"Não esqueça a minha Caloi"

A bicicleta Caloi vermelha parecia que ia desmontar, tal a velocidade que eu descia a rua Manoel Ferreira Barbosa para fugir das mordidas dos cachorros. Eles ficavam na frente da casa “dos maloqueiros”, como eram conhecidos uns irmãos que moravam numa espécie de cortiço. Lembro especialmente de um que tinha o rosto queimado. Os rapazes da casa tinham fama de ladrões, mas sempre que passavam na porta da minha casa nos cumprimentavam amavelmente.

Na minha cabeça de 8 anos, ficava a contradição entre a figura de um malfeitor com o rosto deformado, que todos no bairro temiam e a pessoa doce que havia sofrido alguma fatalidade e que nos tratava sempre com um sorriso no rosto. A minha imaginação infantil flutuava entre as duas figuras e no final, achava legal manter essa cordial cumplicidade, até carinhosa, com um “bandido”; por certo, os feitos da má fama jamais foram confirmados.

O fato é que os cachorros não eram nada gentis. Eles corriam atrás da criançada, dos carros e das bicicletas. Era um desafio passar na porta dos Maloqueiros. E eu ia preparada. Na frente do rua do Jairo Ramos eu apertava os pedais o máximo que conseguia e pegava embalo na descida. Na frente do cruzamento, onde havia um bar, rezava para que não viesse algum carro e tivesse que brecar. E quando chegava na porta dos Maloqueiros, os pés já estavam em cima do guidão. O embalo ia até o final da rua e chegava na Avenida. O fato é que a minha Caloi foi uma grande companheira durante toda a minha infância. Não teve canto daquele Jardim Mangalot, que eu não tivesse desbravado com minha bicicleta.

Uma das frases que mais ouvia era, “deixa eu dar uma voltinha?!”. E eu deixava. E ficava sentada na guia da calçada esperando até a paciência esgotar.

Os paralamas da minha Caloi tremiam, “tá tá tá tá”…os parafusos estavam frouxos e eu nunca quis apertar. O barulho fazia parte do conjunto da obra. Aquele barulho anunciava a minha chegada. Isto, e as tiras de copos plásticos descartáveis que eu colocava nas varetas das rodas.

“Ganhar uma bicicleta de Natal” era o sonho de todo brasileirinho, o máximo que se podia querer. Eram caras e inacessíveis para muita gente. O Brasil sempre foi um país difícil. Meu pai, metalúrgico, fez muito sacrifício para comprar duas bicicletas, a minha e a da minha irmã que era marrom.

Uma vez, minha irmã levou na garupa minha prima e a mim até o “morrinho”, que nada mais era que um amontoado de terra num terreno baldio na nossa rua. A bicicleta deu um cavalo-de-pau involuntário e as três caíram da bicicleta. A prima e eu pulamos, mas minha irmã caiu de costas na terra. Havia por ali um caco- de- vidro que entrou nas suas costas, na altura dos rins. O corte foi grande. Corremos para casa e escondemos da mãe. Naquele tempo, o medo da bronca da mãe era maior que o medo do machucado. Fomos até o cozinha e enchemos a ferida com pó de café. Ouvimos alguém dizer que café curava feridas. O corte, que precisava ser devidamente esterilizado e inclusive ter levado algum ponto, milagrosamente, cicatrizou sem contratempos ou inflamações. A cicatriz ela tem até hoje.

Não sei o que foi da minha Caloi vermelha. Acho que meus pais venderam quando fomos para a Bahia. Eu queria muito achar uma foto da minha Caloi, mas não encontrei. Não sei se era a Ceci, não tinha cestinha e não era um vermelho vivo, era um vermelho mais claro. Acho que era anterior a 1980.

Os meninos usavam a Caloi 10, Berlineta, BMX ou a Monark Olé (aquelas com uma barra circular). As meninas ficavam com a Caloi Ceci ou a Monark. Eram as duas marcas que dominavam o mercado. A Caloi tinha aquele lema: “Não esqueça a minha Caloi”:

Ter crescido em Pirituba me fez forte. Aprendi a me virar sozinha e a ficar esperta, prever possíveis problemas e escapar deles, foi um laboratório pra vida. Ao mesmo tempo, aprendi a solidariedade e o companheirismo. Naquele tempo sim, “ninguém soltava a mão de ninguém”. Amigos eram para brincar e para as horas de dor. A gente sabia que podia contar uns com os outros. A gente dividia o lanche, defendia e apanhava por um amigo. Mexia com um, mexia com todos. Os anos 70-80 foram selvagens e ao mesmo tempo tinha a beleza da simplicidade e da nobreza de sentimentos, quase heróicos, “Stand by me”…

A rua foi uma excelente escola. Penso nas crianças de hoje que crescem em redomas de vidro, hiper- protegidas…creio que pode ser perigosa essa legião escondida atrás de computadores. Nos anos 70 e princípios dos 80, minha infância, a gente resolvia tudo cara a cara.

