fundamentados, assim como evidencia a Filosofia do Absurdo de Camus, com seu foco em arbitrariedade, altruísmo e alienação. Argumentei que Camus dramatiza na própria estrutura de O Estrangeiro todas as ambivalências morais, éticas e estéticas de seu próprio pensamento filosófico, mesmo quando ele tenta mediá-las e torná-las acessíveis. Se a fidelidade do protagonista à verdade origina uma autenticidade individual, ela também produz um desengajamento coletivo com a conjuntura social que produz esse personagem. Os preceitos do Absurdo operam continuamente dentro do romance: nem o ambiente social em que Meursault vive, nem o mundo interior de seus pensamentos possuem qualquer organização racional. A estratégia predominante de Camus, na minha opinião, é nos fazer refletir não apenas na ficcionalidade do personagem que dá ao romance  seutítulo, mas também na ilicitude do mecanismo jurídico. O absurdo que está realmente em julgamento no romance não é o do protagonista que, de maneira aparentemente arbitrária, está se submetendo à sua própria percepção primária; mas sim a arbitrariedade dos sistemas social e judicial que preside o destino do personagem.

 

Referências bibliográficas 

 

Bloom, Harold (ed.), Blooms Modern Critical Views: Albert Camus (New York: Chelsea House Publishers, 1989)

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Camus, Albert, The Myth of Sisyphus and Other Essays(Chicago: vintage International, 1991)

Camus, Albert, The Outsider, trans. By Joseph Laredo (London: Penguin, 1982)

Craig, Ian, Existentialism and Sociology: A Study of Jean-Paul Sartre (Cambridge: Cambridge University Press, 1996)

Eagleton, Terry, Sweet Violence: The Idea of the Tragic(London: Blackwell, 2002)

Growel, Steven (ed.), Cambridge Companion to Existentialism  (Cambridge: Cambridge University Press, 2012)

Hughes, Edward J., The Cambridge Companion to Camus (Cambridge: Cambridge University Press, 2007)

Jeffrey, Olick, and Daniel Levy, ‘Collective Memory and Cultural Constraint: Existentialist Myth and Rationality in French Literature’, French Literary Review 62, no.6 (1997)

Kermode, Frank (ed.), Fontana Modern Masters: Camus (Glasgow: Fontana/Collins, 1979)

Merleau-Ponty, Maurice, Phenomenology of Perception ( Abgindon: Routledge, 2012)

Petrakis Peter A. and Eubanks Cecil L., ‘Reconstructing the World: Albert Camus and the Symbolization of Experience’, The Journal of Politics, No. 2 (May, 1999)

Podhoritz, Norman,  ‘Camus and His Critics’, The New Criterion (Nov. 1982), [http://www.newcriterion.com/articles.cfm/Camus-and-his-critics-6546]

Sage, Avi, Albert Camus and the Philosophy of the Absurd (Amsterdan: Rodopi, 2002)

Sartre, Jean-Paul, Being and Nothingness: An Essay in Phenomenological Ontology (London: Routledge, 2003)

Sherman, David, Camus (Chichester: Wiley-Blackwell, 2009)


* Elton Uliana é crítico literário e tradutor brasileiro, residente em Londres e afiliado ao Centro de Estudos de Tradução da University College London e à Associação dos Tradutores Britânicos, veja.

 

 

Bandido Social e a neofavela: descolonização e criminalidade em “Cidade de Deus”, por Ísis Moraes

Você sabe o porquê do Brasil ser tão violento? O colonizador saiu do Brasil, mas a mentalidade da colônia permanece. Leia o irretocável e esclarecedor texto de Ísis Moraes:


 

Bandido Social e a neofavela: descolonização e criminalidade em Cidade de Deus

As margens da sociedade sempre reservaram aos seus inquilinos uma ampla galeria de privações. Da miséria mais sofrível à mais abjeta ausência de cidadania, despossuídos de toda sorte viram-se, no largo curso da História da humanidade, animalizar e coisificar em favor das elites. Subjugados por um poder que esteve quase sempre além de uma compreensão por vezes tolhida pela fome, pela jornada exaustiva de trabalho, pela inacessibilidade ao sistema educacional, pela dor física e moral, pelo medo e outras formas de coerção, esses condenados à marginalidade viveram quase sempre em função de um único mediador: a violência. Da mais cordial à mais dolosa, é a voz dela que os embala desde o berço até as valas onde depositam seus corpos anônimos e espoliados.

Não é de se estranhar, então, que a linguagem que lhes soa mais familiar seja aquela que ajusta a palavra “defesa” à lâmina afiada que se insurge contra a garganta do opressor. Assim, se por um lado é a voz da violência que os conduz ferozmente à servidão silenciosa, é a sua força que os liberta e os põe de novo frente a frente com a humanidade perdida. Como assinala Jean-Paul Sartre, no prefácio do livro Os Condenados da Terra, de Frantz Fanon, “na falta de outras armas, a perseverança da faca será suficiente” para resgatar aquilo que nunca deveria ter sido usurpado:

Encontramos a nossa humanidade do lado de cá da morte e do desespero, ele a encontra do lado de lá dos suplícios e da morte. Fomos os semeadores de ventos; ele é a tempestade. Filho da violência, extrai dela a cada instante a sua humanidade; fomos homens à custa dele; ele se faz homem à nossa custa. Um outro homem, de melhor qualidade. (SARTRE, Jean-Paul. In: FANON, 1979, p.16)

Na visão de Sartre, o temor que os explorados experimentam diante dos inesgotáveis meios de repressão do dominador surge como o responsável direto pelo furor que os inspira a reclamar o que lhes é de direito. Encurralados entre as armas que apontam contra eles e os “desejos de carnificina” que lhes tomam, acabam por explodir veementemente contra o seu antagonista, devolvendo-lhe a sua própria crueldade, que se avoluma e os dilacera. A imagem que se vê, então, assemelha-se a de mendigos “lutando, em sua miséria, contra ricos poderosamente armados”, na tentativa desesperada de fazer a violência “cicatrizar as feridas que ela mesma fez”.

