Como eu vim parar na Espanha

Eu nunca pretendi sair do Brasil, mesmo com um pai estrangeiro. Depois do acidente (1996), o medo de viajar, ainda que de carro ou ônibus, impediam- me de conhecer o meu próprio país. Viagem internacional era impensável!

No entanto, tudo mudou inesperadamente. Eu não acreditava em destino. Hoje, acredito que é impossível fugir do que nos foi destinado. Há algo muito importante que escapa das nossas possibilidades e que não temos controle. Podemos interferir momentaneamente com a força do nosso livre- arbítrio, mas é só isto. No final, eu viajei ( e viajo) muito! Viagens nacionais e internacionais.

Aos 29 anos, eu tinha um emprego público seguro, outros dois em cursos pré- vestibular, uma casa paga, carro, estava fazendo uma pós- graduação e tinha começado a procurar um apartamento na praia. Morava sozinha, era independente, tinha amigos e uma vida plena e divertida. Minha família morava perto, o que me provocava um conforto emocional, que eu não era capaz de renunciar. O que fez tudo mudar assim tão bruscamente?!

O amor…mas isto fica para outro post.

Bem- vindas, bem- vindos! O meu nome é Fernanda, nasci em São Paulo em 1972, de pai português e mãe baiana, casada com o Toni há 18 anos e mãe da Laura. Moro na Espanha há 17 anos.

No De Passagem, eu vou contar as minhas experiências de imigrante. As minhas e a dos que me antecederam, mas não só: quero tratar o tema da imigração com dados reais, de forma mais séria. Quantos brasileiros vêm e voltam? O que os impulsa a sair do país? Do que sobrevivem? Encontram o que procuravam? A natureza humana é nômade? E a questão da identidade? Como a imigração afeta psicologicamente as pessoas? Compensa ser imigrante?

Irei tentar responder a estas e outras questões.

Da esquerda, no alto: minha avó Nize (brasileira), meus pais Ana (brasileira) e Fernando (português), minha bisavó Durvalina (brasileira), meu avô Joaquim (português); abaixo, esquerda: vô Zeca (brasileiro), Toni (espanhol) e eu (hispano- luso- brasileira), meu bisavô Custódio (português) e minha vó Esmeraldina (portuguesa).

A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos. (Fernando Pessoa)

E você, está de passagem comprada para onde?

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Resenha: Becos da Memória, de Conceição Evaristo

A última resenha do ano! Aviso: este é um LIVRAÇO!

Pode haver poesia na favela? Claro! O olhar de Conceição Evaristo (Belo Horizonte, 29/11/1946) não me deixa mentir. Há muita beleza triste, dolorida e comovente na favela. A sua prosa afiada, que acerta na forma e conteúdo, conta a realidade sem apelar ao dramatismo barato. Escritora de prosa e verso, a doutora Conceição Evaristo é uma das melhores escritoras do Brasil, sem dúvida.

Há muitas coisas na vida, aliás, quase tudo, que a gente nao entende. Será que, mesmo antes de nascer, tudo já está escritinho, pronto para se viver?

Uso o termo “favela”, pois este é o empregado pela autora na obra, inclusive a própria saiu de uma, o que lhe outorga muito mais mérito do que outros que tiveram todas as condições favoráveis. Há quem prefira “comunidade”, já que a maioria não gosta de carregar, e com razão, o pejorativo, discriminatório e deturpado título de “favelado”. Essa é uma resenha difícil, pois temo cair em estereótipos e na superficialidade de um assunto tão delicado e complexo. Desde já desculpo- me, se isto acontecer.

A invisibilidade. Há poucas vozes negras femininas na literatura brasileira que publiquem, estejam em manuais de literatura brasileira, didáticos ou gramáticas (eu comprovei nos mais renomados). Falta destaque nacional e internacional. Não é que não existam, elas estão produzindo, só que há pouco interesse e consideração pelo cânon brasileiro branco, machista e racista. É o preconceito, claro que é. Mulheres não são levadas a sério. Negras, então… poucas conseguem passar pelo funil, são heroínas na verdade, Conceição é uma delas. Veja aqui a sua bio- bibliografia.

A autora será homenageada pelo Jabuti este ano:

Instagram da autora: @conceicaoevaristooficial

Conceição Evaristo (Belo Horizonte, 29/11/1946), criada numa favela, é dona de uma literatura fina. Prosa poética nesta obra, as histórias dos personagens começam e vão encerrando-se em si mesmas, como um labirinto impossível de encontrar a saída. Há muitos personagens, todos da favela, que vão desfilando em uma sucessão de dores constante. A favela é composta, principalmente, de descendentes de escravos. Sim, sua literatura é fina e completamente verossímil.

Sinto o presente e o futuro do Brasil como um murro no estômago: um logo “38” feito com balas de revólver pelo partido do presidente?! Eu sou uma mulher do mundo das palavras, mas para isto me falta uma adequada, tal a estupefação.

As vítimas reais dessas balas 38 moram neste livro de Conceição, gente trabalhadora, que vive com dificuldades de todos os tipos, lembradas só em época de eleição, um clássico. Nesta obra, os sujeitos apareceram prometendo que aplicariam a lei do usucapião, para logo desaparecerem e entrarem os tratores derrubando os barracos e expulsando a população mais que vulnerável.

As classes A e B são as promotoras da exclusão, do racismo, do preconceito, da falta de humanidade e do dinheiro. A origem da violência brasileira é a desigualdade social e isso não se combate com bala; se combate com escola, emprego/direitos/salários dignos, respeito, justiça e igualdade de oportunidades. Humanidade e decência também. Ética e princípios, idem. Quanto mais desigualdade, mais violência. É muito simples: quem promove a desigualdade vive com medo de andar na rua, vive com medo da “obra” que criou com muita persistência e afinco, geração pós geração.