Foram tantas aventuras, que aos poucos irei contando. A minha infância foi, muito, muito feliz na periferia de São Paulo.

Agora, pergunto à Caloi: “Cadê a minha Caloi?!”. Não, vocês não “fabricam ciclistas”, vocês fabricam sonhos que começam na infância. E quarenta anos depois da minha primeira Caloi, para muitos brasileirinhos ainda é um sonho impossível. O modelo infantil mais barato para 9-12 anos custa R$ 789,00 e o mais caro chega a R$ 1319,00. O salário mínimo é de R$ 1039,00. A Caloi não é mais uma indústria brasileira, é canadense. Só que esqueceram que estão no Brasil.

Vocês da Caloi trabalham, direta ou indiretamente, com ferro e alumínio, recursos naturais e finitos na Terra, além da borracha, uma exploração bastante daninha em muitos sentidos. O custo para a natureza é altíssimo, portanto, deveriam ter a decência de vender bicicletas que todos os brasileiros pudessem comprar. Sugestão: um modelo low cost de, no máximo, R$ 200,00, de acordo com o salário e país que vocês exploram e que, inclusive, tem a maior quantidade de matéria- prima do planeta.

Cadê, cadê a nossa Caloi, Caloi?!

O que é a felicidade

Por Fernanda Sampaio Carneiro

Por um momento, transcendi o peso do corpo. Os raios do sol da manhã foram acendendo célula por célula, como um farol. Fiquei iluminada! Senti que podia correr sem parar durante dias, com uma força sobre- humana, nenhum mal podia ser acessível a mim. Fui apertando o passo e, sem perceber, estava saltitando como menina. Apertei os olhos impregnados de azul e a gargalhada explodiu incontrolável. Abri os braços ao sol e gritei ao céu: “- Obrigada, Senhor!”.

Ano de 2012, em Feira de Santana, depois de cinco anos fora. Saí da casa da minha melhor amiga, que havia me hospedado, e por uns instantes senti a magia de voltar pra casa. E agora, já são quase oito anos. Pensa.

Sinto falta do ar da cidade. Já percebeu que cada uma tem um perfume?

Haverá pessoas para colocar pedras nas suas vontades, porque não são as delas. Existirão muitos desvios, setas erradas, profundezas, para te enviar a caminhos muito mais longos, estratégias de distração, falácias, que te farão chegar a lugar nenhum.

Do cansaço, nascem a consciência e a esperança. O destino é indefectível.

E você, sabe onde está a sua felicidade?

Como eu consegui duas cidadanias europeias

Você sonha em morar na Europa? Uma das formas é procurar saber se você tem direito à cidadania.

Os meus três passaportes. Três países importantes na minha vida, que de sangue e coração, me transformaram no que sou hoje. Sou hispano- luso- brasileira!

Como expliquei neste post aqui (clica), eu nunca pretendi sair do Brasil. Só aconteceu quando casei com um espanhol e decidimos morar em Barcelona, terra natal do meu marido. E na terra de Gaudí solicitei a nacionalidade portuguesa. Tenho pai, avós, bisavós, tataravós portugueses de Aveiro e do Porto.

No ano de 2005, dei entrada no consulado de Barcelona, apresentei a minha certidão e a do meu pai. Meu velho morou no Brasil por 44 anos e faleceu no Brasil em 2014, infelizmente. Pai, que saudades! Quem consegue superar a falta de um pai? Eu não consegui até hoje, só vou me enganando para poder seguir adiante.

Para a minha surpresa, a certidão portuguesa chegou por correio em pouco mais de um mês. Com o “assentamento” também chegou uma carta simpática dando- me os parabéns. Foi assim que “nasci” portuguesa.

Quando o pedido é de filho de portugueses e não há nenhuma dúvida quanto à documentação, o processo é bem rápido. Mas, infelizmente, acontecem muitas fraudes.

