Resenha: Literati, de Barry McCrea

“Literati” lembra “Illuminati”, a sociedade secreta do século XVII, a qual Goethe e outros “iluminados” fizeram parte. Foi a única dedução que fiz sobre o livro a priori, pois não sabia absolutamente nada sobre o autor e a obra, só tinha o título e a sinopse: “Parecia um inocente jogo literário e acabou tornando- se um intrigante e perigoso vício”.

“Ressuscitamos o cemitério do pensamento humano de todos os tempos” (p.82)

O autor, Barry McCrea (1974) é irlandês de Dublin, com uma formação acadêmica sólida na área de Letras. Doutor em Literatura Comparada pela Princeton e professor de literatura na Yale.

Barry MacCrea

Dá para conhecer bastante da cultura irlandesa nesta obra. Referências e influências claras de James Joyce, o autor de Ulisses é citado várias vezes. A forma como fala de Dublin, seus bairros, ruas e pubs, lembra muito seu conterrâneo mais ilustre (mais nos primeiros capítulos). Inclusive o livro serve como guia turístico, os lugares existem mesmo, como o pub Hogan´s na Georges Street, a discoteca/bar Ri- Ra (em 2016 parece que fundiu- se com outra discoteca “The Globe”), o O’Neill’s na Suffolk Street e o Gonzaga College, por exemplo, que é um colégio religioso para meninos.

Um dos pubs irlandeses citados na obra

McCrea cita Sandycove, onde fica a casa do protagonista em Dublin. Neste bairro está a Torre Martello, que na verdade é uma espécie de farol ao pé do mar e que funciona como hotel. Neste ambiente começa “Ulisses”. Mas, sobre este livro, eu volto com a minha nova visão e retratação em outro momento. Eu fiz uma resenha muito negativa há anos e estou relendo e revisando. Sim, eu mudo de opinião, o leitor é camaleônico, uma mesma obra pode ser muitas, tal como o humano, senão seríamos muros (há quem seja).

O protagonista, Niall Lenihan, estudante de Letras e escritor, tal como o autor da obra (deve ser o seu alter ego) era apaixonado pelo colega do Ensino Médio e forçou situações para estar perto do rapaz até tornar- se o seu melhor amigo. Depois para foi para a universidade, mora numa residência estudantil, conhece outra estudante, Fionnuala (primeira vez que vi este nome) e começa a frequentar pubs noturnos, principalmente o gay “George”. Essa parte achei bastante entediante, pareceu- me narrativa adolescente.

A questão dos sotaques me chamou bastante a atenção. O narrador- personagem sabe de que lugar e classe social é o dublinense de acordo com o seu sotaque. O falar pode ser motivo de discriminação, de rótulos, acontece muito em todo o mundo. O autor brinca com o sotaque de uma garçonete espanhola, que forçou o típico sotaque da região. Nota- se que o autor é da área de Letras.

No primeiro capítulo, o protagonista vai de bebedeira em bebedeira até o final do segundo capítulo, onde acontece a revelação do jogo literário, no dia seguinte de uma festa, enquanto o grupo de universitários recuperava- se da noitada:

O jogo literário

A ideia é bacana: o jogo literário “(…) é uma forma de adivinhação conhecida há milênios…os babilônios, os árabes, os hebreus, os egípcios, todos a utilizaram.”

Trata- se de pensar (ou dizer) uma pergunta e abrir um livro aleatoriamente. A resposta estará no parágrafo lido. Uma espécie de oráculo, uma forma de comunicação mística e também com a sincronicidade da vida. Fatos aparentemente aleatórios, mas que na verdade não são. Tudo que acontece tem uma causa, tudo está interligado. Tem gente que faz isto com a Bíblia.

Até aí é legal, só que o “clube de leitura” vai muito além disto, é organizado, parece uma seita. Os que estão num nível inferior não podem conhecer quem está no topo e há muito secretismo e proibições.

Vou lançar no Instagram a tag #jogododestino. Quem topa brincar? Participe lá no @falandoemliteratura! Irei fazer uma demonstração nos stories (amanhã, sábado). Será que vai dar certo? Vamos conseguir respostas para as perguntas?

Mas, cuidado: é só uma brincadeira, não leve a sério como levaram os personagens desta história. Nosso cérebro e emoções são complexos e capazes de fazer milhares de associações. A leitura estimula a criatividade e não vá realmente acreditar ou modificar algo importante, tomar decisões por causa deste jogo, porque é isto: é só um jogo.