No vermelho do sangue opressor que se derrama – produto de duas violências que se chocam e se equiparam – nasce a consciência de que os pobres nem sempre precisam ser “desamparados” e “dóceis”. É através da arma que muitos descobrem que também podem ser terríveis. E que a “liberdade”, forjada a quente no seio do embate, é um privilégio que também lhes cabe. A partir disso, o dominador jamais deixa de ser o oponente. Mais que isso. Frantz Fanon o coloca na alça de mira da “coisa colonizada, oprimida, espoliada”: será sempre “o homem a abater”. Isto porque o explorado é um perseguido que acalenta constantemente o sonho de comandar a caçada. E não se trata de competir com o inimigo: quer o lugar dele. As disparidades entre os dois universos não permitem, em hipótese alguma, a coexistência. Em sendo assim, não hesitará um segundo em matá-lo, sobretudo porque desde muito cedo percebe claramente que o mundo estreito e semeado de interdições que o aflige não pode ser reformulado senão pela violência absoluta, afinal, como constata Fanon, “o colonialismo só larga a presa ao sentir a faca na goela”. É, pois, uma violência em estado bruto, que só se curva frente a uma violência ainda maior. Trata-se de tomar tudo aquilo que sempre foi negado pelo poder:

A cidade do colono é uma cidade sólida, (…) iluminada, asfaltada, onde os caixotes de lixo regurgitam de sobras desconhecidas, jamais vistas, nem mesmo sondadas. A cidade do colono é uma cidade saciada, indolente, cujo ventre está permanentemente repleto de boas coisas. (…) é uma cidade de brancos, de estrangeiros./ A cidade do colonizado (…) é um lugar mal afamado, povoado de homens mal afamados. (…) é uma cidade faminta, faminta de pão, de carne, de sapatos, de carvão, de luz. A cidade do colonizado é uma cidade acocorada, uma cidade ajoelhada, uma cidade acuada. (…) O olhar que o colonizado lança para a cidade do colono é um olhar de luxúria, um olhar de inveja. Sonhos de posse. Todas as modalidades de posse: sentar-se à mesa do colono, com a mulher deste, se possível. O colonizado é um invejoso. O colono sabe disto; surpreendendo-lhes o olhar, constata amargamente, mas sempre alerta: ‘Eles querem o nosso lugar’. É verdade, não há um colonizado que não sonhe pelo menos uma vez por dia em se instalar no lugar do colono. (FANON, 1979. pp. 28-29)

Mas só há um meio de se conseguir isso: assumir a identidade forjada pelo opressor. Esse título, porém, trará sempre consigo a marca da ambigüidade. Isto porque se por um lado o bandido é visto como nada mais que um criminoso comum pelos olhos da lei que protege os ricos, por outro será encarado como o herói de uma gente pobre e humilhada, que vê na sua insubordinação o seu próprio triunfo. Inimigo do senhor e do Estado, o bandoleiro torna-se, pois, o campeão e o vingador dos desprovidos. E uma vez figurando no imaginário coletivo popular como símbolo de protesto e rebelião social, este líder da “libertação” será amplamente admirado, ajudado e sustentado por sua gente, sobretudo porque a sua revolta – salvo nos casos de delação – não costuma atingir seus iguais, apenas os que se encontram do lado oposto da miséria:

O indivíduo que sucumbe numa peleja depois de ter abatido quatro ou cinco policiais, o que se suicida para não denunciar seus cúmplices, constituem para o povo guias, esquemas de ações, ‘heróis’. E é inútil, evidentemente, dizer que tal herói é um ladrão, um crápula ou um depravado. Se o ato pelo qual este homem é perseguido pelas autoridades colonialistas é (…) dirigido exclusivamente contra uma pessoa ou um bem colonial, (…) O processo de identificação é imediato. (FANON, 1979, p. 53)

Legítimos representantes de um mundo em dissolução, os bandidos sociais não são apenas homens fisicamente aptos que, a passar fome, preferem tomar pelas armas aquilo de que necessitam. Surgem como sintomas de uma grave crise, imbuídos da missão de desagravar as injustiças. Sonhando com um mundo de liberdade, igualdade e fraternidade, onde a submissão não mais seja imposta como norma da vida humana – o que dificilmente sairá do plano da idealização –, quase sempre ajudam a gente humilde que os acolhe e admira. Roubando dos ricos para dar aos pobres, muitos bandidos acabam por encarnar o mito do Robin Hood, o ladrão nobre. Mas, de acordo com Eric Hobsbawm, em sendo a realidade como é, poucos deles possuirão a abnegação, o idealismo ou a consciência social para exercer esse papel. Assim, tirar dos ricos é uma certeza; dar aos pobres, nem sempre. De toda sorte, representam o produto da contrapartida da passividade geral dos necessitados e, portanto, afirmam-se como seus “legítimos” defensores.

Fenômeno universal, nascido das entranhas de todas as épocas de pauperismo e cerceamento, o banditismo social não encontrou, no entanto, seu lugar na contemporaneidade. É, pois, no dizer de Eric Hobsbawm, um fenômeno do passado: “O mundo moderno o matou, substituindo-o por suas próprias formas de rebelião e de crime” (HOBSBAWM, 1975, p. 18), diz ele, como que a reiterar que, num tempo regido pela voracidade de um capitalismo que nega em absoluto toda uma legião de miseráveis, colocando-a sob suspeição e vigilância constantes e empurrando-a cada vez mais contra as suas margens, até o sufocamento completo, não há mais espaço para delito algum que conserve o menor resíduo de nobreza.

No encalacrado mundo das grandes metrópoles, despossuídos, subnutridos, e também negros e mestiços, são as vítimas preferenciais de uma violenta política de saneamento social que visa unicamente a sobrevivência da dita sociedade “sã”: endinheirada, poderosa e branca. Os que não se encaixam neste perfil devem permanecer isolados, acuados nos becos das neofavelas, que nada mais são do que depósitos de gente, uma gente enquadrada pelo sistema como portadora de uma “identidade social maléfica” (ZALUAR, 1987). Para esses suspeitos em potencial, cruzar a fronteira que leva à “cidade ideal” significa quase sempre ser eliminado: ou será preso, ou será morto.