Recentemente, uma dessas fraudes deixou- me estupefata: a invenção de parentesco entre brasileiros e portugueses falecidos no Brasil. Dois brasileiros criaram um esquema de fraude internacional, mas já foram presos: eles pegavam certidões de portugueses falecidos no Brasil, criavam certidões falsas atribuindo filiação, legalizavam tudo em cartórios no Brasil e entravam com o processo de cidadania. Os brasileiros pagavam 20 mil reais, uma fraude milionária. Veja este vídeo da Rede TV, que conta tudo. Agora punir a todos os que pagaram por isto, esses falsos descendentes. Fico pensando: já pensou se algum deles usou o nome do meu pai, por exemplo, para esta fraude?! Enfim, indignante! Quem usa este artifício para imigrar, boa coisa não é. Eu olho com desconfiança os novos portugueses dessas últimas “levas”. “Será filho ou filha mesmo?!”.

Que está acontecendo no Brasil? Por que tanta gente quer sair do país usando, inclusive, métodos criminosos? A pena para quem paga por esses documentos é de três anos de prisão. As notícias de fraudes são inúmeras nos últimos anos… e as que ainda estão por descobrir.

Detidos sete brasileiros em esquema de obtenção da nacionalidade portuguesa.

Há também muitas fraudes na obtenção da cidadania italiana, uma vergonha, um verdadeiro vexame! Isto contribui muito para uma imagem ruim, de desconfiança, do nosso povo no exterior, estão exportando a trambicagem, (vergonha…vergonha!):

Casos de brasileiros envolvidos em fraudes para obter cidadania se espalham pela Itália.

Entre 2002 e 2017, foram nacionalizados 170 mil brasileiros. Agora vai saber quantas dessas foram com documentos falsos…

E justamente por causa de tantas fraudes, cada vez vai ficando mais difícil conseguir a cidadania. Em 2018, deram entrada com pedidos de nacionalidade 1637 pessoas e só três conseguiram. E esses eram brasileiros. E um deles estava sendo investigado pela Lava a Jato, veja aqui.

Para ser aceito como nacional português, o neto ou neta precisa mostrar vínculo com o país ou com a comunidade portuguesa no Brasil. Há gente que nem sabe o nome da cidade natal dos avós ou não sabe absolutamente nada da cultura portuguesa…esses não irão conseguir. O vínculo tem que ser provado.

A imigração ilegal, a violência e as fraudes fizeram o Parlamento Europeu aprovar uma lei , que entrará em vigor em 2021: brasileiros precisarão de autorização, de uma espécie de visto para entrar na Europa. Justos pagarão pelos pecadores; mas, os justos sempre estão tranquilos, pois nada devem ou temem. Só ficarão nos aeroportos quem deve ficar mesmo.

Bom, voltarei mais vezes falando sobre a imigração portuguesa. Agora a espanhola:

A minha cidadania espanhola saiu no final do ano passado, em setembro. E em dezembro, fiz o juramento. O processo de cidadania foi muito lento, demorou cinco anos. A demora foi por causa do governo de direita em questão, o PP, anti- imigração, que não andou com os processos. A minha cidadania foi por tempo de residência. Eu poderia ter dado entrada há muitos anos, mas por já ser cidadã europeia, acomodei- me.

Em 2014, quando prestava serviços de tradução para a Espanha Fácil, que é uma empresa, entre outros, de legalização de brasileiros na Espanha, dei entrada na cidadania. A Espanha Fácil trouxe a minha certidão de nascimento do Brasil e antecedentes criminais. Minha família toda já morava do lado de cá, não tinha a quem pedir, então foi excelente pra mim. A dona da Espanha Fácil, Renata, é uma amiga querida e uma pessoa de confiança.

Assim que assumiu o governo socialista de Pedro Sánchez, todas as nacionalidades que estavam empacadas desde 2014 foram resolvidas rapidamente.

Quando fui apresentar os documentos, a funcionária estranhou: “nossa, seu expediente tem mais de quarenta folhas, normalmente são três!”. E me perguntou se eu era subsaariana (pelo jeito, complicam a coisa para esta etnia). Não. Depois ela entendeu: eu já tinha dupla nacionalidade e tiveram que investigar sobre mim em dois países.