Há gente na favela ressentida e com razão de sobra. Difícil viver pensando nos ancestrais escravizados, sofrer as consequências disso, passar necessidades básicas, fome, sem nunca haver sofrido uma reparação e a pouca ajuda social é vista como muita por gente privilegiada. Se você tem emprego, casa, todas as refeições, água encanada, roupa, sapato e escola, você é um privilegiado. O povo da favela excluído das leis da ONU, que o Brasil faz parte, mas não cumpre, diz que todo cidadão deve ter direito à uma moradia digna.

Há sujeitos como o “Bondade”, que compartilha o pouco que tem, ajuda os necessitados, mas ninguém sabe ao certo quem é ele e todo mundo respeita o seu segredo:

Bondade conhecia todas as misérias e grandezas da favela. Ele sabia que há pobres que são capazes de dividir, de dar o pouco que têm e que há pobres mais egoístas em suas misérias do que os ricos na fartura deles. Ele conhecia cada barraco, cada habitante. Com jeito, ele acabava entrando no coração de todos. E, quando se dava fé, já se tinha contado tudo ao Bondade. Era impressionante como, sem perguntar nada, ele acabava participando do segredo de todos. Era um homem pequeno, quase miúdo, não ocupava muito espaço. Daí, talvez, a sua capacidade de estar em todos os lugares. Bondade ganhou o apelido que merecia.

Bondade era contador de histórias boas e ruins. Contou uma de uma menina que sonhava em:

“armazenar chocolates e maças. Ter patins para dar passos largos… A mãe da menina sonha leite, pão, dinheiro. Sonha remédios para o filho doente, emprego para o marido revoltado e bêbado. Sonha um futuro menos pobre para a menina (…).

E você, com que sonha? A menina sonhadora foi vendida, por necessidade, pela própria mãe.

Tio Totó mantinha um sorriso no rosto, apesar de muitas dores, era movido pelo sonho:

Sonho que é uma vontade grande de o melhor acontecer. Sonho que é a gente não acreditar no que vê e inventar para os olhos o que a gente não vê. Eu já tive sonho que podia e não podia ter. Eu tive sonho que dava para minha vida inteira, para todo o meu viver.

No entanto, cansado, ele deixou de sonhar:

Mas, um dia, todos começaram a perceber que Tio Totó estava envelhecendo. Não pelos cabelos brancos, porque havia muito que ele já os tinha. Não porque andasse meio trôpego nem porque já trouxesse a voz meio rouca. Não eram essas as marcas da velhice de Tio Totó. Ele envelhecia porque estava perdendo as esperanças. Envelhecia porque nem vontade de recomeçar de novo tinha. Envelhecia ao fazer um balanço de toda a sua vida e só ver a morte como única saída.

A favela é também um espaço democrático e acolhedor, ao contrário do que muita gente pensa. Há muita diversidade na exclusão e muita solidariedade também. O passado das pessoas não importa, quem chega sempre recebe um prato de comida e um canto para dormir.

Na favela, a maioria tem ascendência escrava. As histórias ancestrais eram repassadas por gente como tio Tatão. Como a de Pedro da Zica, que foi assassinado por Zé Meleca por questões de terra, era capanga do Coronel Jovelino, negro como ele. A traição de um dos nossos sempre dói mais.

Maria- Nova sente que ainda mora na senzala. A senzala é a favela e o bairro nobre ao lado, a casa- grande. No ginásio, na turma de quarenta e cinco alunos, só ela e uma outra negra.

Negro Alírio lutou contra o desfavelamento, sem êxito. As construtoras davam tijolos e tábuas para que saíssem do beco. Quem não aceitasse ficaria sem nada mesmo. A construtora botava tudo e a todos em cima de um caminhão e os retirava de lá, como se fossem entulho.

Uma das que subiu no caminhão foi Custódia que havia parido seu bebê de quase sete meses há uns dias. Ela estava sangrando, pensava que iria desmaiar. O marido alcoólatra, Tonho, chegou bêbado, ela foi carregar, apanhou do homem e da sogra Dona Santina, uma que só andava com a Bíblia na mão, e acabou parindo antes da hora uma menina que nasceu morta. Ela e a sogra enterraram a filha, enquanto o marido roncava.

Agora a estavam expulsando da favela. Para onde ir? Para outra favela ou assumir a condição de mendigo e dormir na rua.

Esta obra mostra o Brasil que tentam esconder debaixo do tapete. “Um país tão rico” e tão cruel com os desfavorecidos, sendo que foi a própria história e estrutura do país que os gerou. Culpar as próprias vítimas do processo é coisa rotineira. Os que levantam a bandeira da meritocracia poderiam viver um tempo numa comunidade, com o mesmo dinheiro e condições que eles. A dor do outro só incomoda quando passa a ser a própria. Quem é mais violento?

Ditinha olhava as joias da patroa Laura e seus olhos reluzem. Ditinha faz a faxina na casa da loira alta e bonita. Ficava perto da mansão da dona Laura o barraco de Ditinha. Ela mora em dois cômodos, seis pessoas, incluído o pai paralítico. Esse é o Brasil, é sim. A ficção imita a vida. Uma terra com esse abismo social não pode ser feliz. Nenhum lugar próspero e civilizado tem esse apartheid tão gritante. E não há nenhuma vontade da classe A e B, onde concentra- se toda a riqueza do país, que isso acabe. Óbvio: para isto, eles teriam que ser menos ricos. Preferem continuar com seus carros e casas blindadas e continuar fabricando e explorando miseráveis. A culpa é de vocês! Culpa da falta de educação, princípios, humanidade e senso de justiça. Um país tão religioso e que não aprendeu nada. Religião é só para tentar ocultar os podres que são por dentro.

Teoricamente, esta é uma obra de ficção, mas poderia ser uma crônica da vida diária de boa parte da população brasileira, infelizmente. A morte de Maria Gazogênia, tuberculosa, me fez chorar. Seus últimos pensamentos sobre a morte e a vida, me apertaram o coração.