Essa nova forma de “colonização” acende o estopim de uma violência ainda mais apta a passar por cima de todas as barreiras interiores. Mais uma vez é ela a mediadora do conflito. E é exatamente sobre esse novo estágio de rebelião – e por que não dizer descolonização? – que a narrativa de Paulo Lins se debruça. Intitulado Cidade de Deus, o romance desnuda os conflitos existentes no tecido social do país e aponta uma arma para a cara da sociedade brasileira. Encurralada, esta já não tem outra alternativa senão enfrentar os fantasmas que ela mesma criou. Afinal, o tempo da indiferença foi “passado” e o crime nos diz, altissonante, que não há mais conciliação possível. Decretando a morte do malandro, o livro indica que o que nos identifica hoje é tão somente uma rasura e esclarece que a explosão da violência não mais nos permite pensar o país pelos moldes da “cordialidade” e da “harmonia”. O tempo presente refuta idealizações desta ordem, insurgindo-se veementemente contra a pseudotranqüilidade de uma identidade nacional forjada ao longo da história.

Nascido da truculência colonialista, o Brasil revelado por Paulo Lins parece não mais aceitar refletir imagens distorcidas pela conveniência. O seu retrato de agora é nítido e estampa sorrisos caídos de bocas sem dentes, que tramam a morte nos conchavos de becos. Nesse sentido, Cidade de Deus ilumina os labirintos de um conjunto habitacional do Rio de Janeiro criado parra “conter” não seres humanos dotados, cada um deles, de identidades individuais, mas uma massa de miseráveis forjada pelo Estado e homogeneamente marcada pelo signo da “delinqüência”. O que se vê, então, e de dentro, é um “retrato hediondo” de um Brasil que, acossado pela pobreza, pela discriminação e pela indigência, mata, assalta, estupra, trafica e se vê obrigado a fugir constantemente de uma polícia igualmente violenta e quase sempre corrupta. Mais do que nunca, viver, em Cidade de Deus, é não morrer, mesmo para aqueles que não abraçam a carreira do crime. Sim, sempre haverá os “otários”, que trabalham honestamente mesmo sabendo que jamais irão a lugar algum com a “merreca” que lhes pagam. Já os “bichos-soltos” optarão sempre por cobrar na bala o que julgam que a sociedade lhes deve:

Lembrou-se (…) daquela safadeza do incêndio, quando aqueles homens chegaram com saco de estopa ensopado de querosene botando fogo nos barracos (…). Fora nesse dia que sua vovó rezadeira, a velha Benedita, morrera queimada. (…) ‘Se eu não fosse molequinho ainda’, pensava Inferninho, ‘eu tirava ela lá de dentro a tempo e, quem sabe, ela tava aqui comigo hoje, quem sabe eu era otário de marmita e o caralho, mas ela não tá, morou? Tô aí pra matar e pra morrer.’ Um dia após o incêndio, Inferninho foi levado para a casa da patroa de sua tia. (…) Ficava entre o tanque e a pia o tempo todo e foi dali que viu, pela porta entreaberta, o homem do televisor dizer que o incêndio fora acidental. Sentiu vontade de matar toda aquela gente branca, que tinha telefone, carro, geladeira, comia boa comida, não morava em barraco sem água e sem privada. (…) Pensou em levar tudo da brancalhada, até o televisor mentiroso e o liquidificador colorido. (CD, p.23)

Como se pode notar, o “favelado” também lança sobre a cidade dos ricos aquele mesmo olhar invejoso que deseja arrancar dela tudo o que ele nunca teve, e sobre os seus donos aquele mesmo ódio que ambiciona exterminá-lo. Se o bandido social não mais existe nas modernas sociedades, os resquícios de seu levante ainda permeiam o cotidiano daqueles que se revoltam frente às injustiças. A sua carabina pode ter mudado de mãos, mas o alvo ainda é o mesmo. Desse modo, a bala freqüentemente vem a substituir a palavra que o “bicho-solto” é obrigado a engolir a seco: Falha a fala. Fala a bala. (CD, p. 21)

Mas o caminho trilhado por essa neodescolonização é ainda mais sangrento, sobretudo porque tem de lidar com um esquema muito bem montado de alienação, que, por vezes, desvia o foco da violência do explorado, fazendo-a recair sobre ele próprio. Trata-se de um jogo, que leva o oprimido a incidir numa sangrenta guerra contra os seus. Retomando Fanon, exposto a tentativas diárias de morte, à fome, à expulsão do quarto não pago, à falta de oportunidade de trabalho digno, à bala perdida que cruza os becos em busca de um corpo, o espoliado chega a ver seu semelhante como um inimigo implacável. E nessas circunstâncias o assassinato é só mais um passo. O próximo, talvez. Além disso, no mundo do crime urbano, diferentemente do que ocorre no universo rural do banditismo social, proteger os inocentes já não é mais um requisito moral. Se os “bichos-soltos” o fazem, é puramente por interesse. E num ambiente em que “é mais seguro atirar primeiro e fazer perguntas depois”, este costuma ser altamente volúvel. Por isso, entre a arma e a sina que ela terá de cumprir, o inocente é quase sempre um obstáculo a ser derrubado em favor da demanda individual.

Em Cidade de Deus, Paulo Lins evidencia o horror de um campo de batalha onde não apenas traficantes se entrematam e espalham o terror entre os seus irmãos “favelados”, transformando-os em vítimas e cúmplices do seu ódio, mas onde homens simples também se revelam capazes de assassinar cruelmente, e por motivos muitas vezes tomados como banais. Contudo, alerta Sartre, que ninguém se iluda: “não se creia que um sangue demasiado ardente ou desventuras da infância lhe tenham dado para a violência não sei que gosto singular: ele se faz o intérprete da situação, nada mais”. E não se trata de defender o crime, mas apenas de não submetê-lo às leis sumárias da conivente justiça das elites. É preciso entender que, em um contexto miserável, ser bandido quase nunca é uma opção. É, antes, uma estratégia de sobrevivência. Por isso, em Cidade de Deus, não há “bandidos” nem “heróis”, há homens, mulheres e crianças lutando para resgatar a humanidade usurpada.

De qualquer modo, é este cenário caótico, movimentado pela antiética do lucro que rege as sociedades capitalistas, que vai minando vorazmente os poucos resíduos do banditismo nobre. Se num primeiro momento Inferninho reparte o butim igualitariamente entre o bando, posteriormente Zé Miúdo não hesitará em matar um comparsa para ficar com a sua parte do roubo. Se em dado momento um “bicho-solto” pede aos seus comandados para só matar para não morrer, mais adiante assassinato será a palavra de ordem para ganhar prestígio. Se um marginal-malandro como Pardalzinho pede pela vida de inocentes e pela não violação das mulheres em certa fase do romance, depois da sua morte Zé Miúdo não pensará duas vezes em matar o avô e estuprar a noiva de Zé Bonito, um “otário” que, frente à injustiça cometida, abraçará a carreira do crime ressuscitando e encarnando, embora não por muito tempo, um dos tipos mais significativos que se inserem na linhagem dos bandidos sociais: o vingador.