Não tive que renunciar nenhuma nacionalidade, porque Brasil, Portugal e Espanha são compatíveis, têm acordos favoráveis. Mas tive que renunciar o meu terceiro sobrenome, o do marido, porque na Espanha você só pode ter dois e eu conservei os meus de nascimento.

O dia do juramento foi marcado para o dia 13 de novembro de 2019, no salão de casamentos do Registro Civil, na Calle del Pradillo, 66. Marido e filha me acompanharam às 9 da manhã. A sala estava lotada de novos espanhóis, que iam passando diante da juíza e da escrivã. Tivemos que ler o curto juramento que estava num papel: “prometo obediência ao rei, às leis e a constituição espanhola”. Assinamos um papel, e voilà! Nasceu uma espanhola aos 47 anos!

O próximo passo aconteceu no dia 16 de dezembro de 2019: fui à delegacia da polícia na Calle Virgem de la Roca, ao meio- dia, dessa vez sozinha, para fazer o DNI (documento nacional de identidade) e o passaporte.

E como posts longos ninguém têm paciência de ler, encerro por aqui dizendo que…se você sonha em imigrar, há muitas formas de fazer legalmente, há muitos tipos de vistos, além da cidadania. Se você não encaixa em nenhum, então este país não te quer; portanto, conforme- se e não entre pela porta dos fundos. O que começa mal…já sabe, não termina bem. Faça as coisas dentro da lei, para que o sonho não se transforme em pesadelo.

Precisa de mais informações? Leia em sites oficiais de Portugal e da Espanha:

SEF- Serviço de Estrangeiros e Fronteiras

Extranjería- Ministerio del interior

"Você vai voltar ao Brasil?"

Esta é uma das perguntas mais recorrentes: “você vai voltar ao Brasil?”.

Confesso: durante muitos anos não fui uma imigrante convicta. Todos os dias pensava em voltar, vivia mergulhada em uma incômoda melancolia, que fazia com que eu não acabasse de aterrissar na Espanha. Percebi que me boicotava inconscientemente. Fazia coisas que me impediam de criar raízes, atitude adotada desde coisas mais simples às mais profundas.

Quando comprava roupas, por exemplo, pensava: “esta serve para o Brasil, vou comprar!”. Evitava acumular coisas que não pudessem ser levadas; evitava decorar a casa com objetos e móveis de valor, já que “logo” teriam que ser deixados para trás; evitava entrar em cursos longos; não queria tentar trabalhos que me dessem estabilidade (concursos públicos, por exemplo), porque “vai que dá certo e eu nunca mais saio daqui”. A minha mente andou nublada e negativa por muito tempo.

“Esse dá pra usar no Brasil?”

Comecei a odiar a Espanha e os espanhóis. Tudo me incomodava. Eu não queria que desse certo, queria ter motivos para ir embora. Mas não foi só minha culpa. Muita coisa deu errado mesmo, o que reforçava o meu pensamento de que estava no lugar errado. As coisas não deslanchavam. A minha aura negativa atraía coisas negativas, é uma lei natural, e isso derivou em muito sofrimento e choros diários.

Eu pensava que meu coração tinha ficado no Brasil e nada mais importava. Dizem que “o nosso lar é onde o nosso coração está”. Isto não é correto, como a maioria destas frases de efeito.

Comecei a entender que não era o lugar, era eu. O meu coração está em mim, não nos lugares. Eu posso amar de onde estiver, o amor é infinito e não precisa de endereço. Se eu estava infeliz na Espanha, possivelmente estaria no Brasil também. A gente tem que saber encontrar a paz no meio da guerra, fictícia ou não. Se você está infeliz no Brasil e pensa em imigrar dessa forma, cuidado. Os problemas não desaparecem com uma mudança, eles irão contigo. Seja feliz onde estiver.

O meu desejo foi ficando cada vez mais enfraquecido, debilitado, por diversos acontecimentos alheios a mim. Tive que me conformar. E nisto, fui procurando acalmar o meu coração e encontrar alternativas. Mas isto fica para outro post.

No show de Milton Nascimento no verão passado no jardim botânico da Universidad Complutense de Madrid. Eu nunca tinha assistido Milton no Brasil. Foi emocionante!

E quanto à pergunta inicial: não, por enquanto não há planos para voltar. Talvez, quando estiver aposentada, passarei os meus dias numa ilha da Bahia. Quem sabe? Estamos todos só de passagem.

Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria

Como eu vim parar na Espanha

Eu nunca pretendi sair do Brasil, mesmo com um pai estrangeiro. Depois do acidente (1996), o medo de viajar, ainda que de carro ou ônibus, impediam- me de conhecer o meu próprio país. Viagem internacional era impensável!

No entanto, tudo mudou inesperadamente. Eu não acreditava em destino. Hoje, acredito que é impossível fugir do que nos foi destinado. Há algo muito importante que escapa das nossas possibilidades e que não temos controle. Podemos interferir momentaneamente com a força do nosso livre- arbítrio, mas é só isto. No final, eu viajei ( e viajo) muito! Viagens nacionais e internacionais.

Aos 29 anos, eu tinha um emprego público seguro, outros dois em cursos pré- vestibular, uma casa paga, carro, estava fazendo uma pós- graduação e tinha começado a procurar um apartamento na praia. Morava sozinha, era independente, tinha amigos e uma vida plena e divertida. Minha família morava perto, o que me provocava um conforto emocional, que eu não era capaz de renunciar. O que fez tudo mudar assim tão bruscamente?!

O amor…mas isto fica para outro post.

Bem- vindas, bem- vindos! O meu nome é Fernanda, nasci em São Paulo em 1972, de pai português e mãe baiana, casada com o Toni há 18 anos e mãe da Laura. Moro na Espanha há 17 anos.

No De Passagem, eu vou contar as minhas experiências de imigrante. As minhas e a dos que me antecederam, mas não só: quero tratar o tema da imigração com dados reais, de forma mais séria. Quantos brasileiros vêm e voltam? O que os impulsa a sair do país? Do que sobrevivem? Encontram o que procuravam? A natureza humana é nômade? E a questão da identidade? Como a imigração afeta psicologicamente as pessoas? Compensa ser imigrante?

Irei tentar responder a estas e outras questões.

Da esquerda, no alto: minha avó Nize (brasileira), meus pais Ana (brasileira) e Fernando (português), minha bisavó Durvalina (brasileira), meu avô Joaquim (português); abaixo, esquerda: vô Zeca (brasileiro), Toni (espanhol) e eu (hispano- luso- brasileira), meu bisavô Custódio (português) e minha vó Esmeraldina (portuguesa).

A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos. (Fernando Pessoa)

E você, está de passagem comprada para onde?

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Instagram: @depassagem72

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O Falando em literatura vai mudar!

Porque mudanças são necessárias…livros sim, mas também imigração, opinião, lifestyle, viagens, e o que nos ocorrer.

Feliz 2020!

Resenha: Becos da Memória, de Conceição Evaristo

A última resenha do ano! Aviso: este é um LIVRAÇO!

Pode haver poesia na favela? Claro! O olhar de Conceição Evaristo (Belo Horizonte, 29/11/1946) não me deixa mentir. Há muita beleza triste, dolorida e comovente na favela. A sua prosa afiada, que acerta na forma e conteúdo, conta a realidade sem apelar ao dramatismo barato. Escritora de prosa e verso, a doutora Conceição Evaristo é uma das melhores escritoras do Brasil, sem dúvida.

Há muitas coisas na vida, aliás, quase tudo, que a gente nao entende. Será que, mesmo antes de nascer, tudo já está escritinho, pronto para se viver?

Uso o termo “favela”, pois este é o empregado pela autora na obra, inclusive a própria saiu de uma, o que lhe outorga muito mais mérito do que outros que tiveram todas as condições favoráveis. Há quem prefira “comunidade”, já que a maioria não gosta de carregar, e com razão, o pejorativo, discriminatório e deturpado título de “favelado”. Essa é uma resenha difícil, pois temo cair em estereótipos e na superficialidade de um assunto tão delicado e complexo. Desde já desculpo- me, se isto acontecer.

A invisibilidade. Há poucas vozes negras femininas na literatura brasileira que publiquem, estejam em manuais de literatura brasileira, didáticos ou gramáticas (eu comprovei nos mais renomados). Falta destaque nacional e internacional. Não é que não existam, elas estão produzindo, só que há pouco interesse e consideração pelo cânon brasileiro branco, machista e racista. É o preconceito, claro que é. Mulheres não são levadas a sério. Negras, então… poucas conseguem passar pelo funil, são heroínas na verdade, Conceição é uma delas. Veja aqui a sua bio- bibliografia.