Um dia, quando a roda girar e houver uma limpeza geracional da naftalina e do ranço, escritoras como Conceição Evaristo serão aclamadas e votadas por unanimidade para uma cadeira na ABL, por exemplo. Haverá uma grande editora capitaneada por uma negra e uma grande rede de livrarias também. A supremacia branca vai perder a força. Eu tenho fé no tempo. Eu tenho fé que o melhor do Brasil possa ser para todos.

O Brasil vive uma estagnação da economia desigual e instável. A pouca recuperação que ocorre beneficia mais os mais ricos. Quanto mais rico, mais rápida a recuperação”, afirma o pesquisador Marcelo Medeiros, professor visitante na Universidade de Princeton, e que desde 2001 se dedica a pesquisar como o comportamento do 1% mais rico influencia a desigualdade de renda no país.

Quem consegue dormir tranquilo sabendo que há 13,9 milhões de pessoas no país em situação de pobreza extrema?! Há brasileiros que ganham 89 reais por mês, valor “apto” para participar do Bolsa Família. O índice do Banco Mundial que considera alguém extremamente pobre é de 145 reais, maior. E o atual governo vem enxugando as ajudas sociais, talvez seja um plano macabro de extinção dessa população e matá- los de fome. Eu sinto muita, muita vergonha. E sinto repúdio por quem pensa que o Bolsa Família é demais. Os valores vão de 89 a 372 reais. Uma “fortuna” para a classe privilegiada, um “absurdo”, “recebem essa ajuda e ninguém mais quer trabalhar”. Vocês gastam mais que isso num café da manhã! Quem sabe uma boa cura seria dormir uma semana numa favela. Já foi comprovado, e eu não tenho nenhuma dúvida, que a ajuda é provisória. Ninguém está nesta situação por gosto ou preguiça.

“Você tem 6 milhões de pessoas que passaram a viver em famílias onde ninguém ganha nada. E é mais ou menos o mesmo número de pessoas que entraram na pobreza, o que significa que não foram criadas novas redes de proteção social”, afirma o pesquisador Marcelo Neri, diretor da FGV Social e autor do estudo A Escalada da Desigualdade.

Não é difícil, é simples. Outros países já conseguiram. Basta ser gente, ser honesto, ser humano. Vista a pele do outro. Você aguentaria viver como eles?

Uma noite chuvosa na favela. Vários dias de chuva, tudo vai mofando. A roupa não seca. As roupas das patroas nao secam. Não há dinheiro. O que faz uma lavadeira sem sol? E quando são meses de água? E quando o desfavelamento corta as torneiras públicas? De brisa ninguém vive, barriga não se enche com vento.

Negro Alírio, o “das mil lutas”:

“Para ele, a leitura havia concorrido para a compreensão do mundo. Ele acreditava que, quando um sujeito sabia ler o que estava escrito e o que nao estava, dava um passo muito importante para a libertação.”

Eu creio nisto, sempre falo: a leitura, a literatura, a Educação, salvam.

Com a palavra, Conceição Evaristo:

E para as Marias-Novas, que moram nas favelas e adoram ler: nunca percam a fé. Nunca acreditem- se ser menos que os outros. Vocês são a esperança, o futuro, e ele há de ser melhor.

(…) A sua vida, menina, não pode ser só sua. Muitos vão se realizar por meio de você. Os gemidos sempre estarão presentes. É preciso ter os ouvidos, os olhos e o coração abertos.

O livro digital lido sem paginação, por isto não coloquei os números das páginas nas citações.

Maria- Nova olhou novamente a professora e a turma. Era uma História muito grande! Uma história viva que nascia das pessoas, do hoje, doa gora. Era diferente de ler aquele texto. Assentou- se , pela primeira vez, veio- lhe o pensamento: quem escreveria esta história um dia? Quem passaria para o papel o que estava escrito, cravado e gravado no seu corpo, na sua alma, na sua mente.

Esta obra dá visibilidade a brasileiros que são só frias estatísticas. Eles têm nome, sobrenome e história, embora ficção, ela conta a vida de muitos. A história acontece em um processo de desfavelamento. As pessoas vão morrendo em vida, vão morrendo mesmo, é uma história muito triste. Triste e necessária, atualíssima. “Becos da memória” foi escrita nos anos 80 e só publicada em 2006 (veja quanto tempo demorou para ser publicada!), mas continua sendo escrita num país tão rico de recursos e tão pobre de honestidade e decência- e eu não falo só de políticos. A distância me deixou muito mais evidente, que o povo brasileiro normalizou a indecência. Um favor aqui, outro ali, amigos nunca pegam fila em nenhum lugar… sonegamos um impostinho… vendemos mercadoria de baixa qualidade a preço de ouro, pagamos uma miséria para a “secretária do lar”, que faz tudo em casa e dos filhos, e achamos ainda que é um favor, e assim vai, as várias transgressões diárias e “normais”. Não, não estou orgulhosa e nem feliz com meu país… não enquanto 13,9 (um pouco mais que nessa reportagem) milhões estiverem vivendo em condições de extrema- pobreza.

Curioso que várias pessoas já me disseram que “eu não sei de nada”, em sua máxima ignorância e estupidez, porque moro longe. Ao contrário. Um grande quadro necessita distância para bem ser visto. Assim sou eu e a minha relação com o Brasil. Da distância, melhor vejo. No Brasil falta é espelho, auto-crítica honesta e sem preconceitos.

Feliz Natal, né? Jesus deve estar “bem” contente. Até quando, Brasil?! E nem têm vergonha…

Resenha: “Uma furtiva lágrima”, de Nélida Piñón

Este é um dos melhores livros escritos em português. “Uma furtiva lágrima”, de Nélida Piñón é comparável ao “Livro do desassossego”, de Fernando Pessoa.

Narrar é prova de amor. O amor cobra declarações, testemunho do que sente. Fala da desesperada medida humana. Como amar sem os vizinhos saberem? Sem tornar pública a paixão que alberga os corpos na penumbra do quarto? (“Prova de amor, p.71)

Nélida Piñón passou um ano em Lisboa e acabou de voltar ao Rio de Janeiro neste mês de março de 2019. Nélida publicou este livro em terras lusas. Uma obra emotiva e transparente. Ela tem outros livros com teor biográfico, mas este é o mais íntimo e revelador.