Para se transformar no pesadelo de um dos mais cruéis criminosos de Cidade de Deus, Zé Bonito – até então trabalhador honesto, homem pacato, de boa família e conduta – se alia a Sandro Cenoura, traficante da região que disputa com Miúdo a liderança das bocas-de-fumo. Revoltado, irá firmar seu direito de ser respeitado pela luta declarada e se insurgirá para constituir a exceção numa comunidade em que os senhores do tráfico substituem o Estado.

Bonito manuseou a pistola 45 com a agilidade que adquirira no tempo em que servira na brigada de pára-quedistas do exército. (…)/ O volume da arma alertou os amigos:/ – Vai aonde?/ – Vou matar aquele desgraçado!/ – Meu irmão, tu não pode ir lá sozinho não, rapá! O cara é matador! Esquece isso! (…) Tu é um cara pintoso, tem tudo pra se dar bem, não entra numa de bandidagem, não…/ Bonito não dava ouvidos. Percorreu toda a rua do Meio, (…) entrou por duas vielas a passos largos, na terceira diminuiu as passadas, tirou a arma da cintura, engatilhou-a e entrou na viela (…) onde Miúdo costumava ficar. Avistou seu inimigo e mais três quadrilheiros, apontou a arma e atirou seguidamente./ Miúdo riu fino, estridente e rápido e devolveu os tiros (…), os outros dois também atiraram e acompanharam o estuprador, o terceiro tentou trocar tiros com o vingador e foi atingido fatalmente na testa./ Bonito aproximou-se do cadáver (…) colocou o pé esquerdo em cima da cabeça, o direito em cima da barriga e gritou:/ – Esse é o primeiro! Quem quiser seguir esse desgraçado vai ter o mesmo fim desse aqui! (CD, pp. 313-315)

Como todo bandido social, o destemido rival do traficante Zé Miúdo (que também não deve ser condenado nem olhado de esguelha pelo leitor, já que é tão “vítima” da situação quanto seu adversário) ganha o apoio inequívoco de sua comunidade: ferido em combate, será acolhido, tratado e amparado pelo povo do lugar, que o respeita e reverencia não só pela bravura, mas também por se configurar como um restaurador da moralidade que o tráfico apagou. Contudo, esse mesmo justiceiro não demorará a perceber que “Onde os homens se tornam bandidos, a crueldade gera crueldade, o sangue exige sangue”. (HOBSBAWM, 1975, p. 56)

Isto porque, ao pôr em curso o programa de sua “descolonização”, Zé Bonito desencadeou uma verdadeira guerra em Cidade de Deus. Só não imaginava que o desagravo de sua injustiça solaparia os últimos sinais de um banditismo que inicialmente mostrara-se nobre, mas que logo se perderia nas trincheiras do crime. Por várias vezes, Bonito tentará honrar seus princípios, que em vários aspectos se igualam aos que regem a carreira do vingador nobre. Nunca matar, a não ser em legítima defesa ou por vingança justa, será o principal deles. E também o primeiro a tropeçar nas valas abertas pelo tráfico.

A partir daí, o Zé Bonito que, num primeiro instante, estranha as gírias dos marginais, que não usa drogas, que se recusa a concordar com a arregimentação de crianças para o tráfico por acreditar que o lugar delas é na escola, que proíbe a violação de mulheres e que não se esconde da polícia por não se achar um delinqüente se verá obrigado a liberar os estupros e assaltos na área do inimigo e a permitir que crianças tenham seus crânios estourados pelos fuzis dos traficantes que se arriscam a enfrentar. E como se isso não bastasse, consumirá desesperadamente a cocaína que tanto renegou. Entretanto, este bandido social pós-moderno, assim como seus “antepassados”, jamais deixará de lamentar o destino que o levou a compactuar com a instauração daquela “febre de morte” entre os homens.

Sentado num banco, as lágrimas se destroçavam no chão de cimento cru. (…) Era um bandido, um matador, um formador de quadrilha, um desencaminhador de menores. E não fora para isso que aprendera a orar quando criança, não fora para isso que sempre tinha sido o melhor aluno na escola, não fora para isso que se resguardara das amizades de rua. O curso superior em educação física havia ido para a casa do caralho, assim como a lua-de-mel com sua amada, depois de testemunhar o pênis de Miúdo na vagina dela feito retroescavadeira, o corpo do avô ensangüentado, a casa cheia de buracos de balas, a mãe de Filé com Fritas recolhendo os pedaços da cabeça destroçada do filho no asfalto quente. As lágrimas avolumaram-se. (…) A noite foi em claro. (CD, pp. 346-347)

Na reflexão de Bonito, a constatação de que um bandido, mesmo determinado a não dobrar a cerviz, não consegue fugir tão facilmente à lógica da vida numa sociedade minada pela exploração se desnuda violentamente. Depois disso, tendo cumprido, ainda que atropelado pelos percalços do crime, quase toda a sina do vingador clássico, só lhe restava o único fim destinado aos emissários do banditismo social: a morte por traição; já que, a exemplo do que afirma Hobsbawm, nenhum membro decente da comunidade auxiliaria as autoridades – sejam as do tráfico, sejam as do Estado – contra bandoleiros de sua estirpe.

O viciado olhou para trás, para os lados; não vendo ninguém, disparou três vezes nas costas de Bonito, que ainda se virou, apontou o revolver na tentativa de matá-lo. O viciado deu-lhe mais um tiro. Zé Bonito caiu. (CD, p. 375)

Mas a morte de Zé Bonito não legará aos moradores de Cidade de Deus um exemplo de coragem e honra a ser seguido. O tempo do banditismo social que inspira a admiração das massas passou. As páginas nada conciliatórias do romance de Paulo Lins não farão sucessores para este vingador. Elas vieram pelo crime. Para dizer que do ventre dele só nascem “anjos”, aqueles que cada vez mais cedo virão para cobrar da sociedade sua impagável conta.