A autora será homenageada pelo Jabuti este ano:

Instagram da autora: @conceicaoevaristooficial

Conceição Evaristo (Belo Horizonte, 29/11/1946), criada numa favela, é dona de uma literatura fina. Prosa poética nesta obra, as histórias dos personagens começam e vão encerrando-se em si mesmas, como um labirinto impossível de encontrar a saída. Há muitos personagens, todos da favela, que vão desfilando em uma sucessão de dores constante. A favela é composta, principalmente, de descendentes de escravos. Sim, sua literatura é fina e completamente verossímil.

Sinto o presente e o futuro do Brasil como um murro no estômago: um logo “38” feito com balas de revólver pelo partido do presidente?! Eu sou uma mulher do mundo das palavras, mas para isto me falta uma adequada, tal a estupefação.

As vítimas reais dessas balas 38 moram neste livro de Conceição, gente trabalhadora, que vive com dificuldades de todos os tipos, lembradas só em época de eleição, um clássico. Nesta obra, os sujeitos apareceram prometendo que aplicariam a lei do usucapião, para logo desaparecerem e entrarem os tratores derrubando os barracos e expulsando a população mais que vulnerável.

As classes A e B são as promotoras da exclusão, do racismo, do preconceito, da falta de humanidade e do dinheiro. A origem da violência brasileira é a desigualdade social e isso não se combate com bala; se combate com escola, emprego/direitos/salários dignos, respeito, justiça e igualdade de oportunidades. Humanidade e decência também. Ética e princípios, idem. Quanto mais desigualdade, mais violência. É muito simples: quem promove a desigualdade vive com medo de andar na rua, vive com medo da “obra” que criou com muita persistência e afinco, geração pós geração.

Há gente na favela ressentida e com razão de sobra. Difícil viver pensando nos ancestrais escravizados, sofrer as consequências disso, passar necessidades básicas, fome, sem nunca haver sofrido uma reparação e a pouca ajuda social é vista como muita por gente privilegiada. Se você tem emprego, casa, todas as refeições, água encanada, roupa, sapato e escola, você é um privilegiado. O povo da favela excluído das leis da ONU, que o Brasil faz parte, mas não cumpre, diz que todo cidadão deve ter direito à uma moradia digna.

Há sujeitos como o “Bondade”, que compartilha o pouco que tem, ajuda os necessitados, mas ninguém sabe ao certo quem é ele e todo mundo respeita o seu segredo:

Bondade conhecia todas as misérias e grandezas da favela. Ele sabia que há pobres que são capazes de dividir, de dar o pouco que têm e que há pobres mais egoístas em suas misérias do que os ricos na fartura deles. Ele conhecia cada barraco, cada habitante. Com jeito, ele acabava entrando no coração de todos. E, quando se dava fé, já se tinha contado tudo ao Bondade. Era impressionante como, sem perguntar nada, ele acabava participando do segredo de todos. Era um homem pequeno, quase miúdo, não ocupava muito espaço. Daí, talvez, a sua capacidade de estar em todos os lugares. Bondade ganhou o apelido que merecia.

Bondade era contador de histórias boas e ruins. Contou uma de uma menina que sonhava em:

“armazenar chocolates e maças. Ter patins para dar passos largos… A mãe da menina sonha leite, pão, dinheiro. Sonha remédios para o filho doente, emprego para o marido revoltado e bêbado. Sonha um futuro menos pobre para a menina (…).

E você, com que sonha? A menina sonhadora foi vendida, por necessidade, pela própria mãe.

Tio Totó mantinha um sorriso no rosto, apesar de muitas dores, era movido pelo sonho:

Sonho que é uma vontade grande de o melhor acontecer. Sonho que é a gente não acreditar no que vê e inventar para os olhos o que a gente não vê. Eu já tive sonho que podia e não podia ter. Eu tive sonho que dava para minha vida inteira, para todo o meu viver.

No entanto, cansado, ele deixou de sonhar:

Mas, um dia, todos começaram a perceber que Tio Totó estava envelhecendo. Não pelos cabelos brancos, porque havia muito que ele já os tinha. Não porque andasse meio trôpego nem porque já trouxesse a voz meio rouca. Não eram essas as marcas da velhice de Tio Totó. Ele envelhecia porque estava perdendo as esperanças. Envelhecia porque nem vontade de recomeçar de novo tinha. Envelhecia ao fazer um balanço de toda a sua vida e só ver a morte como única saída.