Segundo eles, o jogo “destinos” traz à tona o que há de mais misterioso na vida, a comunicação com o mundo do além, abre um portal para receber sinais de outros mundos que não podemos ver. Um portal de comunicação com o além. John e Sarah fazem parte do jogo e Niall os segue, insiste, até ser aceito e começam uma sessão de “destinos” no apartamento de John.

Dessa vez o jogo literário consiste em cada um ler um trecho de três livros diferentes e depois fazer a leitura simultânea sem parar. A experiência fez Niall perder a consciência. As vozes viraram uma espécie de mantra frenético, o jogo provocou um efeito similar ao consumo de um narcótico.

Niall passa o livro todo correndo atrás de Pedro Virgomare, uma figura que aparece no início, lhe fala uma frase enigmática, que o manteve intrigado todo o tempo. Essa parte é bem aborrecida. Niall vê Pedro de longe, corre atrás pelas ruas de Dublin, mas o cara sempre desaparece.

Achei o personagem principal volúvel, egoísta, não me cativou. Sua vida resume- se em bebedeira, sexo ocasional e descartar pessoas que lhe ajudam. É um sujeito altamente influenciável e meio esquizofrênico. Desprezou e magoou sua amiga Fionnuala, quando esta indaga se ele está usando drogas, mas está na verdade intoxicado pelos sincronismos das leituras em grupo, cria uma espécie de paranoia. Não só Niall, mas também John e Sarah perdem tudo por causa desse jogo literário obsessivo. Niall também não dá muita importância à sua família, a Chris, um cara legal que ele tem um affair e vive dando bolo, seu amigo de colégio e por assim vai. Parece que as pessoas egoístas e irresponsáveis têm sorte, sempre acham quem as ajude quando precisam, mas são ingratos por natureza, reiteram no erro.

No início, achei o jogo interessante, mas depois a história enveredou por um caminho que não gostei. O autor profanou a arte da leitura, como se ler pudesse transformar- se em algo extremamente daninho. Mas, pensando bem…apesar da desagradável sensação, pode mesmo: leia sem parar, não durma, não cuide das coisas cotidianas, da família, estudo, emprego, amores, busque significados “tortos” em tudo o que ler, acredite neles e faça o que mandam. Ou seja, desvirtue o objeto, o livro, transforme- o em outra coisa… pronto, o monstro foi criado. Inclusive eles destruíam livros, colavam partes de livros diferentes formando outro, tipo um livro Frankenstein.

Esta é uma obra esquisita. Nunca terminei uma leitura com uma sensação tão grande de desconforto. O afã de conhecimento transformado em loucura, obsessão. E isso pode acontecer com qualquer coisa, qualquer ideia fixa, irracional, que o sujeito tome como verdadeira. Que desastre quando se dá uma utilidade que não é da própria natureza do objeto.

Este livro foi ruim como um vício: você sabe que está fazendo mal, mas não consegue deixar de ler. Tal como o protagonista, o estudante de Letras de 19 anos, que pensou entrar num clube literário e caiu numa armadilha. Eu só desejava que acabasse.

Não recomendo, nem deixo de recomendar. É um livro estranho, que me assustou um pouco, é chocante e labiríntico, provocou- me agonia ver o protagonista entrando num círculo de auto- destruição. A impressão que fiquei é que deve ter algo de auto- biográfico, possivelmente o autor viveu algo das situações narradas. Ou não…só ele sabe. Eu não consegui adivinhar o final, que foi sem graça , por sinal…

Ah, como citei, este livro é um ótimo guia de Dublin, talvez o que mais tenha gostado. Inclusive deixo aqui o link da RTE de Dublin para quem está estudando inglês, você pode ouvir e ver rádio, TV, notícias de Dublin ao vivo. Inclusive tem um artigo em “lifestyle” que diz que 50% da nossa felicidade é genética, 10% e 40% atividades que nós escolhemos. Temos 50% de chance de vencer o determinismo genético.

Abaixo a edição espanhola lida, da editora Destino:

Foto: Fernanda Sampaio

Próxima resenha: “O buda dos subúrbios”, de Hanif Kureishi, que começarei a ler hoje. Quero zerar a pilha de livros autografados, um desafio que coloquei para mim mesma. E você, o que está lendo?

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O fim das bancas de jornais?

A era digital acabou com 50% das tradicionais bancas de jornais e revistas nos últimos 20 anos na Espanha. A tendência é mundial, assim também aconteceu no Brasil.

Bairro de San Pascual, Madri. As bancas são chamadas de “quiosco”.

A realidade parece pior que a estatística citada. Depois de ver a notícia no telejornal espanhol, comecei a observar as bancas nas ruas.