** Este artigo está publicado em: BOTELHO, Marcos (org). Seis Passeios por Cidade de Deus. Feira de Santana: UEFS, 2007.


Ísis Moraes Ramos é jornalista e editora do Jornal Tribuna Feirense. isis.m.ramos@bol.com.br

Está chegando: 75ª Feira do Livro de Madrid (com uma “pitada” de desânimo)

Feiras de livros são oportunidades fantásticas para conhecer todos os tipos de autores, de todos os gêneros e lugares. A Feira do Livro de Madri, cidade onde moro, dura 22 dias e, normalmente, traz um país convidado. Esse ano: a França. Isso implica que teremos a oportunidade de conhecer autores franceses contemporâneos. Já contei que tenho uma quedinha pelos franceses? Leia aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

A lista de escritores que estarão presentes já começou a ser atualizada, até o dia da feira irão entrando mais nomes. Por exemplo:

No dia 5 de junho, você poderá conhecer em pessoa o dono do melhor restaurante do mundo, Ferrán Adrià e seus livros com receitas maravilhosas.

ferran_adria_recetas

Julia Navarro, escritora espanhola, essa vale a pena conhecer. Eu li o “Dime quien soy” e gostei bastante. Ela vai estar em vários dias, melhor consultar a lista.julia

Ainda não divulgaram os escritores franceses que estarão presentes.

A lista, por enquanto, deixou- me muito desanimada. Viram a minha animação do início? Pois é, c’est fini. A literatura de não- ficção deve entrar, pois há coisas muito úteis que precisamos. Eu mesma citei o Ferràn Adrià. Há ensaios, divulgação científica, dicionários, fotografia, gastronomia, muita coisa bacana, mas não vale tudo.

Nos últimos três anos, principalmente, a onda de youtubers e “gente nada a ver com literatura” invadiram a feira e o nosso mundo literário. A literatura vai minguando. Qualquer um acha que pode escrever um livro. Poder até pode, mas não é literatura. Há livros muito respeitáveis de não- ficção, que são úteis e necessários, mas não é o caso da lista que acabei de ver. Desânimo.

Isso pode ter consequências muito negativas: a juventude só vai ler porcaria; os escritores decentes não vão querer participar da palhaçada; os consumidores de literatura (ficção, artística, principalmente) deixarão de ir e a feira acabará se transformando numa festa de babacas, adolescentes alucinados e curiosos querendo tirar fotos com artistas e youtubers.

Eu mesma, na feira de 2014, fui cedinho para “ficar na fila”, pois adoraria conhecer Luis Goytisolo (1935) pessoalmente. Um escritor de primeira linha, membro da Real Academia Española (irmão do também escritor, o célebre Juan Goytisolo), escreveu livros incríveis como “Antagonía”, uma obra- prima. Esse autor espanhol é comparado com Proust. Cheguei esbaforida, “Ué, cadê a fila?!”. Não havia ninguém. A minha surpresa foi tanta que o autor percebeu. “Não sou um autor popular”. A vantagem é que pude conversar bastante com ele e tenho o privilégio de ter quase toda a sua obra (carinhosamente) autografada. Mas, não consegui evitar a sensação de tristeza e desencanto: “se ninguém lê um autor desses…que fazemos?!”

Caramba, nosso espaço já é muito restrito, será mesmo que eles têm que invadir a nossa praia?! Claro que sim, as editoras e “escritores” (que normalmente nem escrevem, alguém faz isso por eles) querem é ganhar dinheiro, não importa com quê. Oportunistas.

Cartel FLM16O cartaz desse ano é de Emilio Gil, um artista gráfico.

Vou aguardar para ver se melhora. Será que virá pelo menos algum desses escritores franceses: Patrick Modiano, Pierre Lemaitre, Fred Vargas, Laurent Mauvignier, J. M. G. Le Clézio, Frédéric Beigbeder? Senão, fico aqui com a minha maravilhosa biblioteca.

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Portrait of diligent pupil sitting on pile of books and looking at camera

The Consciousness Effect: Representation of Subjectivity in Virginia Woolf’s To the Lighthouse and James Joyce’s Ulysses

Falando em Literatura in english? Yes! Elton Uliana‘s article, he’s Brazilian, bachelor of English Literature from University Birkbeck College, University of London. Enjoy!


The Consciousness Effect: Representation of Subjectivity in Virginia Woolf’s To the Lighthouse and James Joyce’s Ulysses 

A sudden light transfigures a trivial thing, a weathervane, a windmill, a winnowing flail, the dust in the barn door; a moment – and the thing has vanished, because it was pure effect.

   (Walter Pater)[1]

 

The house of fiction has many windows, but only two or three doors.

     (James Wood)[2]

The works of Virginia Woolf and James Joyce are a landmark in aesthetic history. In the early twentieth century, a moment of rupture and breakdown in cultural order, both writers responded to the changing conditions of the period by proposing a radical overturn of the objective mimetic impulses characteristic of conventional literary representation. In their own idiosyncratic way, each writer indulged freely in communicating a more relativistic, subjectivist version of reality. Woolf’s and Joyce’s linguistic experimentation epitomizes the ‘high modernist’ aesthetic system with its emphasis on consciousness rather then character (realism) or temperament (naturalism); its neglect of plot coherence, unity and closure; and its retreat from omniscient narrative strategy.[3] This pivotal misrule of literary form notoriously involved a multitude of other innovations like the debunking of syntax, the dislocation of cohesive point of view, and the disinheriting of linear time. If this break with tradition allowed for an ironic, if fictitious detachment between object and subject, it also represented a radical shift in the whole category of the subject, which became tantalizingly elusive and self-evident at the same time. These innovations of the modernist project remain remarkably enduring.

     Even though the writings of Woolf and Joyce may be regarded as diametrically opposites in terms of stylistic and thematic psychology, underlying that there is a preoccupation which inevitably unites them: the recasting of human consciousness, perception and memory beyond realistic conventions. This study will analyze the relationship between consciousness and literary representation as structured in Woolf’s To the Lighthouse (1927) on the one hand and in Joyce’s Ulysses (1922) on the other. I shall argue that both Woolf’s and Joyce’s narrative technique produce, in strikingly distinctive manner, an expansion of subjective boundaries, one which destabilizes the self and makes it permeable by the other and impregnated by elusive, ephemeral impressions of external worldly events. I will focus both on the effects produced by free indirect style on the representation of consciousness and on the implications that genre, mode and form have on subjectivity.