A favela é também um espaço democrático e acolhedor, ao contrário do que muita gente pensa. Há muita diversidade na exclusão e muita solidariedade também. O passado das pessoas não importa, quem chega sempre recebe um prato de comida e um canto para dormir.

Na favela, a maioria tem ascendência escrava. As histórias ancestrais eram repassadas por gente como tio Tatão. Como a de Pedro da Zica, que foi assassinado por Zé Meleca por questões de terra, era capanga do Coronel Jovelino, negro como ele. A traição de um dos nossos sempre dói mais.

Maria- Nova sente que ainda mora na senzala. A senzala é a favela e o bairro nobre ao lado, a casa- grande. No ginásio, na turma de quarenta e cinco alunos, só ela e uma outra negra.

Negro Alírio lutou contra o desfavelamento, sem êxito. As construtoras davam tijolos e tábuas para que saíssem do beco. Quem não aceitasse ficaria sem nada mesmo. A construtora botava tudo e a todos em cima de um caminhão e os retirava de lá, como se fossem entulho.

Uma das que subiu no caminhão foi Custódia que havia parido seu bebê de quase sete meses há uns dias. Ela estava sangrando, pensava que iria desmaiar. O marido alcoólatra, Tonho, chegou bêbado, ela foi carregar, apanhou do homem e da sogra Dona Santina, uma que só andava com a Bíblia na mão, e acabou parindo antes da hora uma menina que nasceu morta. Ela e a sogra enterraram a filha, enquanto o marido roncava.

Agora a estavam expulsando da favela. Para onde ir? Para outra favela ou assumir a condição de mendigo e dormir na rua.

Esta obra mostra o Brasil que tentam esconder debaixo do tapete. “Um país tão rico” e tão cruel com os desfavorecidos, sendo que foi a própria história e estrutura do país que os gerou. Culpar as próprias vítimas do processo é coisa rotineira. Os que levantam a bandeira da meritocracia poderiam viver um tempo numa comunidade, com o mesmo dinheiro e condições que eles. A dor do outro só incomoda quando passa a ser a própria. Quem é mais violento?

Ditinha olhava as joias da patroa Laura e seus olhos reluzem. Ditinha faz a faxina na casa da loira alta e bonita. Ficava perto da mansão da dona Laura o barraco de Ditinha. Ela mora em dois cômodos, seis pessoas, incluído o pai paralítico. Esse é o Brasil, é sim. A ficção imita a vida. Uma terra com esse abismo social não pode ser feliz. Nenhum lugar próspero e civilizado tem esse apartheid tão gritante. E não há nenhuma vontade da classe A e B, onde concentra- se toda a riqueza do país, que isso acabe. Óbvio: para isto, eles teriam que ser menos ricos. Preferem continuar com seus carros e casas blindadas e continuar fabricando e explorando miseráveis. A culpa é de vocês! Culpa da falta de educação, princípios, humanidade e senso de justiça. Um país tão religioso e que não aprendeu nada. Religião é só para tentar ocultar os podres que são por dentro.

Teoricamente, esta é uma obra de ficção, mas poderia ser uma crônica da vida diária de boa parte da população brasileira, infelizmente. A morte de Maria Gazogênia, tuberculosa, me fez chorar. Seus últimos pensamentos sobre a morte e a vida, me apertaram o coração.

Um dia, quando a roda girar e houver uma limpeza geracional da naftalina e do ranço, escritoras como Conceição Evaristo serão aclamadas e votadas por unanimidade para uma cadeira na ABL, por exemplo. Haverá uma grande editora capitaneada por uma negra e uma grande rede de livrarias também. A supremacia branca vai perder a força. Eu tenho fé no tempo. Eu tenho fé que o melhor do Brasil possa ser para todos.

O Brasil vive uma estagnação da economia desigual e instável. A pouca recuperação que ocorre beneficia mais os mais ricos. Quanto mais rico, mais rápida a recuperação”, afirma o pesquisador Marcelo Medeiros, professor visitante na Universidade de Princeton, e que desde 2001 se dedica a pesquisar como o comportamento do 1% mais rico influencia a desigualdade de renda no país.