A solução aí e aqui é reinventar- se para não morrer. As bancas vendem água, refrigerantes, doces, badulaques, carregadores de celular, livros, brinquedos…e revistas e jornais. As bancas viraram bazares, mercadinhos, perderam a sua principal função.

É verdade. Deixamos de comprar jornais e revistas. Ou compramos muito de vez em quando. Primeiro, porque de tudo há versão digital ao alcance de um clique; segundo, porque não nos interessa mais gastar dinheiro com algo que não acompanha a velocidade desses tempos pós- modernos. Uma notícia impressa de madrugada, de manhã já é velha, todo mundo já sabe ao acordar e conectar o celular sem precisar nem levantar- se da cama.

Jornal era imprescindível, quase todo mundo procurava emprego nos Classificados. O mesmo para alugar e vender imóveis. Sem anunciantes e patrocinadores, de quê vive um jornal? Só de boa vontade.

Banca fechada em Madri

Contudo, o papel é documento. O mundo virtual e a tecnologia falham. Quem já não perdeu algo importante num computador irrecuperável, um cartão de memória ou um celular defeituoso? Papel pode durar séculos, se bem conservado. Ainda assim, o papel está perdendo as batalhas.

Penso nos donos e donas de bancas tradicionais com muito pesar. O que foi e o que será deles? É uma profissão em vias de extinção?

Recordo quando era menina e ia com muita ansiedade comprar os álbuns de figurinhas. Os álbuns estavam feitos para não serem completados, nunca consegui completar nenhum, e acumulava aquele bolo de figurinhas repetidas. Era um “ troca troca de figurinhas” (virou expressão popular) ou apostavámos “no bafo”, que consistia em colocar no chão o bolo de figurinhas, bater em cima delas com a mão em forma de concha, a levantando em seguida. As figurinhas do adversário viradas na ação ficavam com o participante. Era mais questão de jeito, que de força.

E adolescente, a revista Capricho era o máximo, tratava de assuntos que interessavam o mundo juvenil. Veja essa capa com a belíssima Ana Paula Arósio, de 1988. A moeda era o cruzado e o presidente , José Sarney:

Revista era momento de socialização, de troca e partilha com as amigas. Ah, sem esquecer dos signos. Os astros tinham uma importância crucial nas relações.

Eu não quero dizer que antes era melhor que agora, tudo tem seu lado bom e ruim. Antes tudo era mais difícil, a tecnologia facilitou a nossa vida, estudos, nos permitiu conectar com o mundo. A internet é genial, mas também prejudicial em excesso, como tudo na vida. Internet nos tornou mais solitários, a sina do nosso tempo.

O fato é que as bancas estão fechando. O tempo muda tudo, e nós aqui, observando as páginas virarem.

Resenha: “Uma furtiva lágrima”, de Nélida Piñón

Este é um dos melhores livros escritos em português. “Uma furtiva lágrima”, de Nélida Piñón é comparável ao “Livro do desassossego”, de Fernando Pessoa.

Narrar é prova de amor. O amor cobra declarações, testemunho do que sente. Fala da desesperada medida humana. Como amar sem os vizinhos saberem? Sem tornar pública a paixão que alberga os corpos na penumbra do quarto? (“Prova de amor, p.71)

Nélida Piñón passou um ano em Lisboa e acabou de voltar ao Rio de Janeiro neste mês de março de 2019. Nélida publicou este livro em terras lusas. Uma obra emotiva e transparente. Ela tem outros livros com teor biográfico, mas este é o mais íntimo e revelador.

A antologia consta de 146 textos (se não contei mal), com temáticas bastante diversas. Nélida narra em primeira pessoa, “Falar em primeira pessoa requer audácia” (“Sou múltipla”, p.197). E generosidade, completo. Nélida contou- se nesse livro. E contou a história dos seus ancestrais. Acredito nisto também, que somos multidão, carregamos na memória dos nossos gens, todos os que nos antecederam, além de carregar todas as leituras que fizemos. Ela mesma nos convida a vê- la sem véus, “vejam- me como sou” (“Eternidade”, p.97).

Nélida fala da sua infância no Rio de Janeiro, sua terra natal citada muitas vezes, dos passeios que fazia com a tia Teresa pelo centro do Rio. Teatro, cinema, o lanche na Americana. O sabor de um Rio de Janeiro mágico (em “A primeira vida”, p. 63).

“Uma furtiva lágrima” é uma aula magna sobre literatura. Nélida conta- nos sobre a sua profissão. Leia “Meu ofício” (p.18).

“Não há poesia na Morte” (p.19).