     Both Woolf and Joyce use modulations in genre to shape and reproduce the effects of reality on consciousness. Each chapter in Ulysses is constructed in distinctive style, from epic to journalistic, from the dramatic to the catechetic form. In episode seventeen (Ithaca), when Joyce abruptly converts the genre of the preceding chapter from a long-winded prose (which emulates medieval morality tales and Christian parables) to a highly stylized parody of the Catholic catechism, Joyce’s narrator with all its verbal incontinence reveals a consciousness ceremoniously invaded by (low and high-brown) textual paraphernalia:

Similarly?

The trajectory of their, first sequent, then simultaneous, urinations were dissimilar : Bloom’s longer, less irruent, in the incomplete form of the bifurcated penultimate alphabetical letter who in his ultimate year at High School (1880) had been capable of attaining the point of greatest altitude against the whole concurrent strength of the institution, 210 scholars : Stephen’s higher, more sibilant, who in the ultimate hours of the previous day had augmented by diuretic consumption an insistent vescical pressure.

(Ulysses, p. 655)[4]

ulysses

Here (and elsewhere in the novel), there is a collision between the apparent psychological scantiness of the subjects and the verbal opulence with which they are treated. Suitably enough, the experiences of Bloom and Stephen are focalized through Joyce’s avatar in the text according to the conventions of the cathetic form, or in Joyce’s own words, ‘mathematical catechism’.[5] By categorizing the verbal details of the text and attempting to render the human within this ‘cosmic physical’ frame, Joyce’s writing not only tests the boundaries of genre but also produces a convulsion of subjectivities and data, making the distinction of voices virtually impossible. If the language in the passage with its doctrinal, pedantic (and clichéd) quality does not belong to Bloom (‘irruent’) or Stephen (‘sibilant’), it may not be characteristic of the narrator either.[6] In fact, this current of changing impressions goes so far as to produce a sense in which there seems to be no viewpoint at all outside the text from which the characters and events are observed, anymore then there seems to remain no objective reality apart from the one produced in the narrator’s consciousness.

   In an illuminating study of Joyce, Steven Connor argued that the chapters of the novel seem to form a pattern of stylistic rivalry.[7] The scholar suggests that this stylistic competition amongst the chapters often functions not to give expression to a consciousness, but rather, it represents ‘alien threats to or potential distortion of, that consciousness’.[8] If Joyce’s provoking stylistic design represents a discontinuity of consciousness, a debunking of a coherently expressible, obviously organized and consistently established structure of feelings and thoughts, as Connor suggests, it does so by continuously and self-consciously asserting an overarching unifying sensibility, one which authoritatively interpolates the purposelessness, seemingly pointlessness argument and the supreme autonomy of the work: that of the author, of James Joyce himself. In this way, the more the text disseminates this discontinuity of consciousness by its continuous change in style, mode, tone and diction, the more it establishes the (narcissistic) consciousness of its own author, one which is not only asserted, but in my view also performed in the text.

   Extending this point, ‘personality’ is always in tension with ‘impersonality’ in Ulysses.[9] According to Joyce, the aesthetic emotion is static and clinical, it arrests the mind and raises it ‘above desire and loathing’.[10] T.S. Eliot’s declared in ‘Tradition and the Individual Talent’ (1919) that a literary work is ‘not a turning loose of emotion, but an escape from emotion; it is not an expression of personality, but an escape from it’.[11] Expanding on Eliot’s argument, it becomes plausible to suggest that Joyce’s attempt to evade expressions of a particular consciousness (being it of the characters or of the writer himself) by constantly incorporating new genres in the textual fabric of the novel is, in fact, an assertion of Joyce’s own literary ambition and distinct artistic personality.

     This critical instance has another nuance. In a cold, ruthless manner the text manages to implement an ironic detachment between itself and the content it presents. Characteristically, to codify even more the semiotic situation in Ulysses, the narrator plunges into libelous subjects (‘the problem of irritability, tumescence, rigidity, reactivity, dimension, sanitariness, pelosity.’, p. 665) and reflects dispassionately on the shabbiness of ordinary life (‘both contemplate each other in both mirror of the reciprocal flesh theirhisnothis fellowfaces.’,p. 664) but offers no comment on the material related. It is plausible to suggest though that the narrator retains, nevertheless, some of Joyce’s own systematic inclination to scholastic, scientific and even theological thought.[12] Indeed, the author’s almost prurient captivation by ordinariness is established in the text rather magnificently. Joyce manages to combine the cult of the prosaic with wholehearted affinity with it.

     Form and content in To The Lighthouse have a similar vexed relation. However, the narrator’s deliberate (but not always ironic) detachment in Woolf’s text is never in the depraving, corrupting, unpalatable Joycean sense. The perception of inner processes in the novel, that is, the interior movement of characters’ and narrator’s consciousness, is systematically described (represented) by association, exposition or allusion to exterior reality. Nevertheless, these agents are not necessarily involved in the external occurrences. If the minds of the characters in the novel are momentarily anchored in the reality of the body or of real life, it is never in the same bluntly grocer context as in the passage from Ulysses above; instead, it is more likely to be because it leads to an excursion to some subjective, ethereal realm:

“And even if it isn’t fine to-morrow,” said Mrs. Ramsey, raising her eyes to glance at William Bankes and Lily Briscoe as they passed, “it will be another day. And now,” she said, thinking that Lily’s charm was her Chinese eyes, aslant in her white, puckered little face, but it would take a clever man to see it, “and now stand up, and let me measure your leg,” for they might go to the Lighthouse after all, and she must see if the stocking did not need to be an inch or two longer in the leg.

       (TTL, p. 24)[13]

The balance of this extract shifts from apprehensions of interior worlds (Mrs. Ramsey’s and the narrator’s) to presentations of penetrable objects and impenetrable substances. If the scene reveals a ‘myriad of impressions’ in Mrs. Ramsey’s mind, it also suggests at least two distinct layers of voices.[14] Through free indirect speech, Woolf simultaneously opens and bridges a subjective and linguistic gap between character and narrator. This technique enables the reader to see, hear and imagine things through Mrs. Ramsey’s physical eyes (‘and now stand up’), through her mind’s eyes (‘it would take a clever man to see it’) and through the narratorial function (‘for they might go to the Lighthouse after all’); but also through the language of both. In this sense, the novel relegates not only consciousness but also language to relative, temporary state. Thus, the characters’ consciousness in the novel blurs into everything which surrounds them.