Quem consegue dormir tranquilo sabendo que há 13,9 milhões de pessoas no país em situação de pobreza extrema?! Há brasileiros que ganham 89 reais por mês, valor “apto” para participar do Bolsa Família. O índice do Banco Mundial que considera alguém extremamente pobre é de 145 reais, maior. E o atual governo vem enxugando as ajudas sociais, talvez seja um plano macabro de extinção dessa população e matá- los de fome. Eu sinto muita, muita vergonha. E sinto repúdio por quem pensa que o Bolsa Família é demais. Os valores vão de 89 a 372 reais. Uma “fortuna” para a classe privilegiada, um “absurdo”, “recebem essa ajuda e ninguém mais quer trabalhar”. Vocês gastam mais que isso num café da manhã! Quem sabe uma boa cura seria dormir uma semana numa favela. Já foi comprovado, e eu não tenho nenhuma dúvida, que a ajuda é provisória. Ninguém está nesta situação por gosto ou preguiça.

“Você tem 6 milhões de pessoas que passaram a viver em famílias onde ninguém ganha nada. E é mais ou menos o mesmo número de pessoas que entraram na pobreza, o que significa que não foram criadas novas redes de proteção social”, afirma o pesquisador Marcelo Neri, diretor da FGV Social e autor do estudo A Escalada da Desigualdade.

Não é difícil, é simples. Outros países já conseguiram. Basta ser gente, ser honesto, ser humano. Vista a pele do outro. Você aguentaria viver como eles?

Uma noite chuvosa na favela. Vários dias de chuva, tudo vai mofando. A roupa não seca. As roupas das patroas nao secam. Não há dinheiro. O que faz uma lavadeira sem sol? E quando são meses de água? E quando o desfavelamento corta as torneiras públicas? De brisa ninguém vive, barriga não se enche com vento.

Negro Alírio, o “das mil lutas”:

“Para ele, a leitura havia concorrido para a compreensão do mundo. Ele acreditava que, quando um sujeito sabia ler o que estava escrito e o que nao estava, dava um passo muito importante para a libertação.”

Eu creio nisto, sempre falo: a leitura, a literatura, a Educação, salvam.

Com a palavra, Conceição Evaristo:

E para as Marias-Novas, que moram nas favelas e adoram ler: nunca percam a fé. Nunca acreditem- se ser menos que os outros. Vocês são a esperança, o futuro, e ele há de ser melhor.

(…) A sua vida, menina, não pode ser só sua. Muitos vão se realizar por meio de você. Os gemidos sempre estarão presentes. É preciso ter os ouvidos, os olhos e o coração abertos.

O livro digital lido sem paginação, por isto não coloquei os números das páginas nas citações.

Maria- Nova olhou novamente a professora e a turma. Era uma História muito grande! Uma história viva que nascia das pessoas, do hoje, doa gora. Era diferente de ler aquele texto. Assentou- se , pela primeira vez, veio- lhe o pensamento: quem escreveria esta história um dia? Quem passaria para o papel o que estava escrito, cravado e gravado no seu corpo, na sua alma, na sua mente.

Esta obra dá visibilidade a brasileiros que são só frias estatísticas. Eles têm nome, sobrenome e história, embora ficção, ela conta a vida de muitos. A história acontece em um processo de desfavelamento. As pessoas vão morrendo em vida, vão morrendo mesmo, é uma história muito triste. Triste e necessária, atualíssima. “Becos da memória” foi escrita nos anos 80 e só publicada em 2006 (veja quanto tempo demorou para ser publicada!), mas continua sendo escrita num país tão rico de recursos e tão pobre de honestidade e decência- e eu não falo só de políticos. A distância me deixou muito mais evidente, que o povo brasileiro normalizou a indecência. Um favor aqui, outro ali, amigos nunca pegam fila em nenhum lugar… sonegamos um impostinho… vendemos mercadoria de baixa qualidade a preço de ouro, pagamos uma miséria para a “secretária do lar”, que faz tudo em casa e dos filhos, e achamos ainda que é um favor, e assim vai, as várias transgressões diárias e “normais”. Não, não estou orgulhosa e nem feliz com meu país… não enquanto 13,9 (um pouco mais que nessa reportagem) milhões estiverem vivendo em condições de extrema- pobreza.

Curioso que várias pessoas já me disseram que “eu não sei de nada”, em sua máxima ignorância e estupidez, porque moro longe. Ao contrário. Um grande quadro necessita distância para bem ser visto. Assim sou eu e a minha relação com o Brasil. Da distância, melhor vejo. No Brasil falta é espelho, auto-crítica honesta e sem preconceitos.

Feliz Natal, né? Jesus deve estar “bem” contente. Até quando, Brasil?! E nem têm vergonha…