Concordo, a morte é dor. Nélida, no final de 2015, recebeu uma sentença de morte, “de seis meses a um ano”. O oncologista a sentenciou antes mesmo dos exames definitivos. Nélida pensou em escrever um diário, um resumo do seu final. Dá para entender o motivo da força deste livro, a autora acreditava que estava nos seus últimos dias, despedia- se da vida. Ela recebeu consolo dos seus dois cachorrinhos, Suzy e o falecido Gravetinho, sua paixão, seu “amuleto” (p.71), citado várias vezes. Esta obra é dedicada a ele. Nélida “contava os dias”, os que acreditava últimos. E pouca gente soube. Graças a Deus, o médico estava errado.

Viajamos com Nélida. Viagens “reais” a países e cidades; e viagens até os mitos gregos. O rastro de todas as suas leituras nos deixa uma rica bibliografia a ser anotada. “A imaginação é razão de viver.” (p.22)

A família é um assunto importante neste livro. E foi justamente um texto sobre este tema que me fez desmanchar, literalmente, em lágrimas. Eu li, reli, li de novo, e se ler agora outra vez, será pranto. É lindo, verdadeiro, mexeu com as minhas mais profundas emoções. Esta beleza chama- se “Estatuto do amor” (p.25).

Nélida é descendente de espanhóis. Em “Minhas quimeras (p.80), a autora declara o seu amor ao Brasil e reivindica suas raízes “recentes”, como qualificou no seu discurso da Academia Brasileira de Letras. No entanto, aqui meio que arrependida, talvez, finca seu pé no Brasil, terra de seus plenos direitos:

(…) Brasil agora é meu naufrágio, minha salvação, meu amor. E as raízes que brotam de qualquer rincão do país aninham- se igualmente no meu peito. E falo dele agora sem sanções, adquiri todos os direitos. Sou tão arcaica quanto quem aqui esteve no albor desta terra. (“A civilização do mundo”, p.92)

Por certo: Clarice e Nélida eram amigas. Clarice é citada nesta obra também, ela gostava de se olhar no espelho, tal como Lygia Fagundes, outra amiga de Nélida. (p.78).

Nélida fala sobre muitos outros autores. Machado de Assis, autores estrangeiros, e de João Cabral de Melo Neto (que morou na Espanha), disse que o autor de “Morte e vida severina”(clica), era “peculiar, que odiava música” (p.58); conta sobre a confissão de Carlos Heitor Cony (clica), que jamais havia amado tanto alguém como a sua cachorra Mila e ela a ele (p.60).

“Uma furtiva lágrima” será publicado no Brasil em abril pela Record:

A mais recente obra de Nélida Piñón (2019) publicada em Portugal.

Nélida fala da Bíblia, que a “deleita”. Fala no seu sentido narrativo e como ela inspira o escritor moderno (p.86). Cita Eclesiastes e Machado, que dominava estes textos. Sobre religião, Nélida declara- se “às vezes panteísta” (p.88). Eu também, só que sempre. Acho que é a definição perfeita de como sinto a vida.

Nossa melhor escritora brasileira perdeu bastante visão. Isso eu já sabia por ela mesma, mas agora contou em “Olhos” (p.167). A autora teme não poder ler nem escrever, que são a sua vida. Deus queira que isto não chegue a acontecer.

Nélida Piñón em Madri (Palace Hotel), no dia 25/11/2017. (foto: Fernanda Sampaio)

Depois de ler esta obra, estou com um livro sobre mitos gregos na cabeceira para reavivar a memória; esta, que também é mito representado pela deusa Mnemósine. A memória prodigiosa de Nélida Piñón a caracteriza, embora ela tenha dito num texto que “a memória é frágil”. (p.126). Que seria dos humanos, sobretudo se são autores, sem a memória?

A arte narrativa, além de avaliar o que foi pretérito e hoje é presente, perpetua a fala da alma, restaura a crença no que há por trás da harmonia e da discórdia. (p.71)

A obra pode ser lida sem ordem, os textos são independentes. Eu me apaixonei por muitos, li e reli, porque me seduziram completamente. Fazia tempo que eu não sentia pena ao acabar um livro.

Não esqueça que esta obra será lançada no Brasil no próximo mês de abril. Anota na sua lista, este você precisa ter, garanto que você vai gostar.

Nesta obra há muitos outros tesouros, alguns eu quero guardar só para mim. Encontre os seus também. Boa leitura!