A antologia consta de 146 textos (se não contei mal), com temáticas bastante diversas. Nélida narra em primeira pessoa, “Falar em primeira pessoa requer audácia” (“Sou múltipla”, p.197). E generosidade, completo. Nélida contou- se nesse livro. E contou a história dos seus ancestrais. Acredito nisto também, que somos multidão, carregamos na memória dos nossos gens, todos os que nos antecederam, além de carregar todas as leituras que fizemos. Ela mesma nos convida a vê- la sem véus, “vejam- me como sou” (“Eternidade”, p.97).

Nélida fala da sua infância no Rio de Janeiro, sua terra natal citada muitas vezes, dos passeios que fazia com a tia Teresa pelo centro do Rio. Teatro, cinema, o lanche na Americana. O sabor de um Rio de Janeiro mágico (em “A primeira vida”, p. 63).

“Uma furtiva lágrima” é uma aula magna sobre literatura. Nélida conta- nos sobre a sua profissão. Leia “Meu ofício” (p.18).

“Não há poesia na Morte” (p.19).

Concordo, a morte é dor. Nélida, no final de 2015, recebeu uma sentença de morte, “de seis meses a um ano”. O oncologista a sentenciou antes mesmo dos exames definitivos. Nélida pensou em escrever um diário, um resumo do seu final. Dá para entender o motivo da força deste livro, a autora acreditava que estava nos seus últimos dias, despedia- se da vida. Ela recebeu consolo dos seus dois cachorrinhos, Suzy e o falecido Gravetinho, sua paixão, seu “amuleto” (p.71), citado várias vezes. Esta obra é dedicada a ele. Nélida “contava os dias”, os que acreditava últimos. E pouca gente soube. Graças a Deus, o médico estava errado.

Viajamos com Nélida. Viagens “reais” a países e cidades; e viagens até os mitos gregos. O rastro de todas as suas leituras nos deixa uma rica bibliografia a ser anotada. “A imaginação é razão de viver.” (p.22)

A família é um assunto importante neste livro. E foi justamente um texto sobre este tema que me fez desmanchar, literalmente, em lágrimas. Eu li, reli, li de novo, e se ler agora outra vez, será pranto. É lindo, verdadeiro, mexeu com as minhas mais profundas emoções. Esta beleza chama- se “Estatuto do amor” (p.25).

Nélida é descendente de espanhóis. Em “Minhas quimeras (p.80), a autora declara o seu amor ao Brasil e reivindica suas raízes “recentes”, como qualificou no seu discurso da Academia Brasileira de Letras. No entanto, aqui meio que arrependida, talvez, finca seu pé no Brasil, terra de seus plenos direitos:

(…) Brasil agora é meu naufrágio, minha salvação, meu amor. E as raízes que brotam de qualquer rincão do país aninham- se igualmente no meu peito. E falo dele agora sem sanções, adquiri todos os direitos. Sou tão arcaica quanto quem aqui esteve no albor desta terra. (“A civilização do mundo”, p.92)

Por certo: Clarice e Nélida eram amigas. Clarice é citada nesta obra também, ela gostava de se olhar no espelho, tal como Lygia Fagundes, outra amiga de Nélida. (p.78).

Nélida fala sobre muitos outros autores. Machado de Assis, autores estrangeiros, e de João Cabral de Melo Neto (que morou na Espanha), disse que o autor de “Morte e vida severina”(clica), era “peculiar, que odiava música” (p.58); conta sobre a confissão de Carlos Heitor Cony (clica), que jamais havia amado tanto alguém como a sua cachorra Mila e ela a ele (p.60).

“Uma furtiva lágrima” será publicado no Brasil em abril pela Record:

A mais recente obra de Nélida Piñón (2019) publicada em Portugal.

Nélida fala da Bíblia, que a “deleita”. Fala no seu sentido narrativo e como ela inspira o escritor moderno (p.86). Cita Eclesiastes e Machado, que dominava estes textos. Sobre religião, Nélida declara- se “às vezes panteísta” (p.88). Eu também, só que sempre. Acho que é a definição perfeita de como sinto a vida.

Nossa melhor escritora brasileira perdeu bastante visão. Isso eu já sabia por ela mesma, mas agora contou em “Olhos” (p.167). A autora teme não poder ler nem escrever, que são a sua vida. Deus queira que isto não chegue a acontecer.

Nélida Piñón em Madri (Palace Hotel), no dia 25/11/2017. (foto: Fernanda Sampaio)

Depois de ler esta obra, estou com um livro sobre mitos gregos na cabeceira para reavivar a memória; esta, que também é mito representado pela deusa Mnemósine. A memória prodigiosa de Nélida Piñón a caracteriza, embora ela tenha dito num texto que “a memória é frágil”. (p.126). Que seria dos humanos, sobretudo se são autores, sem a memória?

A arte narrativa, além de avaliar o que foi pretérito e hoje é presente, perpetua a fala da alma, restaura a crença no que há por trás da harmonia e da discórdia. (p.71)

A obra pode ser lida sem ordem, os textos são independentes. Eu me apaixonei por muitos, li e reli, porque me seduziram completamente. Fazia tempo que eu não sentia pena ao acabar um livro.

Não esqueça que esta obra será lançada no Brasil no próximo mês de abril. Anota na sua lista, este você precisa ter, garanto que você vai gostar.

Nesta obra há muitos outros tesouros, alguns eu quero guardar só para mim. Encontre os seus também. Boa leitura!


Resenha: “Ciranda de pedra”, de Lygia Fagundes Telles

Tenho uma leve lembrança da novela “Ciranda de Pedra”, que passou na minha infância (1981), mas nada significativo em relação ao enredo, só lembro do rosto de Lucélia Santos; portanto, essa obra era como uma desconhecida para mim. Sei que a novela da Globo foi um tremendo sucesso, foi reprisada e ganhou um remake em 2008. De novela eu não entendo, não as vejo desde 2004, época da minha expatriação “definitiva”. Quem entende do assunto é a minha amiga Alana Freitas, vejam lá o “Entretelas”, blog especializadíssimo nessa arte de massas. Em tempo: a adaptação de “Ciranda de Pedra” (a de 2008) também foi vista em Portugal.