     This strategy implies a ‘double flexibility’.[15] The narrative operates in a multitude of simultaneous time dimensions (Mrs. Ramsey’s moment with James, the unspecified time of her conjecture on Lily’s attractiveness, the moments of authorial flagging – e.g. ‘she said’) and promenades itself elastically in space; sometimes observing Mrs. Ramsey, sometimes calling on William or on the Lighthouse. In his anthological study of the brown stocking episode in To the Lighthouse, Erich Auerback stresses that the narrative’s elasticity is constructed around interruptions. Indeed, the novel spatial-temporal expansions and contractions are woven in and utilized as frames for inner processes, both of characters present in the scene and for the perspective of characters that are physically absent. In the passage above, Mrs. Ramsey initial comment is continually interrupted by external occurrences and thoughts: first by the image of Bankes and Lily, then by the impressions these two characters have left in her mind. By the time Mrs. Ramsey finishes her sentence (‘and now let me measure your leg’), the reader is allowed a detailed intrusion in her memory, private thoughts and physical actions. Auerbach suggests that Mrs. Ramsey’s action of measuring the brown stocking against James’ legs dramatizes multiple works of consciousness, but in my view, it also connects the character with subliminal appearances and vibrations and establishes the (fragmented) continuity of the section. The novel embroiders the details at which Mrs. Ramsey is gazing at or focusing on into the activity of her own thoughts. In this way, the text of To the Lighthouse both structures the subjects within these dynamics and is structured by them.

     Time is a subjective process in both novels. The reader is embedded in it and experiences it in different ways. As both novels are concerned with the representation of states of mind, time is also embedded in the consciousness of the characters.[16] For Mrs. Ramsey in To the Lighthouse, the ephemeral moments, if they are saturated with significance, they are as important as if they were ten years for a character in a realist novel:

For she knew that he had turned his head as she turned; he was watching her. She knew that he was thinking, You are more beautiful than ever. And she felt herself very beautiful.

         (TL, p. 115)

Virginia Woolf To the Lighthouse 1927

In this passage and elsewhere in the novel, there are many things occurring in any moment simultaneously. Mrs. Ramsey’s words, feelings and thoughts are filtered through the third person narration. This instance of reported or indirect speech allows the narrator to let the reader know what Mrs. Ramsey is thinking; arguably in her own inflection, without the conventional authorial flagging (‘she though’ or ‘she said to herself’). It also facilitates the encompassing of unredeemed fragments of time. There is a sense throughout the novel that something meaningful, stable and eternal is at the core of personal experiences, of which we are only able to grasp a fleeting glimpse. Mrs. Ramsey represents one way of approaching experience. Her subjectivity is textually set against Mr. Ramsey objectivity.[17] Although they each have their moment of vision, Mrs. Ramsey seems to be always trying to make from the moment something permanent. Woolf continuously deploys different modes of indirect speech, most frequently free indirect style to slip in and out the character’s consciousness and incidentally give the reader a sense of multiple time frames; lapses of time which can be chronological, cyclical, mythical, subjective and so on.[18] The novel’s capacity to depict speech, consciousness and span of time is both mimetic and generative.[19] In this way, the characters’ stream of thoughts and their subjective apprehension of time, although seemingly organic and flowing, are actually affects of a meticulously studied narrative technique, one in which Woolf (and Joyce) is a prolific master.

     There is a remarkable artistry in the very act of perception in both novels. I have argued that Woolf and Joyce emphasized not only in To the Lighthouse and Ulysses but throughout their careers the urgency of reformulating language and literary representation by diverging radically from modes of realistic aesthetic. In their deliberate effort to produce a different kind of fiction, and extend its franchise, both writers developed a revolutionary and seminal mode for rendering the flux of experience and its impressions on the mind. The apprehension of the elusive relationship between the mind and reality in To the Lighthouse and Ulysses produces a fictional world which is nevertheless exuberantly embedded in the very elusiveness of the reality they wish to represent. The subjective flow of mental processes is in continuous dialectic with external objective events. If the world in both novels is vivid, radiant and mysteriously meaningful (in Joyce’s case usually profane), it is also somehow dependent on the mind, on the consciousness of both characters and narrators. Both novels powerfully undercut the idea of a stable, non-fragmented, realistically representable human subject. By deploying a constant interplay between modes of speech and generic conventions and performing continuous shifts in perspective both temporal and spatial, both writers become a kind of cchroniclers of the aesthetic and ontological anxieties of the early twentieth century. Each created an extravagant atmosphere of thought in their works and an unprecedented form of representing states of mind.

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[1] Quoted in Harold Bloom, Novelists and Novels: A Collection of Critical Essays (New York: Checkmark Books, 2007),

[2] James Wood, How Fiction Works (New York: Picador, 2008), p. 3.

[3] Peter Brooker (ed.), Modernism/Postmodernism (Harlow: Pearson Education Limited, 1922), p. xi.

 

[4] All quotes from Ulysses will be taken from James Joyce, Ulysses, ed. by Jeri

Johnson (Oxford: Oxford University Press, 1998).

[5] Richard Ellman, Ulysses on the Liffey (London: Faber and Faber, 1974), p. 156.

[6] Derek Artridge, Joyce Effects: On Langrage, Theory, and History (Cambridge: Cambridge University Press, 2000), p. 94.

[7] Steve Connor, Writers and their Work: James Joyce (Plymouth: Northcote House, 1996), p. 61.

[8] Ibid.,p. 61.

[9] For the quest for ‘impersonality’ in literary Modernism see Peter Childs, Modernism (London: Routledge, 2000), p. 7.

[10] Joseph Brooker, Joyce’s Critics: Transitions in Reading and Culture (London: University of Wisconsin Press, 2004), p. 21.

[11] Tim Armstrong, Themes in 20th Century Literature and Culture: Modernism (Cambridge: Polity, 2005), p. 91.

[12] Terry Eagleton, The English Novel: An Introduction (Oxford: Blackwell, 2005), p. 284.

[13] Virginia Woolf, To the Lighthouse (London: Vintage, 1990), p. 24. All quotes from the novel will be taken from this edition and abbreviated as above.