Resenha: “Ciranda de pedra”, de Lygia Fagundes Telles

Tenho uma leve lembrança da novela “Ciranda de Pedra”, que passou na minha infância (1981), mas nada significativo em relação ao enredo, só lembro do rosto de Lucélia Santos; portanto, essa obra era como uma desconhecida para mim. Sei que a novela da Globo foi um tremendo sucesso, foi reprisada e ganhou um remake em 2008. De novela eu não entendo, não as vejo desde 2004, época da minha expatriação “definitiva”. Quem entende do assunto é a minha amiga Alana Freitas, vejam lá o “Entretelas”, blog especializadíssimo nessa arte de massas. Em tempo: a adaptação de “Ciranda de Pedra” (a de 2008) também foi vista em Portugal.

A história começa com uma menina revoltada, triste, deprimida, que chora junto à Luciana, a empregada mulata, que cuida de toda a família. Esta obra foi escrita em 1954 e nota- se a opressão e preconceito que os negros sofriam. A cor estava associada à feiura (referência dos cabelos) e à tristeza. Os anjos só podiam ser brancos:

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Virgínia utiliza a cor de Luciana para atacá- la e menosprezá- la em momentos de tensão. Luciana é um personagem forte, porque faz as revelações mais importantes da narrativa, que é bem melodramática na primeira parte, por isto deve ter virado novela na TV, tem elementos de folhetim. Mas não foi ameno, levei alguns sustos, é uma narrativa abrupta dividida em duas partes. Já na primeira desenvolve- se todo o dramalhão. Não posso negar que não haja verossimilhança com a vida. Aliás, a vida é muito pior.

Os pais estão separados e a mãe, Laura, sofre demência, algo parecido com Alzheimer algumas vezes, e também sofre alucinações e desconecta do mundo “real”. Ela não lembra que Virgínia é sua filha, mas tem alguns momentos de lucidez.

A narrativa está entremeada em uma teia de fragilidades, rupturas e analogias entre pessoas, pássaros e animais invertebrados como beija- flores, formigas, aranhas e borboletas. Laura vê besouros: é o sinal de que Virgínia perdeu a mãe mais uma vez. A obra é enigmática, há uma aura de mistério e dor.

Vamos descobrindo mais sobre quem é Laura nos seus momentos de lucidez; no entanto, não dá para saber se os fatos são reais ou fruto de sua loucura. Ela conta que sua mãe era atriz e que seus pais morreram num incêndio. Daniel é o seu marido. Ela abandonou o ex, Natércio, pai de Virgínia, por causa dele. Laura e Natércio têm outras duas filhas, Bruna e Otávia, que moram com o pai.

A impressão é que Daniel pode ter algo de responsabilidade pela doença de Laura. Ele proíbe a entrada de Virgínia no quarto da mãe, não dá para saber se por proteção ou algo estranho. Virgínia o vê participando da loucura da mãe. Depois Daniel a envia para morar com o pai. Mais tarde descobrimos o motivo disso tudo, não vou contar, porque seria spoiler grande.

Na casa de Natércio quem cuida das meninas é Frau Herta, antipática e até cruel com Virgínia, a repreende a todo momento e exalta a qualidade de suas irmãs. Natércio é rico e mora num casarão.

Virgínia tenta negar a doença da mãe e afirma em reiterada vezes que melhorou, mesmo sabendo que não é verdade, principalmente por medo. Ela teme perder a mãe. Daniel explica o seu conceito de morte à Virgínia:

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Daniel lê um livro de Charles Manson, “Sparkenbroken”, publicado em 1936, que diz o seguinte (adaptado pelo editor): “A noite passada voei para a árvore da morte;/ De súbito uma brisa fez- me pairar; / E eu, mísero boneco de penas arremessado,/ Envolvido no meu elemento, voltei a ser pássaro.”

Para Daniel há vida após a morte e esta é a libertação. Virgínia gosta do “tio Daniel”, mas tem que fingir que não, afinal, foi por causa dele que os seus pais se separaram. O médico é muito mais carinhoso que o seu pai. Elas, Otávia e Bruna, desprezavam a pequena, que não é parecida em nada com as duas, nem em gestos, comportamento ou aparência. Claro que já dá pra desconfiar que Virgínia é filha de Daniel e não de Natércio e esse foi o motivo da separação do casal, a infidelidade de Laura. Mas, se isso é certo, por que ainda não contaram à Virgínia a verdade?

A narrativa na primeira parte da obra intercala- se em três ambientes: a casa do pai, a casa da mãe e a imaginação de Virgínia. Na segunda parte, Virgínia foi morar num colégio interno de freiras.