A história começa com uma menina revoltada, triste, deprimida, que chora junto à Luciana, a empregada mulata, que cuida de toda a família. Esta obra foi escrita em 1954 e nota- se a opressão e preconceito que os negros sofriam. A cor estava associada à feiura (referência dos cabelos) e à tristeza. Os anjos só podiam ser brancos:

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Virgínia utiliza a cor de Luciana para atacá- la e menosprezá- la em momentos de tensão. Luciana é um personagem forte, porque faz as revelações mais importantes da narrativa, que é bem melodramática na primeira parte, por isto deve ter virado novela na TV, tem elementos de folhetim. Mas não foi ameno, levei alguns sustos, é uma narrativa abrupta dividida em duas partes. Já na primeira desenvolve- se todo o dramalhão. Não posso negar que não haja verossimilhança com a vida. Aliás, a vida é muito pior.

Os pais estão separados e a mãe, Laura, sofre demência, algo parecido com Alzheimer algumas vezes, e também sofre alucinações e desconecta do mundo “real”. Ela não lembra que Virgínia é sua filha, mas tem alguns momentos de lucidez.

A narrativa está entremeada em uma teia de fragilidades, rupturas e analogias entre pessoas, pássaros e animais invertebrados como beija- flores, formigas, aranhas e borboletas. Laura vê besouros: é o sinal de que Virgínia perdeu a mãe mais uma vez. A obra é enigmática, há uma aura de mistério e dor.

Vamos descobrindo mais sobre quem é Laura nos seus momentos de lucidez; no entanto, não dá para saber se os fatos são reais ou fruto de sua loucura. Ela conta que sua mãe era atriz e que seus pais morreram num incêndio. Daniel é o seu marido. Ela abandonou o ex, Natércio, pai de Virgínia, por causa dele. Laura e Natércio têm outras duas filhas, Bruna e Otávia, que moram com o pai.

A impressão é que Daniel pode ter algo de responsabilidade pela doença de Laura. Ele proíbe a entrada de Virgínia no quarto da mãe, não dá para saber se por proteção ou algo estranho. Virgínia o vê participando da loucura da mãe. Depois Daniel a envia para morar com o pai. Mais tarde descobrimos o motivo disso tudo, não vou contar, porque seria spoiler grande.

Na casa de Natércio quem cuida das meninas é Frau Herta, antipática e até cruel com Virgínia, a repreende a todo momento e exalta a qualidade de suas irmãs. Natércio é rico e mora num casarão.

Virgínia tenta negar a doença da mãe e afirma em reiterada vezes que melhorou, mesmo sabendo que não é verdade, principalmente por medo. Ela teme perder a mãe. Daniel explica o seu conceito de morte à Virgínia:

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Daniel lê um livro de Charles Manson, “Sparkenbroken”, publicado em 1936, que diz o seguinte (adaptado pelo editor): “A noite passada voei para a árvore da morte;/ De súbito uma brisa fez- me pairar; / E eu, mísero boneco de penas arremessado,/ Envolvido no meu elemento, voltei a ser pássaro.”

Para Daniel há vida após a morte e esta é a libertação. Virgínia gosta do “tio Daniel”, mas tem que fingir que não, afinal, foi por causa dele que os seus pais se separaram. O médico é muito mais carinhoso que o seu pai. Elas, Otávia e Bruna, desprezavam a pequena, que não é parecida em nada com as duas, nem em gestos, comportamento ou aparência. Claro que já dá pra desconfiar que Virgínia é filha de Daniel e não de Natércio e esse foi o motivo da separação do casal, a infidelidade de Laura. Mas, se isso é certo, por que ainda não contaram à Virgínia a verdade?

A narrativa na primeira parte da obra intercala- se em três ambientes: a casa do pai, a casa da mãe e a imaginação de Virgínia. Na segunda parte, Virgínia foi morar num colégio interno de freiras.

Há outros dois personagens, Afonso e Conrado, irmãos e vizinhos da casa de Natércio. Virgínia tinha uma queda por Conrado, mas o moço não prestava atenção nela e sim na irmã Otávia. O tempo passou e  Afonso casou- se com Bruna, tiveram uma filha. Frau Herta, doente, já não é mais a governanta e sim a portuguesa Inocência. Conrado mudou- se depois da morte da mãe para uma chácara e Natércio aposentou- se. E sobre Daniel e Laura, essa parte não vou contar. Também não vou contar o que aconteceu com Virgínia, você vai ter que ler o livro…só vou contar que ela, já crescida, sai do colégio interno e volta para a casa de Natércio.

É uma obra bem escrita e que me provocou sensações de choque e angústia por vários motivos.

Creio que na novela há mais dicotomia de personagens vilões e mocinhos, vítimas e algozes. No romance não, são só humanos…

Qual caminho escolher? Essas encruzilhadas que a vida nos impõe e suas inexoráveis consequências. É uma história cheia de bifurcações e despedidas, e essas, nunca são alegres.

Esta é a edição portuguesa lida, ainda sem as correções do acordo ortográfico:

29571360_965128723642688_6404595740615182933_n       Telles, Lygia Fagundes. Ciranda de Pedra. Presença, Lisboa, 2008. 204 páginas

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Resenha: “O seminarista”, de Bernardo Guimarães #RevisitandoOsClássicos #1

“Crescent illae, et vos crescentis, amores”
(“As árvores hão de crescer, e com elas haveis de crescer vós, meus amores” – Virgílio citado na p. 88)

Aqui começa uma série: Revisitando os Clássicos Brasileiros. O que significa?