[14] Virginia Woolf, ‘Modern Fiction’, in Woolf, The Essays of Virginia Woolf, 4 vols., ed. Andrew McNeillie (London: Hogarth Press, 1988),vol. IV, p. 160.

[15] Suzanne Raitt, Virginia Woolf’s To the Lighthouse (London: Harvester Wheatsheaf, 1990), p. 68.

[16] Interestingly, Derek Attridge asserts that the function of the term character is that it crystalizes and enforces a number of assumptions about the human subject. See Derek Attridge, Joyce Effects: On Language, Theory, and History (Cambridge: Cambridge University Press, 2000), p.52.

[17] Gay, Peter, ‘On not Psychoanalyzing Virginia Woolf’, in The American Scholar, Vol. 71, No. 2 (Spring 2002), pp.71-75, [Stable URL: http://www.jstor.org/stable/41213293], accessed on 26 April 2015.

[18] Lyn Pykett, Engendering Fictions ( London: Edward Arnold, 1995), p. 9.

[19] Angela Frattorola, ‘Developing an Ear for the Modernist Novel: Virginia Woolf, Dorothy Richardson and James Joyce’, in Journal of Modern Literature, Vol. 31, No. 1 (Fall 2009), p. 137.

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Antônio Cândido é a minha bíblia. Quando tenho alguma dúvida teórica ou preciso de algum esclarecimento é o primeiro a quem recorro, depois parto para Massaud Moisés, normalmente. Encontrei um livro grátis BACANA para a turma de Letras ou qualquer leitor interessado em teoria da literatura. Esses textos não se diferenciam muito das resenhas (dou esse nome aqui, mas na verdade são ensaios) que costumo escrever aqui no Falando em Literatura, no que se refere à forma de direcionar as questões literárias.

14032013Prof_antoniocandidofotomarcosfoto005Antônio Cândido (Rio de Janeiro, 24/06/ 1918),  96 anos, é o maior crítico brasileiro da atualidade. Professor, poeta e ensaísta.

A obra A educação pela noite & Outros ensaios reúne textos de palestras e artigos diversos, que estão organizados em três partes e “não há ordem necessária de leitura”. A primeira parte analisa o teatro e obra de Álvares de Azevedo; a segunda parte fala sobre a obra do italiano Giraldi Cintio e ainda  sobre os críticos Sílvio Romero e Sérgio Milliet; na terceira parte, ele fala sobre o subdesenvolvimento  e sua relação direta com a falta de leitura, a baixa produção literária e cultural da América Latina e encerra com a “nova narrativa”, a literatura contemporânea.

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Antônio Cândido lê “Maíra”, romance de Darcy Ribeiro, citado nessa obra, “A educação pela noite & outros ensaios”

Corra e salve no seu computador.

UPDATE: o link acima já não está funcionando (eu avisei que tinha que ser rápido, esse livro custa quase 50 reais). Enquanto a literatura não for democrática e para todos, continuarei divulgando esses links. Existe outra forma de “pegar” o livro: vá no Google e digite “Antônio Cândido PDF A Educação pela noite”, vai aparecer na lista e por aí você consegue entrar e voilà! 

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Como analisar um texto literário

Há uma variedade enorme de blogs literários: alguns são profissionais, escritos por professores da área de Letras; outros dedicam- se às resenhas com cara de sinopse e sorteio de livros; há blogs de gente muito jovem e com muita energia para ler “trocentos” livros por mês; outros, resenham o que não leram (muito engenhosos!); e ainda há muitos blogs escritos por gente apaixonada por livros, que fazem um trabalho lindo. Todos os citados são louváveis, já que fomentam de alguma forma a leitura. As resenhas em blogs são podem ser prolixas, porque ninguém lê (infelizmente), então as análises têm que ser macroscópicas, uma pincelada no essencial, um pouco da biografia, bibliografia, o texto em si e alguma curiosidade; no entanto, ser sucinto não significa ser descuidado e um mero reprodutor do que já existe. Crie seu próprio conteúdo, cuidado com a ortografia, muito cuidado com as fontes, certifique- se de que as informações são corretas e dê o crédito a quem você copiou. Não há nada errado em copiar, só não pode tomar como seu um texto que não é. Deixo aqui alguns parâmetros teóricos que podem ajudá- lo na hora de repassar para o blog o que você leu. Essa base teórica é do professor e escritor Massaud Moisés (A análise literária, Cultrix, SP, pg. 37), com esse pequeno roteiro tenho certeza que suas resenhas ficarão mais que satisfatórias:

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Essa imagem começou a rolar na internet, a fonte é um blog em árabe.

Primeiro. Escolhida a obra ou fragmento dela, procede- se à sua leitura integral, leitura de contato, descontraída, lúdica, que deve fornecer a uma “impressão” ou “ideia” geral do texto, imprescindível para as fases posteriores da tarefa analítica;

Segundo. Releitura da análise (que pode e deve ser repetida tantas vezes quantas o texto o requerer), com o lápis na mão, assinalando no texto as passagens que mais chamam a atenção ou que envolvem problemas de entendimento;

Terceiro. Consulta do dicionário lexicográfico (e de termos literários), a fim de resolver as dúvidas quanto á denotação das palavras e expressões;

Quarto. Releitura tendo em mira compreender o índice conotativo das palavras e expressões;

Quinto. Apontar as constantes ou recorrências do texto, sobretudo no que toca à conotação;

Sexto. Interpretar tais contantes ou recorrências, que constituem a camada externa das forças- motrizes, com base nos elementos do próprio texto e nas informações que o analista já possui;

Sétimo. Consultar as fontes secundárias caso o texto reclame: história literária, história da cultura, biografia do autor, bibliografia acerca e do autor, seu contexto sócio- econômico- cultural (a Política, a Sociologia, a Psicologia, etc.);

Oitavo. Organizar em ordem hierárquica de importância as constantes ou recorrências, segundo critério estatístico e qualitativo, ou seja, segundo a quantidade de constantes e sua qualidade emocional, sentimental e conceptual;

Nono. Interpretá- las e buscar depreender as ilações que comportam, à luz dos dados selecionados, tendo em vista as forças- motrizes, isto é, a cosmovisão do escritor;

Décimo. Conclusão do trabalho e sua redação final. Como a análise, via de regra, não caminha sozinha, a redação final do trabalho analítico pressupões levá- lo a uma das zonas com as quais se limita, vale dizer, a crítica e a historiografia literária.

Espero que seja útil!