Há outros dois personagens, Afonso e Conrado, irmãos e vizinhos da casa de Natércio. Virgínia tinha uma queda por Conrado, mas o moço não prestava atenção nela e sim na irmã Otávia. O tempo passou e  Afonso casou- se com Bruna, tiveram uma filha. Frau Herta, doente, já não é mais a governanta e sim a portuguesa Inocência. Conrado mudou- se depois da morte da mãe para uma chácara e Natércio aposentou- se. E sobre Daniel e Laura, essa parte não vou contar. Também não vou contar o que aconteceu com Virgínia, você vai ter que ler o livro…só vou contar que ela, já crescida, sai do colégio interno e volta para a casa de Natércio.

É uma obra bem escrita e que me provocou sensações de choque e angústia por vários motivos.

Creio que na novela há mais dicotomia de personagens vilões e mocinhos, vítimas e algozes. No romance não, são só humanos…

Qual caminho escolher? Essas encruzilhadas que a vida nos impõe e suas inexoráveis consequências. É uma história cheia de bifurcações e despedidas, e essas, nunca são alegres.

Esta é a edição portuguesa lida, ainda sem as correções do acordo ortográfico:

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Se quiser comprar a mesma edição que a minha, clica aqui.

Lista de obras de leitura obrigatória FUVEST 2018

Lista de obras de leitura obrigatória  FUVEST 2018

Resenha: “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury

451° Fahrenheit: a temperatura que o papel dos livros se inflama e queima. (epígrafe)

 


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O americano Ray Bradbury (1920- 2012) foi romancista, contista, ensaísta, dramaturgo e roteirista, publicou “Fahrenheit 451” em 1953, livro considerado a sua obra- prima. Ray casou- se em 1947 com “Maggie” (Marguerite, falecida em 2003), o casal morava em Los Angeles com muitos gatos, quatro filhos e oito netos.

“Fahrenheit 451”, junto com “1984”, de George Orwell e “Um mundo feliz”, de Aldous Huxley,  foram as obras que popularizaram o termo “distopia”, que é contrário à utopia.  Um romance “distópico” acontece em um universo, país, mundo imaginário criado de uma forma que ninguém deseja, são horrendos, infelizes, tenebrosos. A maioria da obra de Bradbury encaixa- se no gênero ficção científica.

Enredo, personagens, estrutura e impressões sobre Fahrenheit 451

Não podemos perder de vista que esse livro foi publicado em 1953. Tudo o que o autor imaginou realmente foi incrível, um visionário, tudo verossímil.

A obra é dividida em três capítulos (a edição lida foi espanhola, com minha livre tradução ao português, então, algum termo pode estar diferente das edições brasileiras ou portuguesas). São eles:  1º- A chaminé e a salamandra; 2º- A peneira e a areia e o 3º- Fogo vivo.

O personagem principal é Guy Montag. O trabalho dele lhe provoca um grande prazer: destruir a história e o pensamento de gerações, queimar livros. Ele trabalha em um corpo de bombeiros muito estranho, contrário ao que conhecemos, o dos nossos heróis que enfrentam as chamas para salvar pessoas, animais, bens e natureza, mas isso na terra de Montag é lenda urbana. O personagem usa uniforme com uma salamandra na manga, o número 451 bordado (a temperatura em fahrenheit que o papel incendeia- se) e uma fênix no peito. Ele tem trinta anos, casado com Mildred e trabalha há dez no quartel. Os bombeiros são temidos pela população.

Logo na primeira página, o autor revela a função do personagem provocando nessa leitora a intriga, os questionamentos: “Por que ele queima livros, qual o objetivo?”, “Que lugar é esse?”, “Como seria um mundo sem livros? “Como se armazena, então, o conhecimento humano?”.

A estrutura social no mundo de Montag é parecida com a nossa, só que no futuro. Não há seres estranhos, exceto robôs (agora também já existe, mas na época que foi escrito há 64 anos, imaginar o futuro era pura especulação, nem internet tinha), nem um mundo fantástico, é como se fosse a Terra, só que com tecnologias mais avançadas. No país dele tem metrô propulsado por ar, que o deixa em uma plataforma depois de uma rajada de vento e os carros são “retro propulsados”. A jornada de trabalho é tal como conhecemos. Cada dia um autor (livros) está destinado à fogueira.

A vizinha de Montag é Clarisse McClellan, vai completar dezessete anos e pergunta a Montag (p.20):

" - Você lê alguma vez os livros que queima? Ele começou a rir:
- Está proibido por lei!"

Clarisse é o contra- ponto, a sensatez, a alegria e a sensibilidade. Não se deixou contaminar pelo mundo triste que essa sociedade do futuro criou (muito parecida com a nossa, infelizmente). Ela observa que as pessoas voam nos seus carros e nunca reparam nas flores, na grama abaixo, na lua, no sereno. A adolescente pensa e isso incomoda o bombeiro, que começa a pensar também sobre a sua existência.