São livros que eu já li há muito tempo e tenho vontade de reler. O tempo, a experiência leitora, transformam e mudam as nossas percepções. Aconteceu dessa forma com “O seminarista”, de Bernardo Guimarães: (re)li um novo livro. E essa constatação óbvia, mas interessante, me fez criar esse post, o primeiro de uma série, espero.

Para quem nunca leu, ou leu poucos clássicos da literatura brasileira, vamos começar?!

A primeira obra escolhida: “O Seminarista” (1872), de Bernardo Guimarães.

Brevíssima Biografia do Autor
O mineiro Bernardo Guimarães nasceu e morreu em Ouro Preto (1825- 1884). Juiz e escritor de prosa e verso, foi membro da Academia Brasileira de Letras. Inclusive você pode ler a biografia completa do autor no site da ABL. Casou- se com Maria Teresa e teve oito filhos. Era tio do poeta Alphonsus de Guimarães, que foi noivo de sua filha Constança, falecida aos dezessete anos por causa de uma tuberculose.


O livro é uma narração, e pela extensão, é uma novela. As novelas são mais curtas que os romances, esses, dentro do cânone literário, devem ter mais de 300 páginas; portanto, vou chamar pelo nome correto, embora no Brasil, o chamem de “romance”, normalmente. Dentro da narração, novela e romance são gêneros literários diferentes. E em outros idiomas/países, como na Espanha, não os diferenciam só pela extensão, mas também pelo teor: nesse país, o romance ganha ares fantásticos. O termo mais comum  é “novela”, ao contrário do Brasil.

Essa novela está dividida em vinte e quatro capítulos.

O enredo

O enredo é a história em si, do que trata o livro, a trama, a ação. Em “O Seminarista”, a história não é original, mas funciona: o amor impossível. Um seminarista apaixonado pela amiga de infância, um amor inesperado, já que Margarida era como sua irmã. E isso traz um monte de complicações para a vida de ambos.


Os pais de Eugênio acham que o filho tem vocação para a vida eclesiástica, porque brincava de ser padre na infância. Na época, a vida religiosa era algo que dava muito status e respeito.

Então, lá se foi Eugênio para o Seminário de Congonhas do Campo, aos 13 anos, com o coração partido. Uma mudança radical na sua vida.

Eugênio,  entre tarefa e tarefa, pensava em Margarida. Uma espécie de melancolia o acompanhava o tempo todo. Ele não conseguia concentrar- se nos estudos. Custou- se acostumar- se e assim passaram- se doze anos. O menino cresceu dentro do seminário. E Margarida continuou no seu coração.

Com dezesseis anos, começou a ter problemas, pois o padre regente descobriu alguns poemas de amor de Eugênio destinados a uma tal “Margarida”. O padre, que era também seu professor, gostou da veia poética do rapaz e levou os escritos ao diretor, que ficou indignado e assombrado. Chamou Eugênio e foi bastante duro com ele. A partir disso, toda vez que Eugênio sonhava com Margarida, sentia pânico, rezava, fazia jejum e pagava penitência, como se o amor fosse um castigo, uma doença. Doente ficou o menino, emagreceu muito, ficou com uma aparência “às bordas da sepultura”. (p.66)

Essa parte do livro é triste e forte…choca. Tudo com a instrução e aval do padre. O fanatismo religioso é um mal terrível (na realidade também!)!

Depois de quatro anos sem ver a sua família, nem Margarida, voltou para casa. Imagina o reencontro dos dois….a descrição do autor desse momento é mágico! Um turbilhão de emoções em questão de segundos. Quem já se apaixonou sabe como é difícil explicar. A literatura explicando sentimentos universais desde sempre…

Estava como que espantado, com os olhos fitos em Margarida, querendo falar, e não achando nada que dizer. As grandes emoções lançam uma nuvem no espírito e paralisam a língua. (p.82)

Como esquecer um grande amor? Já que quanto mais se tenta esquecer, mais se lembra? Não tente, porque vai perder a batalha, mantenha- se distraído, só isso…

As puras e santas afeições da alma, longe de a desviarem do caminho do céu, são asas com que mais depressa se eleva ao trono de Deus. (p.38)

Espaço e Tempo

A história começa na “província” de Minas Gerais (terra do autor). Na época em que foi escrita a novela, o Brasil ainda era uma colônia de Portugal,  um país monárquico. Veja a descrição do lugar, já no primeiro parágrafo, junto com o tempo (“há quarenta anos”).

A uma légua, pouco mais ou menos, da antiga vila de Tamanduá, na província de Minas Gerais, e a pouca distância da estrada que vai para a vizinha vila da Formiga, via- se, há de haver quarenta anos, uma pequena e pobre casa, mas alva, risonha e nova. Uma porta e duas janelinhas formavam toda a sua frente. (p.2)

A descrição da casa de Margarida e sua mãe Umbelinda é perfeita, ela parece sorrir, toda feliz e faceira! Bernardo Guimarães era um excelente narrador, mestre na descrição. A construção das paisagens e pessoas é muito visual, retratos perfeitos. É uma delícia ler e entrar nos cenários criados pelo autor,  são bem fidedignos. Esse é um dos elementos que transformam a literatura em uma grande forma de expressão artísticas, social, antropológica…

A magia das palavras. A prosa de Bernardo também é poética.

Genial essa metáfora (analogia), veja: “Eram quase ave- marias.” (p. 6). Gostei!

Personagens

Eugênio é o protagonista, personagem principal, o futuro seminarista, menino no início da história (12- 13 anos). Filho do capitão Francisco Antunes. Tem dois irmãos mais velhos que não aparecem na história, casaram e foram embora. Foi criado junto com Margarida, que é como sua irmã.

O rapaz era alvo, de cabelos castanhos, de olhar meigo e plácido e em sua fisionomia como em todo o seu ser transluziam indícios de uma índole pacata, doce e branda. (p.3)

Na página 73

Margarida, filha de Umbelina, órfã de pai, mora numa casinha emprestada nas terras do padrinho, Capitão Antunes, pai de Eugênio.

A menina era morena; de olhos grandes, negros e cheios de vivacidade; de olhos grandes, negros e cheios de vivacidade, de corpo esbelto e flexível como o pendão da imbaúba. (p.3)

Na página 73, há nova descrição de Margarida já moça.

Umbelina,  mãe de Margarida, mora nas terras do Capitão Antunes junto com a filha Margarida e uma escrava. E viúva e comadre dos donos da fazenda.

Era uma matrona gorda e corada, de rosto sempre afável e prazenteiro (…) (p.11)

Capitão Francisco Antunes, pai de Eugênio e padrinho de Margarida, fazendeiro honesto, tinha poucos escravos e muitos agregados na fazenda, dos quais não cobrava nada.

Senhora Antunes, esposa de Francisco Antunes, mãe de Eugênio e madrinha de Margarida. Não é tão legal, trata mal a escrava Josefa. É bastante supersticiosa. Apegou- se à Margarida desde bebê, ensinou-lhe a costurar.

Luciano Gaspar de Oliveira Faria e Andrade,  invejoso do tamanho do seu nome. Atrapalhou a vida dos apaixonados. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. É só a arte imitando a vida.

A linguagem

Uma coisa que achei inverossímil (longe da realidade) foram os diálogos. O povo da roça, nem mesmo os patrões, podiam falar com a correção gramatical exposta pelo autor. Havia outras línguas de contato, muitos imigrantes, indígenas, escravos, uma grande maioria de analfabetos, um português tão correto me pareceu impossível.

A obra carece de uma mais linguagem coloquial, o que concordaria mais com a história. Curioso, porque costuma- se dizer o contrário desse escritor, que o tom de suas obras é coloquial. Vai ver “O Seminarista” é a exceção.

O narrador fala como um português. Se a gente der por certo que era a forma usada em 1832, época que o autor retrata, nota- se como em 185 anos, o português do Brasil transformou- se e distanciou- se muito do idioma luso.

Curiosidades

Bernardo Guimarães cita Aleijadinho (1738- 1814), de uma forma nada agradável, uma crítica destrutiva e maldosa, na boca do seu narrador (p. 30) :

É sabido que estas estátuas são obra de um escultor maneta ou aleijado da mão direita, o qual, para trabalhar, era mister que lhe atassem ao punho os instrumentos.

Por isso sem dúvida a execução artística está muito longe da perfeição. Não é preciso ser profissional para reconhecer nelas a incorreção do desenho, a pouca harmonia e falta de proporção de certas formas. Cabeças mal contornadas, proporções mal guardadas, corpos por demais espessos e curtos e outros muitos defeitos capitais e de detalhes estão revelando que esses profetas são filhos de um cinzel tosco e ignorante…

Eugênio vai justamente para o seminário em Congonhas, no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, onde estão as obras sacras de Aleijadinho, consideradas as suas obras- primas.

Recalcado o Guimarães, não?! O escritor e o escultor nasceram na mesma cidade de Ouro Preto.

E veja também como é feio chamar alguém de “Aleijadinho”. Uma das funções da literatura é essa também, de nos trazer o passado para melhorar no futuro. Hoje em dia é inaceitável chamar alguém por um problema físico. O artista perdeu a sua identidade, quem sabe o nome de Aleijadinho? Eu sei agora, porque fui pesquisar: Antônio Francisco Lisboa (valeu Wiki!).

Um salve para o Antônio, que mesmo com sua deficiência física, provavelmente escravo ou filho de escravos (sabe- se muito pouco sobre a sua biografia e mesmo assim, ela é incerta), no interior do Brasil colonial, deixou uma obra reconhecida mundialmente. Deixo aqui o compromisso: estudar a obra de Antônio.

Depois de ler o trecho sobre o Aleijadinho (me custa escrever, já não é hora de chamá- lo pelo nome, acho um desrespeito!), já tomei uma bronca de Bernardo, que passei a caçar tudo de negativo na obra dele, sou dessas. Na adolescência minhas leituras eram mais ingênuas, eu deixava passar muitos detalhes. Mas a sorte dele, é que realmente escreve bem.

Além disso, a gente sabe que a voz da narrativa não é o autor, mas foi ele que colocou esse pensamento na boca do narrador e a gente dá aquela gongada de todas as formas. Abaixo, trecho:

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O autor mostrou usos e costumes da roça, um tipo de dança chamada “quatragem”, os mutirões e as festas.

E voltando à história de amor…Eugênio foi proibido pela mãe de ir à casa de Margarida quando este lhe confessou a sua falta de vocação para o sacerdócio. Isso não impediu que os apaixonados trocassem promessas e juras, fortaleceram- se mais ainda.

A linda Margarida é muito cortejada, apareceu um terceiro para atrapalhar, Luciano, invejoso e maldoso, notou o que havia entre Eugênio e Margarida. Tratou de atrapalhar. Entre os pais de Eugênio e o tal Luciano, o desejo do casalzinho de ficar junto foi ficando cada vez mais difícil. Eugênio adoeceu. Eugênio prometeu à Margarida que jamais seria padre, jurou que voltaria.

Os pais podem destruir a vida dos filhos se não aceitarem como são . Os pais têm uma tendência a querer moldar os filhos baixo seus próprios desejos, moral, necessidades e costumes, como se fossem um ser único. Pais e filhos, muitas vezes, estão nas antípodas. Aconteceu com Eugênio e acontece na vida real. A ditadura maternal e paternal pode matar de muitas formas. Margarida e Umbelina foram expulsas da fazenda. Umbelina faleceu.

Grande é o poder do tempo. O próprio braço da dor, quando não consegue esmagar a sua vítima, por fim de contas esmorece fatigado, e o seu estilete, por mais buído que seja, acaba de embotar- se” (p.161)

Eugênio passou por um vale de sombras, de terror, para poder seguir em frente. Há várias alegorias religiosas ilustrando esse deserto que ele teve que cruzar para tentar destruir um sentimento muito forte, que não pode existir, a sua via crucis, e para piorar, chegou a notícia: Margarida casou- se. (SPOILER: mentira, nunca casou- se e também estava doente, mas eugênio nunca soube).