A narrativa é poética na descrição das paisagens, pessoas e silêncios da cidade, gosto muito da atmosfera de mistério, contada com cuidado, esmero, as palavras pensadas e justas. É um excelente livro. Confesso que eu tinha um certo preconceito em relação a esse gênero literário, mas a história convence. Caí completamente na história de Ray Bradbury.

No país de Montag, as crianças se matam entre si. Há professores virtuais nas escolas, são quatro horas assistindo um aparelho eletrônico. Falta calor humano, debates, não se pode perguntar nada, questionar, tudo já está pronto e imposto. As crianças, pelo menos os filhos da dona Bowles, ficam vinte e sete dias na escola, só os vê três dias ao mês, para ela “suportável”. Nasceram de cesárea, os partos normais praticamente não existem e a natalidade é baixa.

As pessoas que escondem bibliotecas em casa são levadas para um manicômio e suas casas são queimadas. Montag, por influencia de Clarisse, desperta a vontade de ler um livro. Ele nunca leu nenhum, só uma linha de um conto de fadas. Beatty é o capitão do quartel e está totalmente doutrinado, não questiona nada.

A lei é incendiar os livros com querosene e dizer que tudo  neles é mentira, inclusive os autores, que nunca existiram. Normalmente, a polícia evacua os donos das casas e os bombeiros queimam tudo quando estão vazias. Mas nem sempre é assim. Encontraram uma mulher. Ela recusou- se a sair da casa, e por dignidade, ela mesmo acendeu o fósforo que incendiaria tudo, inclusive a si mesma. O índice de suicídios nesse lugar é altíssimo. Muita gente prefere morrer que viver numa ditadura sem esperança. Nesse incêndio, Montag levou um livro consigo, o primeiro da sua vida. O olhar dessa mulher e esse livro mudam a história toda do bombeiro.

Montag quer saber como, quando e porquê começou a sua profissão. A partir daí (p. 66) nós vamos descobrindo com ele as razões de tudo. Em alguns momento a narrativa é vertiginosa, confusa, intensa, labiríntica, viajamos com Montag na busca de respostas.

Em 1953, Ray Bradbury descreveu o que está acontecendo atualmente conosco. Há um excesso de distração inútil, há coisas idiotizantes demais e os livros estão ficando cada vez mais curtos, com muitas imagens (lembra do estouro dos “livros” para colorir?) e esquecidos. As escolas adotam livros clássicos “adaptados” por serem mais “fáceis” de ler. Uma ministra do governo Dilma quis proibir Monteiro Lobato nas escolas. Resistiremos?

Na obra, (pequeno SPOILER!), a desaparição dos livros não foi culpa do governo, como muitos podem pensar. A última escola de Artes no país fechou há quarenta anos por falta de alunos. O professor Faber, que aparece no segundo capítulo, ensinou nessa escola.

A culpa dessa sociedade triste e absurda, foi da população, que preferiu ler títulos, resumos, frases feitas e deixou de pensar e criar, além de comportamentos inaceitáveis de intolerância ao outro. O homem foi ficando vazio, vazio, vazio…esvaziou- se tanto de tudo, que ficou isolado, só. E há outros motivos, a universidade é apontada como uma das grandes culpadas (p.71). Bradbury disse em uma de suas entrevistas, “que acredita nos livros, não nas universidades”.

A universidade destrói a criatividade e padroniza os alunos? Minha experiência pessoal: eu era muito mais criativa, escrevia muito mais, poemas, contos, crônicas, antes de entrar na universidade, tive até um livrinho de poesias. Depois dela…temo escrever, uma espécie de respeito exacerbado pela literatura. Acabou- se. É um fato, virei uma Bartleby (escritora que não escreve). Se aconteceu algo parecido contigo, deixa aí nos comentário.

Fragmento do trecho onde Beatty explica a sociedade deles, creio que é uma crítica extrema esquerda (p.71) e logo depois vem uma crítica à extrema direita:

(…) Não nascemos livres e iguais, como afirma a Constituição, senão que nos transformamos em iguais. Todo homem deve ser a imagem do outro. Então todos são felizes, porque não podem estabelecer diferenças nem comparações desfavoráveis. Um livro é uma arma carregada na casa ao lado. Queimá- lo. Tira o projétil da arma. Domina a mente do homem. Quem sabe qual poderia ser o objetivo de um homem culto?

Quando a população cresce, há muitas minorias, e nesse trecho, creio que é uma crítica aos extremistas. No final, os extremos, direita ou esquerda, não são a mesma coisa? A mesma crueldade imposta, violenta e excludente?