Anos mais tarde, Eugênio volta, já padre, para a Vila do Tamanduá. Via a casa de Umbelina e Margarida em ruínas. As suas pernas tremeram. Sentimentos como esses nunca morrem. Alguém chamou o padre para dar uma extrema- unção. Fácil adivinhar, não?

São as almas sujas da Terra, as que destruíram esse amor, por vaidade, inveja, maldade pura; são as que mentem, enganam, manipulam para possuir o que jamais terão. Assim como na vida. Nem com tanta gente contra, família e religião, nada conseguiu impedir o encontro- ainda que breve.

Gostei muito do final. Eugênio, de certa forma, conseguiu cumprir a sua promessa, além de dar, mesmo sem querer, uma boa lição nos energúmenos dos seus pais.


“O Seminarista” é uma obra muito intensa, bem escrita, emocionante, que desperta vários sentimentos: de ternura, beleza, raiva, pena, indignação. E a obra não te custará absolutamente nada. Ele está no banco de clássicos gratuitos do governo do Brasil, o Domínio Público. Não foi o deles que eu li, pois eu já tinha um no tablet, que baixei por 0,99 cêntimos (de euro), foi esse:

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Guimarães, Bernardo. O seminarista. PDF (no iBook, sem editora). Páginas: 237- Preço: 0,99€

Disponível gratuitamente no site Domínio Público, do governo do Brasil.

 

 

O que você sabe sobre Antônio Torres? Quiz!

O baiano e imortal das academias baiana e brasileira de Letras, Antônio Torres, é o tema do quiz dessa semana.

pocos-de-caldasAntônio Torres Flipoços 2013.

Teste seus conhecimentos, divirta- se! Clique aqui!

Quando você foi ao cinema pela primeira vez?

Cinema é magia, principalmente os antigos de bairros tradicionais, aqueles onde o pipoqueiro te conhece pelo nome. Cinema faz parte da nossa história pessoal, um memorial de emoções.

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Você lembra do primeiro filme que viu no cinema? Eu lembro: “Bernardo e Bianca”. Ele estreou no Brasil no dia 22 de julho de 1977, eu tinha 5 anos incompletos.
O original é de 1977, os personagens fogem em uma folha empurrados por uma libélula que serve de motor.

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Lembro com uma nitidez incrível das cenas desse filme, a minha memória remota é mais consistente que a recente. Lembro também da sensação de entrar no cinema pela primeira vez. Um baita de um cinema! Tive sorte de nascer e viver a minha infância na cidade mais desenvolvida do Brasil, São Paulo. Já naquela época o cinema era apoteótico, tinha três telas, três dimensões, um jato de ar saía no centro do cinema. Foi como se tivesse acabado de embarcar em uma nave espacial.
Fui pesquisar no senhor Google para saber o nome desse cinema e se realmente existiu ou foi fruto da minha imaginação infantil. Voilà! Não só existiu, mas era exatamente como descrevi Infelizmente fechou em 1994 e hoje o prédio está abandonado. Ele ficava na Avenida São João, nº 1465, no centrão de São Paulo.

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E o nome? “Cinespacial”, por isso eu me senti em uma nave, era essa a intenção. Era um cinema moderno e futurista em formato circular, agora sei como funcionava: “A sala de exibição era redonda, haviam 3 telas, o projetor ficava no centro e por um jogo de espelhos projetava a mesma imagem nas 3 telas”. O vento que saía do centro e que eu lembro muito bem, possivelmente era o local onde ficava esse espelho. Muito inovador, não conheço hoje nenhum cinema como o Cinespacial na Espanha e nem no Brasil.
Veja a descrição do cinema, crédito total ao blog História Mundi, pela mão do historiador José Jonas Almeida, fantástico por sinal, que trouxe de volta em imagens e explicações meus doces anos de infância:

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Cinespacial projeto

“(…) a sala de cinema tinha um formato circular e com três telas de projeção (no desenho acima, as telas correspondem às letras “b”). Para tanto, a sala era dividida em três setores, posicionados de forma circular (respectivamente, os setores “a”, “d” e “e” no desenho acima). Cada setor assistia ao mesmo filme em uma tela diferente. O filme era exibido nessas telas de forma simultânea, tendo o mesmo som dentro da sala. As três primeiras filas estavam situadas a uma distância de aproximadamente 14 metros de cada uma das três telas, permitindo uma boa visualização. Essas primeiras filas eram tão importantes quanto as outras e as telas eram colocadas em uma altura adequada, evitando qualquer obstáculo para a visualização das mesmas.”

A cabine de projeção ficava suspensa no teto, no meio da sala, com um mesmo projetor para as três telas (letra “c” no desenho acima). Portanto, a projeção era feita do centro da sala para as telas situadas nos cantos do espaço de exibição. Existia também uma preocupação com o conforto do público, pois as poltronas eram anatômicas e ajustáveis, possibilitando um melhor posicionamento para o espectador. A sala montada em São Paulo tinha 600 lugares, em um espaço onde normalmente caberiam apenas 300.”

Esse é o cartaz da inauguração do Cinespacial em 1971, eu ainda não tinha nascido. Eles fazem a propaganda do “fim do cinema quadrado” e que foram o 2º cinema do mundo com três telas. Estreia com filme francês. Très chic!

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Fiquei feliz em saber que a minha memória está afiada! Cuidado com o que você oferece aos seus filhos, porque eles não irão esquecer. Agradeço aos meus pais, Ana e Fernando (in memoriam), uma dona-de-casa e um metalúrgico, que colocaram na minha vida, desde cedo, o cinema e a literatura, e que me deram a melhor infância que se pode ter. Enquanto isso eu te convido para assistir o mesmo filme que vi há 37 anos, em versão original:

E você, quando foi ao cinema pela primeira vez?

Crédito das fotos e informações sobre o Cinespacial: História Mundi.