 – Deves aprender que nossa civilização é tão vasta que não podemos impedir que nossas minorias se alterem e rebelem (…)

– O povo de cor não  gosta de ‘O negrinho Sambo’. Queimemo- los. O povo branco sente- se incômodo com ‘A cabana do tio Tom’. Queimemo- los. (p. 72)

Na civilização de Montag tudo foi destruído para não ter divergências, já que essas ficaram incontroláveis. Ou seja, todos os extremistas são verdadeiros descerebrados intolerantes, tanto no passado, quanto no presente, no futuro, na ficção como na vida, porque cega e imbeciliza. São esses que impulsionam as guerras e conflitos, e conseguem conduzir bandos de cordeirinhos. Nada na vida pode ser preto ou branco. Há mil tons de cinza (e não falo daquele livro ruim). O mundo deveria ter espaço para todos, independente do que pensem, amem, pratiquem, acreditem ou desacreditem.  Isso não seria… a democracia?!

A intolerância, o pensamento totalitário, estão levando muita gente para a tumba de várias maneiras. Venezuela que o diga. E a Síria?! E o nosso Brasil dividido, uma gincana torpe, cada um puxando a corda do seu lado, e dessa forma, nunca haverá vencedores. O máximo que pode acontecer é que todos caiam. É necessário aparecer alguém que estabeleça a ordem e o consenso.

Na civilização de Montag, a vida humana também vale muito pouco, ninguém se comove mais. Morrer é banal. Nesse país, os carros esmagam coelhos e cachorros, isso também já não importa. E no nosso mundo, as pessoas param para socorrer animais que atropelam ou que foram atropelados?

Lembra que Montag escondeu um livro e o levou consigo para não ser queimado? A curiosidade é inerente ao humano; infringir as regras também (que não tem porquê ser negativo, quando essas são injustas). Ele e a esposa começaram a ler (segundo capítulo).

Ouve- se explosões de bombas constantemente. Essa civilização vive em guerra há muitos anos. Não há comoção com as mortes que acontecem nas guerras.

Estudar, investigar, criar é coisa clandestina, faz- se na escuridão dos porões.

(…) Quem sabe os livros possam nos tirar da nossa ignorância. Talvez pudéssemos impedir que cometêssemos os mesmos funestos erros (…) p.87

Um dos problemas da falta de prática leitora é que a interpretação de texto fica deficiente; portanto, quanto mais leitura, mais entendimento. Montag teve dificuldade para entender o  livro que salvou, teve que pedir ajuda ao professor Faber.

Na obra há bastante diálogos. Outros personagens: as senhoras Phelps e Bowles, amigas de Mildred (apelido Millie).

Montag e sua redenção, de carrasco a messias. “há tempo para tudo…uma época para destruir e outra para construir”.

Ray Bradbury é atualíssimo! E triste, porque há muita semelhança com a nossa realidade. Já não estamos vivendo em um mundo distópico?

Esse foi para a lista de favoritos. Já contei demais, agora é com você, LEIA!

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Bradbury, Ray. Fahrenheit 451. Debolsillo,  Penguin Randon House, Barcelona, 1993. Páginas: 185- Preço: 9,95€ na La Central (Callao, Madri).

Quer saber mais sobre Ray Bradbury? Baixe aqui gratuitamente o livro “O zen e a arte da escrita” e leia Os onze conselhos de Ray Bradbury para escritores novatos.

 

 

 

 

 

 

 

Tesouros da “British Library” (vídeo).

A Biblioteca Britânica é uma verdadeira joia da humanidade, ela é a guardiã de tesouros de valor incalculável. Nela há manuscritos de todas as épocas, de todos os povos, de todas as disciplinas. Eu estive passeando na biblioteca, sofri Síndrome de Stendhal, chorei na frente de originais de escritores, que jamais pensei que iria ter a oportunidade de ver. Você que é apaixonado por literatura como eu, vai entender.

Nem dá pra citar todos, impossível, mas digo que vi a letra do próprio punho de vários escritores e gênios das artes, literatura, música,  como Dostoievski, Proust, Tolstoi, George Orwell, Freud, Leonardo da Vinci, Mozart, Stefan Zweig, etc…

shakesEdição de “Orlando Furioso”, de Shakespeare, de 1591. (British Library)

Se você não pode, por enquanto, conhecer em pessoa essa biblioteca incrível, pode consultar vários textos no site, clica aqui.

Não gravei muito, porque como disse, estava extasiada, fora que não permitem gravar dentro da sala dos tesouros. Mas veja o videozinho aqui, clica e inscreva- se no canal! 🙂